We are Doctors

7 Complexo de irmã mais velha.


Notas iniciais
Olá pessoas queridas! Demorei um pouquinho para postar porque estava no fim do bimestre na faculdade, então não tinha tempo nem pra respirar, mas agora estou finalmente de volta. Boa leitura!

Pergunte a um cirurgião por que ele escolheu esta carreira e geralmente eles responderão a mesma coisa: Foi pela sensação, pela agitação, pela adrenalina de abrir alguém e salvar sua vida. Porém, comigo foi diferente. Talvez por eu ter crescido em um ambiente onde eu era obrigada a cuidar do meu irmão mais novo... Não, com certeza foi por eu ter crescido em um ambiente onde eu era obrigada a cuidar do meu irmão mais novo.

Não que eu não amasse aquele garotinho loiro que ele foi até o dia que eu saí de casa para a faculdade de medicina, mas quando você é a filha mais velha de uma família tão disfuncional quanto a que Zeus e Beryl Grace formaram, não existe mais ninguém para evitar que o caçula da casa tente comer um grampeador. O ambiente naquela mansão era sufocante demais e todos buscavam uma maneira de fugir daquela realidade. O Dr. Zeus Grace encontrava refúgio nas papeladas da administração da sua rede de hospitais. Jason Grace buscava refúgio em suas intermináveis brincadeiras pela casa. Beryl Grace tentava encontrar esse refúgio no fundo de uma garrafa de whisky. E eu... Bem, eu nunca busquei um refúgio até decidir me tornar uma cirurgiã quando me formei na faculdade. Afinal de contas, enquanto meu irmão ainda era jovem, alguém tinha que encarar aquela realidade e tentar juntar os pedaços daquela família todos os dias, nem que só para manter as aparências para a criança da casa.

Foi a tranquilidade que me levou para a cirurgia. A Sala de Operações era calma e silenciosa, assim como deve ser para nos mantermos atentos e prontos para reagir a qualquer problema. Quando ficamos na SO com um paciente aberto na mesa, todos os ruídos e toda a preocupação externa desaparecem.

Pena que fora dela as coisas não eram tão simples assim.

— Thaliaaa...

— Eu estou dormindo. – Minha voz saiu abafada graças ao travesseiro que eu apertava contra o rosto.

— O fato de você estar me respondendo diz o contrário. – Eu não conseguia vê-la, mas sabia que Annabeth estava encostada na porta do meu quarto com um sorriso irônico naquele rosto estúpido.

— Nem pensar, eu estou dormindo. – Frisei mais uma vez sem me mover.

— Por favor, Thalia. – Ela pediu com a voz manhosa, algo que ninguém jamais associaria com a Dra. Annabeth Chase.

Eu deveria me sentir privilegiada por presenciar esses detalhes por morar com ela? Não, definitivamente não.

— Eu fiz o café da manhã ontem, hoje é sua vez. – Reclamei, finalmente me sentando na minha confortável cama para encarar minha colega de quarto. Isso se provou um erro.

— Por favor. – Ela pediu mais uma vez com os olhos cinzas brilhando pidões.

Inferno!

— Não moramos juntas nem há um ano e você já consegue me manipular. – Resmunguei quando me levantei e rumei em direção ao meu banheiro para escovar meus dentes.

— Não estou te manipulando. É só que você cozinha melhor do que eu. – Ela argumentou enquanto eu cuspia a espuma na pia.

— Isso seria um argumento válido se você soubesse cozinhar. – Eu disse mal-humorada, embora tenha deixado ela enlaçar meu braço enquanto saíamos do meu quarto.

Eu não estava exagerando quando eu disse que ela não sabe cozinhar. Annabeth já era considerada um prodígio entre os jovens cirurgiões, mas não era capaz de fritar um ovo sem transformar o coitado em um pedaço de carvão. Eu descobri isso quando acordei com o cheiro de fumaça depois do primeiro dia que me mudei pra cá. Desde então era eu quem preparava todas as refeições feitas naquela casa, com exceção das vezes que Nico (que cozinhava muitíssimo bem) estava por aqui.

Então por que eu disse que era a vez dela de cozinhar hoje? Entendam, as ocasiões em que era a vez de Annabeth “cozinhar” na verdade queriam dizer que ela iria pedir comida de qualquer delivery que ela escolhesse da sua imensa lista. Sim, ela tinha uma lista maior que a Constituição dos Estados Unidos com contatos de deliveries espalhados pela cidade.

— Você não estava atrás de alguém para dividir essa casa por questões financeiras. Só queria alguém que cozinhasse. – Eu acusei indignada quando chegamos na ampla cozinha da casa.

— Não negarei nem confirmarei essa afirmação. – Ela retrucou sorrindo enquanto se sentava diante da mesa e apoiava o rosto nas mãos. – Mas confesso que estou adorando morar com você.

— Tentar ser carinhosa não vai mudar minha opinião sobre você, Chase. – Eu disse fazendo-a rir.

Era interessante como ela era toda séria e concentrada quando estávamos no hospital, mas conseguia ser irritantemente comunicativa quando estávamos em casa.

— Você deveria me deixar morrer de fome então. – Ela sugeriu quando eu servi o seu amado chá e eu beberiquei meu café forte.

Que dramática...

— Eu teria que encontrar outro lugar para morar, isso seria um problema. Já me acostumei com essa casa. – Brinquei, agora me sentindo mais acordada graças ao meu café.

O som da torradeira me fez levantar para pegar um prato para as torradas, mas não antes de tomar outro gole do café. Depois de sete meses como interna no programa de residência cirúrgica do Olympus, o café havia se tornado meu melhor amigo, assim como de 90% dos outros internos. Eu não sabia como Annabeth conseguia aguentar um plantão de 48 horas sem ingerir um gole de cafeína.

— Mudando de assunto, você tem planos para amanhã? – Annabeth perguntou.

Depois de meses trabalhando com folgas mínimas para dormir, finalmente havíamos recebido uma folga de 72 horas que acabou coincidindo com o Valentine’s Day que seria no terceiro dia de folga. Muitos conhecidos do hospital que também iria folgar no dia passaram a semana toda comentando sobre seus planos para a data. Embora eu estivesse solteira há um tempo considerável agora e já estivesse sentindo falta de um bom orgasmo para aliviar o estresse da rotina puxada, eu não estava muito interessada.

— Se você se refere a minha pessoa ficando agarrada com meu travesseiro enquanto durmo o dia inteiro, então sim. – Respondi irônica.

— Mas... Eu achei que você tinha recebido vários convites para sair. – Ela disse confusa.

— Não foram tantos assim, mas recusei todos. – Eu disse de maneira simples. – Eles eram todos idiotas, não vou sair com um idiota, muito menos levá-lo para minha cama.

— E Harry da Oncologia? Ele parece ser simpático. – Ela sugeriu.

— Um conquistador barato, as enfermeiras dizem que ele pegou sífilis. – Retruquei dando de ombros.

— Connor? Ele é bonito e tem senso de humor.

— Nem se ele trouxesse o irmão junto iria conseguir me satisfazer.

— Will? Ele tem um porte físico ótimo, é lindo e tem uma personalidade legal.

— Ele curte a mesma fruta que nós, Annabeth.

— Octavian?

Eu fiz uma careta de nojo com essa última insinuação.

— Eu já disse que não vou sair com um idiota.

— Então escolha logo um que não seja porque eu estou cansada de ouvir os gemidos das noites que você compartilha com seus dedos. – Ela disse com um falso tom de tédio na voz.

Eu fiquei dividida entre socar aquele rostinho debochado ou jogar meu café quente nela, mas quando vi o sorrisinho que ela escondia com a xícara de chá eu me lembrei que os quartos daquela casa tinham um isolamento acústico excelente. Ela só estava me provocando.

— Depois diz que não aprendeu nada comigo desde que vim morar aqui. – Resmunguei ao perceber que aquilo era um espelho de como eu agia algumas vezes.

Annabeth gargalhou e me soprou um beijinho, saindo da cozinha com seu prato para a sala de estar como fazia todos os dias em que estava em casa. Quando ouvi o som da televisão sendo ligada logo me apressei e tratei de imitar a ação.

Eu não sou o tipo de pessoa que só consegue tomar meu café da manhã assistindo o noticiário matinal, duvido que Annabeth também seja, mas quando se fica preso no pequeno mundinho das cirurgias e plantões intermináveis, você meio que começa a se desconectar tanto do mundo “lá fora” que assistir esses noticiários quando temos a chance acabou se tornando essencial.

Acha que estou exagerando? Então deixe-me dar um exemplo simples do quão desligados ficamos graças aos plantões. Quando estávamos em dezembro do ano passado, só descobrimos que era véspera de natal quando um Papai Noel baleado deu entrada na nossa Emergência (longa história, não pergunte).

Teria sido uma realização até assustadora se Percy não tivesse deixado a situação cômica quando entrou em pânico por não ter ido para a casa da mãe do Dia de Ação de Graças (que havia ocorrido em novembro). Isso resultou em Nico e Percy fazendo uma viagem de quase quatro horas de carro até Boston para fazer uma surpresa para a Sra. Jackson que, segundo o relato de Nico, é uma pessoa maravilhosa e faz excelentes cookies azuis (outra longa história).

Agora já estávamos em fevereiro e eu me sentia tão perdida quanto nos meses anteriores. Na verdade, eu só descobri que o Valentine’s Day seria amanhã porque o assunto explodiu no hospital. Sinceramente, eu pouco me interesso pela data e menos ainda pelos clichês românticos que costumam vir no pacote do feriado. Como eu disse antes, uma boa noite de sexo até que seria bem-vinda, mas todas as opções que se apresentaram não eram dignas do meu tempo... bem, quase todas.

Pensar nisso me lembrou que não era justo eu ser a única a ser alvo daquele tema.

— E você? Nada de encontros para a Dra. Chase no Valentine’s Day? — Questionei retomando a conversa.

— Não. Eu não acredito em Valentine’s Day. – Ela respondeu neutra com o olhar fixo na televisão.

Eu já havia percebido que Annabeth achava que conseguia manter uma perfeita poker face e não demonstrar nada do que sentia.

— Mesmo? Eu jurava que você estava esperando um convite do Jackson. – Comentei como quem não queria nada e acabei sorrindo quando ela mordeu sutilmente os lábios com a menção do nosso colega de olhos verdes.

Ela só achava que conseguia mesmo.

— Não sei do que você está falando. – Ela mantinha os olhos fixos na televisão, embora seu tom de voz estivesse vacilando.

— Já eu acho que você sabe sim. Lembro de comentários sobre ele, um bebê, olhos brilhando e... – Fui interrompida quando ela arremessou uma almofada na minha cara.

— Ele é um idiota! – Ela explodiu olhando pra mim inconformada.

— Isso todo mundo já sabe. – Concordei irônica.

— Por que ele ainda não me chamou pra sair? Como ele foi capaz de não ter me chamado pra sair? – Annabeth revoltada era uma visão engraçada. Um pouco aterrorizante, mas ainda assim engraçada.

— Se você está assim só pela falta de um convite, me lembre de nunca estar por perto se você levar um fora de alguém um dia. – Brinquei, mas me arrependi logo em seguida quando seus olhos faiscaram.

— Ele não me deu um fora! Por que ele me daria um fora? Eu sou tão...tão... – Incapaz de encontrar um adjetivo, seus olhos ameaçaram marejar.

— Amável, inteligente, linda, ótima cirurgiã e pessoa maravilhosa? – Sugeri antes que ela começasse a chorar, isso sim seria assustador.

— Obrigada!

Ok, talvez era melhor não provocar ou ela iria pirar de vez.

— Aposto como ele vai sair com aquela Bianca. Percy disse uma vez que ela janta com ele e Nico às vezes. – Ela comentou apertando os olhos desconfiada.

— Não é nada demais, ela é a irmã mais velha de Nico, é natural ela ir jantar na casa do irmão uma vez ou outra. – Argumentei.

— Então por que Percy iria jantar nessa ocasião de irmãos? – Ela acusou cruzando os braços.

— Seria talvez porque ele mora no mesmo lugar? – Questionei descrente com a cena que ela estava fazendo.

Annabeth piscou os olhos cinzas com uma expressão de realização incrédula no rosto fino. Parecia até uma criança emburrada que ficara sem argumentos.

— Então não tem motivo algum para ele não ter me convidado para sair. – Ela disse baixinho depois de um tempo em silêncio.

— Então você admite que quer um encontro com ele no Valentine’s Day? – Perguntei de maneira lenta.

— É claro que sim! – Ela respondeu imediatamente para então arregalar os olhos quando se deu conta do que tinha confessado.

Foi só quando eu comecei a gargalhar que ela me olhou com ódio e se levantou com violência do sofá.

— Eu te odeio, Grace. – Ela rosnou e saiu a passos pesados em direção a escada. Provavelmente para se trancar no quarto pelo resto do dia.

— Amor e ódio são similares em você. Por isso é tão fácil zoar sua paixão pelo Dr. Jackson. – Provoquei quando ela começou a subir.

— Eu te odeio! – Ela gritou lá de cima e bateu a porta do quarto.

Tão fácil. Em questão de minutos tinha ganho um dia livre de ouvir as lamúrias disfarçadas de Annabeth e seus suspiros pelo crush.

Foi somente horas mais tarde, durante a madrugada, que eu tive um déjà-vu ao despertar na minha confortável cama com um pedido desesperado com o tom lamentoso da loira bipolar que eu tinha como melhor amiga.

Thaliaaa... Eu tenho um encontro e preciso encontrar uma roupa, me ajuda.

Eu acho que o Universo até gostava de me fazer cumprir o papel a irmã mais velha.

Notas finais
Espero que tenham gostado do capítulo, finalmente com a narração de Thalia e um pouco de sua interação com Annabeth. Sobre essa última, não achei que eu precisaria explicar o motivo do comportamento dela, se vocês pensarem um pouquinho vão sacar na hora o porquê dela estar daquele jeito. Até o próximo capítulo!