We are Doctors

2 O novo 007.


Notas iniciais
Olá, pessoas! Cá estou eu com o segundo capítulo dessa história, está na hora de vocês descobrirem como foi o primeiro plantão do nosso amado grupo de internos. Esse capítulo era pra ser postado antes, mas acabei reescrevendo algumas vezes até ficar satisfeito com sua contribuição para a progressão da história, por isso ele saiu maior que o anterior. Espero que gostem!

Dizem que nós, os médicos cirurgiões, aprendemos mais e mais a medida em que vamos salvando vida após vida...tolices! Nosso verdadeiro aprendizado surge quando nós perdemos uma vida na mesa de cirurgia. Essas foram as palavras de um dos melhores professores que tive durante a faculdade. São palavras duras, vocês podem até considerar cruéis, mas são a mais pura verdade e eu confirmei aquilo no meu primeiro plantão como interno.

Depois de Annabeth, Thalia, Nico e eu trocamos nossas roupas sujas, consequência do fiasco do meu primeiro café da manhã no hospital, por conjuntos limpos, finalmente começamos as quarenta e oito horas de nosso plantão com a Dra. Ramirez-Arellano. Essa que pareceu ser a única pessoa que não achou graça do acontecido e como resultado, me designou como responsável pelos enxames renais do dia, fato que serviu para animar Thalia que ainda estava puta comigo por ter dado um banho de chá nela, mas isso não vem ao caso.

Depois de passar a manhã inteira sendo obrigado a inserir meu dedo em lugares que vocês não merecem sequer imaginar, o intervalo para o almoço chegou e eu pude reencontrar meus colegas no refeitório. Depois de pegar meu almoço, fui até a mesa onde eles estavam sentados, Thalia e Annabeth sorriam enquanto falavam e gesticulavam sobre algo que aparentemente não agradava Nico, já que esse estava de cara amarrada.

— E aí, como foi a manhã de vocês? – Perguntei ao me sentar à mesa.

— Foi ótima, Nico ganhou uma crush. – Thalia disse rindo enquanto Nico fechava ainda mais a expressão.

— Ela não é minha crush! –Ele retrucou irritado.

Vendo meu olhar de confusão, Annabeth tratou de esclarecer.

— Lysa Bryce, uma garota de dezesseis anos que participa de concursos de beleza, deu entrada no hospital depois de sofrer uma série de convulsões. A Dra. Ramirez-Arellano é a residente do caso e escolheu Nico para ficar responsável por observar a garota. – A loira explicou.

— A garota é um porre, ainda bem que a Dra. Ramirez-Arellano me tirou do caso. Estou como assistente do Chefe de Cardiotorácica, foi muita sorte. – Thalia comentou alegre.

— Como você conseguiu ser chutada pra fora do seu primeiro caso? – Provoquei ironicamente.

— Meus talentos foram necessários em outro lugar com um atendente, idiota. Nem todos são como você que só servem parar exames renais. – A morena retrucou com um sorriso de escárnio.

Aquilo pareceu divertir Nico.

— Não fala merda, você foi chutada por ter gargalhado quando a garota disse que iria ganhar o concurso de Miss Teen America. – Ele acusou a outra.

— Ou isso também. – Thalia deu de ombros enquanto pegava mais uma porção da salada em seu prato.

— Enfim, a garota tem uma personalidade difícil, mas Nico soube lidar bem com ela e foi o único que conseguiu reunir as informações para montar o prontuário dela. – Annabeth acrescentou. – Me disseram que ela se recusava a colaborar com qualquer outro médico.

— Uau, cara! Então você é bom. – Elogiei meu colega que sorriu minimamente até Thalia acrescentar:

— Ou talvez ela seja uma idiota apaixonada.

— Vai pro inferno, sua... – O que quer que fosse o que Nico iria falar foi interrompido por uma pessoa que parou ao lado de nossa mesa.

Era um homem alto e musculoso, tinha o cabelo cortado muito curto e a pele negra. Trajava vestes azuis escuras com o jaleco por cima e tinha uma postura bastante intimidante. Seus olhos castanhos eram frios e sérios enquanto nos olhava. Eu sabia quem ele era, o Dr. Charles Beckendorf, Chefe de Cardiotorácica do Divine Olympus Hospital.

— Internos! Já está publicado no quadro de avisos, mas preferi vir dar a notícia pessoalmente. – Apesar da postura intimidante e voz rouca e forte, ele tinha um tom divertido na fala. – Como sabem, é tradição escolhermos o melhor interno do primeiro plantão para que ele seja o primeiro a auxiliar em um procedimento cirúrgico.

Eu ajeitei a postura e Annabeth se adiantou um pouco na cadeira. Thalia sorriu abertamente ao ouvir as palavras, afinal havia auxiliado aquele homem durante a manhã inteira e seria lógico que ela fosse escolhida.

— Como atendente de plantão, coube a minha pessoa escolher o interno. – Ele disse cruzando os braços e esperando um pouco antes de continuar. – Dr. Nico di Ângelo, parabéns, você irá me auxiliar em uma apendicectomia, nos vemos na SO 3 em duas horas.

O sorriso de Thalia morreu aos poucos enquanto o Dr. Beckendorf saiu andando. Annabeth sussurro um parabéns enquanto eu dei um soquinho no braço de Nico como felicitação.

— Di Ângelo?! Como diabos ele escolheu o Di Ângelo como melhor interno?! – Thalia sibilou inconformada.

— Ora, talvez porque eu não tenha os seus talentos, Grace. – O moreno retrucou com um sorriso no rosto.

— Tanto faz, você vai estragar tudo mesmo. – Thalia bufou cruzando os braços.

Eu fiquei esperando a resposta de Nico, mas ela não veio. De repente sua expressão endureceu e ele pareceu ficar mais pálido que o normal, seu olhar estava fixo em um ponto mais a frente onde o Dr. Beckendorf conversava com duas mulheres que se vestiam como cirurgiões atendentes. Uma delas, uma mulher esbelta de longos cabelos negros lisos e brilhantes virou seu olhar para onde estávamos rindo de algo que o homem havia dito. Apesar de ser uma atendente, ela não parecia ser mais velha do que eu. Seus olhos eram bondosos e seu riso se transformou em um sorriso gentil ao focar no nosso grupo.

Nico ergueu-se na cadeira abruptamente e caminhou a passos largos em direção a saída do refeitório. Olhei para Annabeth e vi que ela também havia estranhado aquela atitude, porém não disse nada.

— Viram? Ele já está assustado antes mesmo de começar. – Thalia bufou e voltou para seu almoço.

Algumas horas depois estávamos todos na área de observação da SO 3, olhando através da parede de vidro toda a equipe responsável e o paciente prontos para começarem a operação. A galeria estava lotada de vários internos sentados confortavelmente enquanto comentavam sobre a primeira participação de um interno da classe deles em um procedimento cirúrgico.

Eu sentava entre Thalia e Annabeth no canto da galeria. Quando Nico entrou na SO no andar de baixo, os internos ficaram bem mais barulhentos.

— Olha só como ele está nervoso! 50 dólares que ele vai errar! – Anunciou um deles, causando risadas em muitos outros.

— 100 dólares que ele vai vomitar! Com bônus caso respingue e acabe infectando o paciente. – Disse uma mulher ruiva.

— Eu aposto 150 que ele desmaia antes da cirurgia terminar. – Thalia disse entrando na zombaria.

Eu já estava irritado e Annabeth estava com a mesma expressão zangada que tinha no rosto quando a vi pela primeira vez horas antes, na divisão dos internos.

— 300 dólares que ele vai até o fim da cirurgia. – Annabeth disse com a voz alta se levantando da poltrona. – Ele é um de nós, o primeiro de nós, vocês deveriam estar apoiando ele e não fazendo piadas.

Ela estava irritada de verdade, assim como eu, mas mesmo assim fiquei surpreso em ela ter realmente ter dado aquele sermão nos outros. Não que tenha adiantado, porque logo depois a ruiva voltou a se manifestar.

— Tem razão, aposto 200 que o Dr. Beckendorf vai socar ele antes da cirurgia acabar. – Anunciou fazendo a gritaria zombeteira retornar.

Annabeth sentou-se e bufou irritada. Thalia a observou curiosa antes de voltar a atenção para a SO.

A cirurgia iniciou sem complicações, o Dr. Beckendorf estava ao seu lado orientando e fazendo perguntas enquanto Nico realizava parte do procedimento. Na galeria, os internos se calaram e foram assistindo em silêncio, eu estava tão concentrado no procedimento que a única coisa que eu ouvia era Annabeth ao meu lado murmurando.

— Abra, identifique, corte, remova, feche. Abra, identifique, corte, remova, feche. – A loira repetia as etapas básicas do procedimento como um mantra para Nico.

Depois de algum tempo, Nico ia bem, já estava na fase final da apendicectomia.

— O maldito vai conseguir, ele está quase lá. – Thalia comentou e, por algum motivo, ela me pareceu ter um quê de orgulho em sua voz. – Tudo que ele precisa fazer agora é torcer o toro para dentro do cecum.

— Sim, mas ele precisa ter cuidado, senão... – Annabeth foi interrompida por uma agitação na mesa cirúrgica.

Naquele momento em que todos prestavam atenção no que tinha acontecido, eu ouvi um pequeno suspiro triste que me fez desviar a atenção pra entrada da galeria. A mesma atendente que estava no refeitório mais cedo estava ali, em pé e com um olhar preocupado para a cena que se desenrolava. Vendo de perto, seu rosto parecia estranhamente familiar, os olhos negros brilhavam preocupados e ela tinha pequenas sardas na face.

— Ele rasgou o cecum, caso não pare o sangramento agora, o paciente vai morrer. – A voz de Thalia quebrou o silêncio e me fez voltar a prestar atenção na mesa de cirurgia.

Nico estava com as mãos levantadas na altura do próprio queixo, completamente imóvel enquanto encarava o paciente aberto em sua frente. O Dr. Beckendorf que antes se mantinha a certa distância apenas dando orientações, agora estava praticamente grudado no interno, com o rosto próximo ao ouvido de Nico enquanto provavelmente o pressionava a tomar alguma atitude para contornar o erro cometido.

Percy sabia que aquilo era um procedimento de praxe dos atendentes com seus internos e residentes durante procedimentos cirúrgicos, mas não conseguia ver em como aquilo ajudaria Nico a resolver o problema.

— Por que ele não começa a sucção? Vai ser tarde demais. – Annabeth disse com preocupação nítida na voz.

— Já é tarde demais, Chase. – Thalia disse zangada, mas ela parecia mais decepcionada do que irritada.

Lá embaixo, o Dr. Beckendorf puxou Nico pelo ombro de forma brusca e acenou para a saída, expulsando-o da sala, foi só assim que Nico fez seu primeiro movimento depois de cometer seu primeiro erro como cirurgião: o de sair derrotado da Sala de Operação.

— Então é ele. Eu esperava de um inglês o título de agente especial, mas parece que o italiano gosta de ser James Bond. – Um interno loiro chamado Octavian comentou em deboche.

— Não entendi. – Eu disse confuso, olhando de Thalia para Annabeth esperando uma explicação.

— Ora, o Di Ângelo é o 007. – Octavian disse com um sorriso de escárnio.

— 007? – Questionei ainda confuso.

Diante minha confusão, Annabeth mordeu levemente o lábio e abriu a boca para responder, mas a voz que preencheu o ambiente não foi a dela e sim outra voz feminina carregada com um sotaque estrangeiro da atendente que estava parada na porta calada até então.

— Significa “licença para matar”. – Ela disse assustando todos que não haviam notado sua presença. Seu olhar estava frio e fixado no loiro Octavian, o que me causou arrepios.

Ela não disse mais nada antes de se virar e sair da galeria.

— 007. Todos estão me chamando de 007 agora, não é? – Nico perguntou enquanto caminhava comigo e Annabeth durante a madrugada, quase doze horas após a apendicectomia.

— Ninguém está te chamando de 007, Nico. – Repeti pela quinta vez naquela ultima hora.

Estava morto de sono e queria estar dormindo em uma cama qualquer daquele hospital, mas meu plantão tinha acabado de passar da primeira metade de sua duração há pouco tempo e tínhamos pacientes para checar durante a noite.

— Aquele Octavian sussurrou um 007 quando estávamos juntos no elevador. – Nico acusou indignado.

— Octavian é um idiota, Nico, você não deveria dar ouvidos ao que ele diz. – Annabeth falou enquanto olhava a ficha de um paciente. – Além disso, todo esse papo de 007 é só inveja por não ter sido escolhido para participar do primeiro procedimento.

— Eu deveria ter ido para a Geriatria, ficar cuidando de velhos não me daria tanto trabalho como... – Nico começou a suspirar, mas foi interrompido pelo seu pager começou a fazer barulho intensamente. Ele pegou para observar e arregalou os olhos. – Droga, é um 911! Emergência para Lysa Bryce.

Nico saiu em disparada da Enfermaria para o elevador mais próximo, eu e Annabeth ficamos observando até que a porta fechou. Nunca era uma boa coisa quando chamavam um 911 para um paciente sob sua responsabilidade e, além disso, Nico havia dito que Lysa Bryce era só uma garota de dezesseis anos.

— Pelo jeito, o 007 vai riscar mais um nome da sua lista de alvos. – Uma voz irritante soou do outro lado da Enfermaria.

O loiro irritante Octavian estava parado com um sorriso de deboche olhando para nós, segurava um prontuário de maneira displicente enquanto uma enfermeira aguardava ao seu lado, com um olhar meio incrédulo com a postura do interno na sua frente.

— E quanto a você, não acredito que você me bipou por causa dessa velha. – O loiro disse virando-se para a enfermeira e entregando o prontuário quase que o jogando. – Entupa ela de antibióticos e dê tempo para que eles ajam, pessoas velhas demoram mais e ela tem sorte de ainda estar respirando com essa idade.

— Você tem certeza, Dr. Augustus? – A enfermeira perguntou perturbada, o que fez o interno loiro assumir uma carranca escárnio.

— Por que você não passa quatro anos no curso de medicina em Stanford como eu e vem me dizer se tenho certeza? – Ele disse irritado enquanto deixava a enfermeira para trás e ia para o elevador. Antes da porta do mesmo se fechar, ele ainda acrescentou em voz alta. – Não sei em que tipo de mundo estamos vivendo onde enfermeiras acreditam saber mais que médicos.

Eu teria corrido até aquele elevador para socar aquele idiota se Annabeth não tivesse me segurado pelo pulso. Pela imagem nos seus frios olhos cinzentos, eu tinha certeza que ela mesma se sentia tão irritada quanto eu.

— Ignore-o, Percy. Vamos seguir nosso caminho. – Ela disse me puxando para o corredor que dava para uma área de descanso.

Eu não reclamei, talvez porque o seu toque em meu pulso tenha me acalmado um pouco, ou talvez porque eu realmente estava com fome depois de passar quinze horas sem comer nada. Quando chegamos até as máquinas de venda, encontramos Thalia sentada em uma das macas encostadas na parede. Ela estava com a cabeça inclinada para trás e apoiada na parede, os olhos fechados e a expressão frustrada em seu rosto indicava que algo havia acontecido.

— Thalia, o que houve? – Perguntei sentando-me ao seu lado enquanto Annabeth ia até uma das máquinas.

— Me erra, Percy, eu não estou no clima para conversa. – Ela disse sem sequer me olhar, mas foi sua voz que me surpreendeu. Não estava com um tom divertido ou debochado como sempre.

— Quando temos um plantão difícil, conversar sobre com amigos sempre vai ajudar. – Annabeth disse enquanto sentava do outro lado e oferecia uma barrinha de chocolate para a outra.

Thalia abriu os olhos e ajeitou a postura, olhando para a loira de maneira intrigada.

— Foi a sua mãe quem te ensinou isso? – Questionou interessada enquanto aceitava o pacote oferecido.

— Atena? A Dra. Atena Chase estaria rindo de você e orgulhosa por não estar na mesma situação. – Annabeth disse rolando os olhos cinzentos. – Se eu não tivesse aprendido sozinha, jamais teria escolhido me tornar uma cirurgiã.

— Você é esperta, Chase. – Thalia disse depois de dar um sorrisinho com a frase da loira.

— O que houve? – Insisti na pergunta.

Thalia olhou pra mim por alguns segundos em silêncio. Era engraçado que mesmo com sua personalidade sendo diferente da minha, eu sentia como se fosse fácil me dar bem com ela.

— O Dr. Beckendorf realizou uma operação para aplicar um bypass no paciente que eu estava monitorando o dia inteiro. Era um procedimento simples e o paciente estava bem nos exames. Mas quando ele estava na mesa de cirurgia, o Dr. Beckendorf viu que seu coração estava muito danificado para suportar até o fim do procedimento e teve que deixá-lo ir. – Ao decorrer da fala dela, seus olhos azuis brilhavam dando a impressão que ela estava a ponto de chorar, mas ela se limitou a morder o chocolate e se apoiar na parede novamente.

— Mas isso não é tão raro de acontecer em procedimentos assim, Thalia, não foi culpa sua. – Eu disse tentando servir como consolo.

— Você não entende, Percy. – Ela respondeu com os olhos fechados. – Eu estava tão confiante com os resultados dos exames e a habilidade do Dr. Beckendorf que acabei prometendo a família do paciente que ele iria sobreviver. Agora a pouco eu tive que dizer para uma mãe de duas garotinhas de cinco anos que ela se tornou viúva, mesmo depois de prometer que seu marido iria sair vivo.

Eu fiquei mudo com a declaração dela. Aquele era um dos maiores tabus dos cirurgiões. Não importa o quão confiante você seja ou quão fácil o procedimento aparente ser, nunca prometa a família do paciente que ele irá ter sucesso. Nenhuma batalha está ganha antes de acontecer, quando esquecemos isso é que o universo se vinga de nossa arrogância das piores maneiras possíveis.

Meu pager bipou com um chamado na Enfermaria, olhei preocupado para Thalia e depois para Annabeth, esta ultima apenas acenou como um sinal para que eu deixasse ela resolver a situação. Acabei por me despedir das duas e fui para a Enfermaria, onde encontrei Nico me aguardando com um olhar determinado.

— Preciso de sua ajuda na biblioteca, Percy. Acho que sei como resolver o problema de Lysa Bryce. – Ele afirmou convicto.

Eu apenas sorri e fiz um gesto com a mão para que ele indicasse o caminho.

Na quadragésima sétima hora de nosso primeiro e turbulento plantão, eu, Nico, Thalia e Annabeth já havíamos nos trocado para irmos para casa. Embora extremamente exausto, eu estava satisfeito comigo mesmo e com meus colegas.

Nico e eu acabamos por descobrir a causa da série de convulsões que a jovem Lysa Bryce sofria, acontece que eram causadas por um aneurisma que ela sofreu ao cair durante a prática de ginástica rítmica, o que ela considerava seu talento natural e usava como atrativo nas competições de Miss Teen. Nico acabou por deduzir isso depois de ouvir a garota falar sem parar sobre sua “maravilhosa” vida de adolescente prestes a se tornar famosa. A chance de alguém sofrer um aneurisma por uma pequena queda em um ensaio era de um em um milhão, esse número fica ainda pior se for considerar a chance do médico responsável descobrir um relato inicialmente insignificante como esse, mas Nico estava no lugar certo e na hora certa, nas palavras da neurocirurgiã responsável pelo caso.

Resolver esse caso foi um belo boost no moral do meu colega, agora ele sequer se deixava afetar pelas piadinhas de 007, embora o melhor evento daquele fim de plantão tenha acontecido quando nós quatro estávamos passando pela Enfermaria em direção a saída do hospital.

Havia muitos internos e residentes que chegavam para iniciar seus respectivos plantões, mas o que chamava a atenção era a cena que se desenrolava no centro da Enfermaria, onde Octavian estava paralisado enquanto recebia o olhar duro do Dr. Brunner, o Chefe de Cirurgia do hospital. Eu e meus colegas logos paramos para ver o que estava acontecendo.

— E então, Dr. Augustus, ela ainda está com falta de ar. – O Dr. Brunner dizia severamente para o interno. – Você fez um ABG ou um exame no peito?

— Sim, senhor, claro que fiz. – O loiro respondeu com a voz meio esganiçada.

— E o que você viu? – O mais velho questionou, fazendo o interno ficar mais pálido do que já estava.

— B...Bem, senhor, eu tive muitos pacientes ontem a noite e... – Octavian gaguejou enquanto tentava responder sobre o olhar crítico do Chefe.

— Nomeie as causas comuns de uma febre pós-operatória. – O Chefe de Cirurgia exigiu, mas ao ver o loiro pescando um bloco de anotações, ele elevou a voz. – Da sua cabeça, não de um maldito livro! Você é formado em Stanford, deveria ter aprendido e ter isso em sua cabeça.

— Então... as causas comuns de uma febre pós operatória são...er... – O interno loiro movia os lábios, mas a sua voz foi sumindo gradativamente, aquilo pareceu irritar o Chefe que se virou para todos que assistiam aquela cena.

— Alguém aqui sabe dizer as causas comuns de febre pós-operatória? – Perguntou em bom som para que todos ouvissem.

Muitos internos tatearam os bolsos dos jalecos buscando seus blocos de anotações, mas antes que qualquer um respondesse, Nico deu um passo à frente.

— Vento, Água, Ferimento, Caminhar, Drogas. Na maioria das vezes é o Vento, imobilização ou pneumonia. – Ele respondeu confiante, depois de dar uma olhada para um Octavian vermelho, ainda acrescentou. – Pneumonia é a primeira coisa que vai vir a cabeça, principalmente se o médico em questão estiver de cabeça cheia muito ocupado com outras tarefas e sem tempo para fazer testes.

O Dr. Brunner sorriu levemente com a resposta e virou-se para Octavian que parecia encolher ainda mais.

— E o que você acha que está errado com a paciente do Dr. Augustus, Dr. Di Ângelo? – Brunner perguntou.

— Acredito ser o quarto motivo: Caminhar. Creio que ela é uma ótima candidata para embolia pulmonar. – Nico afirmou passando a mão nos olhos, como se tivesse espantando o sono.

— Como você iria diagnosticar a paciente?

— Tomografia espiral, scanner V/Q, prover O2, dosar com heparina e consultar para caterismo intravascular. – Nico falou pausadamente, como se tivesse certeza de cada palavra dita.

O Dr. Brunner acenou e sorriu confirmando a resposta.

— Faça exatamente o que ele disse, Dr. Augustus, e depois vá até seu residente e diga a ele que eu te quero fora desse caso. – O Chefe disse sem olhar para o loiro e saiu caminhando em nossa direção.

Ao chegar até Nico, parou de caminhar e falou em voz baixa, de modo que apenas eu, Thalia e Annabeth que estávamos próximos conseguimos ouvir.

— Seria impossível não te reconhecer, és tão talentoso quanto sua irmã, Dr. Di Ângelo. – O Dr. Brunner disse antes de retomar sua caminhada.

Quando Nico se virou para nós, seu rosto estava com uma expressão serena, havia um pequeno sorriso em seus lábios, o mesmo sorriso que ele tinha quando nos conhecemos dois dias antes no vestiário. Ele caminhou até nós e passou os braços ao redor de mim e Annabeth.

— Bem, isso foi o suficiente para apagar meu cansaço. – Ele disse alegre virando o olhar para mim enquanto andávamos. – Acho que é uma boa hora para dar uma olhada naquele apartamento.

Notas finais
E aí, gostaram? Eu confesso que foi bem interessante escrever sobre o primeiro plantão deles como internos. Aproveito para dizer que essas situações médicas são inspiradas em Grey's Anatomy, já que não possuo qualquer tipo de formação na área para escrever plausivelmente sobre. Eu planejava fazer o segundo capítulo com o primeiro periodo de folga desses quatro, mas acabei usando esse capítulo para apresentar um pouco mais de detalhes sobre suas personalidades e introduzir mais alguns personagens, inclusive uma que é muito importante para um de nossos protagonistas (quero ver se alguém vai acertar quem é). O próximo capítulo promete será o primeiro passado fora do ambiente hospitalar e promete ser bastante divertido, então aguardem ansiosamente, ok?! Bem, é isso que eu tenho a dizer aqui, como sempre eu estarei esperando seus comentários para conversarmos sobre o andamento da história, adoro responder vocês. Até o próximo!