Wasteland
3 A garota que não lembrava de nada
A garota que não lembrava de nada
Ela acordou de sonhos que jamais lembraria.
A porta rangeu e travou no chão. Ele teve de empurrar com o pé para forçar a sua abertura.
O coração dela acelerou. O timing entre os sons diminuiu, as linhas subiam e desciam mais rápido que nunca. O coração dele fez o mesmo.
Ela levantou, finalmente. Os tubos prendidos por agulhas puxaram suas veias e pele, por pouco não a feriram mais quando desprenderam-se do braço magro da moça. Ela usou as mãos para apoiar-se na cama, mas não encontrou equilíbrio nenhum. Caiu no chão frio e empoeirado. Rolou, deixou um rastro por onde passava, acumulando poeira na camisola, nas pernas e joelhos. As mãos ainda falhavam, tremiam e começavam a suar.
Olhou para a porta e mesmo com a pouca claridade que dali adentrava, seus olhos arderam e se fecharam. Antes disso ela conseguiu notar a presença estranha no seu quarto. Uma sombra que parecia enorme, que mal tinha forma, que poderia ser um monstro se esses existissem ou se aquilo fosse um pesadelo.
Gritou, mas por pouco tempo. A voz sumiu, a garganta pareceu puxar-lhe, estrangular-lhe por dentro. Tentou gritar de novo, agora encolhida num canto. Um pequeno som agudo saiu de sua boca, mas logo morreu.
Alguém aproximou-se, segurou-a nos braços. A moça sentiu-se segura por algum tempo, até perceber que a sombra que viera à seu amparo. Começou a debater-se, os punhos socavam qualquer coisa, as pernas enfraquecidas e cobertas de poeira chutavam o nada e o que encontrasse pela frente. Acertou duas vezes o estranho, sem ter ideia se foram punhos ou pés os autores das investidas.
Novamente ela gritou e gritou. Por um tempo que não contou. Ficou muda após isso. A boca seca mal podia manter-se aberta. Sentiu uma dor desconsertante na laringe, como se as cordas vocais estourassem para nunca mais produzir som algum.
Pela primeira vez sentiu-se no controle de sua respiração. O coração também pulava como nunca. Ela foi finalmente se acalmando, perdendo o medo nos braços do estranho. Ele falava algumas palavras aleatórias e que ela não tomou registro, mas que deviam ser alguma espécie de consolo. Funcionou, afinal. A voz rouca e de maioria de palavras dissilábicas foi confortando ela pouco a pouco, até que tomou coragem e virou o rosto para ele.
Viu apenas um par de óculos escuros, ou então de lentes verdes, era difícil distinguir naquele breu. Apenas a porta do quarto e uma pequena fresta da cortina iluminavam o cômodo. Não havia ventilação nenhuma, e ela quase agradeceu pela respiração quente dele se não fosse pelo bafo de alguma bebida alcoólica. Aquilo teria embrulhado o seu estômago se ela não estivesse a sabe-se lá quantos dias sem comer, mantida viva apenas pelo soro.
Ela olhou para o objeto. Não havia mais líquido nenhum ali dentro. Talvez tenha acabado à dias, talvez tenha acabado agora mesmo. Decidiu que não era algo com que devia se incomodar, haviam tantas coisas para ocupar esse lugar desprazeroso. Era hora de botar sua cabeça em ordem, e o melhor que podia fazer, era exatamente a pergunta mais óbvia que sua mente conseguiu pensar.
- Onde estou? – A voz era quase inaudível.
- Em um hospital. Não tem mais ninguém aqui, eu vim... procurar algumas coisas, e encontrei você sozinha aqui nessa sala. O maquinário tava fazendo barulho e eu vim checar para ver o que era. Entrei bem na hora que você acordou.
Acabou explicando mais do que ela queria ouvir. A moça se acomodou onde estava, sem ligar para a posição desconfortável que o estranho tomara para contê-la e que ainda a mantinha.
- Eu não lembro de nada... – Confessou depois do tempo que levou para absorver as palavras dele e chegar a conclusão alguma.
A mente dela era um branco total, e ela mesma pensou nessas exatas palavras quando chegou à conclusão final. Não era força de expressão nem exagero. Ela realmente não tinha memória de nada de sua vida. Não sabia nem seu nome. Esperava que ao levantar e procurar em volta pudesse achar algum documento seu ou coisa parecida que a elucidasse quanto a esse ponto.
- Calma. – Disse inseguro. – Você apenas se recuperou de um grande choque. Daqui a pouco a sua memória vai voltar.
Ela quis acreditar.
- O senhor – Fez uma pausa. Ele não parecia tão mais velho que ela. Tinha uma barba rala e mal-feita. Aquilo já podia lhe dar uns bons anos de vida, mas ainda era difícil de distinguir devido ao óculos e o chapéu que ele usava. – Você pode me ajudar a levantar?
Segurou-a nos braços com pouca delicadeza e a puxou para cima sem mais nem menos, não esperou qualquer sinal dela. Ou era desajeitado assim mesmo ou estava de saco cheio da situação, concluiu ela. De pé, com uns bons centímetros de altura separando os seus olhos dos dele, tentou obter mais alguma informação visual do estranho. Viu um pouco do cabelo dele, era curto e escuro, talvez castanho. Novamente pelo breu que os cercava, não podia ter certeza. Mas era certo que a coloração nem se aproximava da claridez dos seus. Tentou uma última vez ver seus olhos, mas as lentes não deixavam. Eram de fato verdes, e cobriam inclusive suas sobrancelhas. Não viu nada mais que o seu próprio reflexo neles, e nem o esverdeado conseguiu esconder a sua palidez e aparência esquelética. Tomou um susto com a visão e rapidamente deu-lhe as costas, iniciando a procura por alguma memória naquele quarto.
Percorreu primeiro com os olhos os balcões, a mesa e até a própria cama. Não havia sinal de coisa alguma que lhe instigasse a memória. Tudo ali dentro não parecia fazer menção alguma a ela ou sua vida. Viu uma bolsa jogada em um canto do quarto, e correu para lá. Cambaleou mais de uma vez, mas conseguiu chegar sem levar-se novamente ao chão.
- Reconhece alguma coisa? – Perguntou o estranho depois de vê-la afundar a mão uma dezena de vezes na bolsa. Não havia nada ali. Ele respondeu com o silêncio.
De joelhos, girou o tronco ao redor visando sempre o chão. Não havia nada nele, fora alguns papéis. Resolveu ir até esses, e percorreu então um caminho disforme e sem sentido certo pelo quarto, analisando folha por folha em busca de alguma iluminação.
Passou um tempo assim, lendo em silêncio palavras que a nada remetiam e que pouco ela entendia. Eram termos e mais termos médicos que pouco lhe diziam. Só parou quando em suas mãos estava um papel que por ali já passara três vezes. Não havia mais o que chegar, mas também resolveu não deixar nada para trás. Arrumou todos e pegou-os nos braços. Levantou, e perguntou:
- Achou algo? – A moça perguntou. Nem percebeu que ele nada havia procurado.
- Você já olhou tudo. Não tem nada. – Fez uma pausa enquanto olhava para a porta e finalmente para o espaço anterior lotado de camas e objetos inúteis. – Temos que sair daqui. Não é seguro.
- Como assim não é seguro? Eu tenho que falar com alguém do hospital. La na recepção deve ter alguém que possa me ajudar. – Ainda não percebeu que ouvia as palavras do estranho mas nenhuma ideia absorvia delas.
Não sabia que eles estavam sozinhos naquele lugar.
- Temos que sair! – Ele voltou a dizer. A paciência parecia se esvairar cada vez mais. A compreensão já fora.
- Eu não vou sair daqui. Eu não posso. Não até descobrir o que está acontecendo. Algum médico deve saber da minha situação, por favor, chame alguém pra mim! – O pedido soou como uma ordem. Os lábios do estranho retorceram ao ouvir o final da frase dela.
- Loirinha, você não entendeu! Não tem ninguém aqui! Esse local foi atacado, não sobrou ninguém. Todos morreram, ou fugiram, sei lá!
- Do que você está falando? – Não gostou da cara que ele fez, e nem do tom de voz. O seu se igualou a esse, embora ainda afetado pela falta de hidratação.
- O hospital foi atacado por zumbir, guria. Você foi a única sobrevivente, provavelmente porque eles não conseguiram entrar na barreira que fizeram na frente da sua porta. – Respondeu calmamente, prevendo que o impacto das palavras não seria dos melhores.
A boca dela abriu e som nenhum saiu dali. Os olhos arregalados entoaram a perplexidade que alojou-se em sua face magra e pálida.
- Não. O que você está falando? Que besteira é essa? Zumbis? Essa droga não existe! – Quase bateu o pé no chão.
- Existem. – Ele respondeu apenas. Pensou ter ouvido um barulho da escada e olhou para aquela direção. Só voltou para a loira quando nada subiu por ela. – Existem e tem uma penca pela área. E é por isso que temos que sair logo daqui.
- Você só pode estar bêbado! – Ela deu alguns passos para trás. – Eu senti o cheiro de bebida! Fique longe de mim! – Deu mais alguns passos e chocou-se contra a janela. Sentiu uma corrente de ar passar pela fresta aberta, que levantou a cortina e apresentou-lhe uma visão perfeita do que havia abaixo.
Ela não chegou a olhar por mais de um ou dois segundos, o vento parou e a cortina voltou ao lugar. Mas pode ver o que havia lá embaixo. Nada. Eram só areias, entulhos e destroços. Alguns em chamas, alguns apenas enegrecidos e já sem sua forma original. Ela sentiu mais calor ainda só de olhar a paisagem amarelada.
Sentiu o corpo molhado e a camisola azulada colada em seu corpo. Ela ficou exposta àquele calor por muito tempo, concluiu. O arcondicionado estava fora da tomada e o ventilador de teto apenas rangia no teto quando completava uma volta após cada minuto. Começou a tomar partido das coisas que aconteciam à sua volta. Pareciam ter um tempo diferente daquelas de seu corpo. Tudo a sua volta ocorria em um ritmo diferente uns dos outros, e mesmo no corpo dela era assim. Foi sentindo uma a uma as sensações e incomodações exigirem seus lugares de direito. Sentiu vontade de ir ao banheiro, sentiu vontade de vomitar, sentiu uma tontura que fez o mundo girar e tremer a sua volta.
Olhou para o estranho. Ele se aproximava e ela recuou ainda mais na parede, chegou a um dos cantos e ali ficou. Abaixou-se e encolhida ali ficou. O de óculos escuros tirou alguma coisa dos bolsos que eram muitos em sua jaqueta. Era uma seringa.
Ele também se abaixou, ainda assim ficando maior que ela. A moça não tinha por onde fugir, atrás dela apenas paredes, na frente, um estranho que certamente possui-a mais força e disposição que ela. Com a ponta dos dedos, como se segurasse um cigarro, levou a seringa até a frente do rosto dela.
- Adrenalina. – Disse apenas. Ela arregalou os olhos, mesmo sem entender a intenção dele. – Isso vai te ajudar, acabar com a tontura e essas coisas todas. Eu não sou médico, e essa porcaria pode te afetar em alguma coisa dada as condições que você se encontrava até agora. Posso aplicar em você, e nós dois saímos daqui o mais rápido possível. Ou você pode colaborar, pegar minha mão e nós saímos daqui de uma maneira cambaleante e não tão rápida, mas você fica livre de quaisquer efeitos colaterais que isso possa lhe trazer.
- Eu, eu... – Ela respondeu.
- A nossa terceira opção é eu te deixar aqui sozinha, mas eu não quero fazer isso. Por enquanto. Nessa alternativa, as nossas chances são as seguintes: eu continuo com as mesmas chances de sobrevivência, já as suas são reduzidas a um valor próximo ao zero. Você não tem vestimentas adequadas, apesar dessa camisola te cair muito bem; não tem armas, não tem a menor idéia de onde está ou quem é, e não saberia o que fazer.
- Não consigo levantar – Confessou depois de deixar escapar mais uma série de \"eus\". – Que merda, eu não to entendendo nada! – Os olhos lacrimejaram mas nenhuma lágrima caiu.
- Então, loirinha, isso nos deixa apenas com a primeira opção.
Ele sorriu. Não de uma maneira prazerosa, não que estivesse curtindo ou tendo prazer com a situação. Mas ele seria realmente obrigado a deixá-la ali se não houvesse cooperação. Seu tempo e sua vida eram muito mais importantes para ele do que a primeira mulher loira que via há três semanas.
- Pode me chamar de Mav, loirinha. – Ouviu barulho de coisas caindo no chão nos andares abaixo. Eles haviam chegado. Não sabia de que se constituíam \"eles\", mas era uma coisa ruim. – Desculpe-me, mas não sou enfermeiro! – Disse e enfincou a seringa na jugular dela.
Ela virou os olhos e pela primeira vez naquele diz, conseguiu gritar de verdade, sem que cordas vocais ou a garganta lhe impusessem condições adversas. Sentiu o pescoço enrijecer, e quando o controle do corpo voltou a ela, desferiu no estranho alguns socos e arranhões.
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