Waterabout: island in the sun
5 Mais um tijolo na parede (parte 1)
Quando eu sai daquela casa já era de noite. Eu não fazia ideia de que horas eram mas pelo movimento dos carros já era meio tarde, coisa de nove ou dez da noite. Agora eu tenho que arrumar uma forma de voltar para casa o problema é que eu não faço a mínima ideia de onde eu vim parar. Eu tento refazer os meus passos até a casa da Andrea e de lá eu vou volta para casa.
Eu nunca tinha saído de casa a noite, por algum motivo minha mãe nunca deixou mas, ela também nunca explicou o porque. Mas mesmo que eu esteja com medo é uma sensação estranha. Por mais que ocasionalmente passe carros por mim tudo é quieto. Mas, depois de um tempo caminhando eu começo a sentir a falta de pessoas. Não tem restaurantes abertos, não há bares ou alguma festa acontecendo. É tudo tão vazio mas as janelas estão com as luzes acesas. Então por que não tem ninguém? A cidade está cheia de lixo e a ratos andando por ai.
Não é como se eu tivesse saído do meu bairro eu ainda estou na mesma parte da cidade mas tudo está tão sinistro. Está tudo tão morto.
Enquanto eu pensava eu acabo sendo interrompida por sirenes. Rapidamente eu me escondo atrás de um carro velho e todo destruído enquanto eu espero eles passarem. Felizmente é apenas uma carro da polícia comum. Andando mais um pouco eu passo por uma outdoor familiar. Era o mesmo que eu passava todo dia a caminho da escola. Por mais que fosse a mesma propaganda eu sentia como se fosse diferente. A entonação das palavras, a imagem do presidente, a mensagem transmitida. Tudo chega aos meus olhos de uma forma destorcida e isso me causa enjoo, Por que ? Mas, então passa uma coisa que me chama a atenção e me preocupa profundamente: Uma foto minha em um cartaz de procurado.
Eu volto a correr o mais rápido possível para casa esperando que tudo esteja bem e que isso tudo não passe de um pesadelo.
Chegando em frente a minha casa tem uma poça d’agua na frente da porta. Há também faixas amarelas dizendo “interditado” e alguns cones policiais. Pela janela eu vejo uma luz acesa. Eu corro até ela. E a olho.
Para meu alívio minha mãe está lá dentro...
Sentada sozinha a mesa...
Chorando...
Eu com um pequena chama de alegria no meu peito entro correndo pela porta da frente.
Minha mãe ao me ver muda sua expressão de tristeza para uma de surpresa. Estaria ela vendo um fantasma? Bem por todas as contradições do destino eu ainda estou viva.
Eu corro em direção a ela e tropeço caindo aos seus pés e desesperadamente me levanto abraçando-a enquanto choro como uma criança. Toda a minha tristeza acumulada, todo meu medo, todo meu cansaço eu liberei tudo em lágrimas enquanto eu abraçava minha mãe esperando por seu consolo.
Mas... Tinha algo de errado ela não me abraçou de volta. Ela não chorou de volta nem acariciou minha cabeça dizendo que tudo ia ficar bem. Ao invés disso de sua boca foram proferidas apenas quatro palavras.
“É tudo sua culpa...”
E nesse momento o meu mundo que já não estava em plena fundação desmoronou. Eu caio de joelhos enquanto eu tento chorar desesperada mas, eu simples não tenho mais lágrimas para isso.
Eu saio correndo e me tranco no meu quarto. Fecho as cortinas e me deito na minha cama enquanto uso o travesseiro para abafar meus gritos. Bem seja como for amanhã é um novo dia...
E então uma semana passou depois daquele dia. Eu tomei um certo receio de sair do quarto depois que eu vi minha mãe bebendo pra descontar as frustrações. Aparentemente ela foi demitida dos dois empregos por minha causa. Mas infelizmente eu ainda sou alguma coisa parecida com um humano então eu sinto fome e sede. Nas poucas vezes que eu saio eu sempre pego algo para me saciar. Apesar que nada tem um gosto bom, tudo que eu coloco em minha boca tem um gosto amargo, com exceção da água. Os militares apareceram aqui umas duas vezes só que eu me escondi. Em um canto do sótão que eu usava como esconderijo desde pequena. Apesar que se eu me entregasse isso tudo acabaria certo? Da última vez que eles vieram aqui perguntaram a minha mãe onde eu estava e ela respondeu que se eles me encontrassem poderiam me levar.
Hoje eu sair da minha caverna e peguei um pouco de chá e voltei de novo para aquele quarto escuro. Eu tomei um gole e já o deixei de lado. Eu fico deitada olhando para o teto enquanto tento deixar minha cabeça vazia. Ao lado da minha cama tem uma moldura com uma foto minha e da minha mãe. Toda vez que eu a olho eu sinto ódio de mim mesma.
De vez em quando eu tentava controlar a água mas eu já não tinha força de vontade para isso além de muito difícil. Por mais que eu tentasse o máximo que eu conseguia fazer era fazer a água do copo estremece e nada mais.
As vezes eu olho de relance pela janela e tudo que eu vejo são cartazes de procurado com a minha imagem e patrulhas da U.I.P. Por mais que eu queira fugir desse inferno eu estou presa nessa maldita cidade, nessa maldita casa, nesse maldito quarto.
Eu tento dar mais gole no chá mas ele já esfriou. Juntando com minha boca amarga isso se torna imbebível. Ironicamente a única coisa que não tem um gosto ruim é a água. E falando em água é valido citar que em nenhuma das vezes que eu consegui dormir nessa semana eu tive qualquer sonho. Bem eu acho que aquele era o último dia dela e provavelmente vou morrer da mesma maneira.
Me pergunto como vai ser? Eles vão me encontrar? Minha mãe vai me entregar? Eu irei me entregar ou irei tirar minha vida aqui mesmo apenas para que eles não tenham o prazer de me matar?. Quatro opções e todas levam ao mesmo destino... Mas que merda. Eu juro que Eu não quero fechar meus olhos e também não quero cair nesse sono profundo. Apesar de toda essa situação eu quero viver.
Mas eu já não tenho mais esperança...
Mas então ao escurecer eu escuto algo. Um barulho ensurdecedor, era como se o seu estivesse sendo partido ao meio. Eu corro para a janela e tem um helicóptero militar sobrevoando a cidade indo para algum lugar. Logo após ouve se o barulho de uma sirene junto a algum anúncio que eu não ouvi direito e então todos os soldados da U.I.P saíram correndo para os caminhões e tanques deles.
Eu não faço a mínima ideia do que está acontecendo mas essa é a oportunidade que eu preciso.
Eu não vou ficar aqui sentada com a boca escancarada de dentes esperando a morte chegar!
Eu me levanto pego minha mochila escola e a esvazio. Eu não tenho tempo para me preparar tanto então eu pego dois ou três pares de roupas simples e jogo dentro dela. Pego meu celular e algum dinheiro que eu tinha guardado. Eu já ia saindo até que eu percebo que estou esquecendo uma coisa muito importante: meu diário dos sonhos.
Eu cansei de fingir que isso tudo é coincidência esses sonhos e meus poderes e aquela mil estão todos conectados e se eu sair dessa viva quero que alguém me explique o que diabos está acontecendo.
Eu em absoluto silêncio saio do meu quarto. Eu penso em passar na cozinha e pegar alguma coisa para comer antes de ir mas, minha mãe estava lá tomando mais uma garrafa. Eu não quero olhar na cara dela e nem me despedir. Então eu saio pela porta da frente.
Olhando pela brecha eu me certifico de não ter ninguém e realmente não tem. Mas eu escuto barulhos de tiros vindo de muito distante e eu obviamente vou na direção oposta.
Quando eu atravesso a rua e oficialmente me torno uma fugitiva, uma sombra, uma ninguém.
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