[b]Capítulo 1: Hospital[/b]

A pouco mais de um minuto tinha parado em frente ao grande hospital, estacionara rente à calçada e uma das letras caídas. O “A” caído encontrava-se esmagado entre a corrente da roda e o concreto coberto por uma fina camada de areia.

Ele se considerou com sorte na ocasião. Um forte vento vindo de alguma região do oceano limpou boa parte das ruas e solo próximo ao hospital, levando a areia para outro lugar mais a frente, ou talvez de volta ao deserto.

O capô preto do veículo absorvia o Sol quente daquela tarde, e ele já estava quase desistindo de usar aquele local para descansar. Sentava-se sobre a frente do carro, ainda que não inteiramente, pois suas pernas apoiavam-se no chão, cobertas por um jeans que já perdera sua cor original a muito tempo.

Prestes a desistir, tentou pela última vez utilizar o rádio. A pasta de couro marrom encontrava-se aberta. Dentro dela um equipamento com aparência desgastada e velha, mas com luzes e mais luzes multicoloridas e acesas o bastante para indicar que ainda estava funcionando perfeitamente.

- Rob, está me ouvindo? Câmbio!

- Rob aqui! Já chegou ao hospital? Câmbio.

- É, eu to na frente dele. Tem certeza que é esse mesmo? Pelo menos aqui de fora eu não consigo ver nenhuma luz acesa.

- Certeza absoluta. Essa é a última área construída da cidade, e também o último lugar usado como refúgio dos sobreviventes. Por isso que a energia ainda está ligada.

- E faz quanto tempo que isso foi... evacuado?

- Menos de uma semana. É por isso que eu falei pra você ter cuidado...

- Eu vim preparado, não se preocupe.

- Ok, se você diz... mas seja rápido de qualquer forma.

- Eu odeio esses lugares. Pode deixar que vou ser o mais rápido que puder.

- Espero que sim. Mas por favor, vasculhe bem o local antes de sair. Tinha gente pra cacete se escondendo ai até uma semana atrás, com certeza deixaram um monte de coisas interessantes.

- ‘kay, pode deixar. Câmbio e fui!

Desligou o rádio e fechou a maleta. Jogou-a dentro do carro pela janela semi-aberta e deixou o veículo queimando no Sol para trás.

As portas principais, grandes, abertas e quebradas foram as primeiras que lhe chamaram atenção. Pedaços de vidro espalhados por todo lado, pedaços de vidro ensangüentados presentes logo em frente a porta indicando que alguém adentrara ou saíra dali à força, quebrando e levando tudo a baixo.

Brinquedos, carrinhos e bonecas se juntavam aos cacos de vidro, esquecidos ali na evacuação e certamente perdidos de seus donos para sempre. Nada daquilo lhe interessava, então prosseguiu. Encontrou mesas reviradas, comidas estragadas e lâmpadas quebradas. Cartuchos de bala surgiam assim que adentrava cada vez mais no edifício. Indícios óbvios de uma batalha, de uma derrota, mas que ele só viria a ter certeza se explorasse mais o local. Continuou.

Contou três calibres diferentes e avistou uma das armas usadas no combate. Uma pistola .45 coberta de sangue e com imperfeições que lhe pareceram mordidas. Não devia funcionar mais, concluiu, com nojo de segurar o objeto. Convencido que ela não tinha nenhuma munição sobrando, prosseguiu com a exploração.

Uma tela de computador caída no chão ao lado de uma máquina de escrever formaram uma cena que lhe chamou a atenção, chegou a imaginar possibilidades sobre como foram parar uma ao lado da outra. Talvez objeto de algum velho ou mesmo uma relíquia de família, a máquina arcaica de digitação tenha sido levada ali como um dos pertences dos sobreviventes. Ignorada durante a fuga, ou mesmo perdendo seu dono para o ataque, sua história havia culminado no fim à uma semana atrás, suas teclas agora eram inúteis sem mãos à digitá-las, sem uma imaginação a guiá-las. Não seria ele que daria a ela novamente sua função. Tinha coisas mais importantes para fazer.

Deixou máquina e tela para trás, assim como as outras coisas. Nelas, tomou um cuidado adicional, fazendo questão de passar as botas por cima e desviar de ambas, do contrário dos outros objetos que encontraram com a sola de seu calçado. Finalmente saiu da recepção e chegou nas escadas. Sacou sua arma e começou a subi-las.

O espiral de concreto brotava do chão e só terminava no último andar do prédio, um terraço com um heliporto, mas nenhum helicóptero. A partir dois andares acima já não era possível enxergar mais nada, forçando o rapaz a usar uma lanterna que trouxera.

Odiava ela. Não era nem um pouco discreta, e uma palavra que jamais poderia ser usada para descrevê-la seria portabilidade ou suas variações. Era praticamente um lampião, exceto por funcionar á baterias que falhavam vez ou outra. Seguiu direto para o último andar que precedia o terraço, esperando que as pessoas que ali habitaram tenham chegado a mesma conclusão que ele de eleger aquele o local mais seguro e confiável para se instalarem.

Decidiu que começaria por ali e depois desceria os andares ordenadamente pois de alguma forma considerava aquilo uma hipótese mais interessante. Durante a subida, passou por alguns avisos, uns indicando andares, outros procedimentos de emergência. Embora nenhum tratasse aquilo que os atacou como dignos de uma citação em suas superfície plástica coberta de desenhos toscos em tinta vermelha e preta.

Passou também por objetos pessoais, mas com nenhum deles apresentando alguma importância para ele, com exceção dos relógios – um deles de ouro – que valeriam uma boa quantia no bar do Tick. Colocou em um dos bolsos da jaqueta.

Quando chegou na placa do nono andar – errara o número afinal – parou, e resolveu começar por ali. A escada que subia ia para um corredor pequeno com uma porta no fim, que guardava a entrada para o terraço. O grande metal correu para o lado com a força do rapaz, e bateu com violência na parede.

Um chão acinzentado na sua frente e coberto de areia e poeira. Parecia que ninguém o limpava a meses. Os últimos hóspedes não deviam se importar muito com a higiene do lugar, apesar daquilo ser um hospital.

Olhou para trás e não gostou de ver as próprias pegadas no chão. Deviam ter início lá embaixo, na entrada, e o seguiam até ali. Não gostou de ter seu rastro em evidência por todo o local. Por mais que seus inimigos não fossem dos mais inteligentes, aquilo poderia atraí-los, e isso era a última coisa que queria.

Anos atrás, projetado como enfermaria, a pouco tempo transformado em um grande quarto comunitário, agora um salão cheio de camas reviradas e objetos empoeirados. De alguma forma a areia subira aqueles nove andares e começava a reclamar agora também os edifícios daquilo que podia ser chamado de vila.

Era estranho pensar num prédio daquele tamanho em meio a uma vila, mas foi a melhor definição que achou para o local. E não se preocupou em procurar outra. Talvez, quando estivesse fora e bem longe dali, pensaria em um nome adequado para o local.

Se algum mapa um dia deu um nome àquele local, ele não estava presente na pequena coleção do rapaz e seus grupos. Embora não fossem eles ávidos por tais cartas geográficas, diferente dos Tech Boys, grupo o qual já realizaram algumas trocas, inclusive uma em particular que lhe deixou muito feliz, o de um mapa da capital por dez engradados de cerveja.

Desejou ter uma garrafa consigo naquele momento. Nem de longe era sua bebida preferida, posto ocupado por destilados, mas até a cevada lhe cairia bem com toda aquela sede que sentia. Já quase podia sentir aquela poeira e areia invadindo sua boca, não contentes em tomar apenas suas roupas.

Já passava da metade da enfermaria, tendo levado à bolsa que trouxera algumas garrafas vazias, relógios e partes de eletrônicos que não tinha a menor idéia para que funcionavam, mas que deixariam Rob e Nila felizes. Um pacote de pilhas e duas baterias completavam seu material de coleta até então.

Viu um cabide no chão, e abaixou-se para pegá-lo. Era exatamente o que precisava para o seu trailer. Teve de ficar de joelhos e esticar um dos braços embaixo de uma cama para que conseguisse alcançá-lo. Foi quando ouviu um barulho.

Não era nada caindo no chão, despencando do teto ou coisa parecida. Típicas situações que fariam com que desse um pulo com o susto. Era um barulho discreto, como se não quisesse ser notado, sem interromper a paz que o cercava a sabe-se lá quanto tempo.

Rítmico, como o ponteiro de um relógio que nunca parava. Dava-se em intervalos perfeitos de um segundo sem que houvesse qualquer alteração em seu som ou freqüência. Era algo que chegava a incomodar os ouvidos, mas longe de gerar uma verdadeira perturbação. Até porque, quem o ouvisse, poderia concluir que algo de ruim ainda não havia acontecido.

Um mensageiro de más notícias assim que se calasse, ou que se alongasse muito tempo. Ai sim, ele ficaria irritante, perturbador. Traria tristeza, desespero, em alguns raros casos, alívios.

Era uma máquina. Daquelas típicas de hospital. Que mantinham-se funcionando através de energia elétrica. Que mantinham alguém vivo.

Não soube jamais porque naquele momento, aquilo tenha soado tão assustador quanto o maior dos sustos que já levara. Assim que seu cérebro concluiu o que era aquele barulho, seu corpo foi tomado por uma súbita e violenta sensação de surpresa, que levou sua cabeça de encontro à um impacto desconfortante na superfície de metal onde repousava o colchão.

Levou ambas as mãos ao novo machucado superficial e dolorido, uma delas puxando o cabelo como se aquilo fosse aliviar a dor de alguma forma. Assim que se recompôs, voltou seu rosto para a direção que julgava vir o barulho.

As lentes negras do seu óculos avistaram uma porta escondida por uma pequena barricada feita de uma cama e um armário caído. Alguém, durante a evacuação, teve a consideração de deixar aquilo como proteção à pessoa que estava no lado de dentro.

Hesitou um pouco, mas logo pôs força em seus braços e afastou os dois pesados objetos, cada qual para um canto. Entre ele e a máquina, restava agora apenas a porta. Era cor de creme, estranhou ele, não sabendo se era essa sua cor original ou uma ferida do tempo, poeira e areia. Passou algum tempo refletindo sobre isso como uma desculpa, e só então após imaginar-se mentalmente tomando um copo de cerveja, a coragem voltou e ele abriu a porta.