We are Doctors

6 O tipo de cirurgião que eu quero ser.


Notas iniciais
Olá pessoal! Este capítulo enorme é dedicado a Mrs Padfoot que escreveu a primeira recomendação da fic e me fez sorrir igual um idiota quando li. Espero que gostem, boa leitura!

Existe um momento especial que é exclusivo para aqueles que estão na sua residência cirúrgica. Este momento nunca acontece do mesmo jeito para outras pessoas. Ele pode ser particular ou na frente de dezenas de pessoas, pode ser extremamente emotivo ou simplesmente um pensamento durante uma refeição. É a escolha mais importante na carreira daqueles que optam por trilhar o desafiador caminho da medicina.

Essa decisão apareceu para mim durante meu primeiro ano como interno.

— Dói muito! Me ajudem, por favor! – A garota asiática implorou enquanto tentava se manter imóvel para que Thalia continuasse a manejar o sensor sob seu útero inchado.

— Pare aí mesmo, Dra. Grace. – A Dra. Silena Beauregard, chefe da Pediatria, ordenou enquanto analisava o monitor ao lado da cama.

Eu, que antes me mantinha ao lado da paciente tentando acalmá-la, me aproximei do monitor observando atentamente a imagem do ultrassom.

— Hemorragia no cérebro do bebê. Jackson, corra até a Dra. Di Ângelo e a informe da situação, irei precisar dela na Sala de Operação. Grace vá apressar a obstetra, pois esse bebê precisa sair com urgência. – Ela disse com a voz firme e os dois saíram a passos rápidos para cumprir as ordens. Então virou-se para mim e eu previ o que viria. – Di Ângelo, aguarde a família da paciente e mantenha-os calmos, mandarei informações assim que possível.

Eu acenei para confirmar que havia entendido as instruções e me retirei da sala, só depois que já estava há alguns passos de distância que deixei meu rosto expressar minha irritação enquanto tirava as luvas cirúrgicas quase as rasgando de raiva e as jogava dentro do lixeiro apropriado.

“Dr. Di Ângelo, acalme a paciente. Dr. Di Ângelo, acalme a família. Dr. Di Ângelo, leve informações para a família. Dr. Di Ângelo, consulte a família e a paciente para fazer o histórico. Dr. Di Ângelo, a filha da paciente está atrapalhando, tire ela daqui e fique com ela até um parente aparecer. Dr. Di Ângelo...”

Era sempre assim desde o incidente com Kate Bryce no meu primeiro plantão. Claro que Percy, Thalia e Annabeth também recebiam tarefas parecidas, mas todos os atendentes pareciam ter criado um alvo em mim quando se tratava de cuidar de crianças ou seus parentes irritantes que mais gritavam do que ajudavam. Minhas horas participando de verdade de cirurgias estavam abaixo dos três internos que me acompanhavam e quando eu finalmente participava de ação junto ao paciente, como naquela sala há minutos, sempre ficava com as tarefas ridículas como “Dr. Di Ângelo, segure a mão da paciente, mantenha ela calma”. Parecia até que eu era um babá e não um cirurgião.

A Dra. Silena Beauregard, Chefe da Pediatria, parecia ter um gosto extremo por me colocar nessas tarefas. Eu suspeitava até que a parada era pessoal, já que ela era amiga da minha irmã Bianca, mas eu nunca consegui pensar em algo que fiz para ela me odiar a ponto de sabotar meu treinamento de propósito. Na verdade, talvez o fato de eu odiar a Pediatria me faça um alvo para ela.

Sim, eu odeio a Pediatria. Mas antes que vocês fechem a cara para o meu lado, entendam que eu não odeio a Pediatria porque odeio crianças, muito pelo contrário. Crianças são os melhores pacientes, eles não enchem o saco tanto quanto adultos, não nos ameaçam com processos ridículos, se recuperam melhor no pós-operatório, são mais fortes, acreditam no melhor, resistem mais nas cirurgias. Os pequenos seres humanos são os melhores pacientes porque a única coisa na cabeça deles é que eles querem viver, eu admiro muito isso. Meu problema com a Pediatria é mais pessoal, está relacionado com os motivos que me levaram a sair da mansão da família o mais rápido que pude e ir para a faculdade de medicina. Tem a ver com minha vontade extrema de não querer me tornar uma nova versão dele.

O Dr. Hades Di Ângelo era uma lenda viva e um pioneiro da Pediatria. Estando no mesmo patamar de outros cirurgiões geniais como Atena Chase, Zeus Grace e outros que estampavam revistas de medicina pelo mundo, meu pai já não deveria ter grandes tempos livres para gastar com a família. Mas além de ser um cirurgião famoso, ela era O cirurgião pediatra. Isso significava que enquanto eu estava assistindo de longe as festas do Dia dos Pais na escola, meu pai estava em uma cirurgia garantindo que outra criança pudesse aproveitar uma festinha como aquela no futuro. Significava que enquanto eu acordava assustado depois de um pesadelo, meu pai não estava lá para me acalmar porque ele tinha sido chamado com urgência no hospital porque os pais de outra criança só aceitariam o melhor. Então os pais sempre estavam a procura do homem que chegou a receber o apelido de Deus da Morte e do Submundo porque tinha as habilidades de ir até o inferno salvar a vida de uma criança.

Na verdade, eu não nutro mal sentimentos pelo meu pai por sua extrema ausência em minha infância porque sei que o que ele fez e continua a fazer é uma tarefa nobre. Mas eu quero construir uma família um dia e prometi a mim mesmo que jamais seria tão ausente da vida de um filho ou filha que eu viesse a ter no futuro como Hades foi para mim. Isso significava escolher Trauma ou Cirurgia Geral como especialidade.

Horas antes do almoço daquele dia, começamos a segunda metade do plantão de 48 horas. Isso significava novos designo de funções para os internos, algo que eu esperava muito depois de passar o último dia preenchendo fichas de pós-operatório e fazendo suturas. A Dra. Reyna iria realizar uma apendicectomia e levou Percy e Thalia para auxiliarem. Annabeth havia sido designada para o Pronto-Socorro e eu vi meu sorriso desmanchar quando ouvi nossa residente falar que eu havia sido requisitado e estaria no serviço da Dra. Beauregard. Isso significa que agora eu estava ali em uma sala de exame enquanto realizava um ultrassom numa garota loira de dezessete anos que estava grávida de um moleque que havia desaparecido depois da notícia, como a garota insistia em me contar pela vigésima vez.

— Ele disse que iria arrumar um emprego naquela tarde e simplesmente sumiu. – Ela lamentou desiludida. – Quando fui procurar ele dois dias depois, os pais dele disseram que ele havia viajado e não tinha previsão para retorno...

— “Ele deu no pé, querida. Até parece que um adolescente quer ser pai.” — Disse em meus pensamentos enquanto olhava para o monitor a medida em que movia o sensor em minha mão.

— Depois eles me disseram que eu não deveria incomodar novamente! Eu queria que Brian estivesse aqui, ele nunca deixaria os pais dele falarem dessa maneira comigo. Com certeza ele vai voltar pra me buscar e...

— Aqui está a cabeça. – Eu interrompi o monólogo dela chamando a atenção para o monitor.

— Parece um alien. – Ela respondeu intrigada, o que me fez sorrir um pouco. – É um garoto ou uma garota?

Eu movi lentamente o sensor para conseguir sanar essa dúvida.

— Pelo menos será um alien bem fofo e... – Eu me calei quando a imagem chegou nas pernas do bebê.

Eu devo ter passado mais tempo calado do que eu percebi, porque despertei meio espantado com o chamado da garota.

— Dr. Di Ângelo, está aí? Dr. Di Ângelo? Nico? O que houve? É um garoto ou uma garota? – Ela insistiu puxando a manga do meu jaleco.

— Eu não estou olhando para o sexo, Tracy. – Respondi rouco e senti minha voz falhando. – Eu sou novo e ainda não sou muito bom nisso. Vou te levar para outra sala com uma máquina melhor, ok?

A garota acenou concordando, embora a expressão no rosto tenha explicitado o fato de que ela havia ficado um pouco assustada. Enquanto eu retirava o sensor e ela abaixava a blusa, fiz um sinal para uma enfermeira que passava pela porta para esperar.

Mande um recado meu para a Dra. Beauregard, preciso que ela vá até a Sala de Exames 3 com pressa, por favor. — Sussurrei para a enfermeira quando passei empurrando a maca com a loira grávida.

Não demorou muita para que ela chegasse na Sala de Exames. Embora tenha levado tempo suficiente para que eu tivesse tempo de iniciar um ultrassom de melhor resolução na tela. Eu estava olhando as pernas do bebê adormecido no útero quando a Dra. Beauregard entrou na sala e se postou do meu lado observando o monitor.

— Vê aquilo ali na coxa esquerda? – Eu indiquei na imagem para a Chefe de Pediatria que mantinha uma expressão serena no rosto, embora eu pudesse ver que ela estava séria.

— Sim, e no outro tornozelo também. – A Dra. Beauregard apontou em voz baixa. – O pé direito está bastante inchado. Está bem constringido.

— Do que diabos vocês estão falando? – Tracy perguntou nervosa da maca.

A Dra. Beauregard apenas acenou com a cabeça para que eu explicasse.

— Tracy, o bebê tem faixas de tecido amniótico envolto nas pernas. Nós chamamos isso de constrição pela membrana amniótica. – Expliquei de maneira calma.

— Há risco de comprometer uma das pernas. – A Dra. Beauregard acrescentou a parte que eu não havia mencionado.

— E então? A perna dele vai cair ou algo assim? – A garota perguntou em tom amistoso, mas ao ver que nenhum de nós sorriu, brotaram lágrimas dos seus olhos. – Oh Deus... Meu filho vai nascer aleijado? Ele vai ser um perneta?!

— Nós não sabemos de certeza, não podemos saber o que é ao certo até fazermos mais exames, Tracy. Mas nós vamos cuidar disso quando examinarmos melhor. – Eu disse me aproximando da beirada da maca.

— Eu disse a Brian que nosso filho seria perfeito! Ele não vai voltar para nos buscar se nosso filho for um perneta! – Ela disse em pânico agarrando a minha mão e me olhando com os olhos azuis úmidos. – Nico, vocês podem consertar isso, não é?! Por favor!

Eu não tive outra resposta para a garota desesperada, então me limitei a alisar seus cabelos numa tentativa de acalmá-la enquanto buscava o olhar da Dra. Beauregard que analisava concentrada o monitor do ultrassom.

— Dr. Di Ângelo, vamos fazer uma ressonância fetal. Tracy, nós vamos consertar isso. – Ela afirmou para a garota enquanto eu arregalava os olhos prevendo o rumo daquele caso.

Esperei até deixarmos Tracy no quarto com uma enfermeira para poder questionar minha supervisora.

— Dra. Beauregard, as chances dela... Com todo respeito, a senhora tem certeza que pode... – Ela me interrompeu parando de caminhar de uma vez e começou a me encarar com uma sobrancelha arqueada, numa pose muito intimidante para contrastar com sua beleza.

Eu respirei fundo para me recompor. Sabia que era uma péssima ideia questionar a Chefe de Pediatria assim, mas o pedido pela ressonância fetal me fazia deduzir que ela seguiria por um caminho oposto ao que eu julgava como melhor (e mais seguro) para aquela garota. Então depois de pensar um pouco em silêncio, eu tentei falar de uma maneira que não a ofenderia.

— Dra. Beauregard, eu não sabia que você tinha especialização em cirurgia fetal. – Disse cuidadosamente.

A mulher repuxou os lábios em um sorriso meio misterioso. Ela me olhava como se eu fosse um filhotinho de cachorro querendo chamar atenção que ela havia achado fofo.

— E eu não tenho. Mas eu conheço alguém que tem.

O Dr. Hades Di Ângelo era um homem magro e alto, tinha olhos castanhos muito escuros e os sedosos cabelos negros estava sempre bem penteado para trás. Não mantinha nem um fiapo de barba para emoldurar seu rosto fino e pálido. Enquanto não estava em serviço ou no conforto do seu lar, trajava sempre um terno escuro fino e mantinha uma pose aristocrata enquanto andava, o que sinalizava muito sua ascendência italiana. Seus sorrisos eram raros e sua expressão era sempre de uma calma fria que acabava afastando as pessoas que não o conheciam, mas ele nunca deixou de ser educado ou gentil com qualquer um que chegasse a trocar uma palavra com ele. Ele tinha uma presença marcante e as pessoas viraram as cabeças para observar quando ele entrou pelas portas do Hall de Entrada do Olympus, onde a Dra. Silena Beauregard o esperava comigo em sua sombra.

— Dr. Di Ângelo, muito obrigado por ter vindo, sei como sua agenda é apertada. – A mulher adiantou-se para cumprimentar o recém-chegado.

— Ora, não há problema, Silena. Sabe que eu não negaria um pedido seu. – O homem respondeu fazendo um sinal de descaso com a mão. – E per favore, me chame de Hades. Uma ex-aluna minha tem no mínimo o direito de não me tratar tão formalmente.

A mulher acenou sorrindo e Hades virou o olhar para mim. Eu sabia o motivo para ele estar me analisando tão atentamente com o olhar: Era a primeira vez que nos víamos desde que eu saíra da faculdade de medicina, ou seja, era a primeira vez que ele me via como um cirurgião.

Stai bene, figlio mio.— Ele disse finalmente com um sorriso no canto dos lábios.

Papá... — Respondi, talvez um pouco rouco pela saudade, mas então me lembrei onde eu estava e limpei a garganta antes de estender os exames para ele e continuar. – Dr. Di Ângelo, aqui estão os resultados dos exames, irei na frente me certificar que a paciente está preparada enquanto a Dra. Beauregard vai com o senhor garantir seus privilégios médicos no hospital. Com licença.

Sai caminhando com um bolo na garganta. Quando Silena me contou o que pretendia fazer, eu me odiei por ter esquecido que meu pai tinha uma especialização em cirurgia fetal. Não era desse jeito que eu queria encontrá-lo outra vez, comigo em um beco sem saída e precisando da ajuda dele para salvar uma paciente. Mas agora já era tarde e ele estava ali, me restava engolir minha frustração e entrar no elevador mais próximo. Antes das portas se fecharem alguém as afastou com a mão e entrou no elevador junto comigo. Por um momento eu cogitei a possibilidade de Hades ter me seguido, mas ao erguer o olhar e me deparar com um par de olhos azuis elétricos eu percebi que não poderia estar mais enganado.

Thalia não se virou depois de entrar no elevador como as pessoas normalmente faziam, ao invés disso ela ficou de costas para as portas que se fecharam e ficou me avaliando com o olhar. Nos segundos que levaram para o elevador chegar ao terceiro andar, não desviamos o olhar e ficamos nos encarando quase sem piscar. É engraçado como é possível aprender e compreender tanto outras pessoas sem trocar uma única palavra, foi por esse fato que Thalia finalmente deu as costas para mim e apertou o botão de emergência, travando o elevador antes de chegarmos ao andar. Ela permaneceu olhando para as portas e eu, observando suas costas, consegui sentir aquele ato silencioso e singelo. Então virei-me para o lado oposto e comecei a desferir socos contra a parede de metal do elevador.

Eu estava com raiva. Com raiva de Silena Beauregard e sua obsessão por me arrastar para casos de Pediatria. Com raiva de Hades por me fazer odiar essa especialização. Com raiva de Thalia por me entender com um simples olhar e estar ali por mim. Com raiva de mim mesmo por ser tão patético e não ser bom o suficiente para atender os desejos daquela garota iludida que esperava um bebê.

Não fui tão dramático a ponto de gritar ou machucar minha mão. Mas cada golpe que eu desferi contra aquela superfície metálica serviu para extravasar tudo que eu estava segurando dentro de mim havia meses. Quando os golpes finalmente cessaram, eu me virei e fiquei mais uma vez olhando as costas de Thalia, me sentindo tão mais leve que parecia que meus sentidos estavam mais aguçados ao ponto de meu olhar se fixar na ponta de uma das mechas do cabelo solto de Thalia que eu tinha certeza que era azul. Da mesma cor que seus olhos...

Thalia apertou novamente o botão de emergência para destravar o elevador, mas não se virou para me olhar outra vez. O único som que soou ali foi o anúncio da chegada no andar e quando as portas se abriram, Thalia fez como quem iria sair caminhando, mas eu a segurei pelo pulso.

O que eu deveria dizer? “Obrigado” não parecia ser o suficiente. Ela era minha amiga tanto quanto Percy e Annabeth. Havíamos aproveitados nossas folgas como um grupo várias vezes e, apesar de sua mania de fazer brincadeiras para me provocar, eu gostava de sua companhia sabia que era recíproco. Então teoricamente estávamos num nível de amizade que eu não deveria ter vergonha de agradecer, mas as palavras simplesmente não saíram da minha boca.

Ela virou-se para me encarar e me fez perceber que qualquer palavra minha era desnecessária. Por algum motivo eu consegui, pela primeira vez, ver algum significado naqueles olhos azuis.

Você não está sozinho, idiota”.

— Conforme as pernas crescem, as faixas cortarão a circulação. Se esperarmos, pode haver grande dano à perna esquerda e possivelmente a perda da perna direita. – Meu pai explicava para Tracy enquanto apontava para uma foto em alta resolução das pernas do bebê. – Mas se operarmos, 22 semanas ainda é arriscado.

A mãe de Tracy ouvia tudo atentamente ao lado da filha, mas a garota loira virou seu olhar confuso para mim.

— Se você não operar, o bebê não irá morrer. – Silena acrescentou. – Podemos reabilitar boa parte da perna quando seu filho nascer e podemos colocar uma prótese.

— Meu Deus! Nico... – A garota clamou nervosa e eu coloquei a mão em seu ombro.

— Tracy, você tem opções. Se o Dr. Di Ângelo operar ele pode remover as faixas e seu filho vai ficar bem. Ou você pode optar por esperar mais algumas semanas quando seu filho será maior e mais forte, então vamos saber que a cirurgia será menos arriscada. – Eu expliquei com a voz suave para não deixar a garota mais nervosa.

Aquilo pareceu funcionar, pois ela me olhou piscando os olhos verdes e depois mudou seu olhar para meu pai, depois voltou para mim antes de falar:

— Ele é mesmo seu pai? Vocês são tão diferentes, ele é assustador.

Eu arregalei meus olhos surpreso enquanto Silena pôs a mão sob os lábios para segurar uma risadinha. Hades, por outro lado, não se reprimiu e riu abertamente da fala da garota na sua frente.

— Acredite, você não é a primeira a dizer isso, bambina. Devo agradecer que Nico herdou os traços de sua bella mamma. – Hades comentou bem-humorado. – Mas voltando para o assunto, você vai querer operar?

Tracy olhou para a mãe que apenas acenou concordando, então confirmou com a cabeça. Mas antes dos cirurgiões se retirarem, a voz da garota soou novamente na sala.

— O Dr. Di Ângelo...Quer dizer, Nico. O Dr. Nico Di Ângelo vai estar lá comigo, não é? – Ela perguntou olhando esperançosa para mim.

Eu quis responder que sim, mas sabia que não era uma decisão minha. Era um procedimento simples para um cirurgião fetal com as habilidades do meu pai. Mas justamente por ser ele a realizar eu sabia que haveria dezenas de residentes que matariam para conseguir a vaga de auxiliar de Hades Di Ângelo por uma cirurgia. Até mesmo a Dra. Beauregard poderia assumir aquele papel, pois era seu direito como Chefe de Pediatria do Olympus e a cirurgiã responsável pelo caso.

Meu pai disse nada enquanto Silena me avaliava com o olhar, aquele mesmo olhar que ela mantinha no rosto enquanto eu ficava com as tarefas que eu odiava, que ela sabia que eu odiava.

— O Dr. Di Ângelo esteve contigo desde a sua admissão aqui, Tracy. Nada mais justo que permitir que ele acompanhe até o afim. – A mulher respondeu sorrindo e olhou para meu pai.

Não sei o que estava se passando na cabeça dele naquele momento. Ele poderia estar pensando sobre a possibilidade de realizar uma cirurgia ao lado de seu filho ou mesmo cogitando se um interno era capaz de atuar com ele. Mas o que ele pensava ao certo, eu nunca saberei por que se limitou a manear com a cabeça e sair ao anunciar:

— Irei reservar uma S.O.

Depois de supervisionar as últimas checagens em Tracy antes da cirurgia, eu estava caminhando pelos corredores calmamente em direção a S.O para me preparar quando a irritante agarrou meu braço e se pôs a caminhar do meu lado.

— Que inveja, eu sou a mais velha e atendente nesse hospital, mas é você quem será o primeiro de nós a participar de uma cirurgia com o papá. – Bianca resmungou, embora houvesse um tom cômico em sua voz.

— Não enche, Bianca, eu não pedi por isso. E como diabos você já descobriu sobre isso? Atendentes de Neuro não ficam em cirurgia por dias seguidos para não ter vida social? – Retruquei e ela reagiu me dando um tapa no braço, como eu esperava.

— Não me subestime, sou sua stalker número um, fratello. – Ela disse sarcástica, o que me fez sorrir.

Ela me mostrou o celular que tirou do bolso do jaleco.

Papá me enviou uma mensagem avisando que estaria aqui para um procedimento, mas eu não imaginava que seria o caso que você estava. – Bianca comentou enquanto entravamos no elevador e apertei o botão do andar da S.O 3. – Por um momento estranhei a possibilidade de você ter ligado para o papá pedindo ajuda. Mas quando Silena me disse que foi ela, tudo fez sentido.

Eu fiz uma careta com a menção da Chefe de Pediatria e minha irmã percebeu. Geralmente eu nunca permitiria demonstrar insatisfação com uma superiora minha no hospital, mas naquele elevador eu estava seguro.

— Enfim, fico feliz que tenha finalmente aceitado cogitar e treinar na Pediatria. Eu tentei impedir, mas Silena estava convicta que você tinha talento para a área.

— Então era disso que se tratava toda a marcação dos últimos meses? – Bufei girando os olhos.

— Você não deveria julgar Silena com tanto rigor, Nico. – Bianca reprovou.

— Por quê? Ela está nesse circo desde que comecei a trabalhar aqui, mesmo depois que eu demonstrei não estar interessado em Pediatria como especialidade. – Disse irritado enquanto me escorava na parede de metal.

— Você é inteligente, fratello, já deveria ter percebido os motivos de Silena. – Minha irmã disse quando as portas se abriram e saímos do elevador.

— E quais seriam? – Perguntei quando paramos em frente a sala de higienização da S.O 3.

Bianca sorriu e afastou uma mecha longa demais da frente do meu cabelo para poder avaliar meu rosto.

— Silena não será Chefe da Pediatria do Olympus para sempre. Ela tem outros planos pessoais, mas antes de fazer qualquer coisa, ela precisa encontrar um substituto digno e suas ações me dizem que ela acredita ter encontrado essa pessoa em você. – Ela estava rindo da minha surpresa quando beijou minha bochecha e saindo andando. – Boa sorte, fratello, te assistirei lá de cima e vou tirar uma foto sua com o papá quando entrarem para enviar para a mamma. Ela vai ficar com tanta inveja de não estar aqui...

Sua voz sumiu enquanto ela virava o corredor para as escadas que davam acesso a ala elevada da S.O 3. Enquanto isso eu estava ali paralisado diante daquela porta com suas palavras martelando minha cabeça.

Então era disso que se tratava todas aquelas horas lidando com pacientes e família? Um teste de aptidão para ser um substituto digno para a chefia do Departamento de Pediatria do Olympus Royal Hospital?! Aquilo era insanidade, principalmente de Bianca por jogar aquela bomba em um interno antes de uma cirurgia. Minha irmã era maluca ou me odiava muito.

Eu me virei e passei a encarar aquela porta que dava acesso para a área de higienização da S.O. Seu atravessasse aquilo e completasse a cirurgia com êxito, iria ser um peão para o plano da Dra. Beauregard e aceitar seguir carreira na especialidade que eu jurei não me relacionar. Ou eu poderia simplesmente dar as costas para aquilo e sair para perseguir um caminho em Trauma ou Cirurgia Geral, como eu planejara até ali.

Respirei fundo e entrei na sala, sabendo que uma escolha havia sido posta diante de mim.

— Achei que você tinha desistido, Nicolas. – Meu pai estava em uma das pias enquanto esfregava os braços com uma esponja, se limpando para a cirurgia.

Sem seu terno e vestido em scrubs azuis escuras de um cirurgião da Olympus, Hades parecia ser mais magro que de costume. Os cabelos já estavam devidamente cobertos pela touca da mesma cor e a máscara cirúrgica pendia em seu pescoço.

— Eu não iria fugir. – Disse em tom neutro quando fiquei ao seu lado e tratei de imitar o processo de limpeza.

— Não, não fugiria, mas não porque você é um exemplo de coragem. – Ele disse se virando para me encarar. – Você não fugiu porque está apegado demais a paciente e se sente com um dever para com ela.

Eu não ousei sustentar o seu olhar. No fundo eu sabia que ele estava certo, meus sentimentos em relação a Pediatria não haviam mudado só porque eu havia descoberto os motivos de Silena. Mas eu não podia deixar Tracy sozinha ali, não depois de ter prometido que estaria com ela na cirurgia.

— Eu deveria ter te ensinado melhor, Nicolas. A Pediatria não é para cirurgiões fracos, mas você sabe disso, talvez até mais do que eu. – Hades comentou em voz baixa, mas eu sentia seu olhar fixo em mim.

— Eu não sou do tipo de cirurgião que se apega a todos os pacientes que trato, papá. – Respondi sincero.

Hades deu um sorriso triste.

— Não, mas você ainda assim se preocupa além do normal com ela, assim como com todos os outros pacientes que você tratou junto a Dra. Beauregard, pelo o que ela me disse. Na Pediatria nós temos que lutar por nossos pacientes, temos que advogar por eles, temos que defender e atacar por eles, porque crianças não tem mentalidade para toda essa carga emocional como adultos tem, então tudo se torna responsabilidade do cirurgião. – Meu pai explicou e pôs a mão em meu ombro. – Nicolas, essa sua característica te faz um prodígio na Pediatria. Mas eu entendo suas razões para não querer seguir meus passos.

Eu me virei para encarar meu pai e percebi que estávamos da mesma altura. Notei que essa era a nossa conversa mais longa em... anos? Talvez eu fosse muito fácil de ler, porque meu pai suspirou depois de sustentar meu olhar e colocou a máscara branca, amarrando-a na parte de trás da cabeça e virou-se para a porta de acesso a S.O.

— Se você não quiser vir, eu assumirei a culpa de ser o motivo de impedir o surgimento de um gênio na Pediatria. Mas se você quiser vir, saiba que não tem volta, você jamais vai querer parar de lutar pela vida de todas as crianças que vierem até você. – Ele disse com a voz abafada antes de sair pela porta pressurizada. – É a sua escolha, figlio mio.

Ele atravessou e a porta fechou-se automaticamente atrás dele. Pelo vidro eu pude ver ele erguendo os braços para que uma enfermeira colocasse as luvas cirúrgicas em suas mãos. Eu encarei as minhas próprias. Todo cirurgião encarava aquela escolha em algum momento de sua vida. Era a escolha sobre que tipo de cirurgião eu queria ser.

Pensei em Kate Bryce, meu primeiro caso no Olympus e suas conversas infindáveis cobre concursos de miss teen. Pensei naquele bebê que Percy se negou a parar de confortar até que a mãe se recuperasse o suficiente para segurá-lo ela mesma. Pensei em Tracy, aquela garota que esperava um namorado idiota que jamais voltaria e só queria ter um bebê perfeito. Pensei nas lembranças que eu tinha de assistir crianças brincando no Central Park acompanhadas pelos pais e saber que algumas delas só tinham aquela oportunidade graças ao trabalho e esforço do meu pai.

Respirei fundo e atravessei a porta pressurizada enquanto amarrava a máscara no meu rosto. Olhei pelo canto de olho para a galeria lotada ao extremo e reconheci quatro pares de olhos me observando atentamente. Cinzas, verdes, azuis e castanhos...

Eu não estava sozinho.

Notas finais
Gostaram? Depois do capítulo introdutório de Annabeth, estava na hora de um capítulo para vocês verem a visão de Nico do mundo e como ele encara a medicina. Eu acabei me empolgando e o capítulo ficou enorme, mas como é muito importante para vocês entenderem o tipo de pessoa que ele é, achei por bem não dividir. Espero que tenham gostado, até o próximo capítulo!