We are Doctors
1 Como eu me tornei o Dr.Cabeça de Algas.
Notas iniciais
Espero que gostem, boa leitura!
As pessoas costumam dizer que médicos são pessoas arrogantes que gostam de pensar que são deuses, como um membro do grupo alvo dessa crítica, eu posso garantir que essa afirmação é totalmente verídica, embora seja tremendamente irônica quando paro para analisar o meu cotidiano junto a meus colegas de “farda". Tudo começa no primeiro dia de residência no mais prestigiado hospital-escola de New York, o Divine Olympus Hospital.
Antes de tudo vocês podem estar se perguntando como eu, Percy Jackson, acabei conseguindo entrar em um dos melhores programas de residência dos Estados Unidos, ou até mesmo em uma faculdade de medicina. Afinal, não é isso que esperam do delinquente filho de uma mãe solteira.
Uau, essa última parte pode ter parecido um pouco pesada, mas não pensem mal de mim só por ser sincero em relatar como me viam na escola. Vejam bem, eu nunca fui conhecido por notas altas no colégio e meu visual sempre se assemelhava mais ao de um skatista que de um futuro cirurgião, então imaginem a surpresa das pessoas quando descobriram que eu havia conseguido uma bolsa integral para uma razoável faculdade de medicina. Foi hilário. Minha mãe ficou radiante, é claro.
Um detalhe para a melhor pessoa do mundo, Sally Jackson, ela é uma mulher muito doce e gentil (e isso não é uma piada com o fato de ela ter trabalhado em uma doçaria durante toda minha infância e adolescência). Apesar de todas as reclamações e confusões da minha vida no colégio, ela jamais deixou de se esforçar para me apoiar e incentivar, mesmo trabalhando dois turnos e mais horas extras para garantir nosso sustento, ela sempre me proibiu de trabalhar e insistia que eu estudasse, devo dizer que acabei conseguindo entrar na faculdade mais graças a ela do que qualquer esforço meu. Porém, eu só fui perceber o real impacto de uma vida sem ela quando me mudei para um apartamento caro demais e pequeno demais que eu acabaria sendo obrigado a dividir com outro interno do Olympus.
Acredito que vocês possam achar que estou enrolando contando minha história de vida para não contar o desastre que foi meu primeiro dia em New York como um interno no Olympus, mas é importante que vocês saibam como era minha vida antes de toda essa loucura do meu novo cotidiano e, principalmente, o motivo de eu estar atrasado naquela manhã.
— Onde está acontecendo à reunião inicial com o Chefe de Cirurgia? – Questionei a primeira enfermeira que encontrei depois de passar correndo pelas grandes portas do gigante hall de entrada do hospital.
— Vocês tiveram um tour para conhecer o hospital ontem e já está perdido? – Ela respondeu com um sorriso de deboche enquanto me olhava de cima a baixo.
Eu teria soltado uma resposta a altura se não tivesse tentando recuperar meu fôlego perdido durante a minha corrida. É claro que eu sabia da existência do tour e do jantar de recepção ocorrido na noite anterior, mas eu não havia aparecido por um motivo ridículo: eu não tinha nenhuma roupa limpa adequada.
É isso mesmo, eu, um adulto recém formado em medicina havia ficado com todas as minhas roupas sujas depois se duas semanas morando sozinho sem se tocar que elas não se lavavam sozinhas, mas eram limpas por minha mãe. Mas agora não havia mais a mami Jackson para cuidar de mim, e se eu tivesse percebido isso antes, a história do início da minha carreira em cirurgias não teria sido tão vexatória.
— Por favor. – Implorei a beira do pânico.
— Sala de Operações 01, no terceiro andar. – Ela disse por fim.
Mal agradeci e saí em disparada em direção ao elevador mais próximo. Antes de entrar eu ainda tive a impressão de ouvir muitos risos e pessoas comentando “internos...", mas não me importei. Foi assim que eu, Percy Jackson, com 24 anos, usando jeans abarrotados e uma camisa branca ainda mais amassada, entrei pela primeira vez em uma Sala de Operações do Olympus onde vários internos ouviam atentamente um homem iniciar seu discurso.
Eu gostaria de dizer que consegui entrar de fininho e me misturar sem ser percebido, mas isso seria uma grande mentira. Assim que eu abri a porta, TODAS as pessoas que estavam na sala viraram para me olhar. Imediatamente eu senti minhas bochechas esquentarem, me restou dar um aceno envergonhado com a cabeça e seguir para o fundo do grupo de internos.
O homem a frente do grupo pigarreou para chamar a atenção. Ele era alto, meio bronzeado com os cabelos castanhos lisos bem arrumados e cortados, uma barba da mesma cor emoldurava seu rosto, embora esta apresentasse alguns fios grisalhos, ele aparentava ter uns 40 anos.
— Como eu ia dizendo, sejam todos bem vindos ao Divine Olympus Hospital. Eu sou o Dr.Quíron Brunner, Chefe de Cirurgia desse hospital e diretor do programa de residência. – Disse com uma voz rouca e impactante. Seu olhar era duro ao continuar. – Os anos que irão passar em sua residência aqui serão os piores e melhores de suas vidas. Cinco de vocês irão desistir, três irão trocar para uma especialidade mais fácil, dois irão colapsar diante a pressão e alguns irão se convidados a se retirar do programa. Ontem vocês estudavam e aprendiam com médicos. Hoje vocês são os médicos. Olhe envolta, cheque a concorrência. O palco é de vocês, o jogo agora começa pra vocês.
Ninguém aplaudiu ou fez um único som ao fim do discurso. Acredito que assim como eu, estavam todos com medo e cheios de adrenalina para começar. O Dr.Brunner não pareceu se importar, muito pelo contrário, olhava satisfeito para os internos loucos para mergulhar no “jogo”.
Pelo canto do olho algo me chamou atenção, na galeria de observação separada por um vidro havia várias pessoas usando o uniforme azul escuro e jaleco. A cor escura indicava que eles eram atendentes ou estavam realizando suas fellowship, ou seja, eram os médicos seniores do hospital. Todos assistiam com grande interesse o grupo de novatos, afinal eram eles que seriam seus principais professores para os internos.
— Muito bem, vão para o vestiário se trocar, seus residentes irão separá-los em seus determinados grupos para o primeiro plantão de vocês. – Dr.Brunner ordenou causando a movimentação de passos apressados.
Eu, que nunca fui bobo na vida, rapidamente tratei de seguir o fluxo, afinal não queria me perder e passar vergonha novamente. Durante a caminhada nos corredores começaram a surgir pequenas conversas sobre o discurso, os mais animados eram aqueles que eu tinha certeza que iriam rodar rápido. Cheque a concorrência, o Chefe havia dito, e eram os mais quietos durante a caminhada que eu sabia que seriam os concorrentes de fato.
Quando chegamos aos armários no vestiário, tratei de me trocar o mais rápido possível. Parte porque eu estava animado para experimentar meu uniforme e parte por querer tirar aquelas roupas que me deixavam parecendo um quase mendigo.
— Primeiro dia difícil, huh? – Uma voz soou humorada ao meu lado.
Virei-me e acabei deparando um cara pouco menor que eu, tinha cabelos negros muito bagunçados que faziam contraste com sua pele pálida. Tinha olhos negros fundos e olheiras pesadas, como se tivesse problemas para dormir. Ele era um daqueles que estavam calados e tinha uma aura meio sinistra ao redor dele, embora naquele momento estivesse sorrindo divertido, o que me fez relaxar um pouco.
— Nem me fale, não esperava começar assim. Meu nome é Percy. – Falei oferecendo a mão.
— Nico, prazer em te conhecer, Percy. – Ele respondeu apertando minha mão. – Não o vi ontem na recepção.
— Tive alguns contratempos, sou novo na cidade e acabei me perdendo. – Sorri amarelo enquanto me explicava.
— Sei como é, ainda estou procurando um local pra morar. – Ele comentou enquanto arrumava o jaleco no corpo.
Aquilo me chamou a atenção, afinal eu estava procurando alguém pra dividir os custos do apartamento e Nico parecia ser um cara legal, então sequer hesitei antes de propor:
— Na verdade eu tenho uma vaga no meu apartamento, se quiser dar uma olhada, podemos ir depois do plantão. – Ofereci tentando não soar desesperado, afinal eu sabia que não iria conseguir pagar o próximo aluguel sozinho.
Nico pareceu surpreso com a oferta, mas quando abriu a boca para responder foi interrompido.
— Own, que fofos, já fazendo planos no primeiro dia juntos. – Uma mulher falou de maneira debochada.
Era uma interna, assim como nós dois. A mulher era bem mais baixa que eu, tinha a pele branca e cabelos pretos repicados cortados curtos, seus olhos azuis brilhavam chamativos e seus lábios curvados em um sorriso debochado eram bem desenhados. Ela parecia uma daquelas garotas punks que até mesmo eu tinha receio de encarar no colégio.
Aquilo, porém, não parecia afetar Nico, que a olhou de maneira agressiva pronto para responder, mas naquele momento um grupo de médicos entrou na sala.
— Muito bem, prestem atenção! Cada residente vai chamar quatro internos, assim que forem chamados tratem de segui-lo de imediato para as primeiras instruções do dia. – Um dos residentes falou e logo depois deu início a chamada.
Um a um, os internos foram saindo em grupos com seus residentes, após quatro grupos saírem, uma residente alta de cabelos negros presos em uma trança que descia até o meio de suas costas adiantou-se para os internos e começou sua chamada.
— Nico di Ângelo, Thalia Grace. – Nico fez um careta ao ser chamado e seguiu para o lado da residente, eu só compreendi a reação dele quando vi a garota punk seguindo o mesmo caminho. A residente deu uma pausa e olhou na minha direção, mais especificamente para alguém atrás de mim. – Percy Jackson e... Annabeth Chase.
Eu senti um arrepio ao ouvir as últimas palavras, não pelo meu nome ser chamado, mas sim pelo nome da mulher. Eu não fui o único, todos os internos que ainda estavam ali começaram a sussurrar uns com os outros, não era algo incomum, afinal todo o mundo da medicina reconheceria o sobrenome Chase.
Eu só percebi que estava parado quando ela passou por mim. Seus cabelos loiros estavam presos em um rabo de cavalo, os olhos cinzentos sérios e os lábios fechados em uma linha. Ela esbanjava profissionalismo, mesmo que fosse tão novata quanto todos ali, tinha uma aura de cirurgiã que ofuscava a todos.
Quando minha residente pigarreou, eu percebi que eles estavam me aguardando. Tratei de caminhar rápido para alcançá-los enquanto aquela chamada Thalia rolava os olhos.
Nossa residente nos levou para o refeitório. Era uma imensa área com direito a teto de vidro e uma grandefonte de água no centro do espaço. Várias mesas estavam espalhadas e algumas ocupadas por médicos ou visitantes. Ainda era cedo, então alguns estavam tomando seu café da manhã antes do início do novo plantão médico.
— Eu sou da Dra. Reyna Avila Ramírez-Arellano, serei a residente responsável por vocês durante esse ano. – Ela se apresentou com uma expressão séria no rosto. – Sou bastante metódica e prezo o compromisso e responsabilidade dos cirurgiões. Estaremos iniciando nosso plantão em trinta minutos, até lá sugiro que se alimentem bem, pois não teremos tempo algum para descanso durante as próximas vinte e quatro horas. Entenderam?
Assentimos prontamente, o que pareceu agradar a mesma.
— Ótimo, vejo vocês daqui a vinte minutos para começarmos. – Ela afirmou antes de sair caminhando para uma mesa ocupada por outros residentes.
Assim que ela se foi, Thalia se virou para nós.
— Então as iniciais dela são RA-RA? – Comentou sorrindo o que me fez sofrer para abafar a risada.
— Você é hilária, Grace. – Nico debochou com uma expressão de tédio no rosto.
— Não enche, babaca. – A outra rebateu e virou a atenção para a loira. – Então... Annabeth, né? Você é a filha da famosa Dra.Chase?
A loira ainda estava séria, mas sua expressão suavizou um pouco antes de responder enquanto íamos em direção a fila da lanchonete.
— A Dra. Atena Chase é minha mãe. – A loira confirmou com a voz monótona.
— Foi por isso que decidiu vir pra cá então? O mesmo programa de residência que sua mãe participou?– Thalia perguntou enquanto caminhávamos até uma mesa livre com nossas bandejas.
— Eu quero provar que posso ser tão boa quanto ela. Não vejo melhor maneira que a superando em seus próprios passos. – A loira falou com a voz baixa, quase como um sussurro.
Naquele momento eu tentei imaginar como seria viver com aquele fardo sob os ombros. Saber que todos os meus feitos seriam comparados aos da melhor neurocirurgiã dos Estados Unidos e mesmo assim aceitar o desafio propositalmente. Realmente pessoas como Annabeth estavam em um nível diferente do meu. Mas isso não significa que eu iria aceitar ficar pra trás, tenho minha própria mãe para orgulhar, não deixaria de competir, mesmo que continuasse a admirar a loira que se sentava na minha frente.
Eu gostaria de poder finalizar o relato do meu primeiro plantão assim, mas eu disse que havia causado um vexame, certo? E infelizmente não foi o mico que paguei ao chegar atrasado com roupas em péssimo estado.
O que aconteceu foi que ao refletir sobre as palavras de Annabeth, sequer prestei atenção em como estava me sentando na cadeira. De alguma maneira eu consegui a proeza de tombar a cadeira para trás, caindo dentro da maldita fonte de água com direito ao meu café da manhã sendo arremessado pra cima com a bandeja e alvejando meus três colegas.
Quando eu consegui me erguer e tirar a cabeça da água, todo o refeitório gargalhava intensamente da cena patética. Thalia me fuzilava indignada enquanto seu cabelo escorria o chá gelado que eu havia pedido, Nico não sabia se ria ou tentava me ajuda, ignorando o fato de meio sanduíche ter pousado na confusão que era seus cabelos negros.
Mas foi a reação de Annabeth que marcou esse dia porque foi a primeira vez que a vi sorrir, mesmo que estivesse tão suja quantos os outros. Além disso, enquanto apontava pra mim, ela falou as palavras que se tornaram uma das marcas não só as minha carreira como cirurgião, mas da minha nova vida.
— Percy, você têm algas na cabeça.
Notas finais
É isso ai, vejo vocês no próximo capítulo.
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