We are Doctors
5 Nascido para a Medicina.
Notas iniciais
Cirurgiões são treinados para jamais se deixarem levar puramente pelos seus instintos A lógica e a aplicação da teoria deve ser o centro de qualquer ação feita por nós, mas isso não significa que todo mundo nasça com esse entendimento. Na verdade, a grande maioria de nós tem que aprender isso na porrada, geralmente durante o primeiro ano da residência cirúrgica. Então eu não fiquei surpresa ao ouvir gemidos vindos de um dos quartos de descanso para médicos de plantão justamente no momento em que eu me encaminhava para uma cirurgia.
O casal estava muito bem entretido quando eu abri a porta do quarto. A mulher tinha uma pele bem bronzeada e os cabelos castanhos repicados estavam presos numa trança, usava apenas um sutiã preto e a parte inferior do seu corpo estava coberta por um lençol que escondia a junção dos dois corpos enquanto ela cavalgava o homem loiro com afinco.
Internos sempre são um saco, mas nunca decepcionam...
Limpei a garganta com mais força que o comum para chamar a atenção do casal. Eles reagiram rápido, eu posso admitir isso. O loiro agarrou o corpo da mulher que estava em cima dele e a moveu para trás do próprio corpo rapidamente, ao que ela respondeu com um gritinho de surpresa e logo depois ergueu a cabeça para espiar que havia chegado.
— Muito bem! E eu me perguntando onde estava o meu interno para me auxiliar em uma cirurgia, vejo que ele estava ocupado descobrindo uma nova função para os quartos de descanso. – Eu disse de maneira irônica olhando para o loiro que colocava os óculos de armação retangular no rosto envergonhado.
— Dra. Cha...Chase. Eu... – O loiro gaguejou, mas eu levantei um dedo e o interrompi.
— Não quero saber de suas explicações. Imagine o quão decepcionada sua irmã irá ficar quando descobrir isso, Dr. Grace. – Comentei com seriedade, embora tivesse me esforçado muito para não rir. Ambos sabíamos que Thalia ficaria tudo, menos decepcionada se descobrisse que seu perfeito irmão mais novo estava transando com outra interna pelo hospital. – E por falar na Dra. Grace, tenho certeza que ela estava esperando pelos resultados dos exames do paciente dela que deveriam ser entregues por você, Dra. McLean.
A mulher, que vestira a calça enquanto escondida pelo corpo do loiro, saltou da cama alarmada e pegou a parte de cima do seu uniforme, colocando-o pela cabeça com pressa e saiu correndo pela porta quase tropeçando em mim no caminho.
— Estou decepcionado com você, Jason. És um cirurgião, não um coelho no cio. Você está fora da cirurgia, vá procurar novos quartos para se esconder com sua namoradinha enquanto encontra um pingo de responsabilidade em você. – Eu disse de maneira rígida enquanto o loiro se contentou em abaixar a cabeça.
Sai do quarto do quarto e imediatamente desfiz minha carranca de seriedade. Teria explodido de rir se não tivesse me deparado com a visão de Nico di Ângelo encostado na parede do outro lado do corredor enquanto me encarava com uma sobrancelha arqueada.
— Sermão de responsabilidade vindo de você, Annabeth? – Ele questionou irônico enquanto me alcançava na caminhada para o elevador.
— Esses internos precisam crescer, não são estudantes universitários, eles são médicos agora. – Eu disse tentando recuperar um pouco da minha seriedade enquanto uma enfermeira passou por nós.
Nico não disse nada até que as portas do elevador se fecharam e ficamos sozinhos no ambiente. Então eu sorri e ele balançou a cabeça negativamente enquanto tremia segurando a risada.
— Você é uma hipócrita escrota, Chase.
Sim, eu era.
Pra mim, uma das piores experiências quando se é um interno no Olympus é um plantão durante a madrugada no Pronto-Socorro. Trauma não é uma especialidade para qualquer cirurgião, você tem que ter o sangue frio e manter a cabeça limpa de pensamentos desnecessários ou você irá travar na logo quando um paciente que acabou de ter seu braço decepado em um acidente de carro fizer entrada na Emergência. Ou seja, eu havia nascido para aquilo.
É isso mesmo, vocês imaginaram que eu iria dizer que havia sofrido uma grande lição depois de perder um paciente porque me desconcentrei e deixei meus sentimentos nublarem minha mente durante um plantão? Se sim, vocês são ingênuos ou não conhecem minha história. A filha da Dra. Atena Chase travar em uma situação de pressão seria tão impossível como...como... Olha, sequer consigo pensar em algo tão absurdo para comparar. Eu nasci para ser uma cirurgiã. Quando meus colegas tinham seis anos, eles ganhavam bonecos de plástico, eu ganhei o meu primeiro kit de sutura. Eu até mesmo teria entrado na faculdade de medicina anos mais cedo que o normal, mas eu tive a minha fase rebelde durante a adolescência. Embora a fase da “Annie” de mechas rosa-choque e roupas góticas sejam um segredo de trancado a sete chaves atualmente.
— O que rolou aqui para você me bipar às três da manhã, Chase? – Questionou-me o Dr. Travis Stoll que era o sempre bem-humorado chefe de Ortopedia.
— Garota de 15 anos, caiu do telhado da casa e fraturou... – Comecei a explicar enquanto andávamos para a sala de trauma.
— Me acordaram às três horas da manhã por causa de dois ossos quebrados? – Ele resmungou indignado aquilo me fez rolar os olhos enquanto eu abria a porta da sala e ouvimos os altos gemidos de dor da garota. O Dr. Stoll arregalou os olhos ao vê-la.
— Está mais para 50, senhor.
Cirurgiões são assim, nós somos sempre dedicados a nossos pacientes. Por isso trabalhamos em grupo, mesmo que seja um esforço a mais para aqueles que não se adéquam muito bem a compartilhar esforços, não que eu tenha algo a reclamar dos meus colegas, mas mesmo assim...
— Dói muito! Me ajudem, por favor! – A garota asiática dizia enquanto Thalia passava o sensor sobre a barriga inchada para ver o ultrassom do útero da mesma.
— Pare aí mesmo, Dra. Grace. – A Dra. Silena Beauregard, chefe da Pediatria, ordenou enquanto analisava o monitor ao lado da cama.
— O que viu, Dra. Beauregard? – Nico perguntou aproximando-se de nossa supervisora enquanto eu mantinha minha atenção nos sinais vitais da paciente e do feto, atenta a qualquer mudança súbita já que o bebê sob perigo.
— Hemorragia no cérebro do bebê. Jackson, corra até a Dra. Di Ângelo e a informe da situação, irei precisar dela na Sala de Operação. Grace vá apressar a obstetra, pois esse bebê precisa sair com urgência. – Ela disse com a voz firme e os dois saíram a passos rápidos para cumprir as ordens. – Di Ângelo, aguarde a família da paciente e mantenha-os calmos, mandarei informações assim que possível.
Nico acenou e saiu da sala sem dizer uma palavra, se estava chateado com a tarefa, não demonstrou. Quando ficamos só eu, a Dra. Beauregard e a paciente na sala, eu deduzi o que estava por vir.
— Chase, me ajude com essa maca e vamos para a Sala de Operação 3, você irá me auxiliar. – Ela disse um pouco mais alto para sobrepor o volume dos gemidos de dor da paciente enquanto me analisava, talvez esperando que eu hesitasse.
Eu tirei o elástico do punho e prendi meus cabelos enquanto ia me preparar para empurrar a cama até o elevador sem hesitação. Todos os pacientes recebiam nossa dedicação, mas quando eles eram crianças, nós não somos somente dedicados, temos que ser responsáveis. Responsáveis pelo fato daquela criança viver ou morrer, responsáveis pelo futuro dela. Isso seria o suficiente para qualquer interno ficar assustado e perder a razão, mas eu não sou qualquer uma.
Eu sou Annabeth Chase, havia nascido para aquilo.
O relógio marcava seis e meia da manhã quando finalmente pude sair da SO 3 e me arrastar até o refeitório para comer algo que lembrasse um café da manhã. Após sair da fila com minha bandeja devidamente preenchida, fui até uma das mesas no canto do grande espaço que mais parecia uma ala de alimentação de um shopping. Ali, bem longe do centro e da grande fonte com água, Nico e Thalia já estavam comendo.
— Nossa, você demorou. A mãe estava tão mal assim? – Thalia questionou assim que eu me sentei na mesa.
— Ela nos deu um susto, mas nada que a Dra. Beauregard não tenha conseguido lidar. – Respondi enquanto mordia meu sanduiche de salmão. – E a bebê? Algum progresso?
O bebê havia sido retirado da sala logo após a cesariana e levado as pressas a UTI, eu estava tão concentrada na cirurgia da mãe que não havia sequer tido tempo de saber algo sobre o infante.
— Percy está monitorando-o na incubadora e a Dra. Beauregard foi dar uma olhada quando saímos de lá. Muito sangue sendo drenado pela cabeça. – Thalia disse com um pouco de melancolia na voz. – Horrível maneira de começar o dia.
— Um derrame antes de nascer. Horrível maneira de começar a vida. – Nico acrescentou frustrado.
Eu concordei com a cabeça enquanto continuava a comer. Já fazia dois meses desde que havíamos começado o programa. Nesse interim, os três internos haviam se tornados ótimos amigos para mim, principalmente Thalia que havia vindo morar na minha casa quando eu precisei de alguém para dividir as contas depois do primeiro mês. Nico e Percy eram companhias constantes também fora do hospital. Era rotineiro os dois aparecerem carregados de pizza e outras porcarias na minha casa durante nossas folgas.
Amizade é uma coisa engraçada. Antes eu nunca iria imaginar que iria gastar minhas escassas e preciosas horas de folga na companhia de três internos que eu havia conhecido a menos de três meses, mas agora eu me via ligando para Percy e Nico e os chamando para minha casa ou até mesmo me deixando ser arrastada por Thalia para o bar onde eventualmente encontrávamos os dois. Apesar disso eu não bebia com eles desde nossa primeira folga juntos, não podia arriscar me transformar na persona de adolescente rebelde que sempre surgia quando eu ingeria álcool. Agradecia aos céus por Percy não se lembrar daquela noite ou não iria mais conseguir olhar nos olhos verdes dele.
Pensar em Percy me distraiu a ponto de sequer perceber que eu já havia terminado de comer.
— Vou dar uma olhada no bebê antes das rondas. – Anunciei para meus amigos antes de me levantar e sair do refeitório.
Eu sempre fui uma ótima observadora. Conviver com aqueles três durante esses meses havia me feito determinar a personalidade deles muito facilmente. Thalia era explosiva, extremamente inteligente e responsável. Apesar da sua pose de durona ela era o tipo de médica que se apegava aos pacientes. Nico era quieto com os desconhecidos, preferia ouvir ao falar e tinha um comportamento quase tímido. Como médico, ele era extremamente prestativo, focado e cuidadoso, mesmo que geralmente só se desse bem com crianças, ele seria o melhor interno do programa se eu não fizesse parte da mesma turma. Percy... bem, Percy era completamente diferente dos dois.
Depois do incidente com a fonte de água, eu acreditava que Percy seria o primeiro interno a ser chutado do programa. Ele não era tão inteligente ou brilhante quanto eu, Nico e Thalia, tinha um perfil meio desastrado de um jeito fofo e constantemente parecia completamente perdido para acompanhar todas as informações em situações de estresse. Apesar disso tudo, ele cumpria todas as obrigações que nossa residente e os atendentes jogavam em cima dele. Ele era o mais querido entre os pacientes que sempre ficavam a vontade com sua presença e era sempre ele que unia as opiniões divergentes quando estávamos diagnosticando em grupo. Ele não era perfeito, mas em termos de talento para medicina, eu tinha certeza que ele havia nascido com o dom para ajudas as pessoas.
Por isso, quando no dia seguinte eu cheguei na UTI onde os bebês recém-nascidos ficavam, eu não me assustei quando o encontrei sentado em uma cadeira inclinada enquanto segurava o bebê prematuro contra seu peito. Sim, ele estava sem camisa.
— Percy? – Chamei suavemente em respeito ao local onde estávamos, mas ainda assim demonstrando minha surpresa.
Ele ergueu os olhos verdes que tanto me lembravam o mar e sorriu. Um sorriso tão contagiante que eu senti meus próprios lábios acompanhando.
— Canguru. – Ele disse baixinho ainda sorrindo.
— O quê? – Questionei confusa.
— A posição que estou segurando-o, é chamada de posição canguru. Foi ideia da Dra. Beauregard, ela disse que há casos que o canguru ajudou bebês a se desenvolverem. – Ele explicou em voz baixa. – Está funcionando, ele tem ficado cada vez mais estável desde que comecei.
Eu mordi a parte interna de minha bochecha para não sorrir muito, aquilo era tão...tão...tão Percy.
— Sem camisa? – Perguntei meio risonha.
— É mais eficaz quando há contato pele com pele, pelo menos foi o que a Dra. Beauregard disse. – Ele respondeu com as bochechas começando a ficar coradas.
— Você está segurando-o desde ontem à noite? – Perguntei um pouco incrédula enquanto me sentava em uma cadeira próxima.
— Sim, uma enfermeira se ofereceu para me substituir, mas eu estou bem aqui. – Ele baixou o olhar para o bebê e acrescentou: – A mãe dele não pode fazer isso, não posso deixá-lo sozinho.
Não conseguir mais conter o sorriso depois disso e tiver que me segurar para não ceder ao impulso de levar meus lábios aos dele.
Percy não era o mais brilhante, bem preparado ou inteligente, mas ainda sim conseguia ser a melhor pessoa que eu iria conhecer em toda minha vida.
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