Waterabout: island in the sun

6 Mais um tijolo na parede (parte 2)


Eu começo a andar rumo ao lado oeste da cidade, por que para lá ficava a saída mais próxima de onde eu morava e ainda sim ficava a vários quilômetros da minha casa. Mas depois disso eu teria um problema: eu não sabia o que fazer nem para onde ir. E para piorar eu sinto como se estivesse sendo seguida.

Para evitar mais problemas eu evito passa em lugares com câmeras de trânsito. E enquanto eu ando eu ouço constantemente barulhos de porta batendo, pessoas correndo e sirenes soando. Até que uma multidão de pessoas passam correndo por mim. Elas estão assustadas e parecem fugir de alguma coisa. Eu verifico se meu capuz está devidamente tampando meu cabelo e eu evito olhar qualquer um nos olhos. Só que o número de pessoas correndo contra mim começa a aumentar muito. Então eu fico na calçada com as costas contra a parede. Enquanto eu me escondo entre arbustos ornamentais e latas de lixo.

Enquanto pacientemente eu espero a confusão se acalmar eu sinto leves tremores. E então um comboio passa por mim. Ele era liderado por um tanque de guerra só que ao invés de esteiras ele tinha pneus e logo atrás outros dois caminhões com soldados dentro. E o último tinha uma espécie de sirene/auto falantes

E novamente começo a ouvir um anúncio do governo vindo do caminhão. Era uma voz feminina meio robótica.

“ATENÇÃO A TODOS OS CIDADÃOS DE ______ ESTAMOS SENDO ATACADOS POR TERRORISTAS DO GRUPO DOS ELEMENTAIS ESSES QUE SÃO INIMIGOS NATURAIS DO MUNDO. PARA SUA SEGURANÇA PEDIMOS ENCARECIDAMENTE PARA QUE VÃO IMEDIATAMENTE PARA CASA E NÃO SAIAM ATÉ SEGUNDA ORDEM. NOS DA UNIDADE ESTAREMOS FAZENDO O POSSÍVEL PARA CONTER A AMEAÇA QUE VISA EM FERIR A ORDEM PUBLICA E O NOSSO POVO. RELEMBRANDO VÃO IMEDIATAMENTE PARA CASA E FIQUEM LONGE DE PORTAS E JANELAS... ATENÇÃO A TODOS OS CIDADÃOS DE...”

A partir dai o anúncio ficou rodando em looping enquanto o caminhão se afastava.

Eu não sei direito o que está acontecendo mas é melhor eu sair daqui antes que sobre para mim, apesar que eu também não me importo contanto que eu possa sair da cidade.

Mas dai acontece um blackout. As ruas ficam totalmente escuras e tudo por um segundo parece ficar em silêncio apenas para no segundo seguinte os barulhos de tiros ficarem ainda mais contrastantes em meio a grande cidade que agora está mais assustadora que nunca. Eu confesso que me assustei quando as luzes dos postes apagaram. Mas ainda sim eu me senti um pouco aliviada. No momento que tudo foi pintado de preto eu fui pintada também. Eu aproveito a minha nova vantagem e saio correndo o mais rápido possível para longe daqui.

Eu corto a cidade sempre tomando cuidado por onde eu ando. Eu já estou nessa a mais de uma hora e ainda nem estou perto de sair desse lugar. Mas para a minha infelicidade eu vejo ao longe patrulhas da U.I.P. na principal avenida da cidade. Eles estavam em APCs e faziam uma constante ronda de ponta a ponta e entre as ruas. Quando eu vi um dos faróis vindo em minha direção eu me escondi o mais rápido possível atrás de uma lixeira. (Eu já estou me sentindo um guaxinim de tanto mexer no lixo dos outros)

Em cima do APCs tinham soldados com espingardas com lanternas acopladas.

Eu espero o primeiro carro passar por mim e quando isso acontece eu corro virando a esquina. Já que seguir a avenida não é possível eu decido ir por uma rua paralela. Quanto mais eu me aproximo do centro mais as coisas vão ficando movimentadas. E para piorar estou voltando a escutar o barulho dos tiros.

Eu vou andando com a atenção redobrada até que a minha esquerda eu escuto o barulho de um dos APCs se aproximando mas antes que eu tenha reação os faróis dele começam a iluminar a rua. Eu sem pensar muito corro para o primeiro beco que aparece. E me escondo atrás de mais latas de lixo.

Depois de alguns instantes uma luz passa rapidamente pelo beco. Provavelmente a lanterna de uma das espingardas. Meu coração para de bater por um segundo quando eu percebo que eu não estou sozinha nesse beco.

A luz da lanterna revela Para mim uma silhueta que estava parada em pé na minha frente do outro lado do beco. Eu não consegui ver seu rosto mas ele estava lá. Em silêncio absoluto como um fantasma. Eu tenho absoluta certeza que ele me viu e viu meu rosto.

Nós dois ficamos parados sem dizer nenhuma palavra por alguns segundos até que eu decido me levantar e sair de lá. Enquanto eu me dirigia para fora do beco a luz amarela bateu em minha costas e meu capuz foi puxado. Eu no susto me viro já me preparando para bater e correr. Mas então quando eu vejo quem é que era aquela estranha pessoa eu tenho uma surpresa. A pessoa usou um bastão fluorescente para iluminar o beco e isso permitiu que eu visse seu rosto. Era um cara um pouco mais velho do que eu ele tinha um expressão triste e preocupada porém seu rosto era estranhamente familiar.

—Porra, você também?- Diz ele.

Essas foram as palavras dele? Como assim? Como ele pode simplesmente soltar essas palavras em uma ocasião como essa?

—Quem é você? E como assim você também?

—Você se chama Carol estou certo? A gente estudava na mesma e eu acho que minha irmã estudava com você.

—Você não respondeu a minha pergunta!

Ele solta um suspiro e então fala.

—Meu nome é Erick o “imbecil”. Você se lembra agora?

Imbecil? Agora que ele falou teve dois caras brigando um dia antes disso tudo acontecer. E ele era um deles. Espera aí como ele sabe que eu o chamei de imbecil?

—tá mas, como você sabe quem eu sou, meu nome, e essas coisas tudo sendo que a gente nunca se quer conversamos antes?

—Eu tenho uma memória ridiculamente boa e presto atenção nas pessoas. E além disso você virou notícia na cidade então isso e mais outras coisas me deram um gatilho para ir atrás de quem é você.

—Entendo...

Agora que eu me acalmei um pouco eu paro para reparar melhor nele. Ele estava de calças jeans bem largas, botas de solado grosso e um casaco bem parecido com o meu a diferença é que o dele provavelmente é de marca. Seu cabelo era preto e em seu rosto tinha alguns machucados, provavelmente adquiridos em alguma briga. Mas o que me chamou a atenção é que eu notei um volume na cintura dele. Ele provavelmente estava armado e isso faz que eu comece a ficar nervosa de novo. Eu até penso em perguntar sobre isso mas, eu acho que não é muito inteligente comentar sobre uma arma com um cara que está com uma arma.

—Meu olhos estão aqui em cima.- Diz ele enquanto estrala os dedos.

Eu tomo um susto e recobro minha atenção. Eu estava pensando por que ele está sendo tão “gentil”? Bem eu digo isso por ausência de palavra melhor pra descrever esse tratamento pois se ele quisesse ele apenas precisaria me entregar e pegar alguma recompensa ou seja lá o que tiverem oferecido pela minha cabeça. Até que eu me lembro.

—E sua irmã? O que aconteceu com ela?

—Lembra quando eu falei “você também”? Então ela foi capturada pela União.

—Me desculpa.

—Pelo oque?

—Eu fiquei sabendo o que aconteceu com ela um dia após ela ter despertado e simplesmente não me importei fechei meus olhos e fingi que nada tinha acontecido. Agora que estou na mesma situação eu sei como é assustador.

—Você ainda não viu nada. O buraco que você se meteu é muito mais profundo e brutal. E eu não ligo para o que você acha da situação ou não. Alias vocês duas pareciam ter a mesma idade, você e ela estudavam juntas?

—Como você consegue fazer uma pergunta tão casual logo após soltar um mal presságio como esse?

—chega de conversar fiada nenhum de nós tem tempo a perder aqui. Me fala para onde você estava indo?

—Eu só queria sair da cidade.

—Por onde?

—Pela zona leste passando pela cidade nova e saindo por trás de campos altos.

—Isso é impossível. Se depender da U.I.P é mais fácil eu passar por lá em um Chevy Opala velho com o porta malas cheio de cigarro e um .38 na cintura do que você sendo o mais furtiva possível. Mas tá bom vamos considerar que um milagre aconteceu e você conseguiu, o que você vai fazer depois?

—Eu não sei...

—você tem ao menos um plano?

—Não, pra fala a verdade já era pra eu estar morta.

Ele esfrega o rosto enquanto solta um profundo e longo suspiro então xinga.

—Puta que pariu. Entenda uma coisa, não e você contra uma organização, conta uma cidade ou contra um país é você contra o mundo humano! Agir sem um plano é equivalente a jogar roleta russa com uma pistola semiautomática. Você só sobreviria se a arma der pane ou se a munição falhar. Tá me entendendo?

—Estou, já que é assim o que eu deveria fazer ou para onde eu deveria ir?

—Sabe quando eu falei sobre mundo humano? Eu sei que isso chamou sua atenção. A explicação é simples. Existe três mundos: o humano, o Elemental, e o dos ninguém. O mundo dos humanos são dos humanos, o Elemental é dos elementais e o dos ninguém são de pessoas que não podem pertencer a nenhum dos mundos. Atualmente nós dois somos “ninguém”.

—Espera um pouco eu tenho que encontrar algum tipo de portal ou coisa do tipo para fazer a travessia entre os mundos?

—Não é literalmente, o imbecil!

—Precisava dessa última parte?

—Sim pois agora estamos quites. Agora presta atenção, existe dois lugares que em tese você poderia ir. O primeiro lugar seria o Brazil.

—Brazil? Por que?

—Pelo que me contaram ele é um dos poucos países do mundo a adotar uma política neutra em relação ao elementais. E isso não é de agora, eles proclamaram isso desde dois mil e cinco.

—Serio! E como eu nunca ouvi falar nisso? Para mim o Brazil sempre foi um considerado como qualquer outro!

—Eu também descobri isso recentemente, o que não me surpreende nem um pouco é claro que aquele lugar iria ser omitido. Mas o mais importante é que tentar ir para lá é equivalente a suicídio. Todas as fronteiras até lá são fortemente guardadas é impossível ir pra lá daqui.

—Droga. E o segundo lugar?

—Não é exatamente um lugar, chamam de “portos seguros” são ilhas ou cidades ocultas habitadas por elementais.

—E onde eu posso encontrar alguma delas?

—Não faço a mínima ideia. Eu meramente sei da existência de uma mas, pelo o que eu ouvi não tem a parte “segura”. Também ouvi falar sobre alguma coisa relacionada com veleiros da lua. São pessoas que sabem onde estão os portos seguros e podem te levar até lá. Mas meu conhecimento ainda é raso sobre isso.

Enquanto conversamos senti o barulho de tiros ficarem mais altos e aparentemente o Erick também reparou nisso.

—Merda estamos ficando sem tempo. Eu sugiro que você vá para o porto da cidade. Procure pistas de navios de carga para América do Sul ou seja lá o que te convém. Tome cuidado e tente não ser pega mas, se o pior acontecer use isso.

Ele tira do bolso um canivete e me entregar. Ele era feio todo em aço inox estava novo e muito amolado.

—espera aí? Eles estão armados o que diabos você espera que eu faça com isso?

Ele dá um passo para frente e gentilmente toca a lateral do meu rosto. Eu fico com muita vergonha e medo. Minhas pernas tremem e meu corpo fica paralisado. Seus dedos deslizam pelo meu rosto e param em meu pescoço logo abaixo de minha mandíbula. Eu tento perguntar o que ele vai fazer mas minha voz trava. Eu começo a sentir um latejamento no local que ele está fazendo pressão.

—Tá sentido? Nesse ponto tem uma artéria se eles te capturarem pegue esse canivete e corte seu pescoço.- Essas palavras tão serenas quanto tristes atravessam meu peito de forma que eu sinto meu coração pular uma batida. Somada a sua expressão neutra e séria faz que suas palavras tenham ainda mais peso. Eu sei que ele realmente está sendo sério quanto a isso o que faz refletir ainda mais sobre a minha atual situação.

Em nenhum momento eu o questiono sobre o que ele disse e apenas coloco o canivete no meu bolso.

Novamente nos dois ouvimos barulhos de tiros e explosões.

—Você tem alguma ideia do que está acontecendo? Seja lá o que for parece está vindo em minha direção.- indago ao Erick

—Eu até sei o que é mas o motivo de eu saber o que é não é de sua conta. Porém para mim é o que eu chamaria de oportunidade.

—A minha vontade de xingar você é muito grande. Mas agora que você comentou isso para onde você está indo?

—Isso não é de sua conta e você não pode vir comigo.

“Mas que desgraçado!” penso eu.

—Você tá indo salvar sua irmã não é?

—Nos dois já perdemos tempo demais aqui. Eu tenho que ir e isso é um adeus.- Enquanto ele se despedia ele pegou o bastão fluorescente e jogou dentro de um lixeira.

—Obrigada por tudo você provavelmente evitou que eu morresse... Espero te ver novamente.

—Eu não...

Essas foram as suas últimas palavras antes de desaparecer entre as sombras.