Warriors
4 Definhando
Sabe aquela ressaca que você acorda e não faz ideia de onde esta? Bom, eu não sei.
Acordei sentindo muita sede, minha boca parecia estar tão ressecada que nem saliva tinha, quando abri os olhos fui cegado pela forte luz do sol.
Espera, sol? Onde, diabos, eu estou?
Sentei e o chão ao meu redor pareceu se mover, quando olhei para ver onde eu estava sentado soltei o grito mais humilhante da minha vida.
—AHH, O QUE É ISSO?
Foi o grito de garotinha mais real que eu já dei. Mas enfim, eu realmente devo ter feito uma besteira muito grande, porque eu estava sentado em nada menos do que uma montanha de areia gigante no meio de um deserto!
[...]
De um poço infinito e que depois se transformava em um monte de água salgada, meu sonho foi no mínimo, bem real.
Quando enfim consegui abrir os olhos, descobri que meu sonho na verdade era mesmo real, só que não tinha poço ou algum tipo de saída, apenas muita água, na qual eu estava me afogando. O desespero que tomou conta de mim só piorou e muito as coisas, mas quando parei de ser idiota e pensei um pouco, aproveitei a luz que as pedras de quartzo, presas no teto do que parecia ser uma caverna sem saídas, emitiam e nadei em busca de algum lugar longe da água.
Achei apenas um buraco na rocha da caverna grande o bastante para que eu pudesse ficar sentado, então conformei-me com a minha sorte e me ergui para o buraco, onde acabei pegando no sono.
[...]
Eu já estava cansada demais por causa da insolação pra ficar lutando contra a barreira super-resistente, que obviamente fora projetada para nos manter presos ali, então apenas sentei-me num canto, poupando energias, enquanto Kol esmurrava pontos aleatórios da nossa parede invisível.
Estava quase caindo na inconsciência, pela falta de hidratação quando um redemoinho apareceu do outro lado da barreira. Me mantive atenta enquanto tudo acontecia depressa diante de meus olhos.
Da poeira da terra um redemoinho se formou, grande e rápido, mas parado no mesmo lugar. Quando atingiu certa altura, foi se expandindo, até que no lugar do redemoinho restasse apenas um garoto com pele meio dourada e topete desarrumado. Foi o que bastou para que eu mergulhasse na inconsciência, afinal, um redemoinho que se transformava em garoto só podia ser um sonho!
[...]
—Não acredito que vou morrer desse jeito sem graça e medíocre!- reclamou Grace, encostada num canto da barreira.
Tristan a encarou por alguns momentos. A morena estava toda suada e com uma pele bem mais avermelhada do que aquele tom meio pálido que ele já estava acostumado.
—Como você está se sentindo?- perguntou.
—Minha boca está tão seca que eu seria capaz de beber o atlântico agora.- falou ainda brincalhona.- Também estou enjoada, apesar de que não comemos nada ...há o que, umas 12 horas?
—Não faço ideia.– respondeu Tristan, tentando manter-se atento. O garoto sentia que sua consciência estava falhando e começando a lhe pregar peças.
—O que você tem?- perguntou a menina, preocupada.
—Por que?- perguntou Tristan.
—Porque você está com os olhos arregalados, um pouco arfante e com uma “cara” estranha.- explicou ela.
—Ata.- falou aliviado.- Acho que todo esse clima de deserto está me fazendo ver miragens.- respondeu ele.
—Por exemplo?- perguntou Grace, curiosa.
—Ás vezes parece que estou num cômodo escuro e familiar, acho que talvez seja meu quarto.- contou.
—Talvez você esteja se lembrando!- falou Grace, animada.
—É, talvez.- resmungou Tristan.
[...]
—Ei, garota que não sei o nome, acorda!- gritou uma voz distante.
Eu estava mergulhada numa imensidão branca e estava tão cansada.
—Por favor, acorda!- implorou a tal voz.
Mas que droga, eu só quero dormir em paz!
—EI!- gritou.
—Hã?- perguntei.
Kol estava com uma cara de desespero ao meu lado, enquanto eu estava esparramada no chão e o garoto com quem eu achei ter sonhado estava colado na barreira nos observado.
—Ahh, você acordou!- exclamou ele, aliviado.
—O que aconteceu?- perguntei tentando me sentar, meu corpo estava bem fraco.
—Você desmaiou depois que aquele ali apareceu.- respondeu, apontando para o garoto na barreira.
O garoto até que parecia bem, mas Kol estava vermelho e com os lábios rachados, quando meu braço tocou de raspão sua pele, pude sentir o quanto estava quente.
—Por quanto tempo fiquei inconsciente?
—Não foi muito, mas só serviu pra te deixar mais fraca.- falou Kol– Sua pele está muito vermelha, sei que o sol faz isso com a nossa pele, mas está pior em você.
Agora sentada, pude me olhar e realmente, eu estava totalmente e extremamente avermelhada. Tentei esconder meu espanto com um sorriso, mas acho que Kol percebeu.
—Então, já fez contato com nosso amiguinho dourado?- perguntei sorrindo, usando o pouco de força que ainda me restava. Kol fez sinal de negativo com a cabeça. Usei um pouco mais das minhas energias.- EI, ESTRANHO. QUEM É VOCÊ?
[...]
Eu realmente acho que a vida é generosa, pelo menos comigo, ela “sorri” todos os dias.
Acordei num lugar que eu nunca tinha visto na vida, mas que me parecia um paraíso. Eu estava deitada sob a sombra das folhas de uma palmeira, com um riacho aos meus pés, algumas árvores com frutas ao redor e um sol quente.
Aproveitei para me banhar naquela água fresca e depois voltei para a sobra das palmeiras, fiquei deitada por um bom tempo, apenas admirando o lugar a minha volta. O problema foi quando eu comecei a sentir fome e fui até uma macieira pegar uma maçã nos galhos mais baixos e percebi que eles estavam mais longe do que eu pensava.
Toda vez que eu me esticava, parecia que o galho se distanciava. E minhas habilidades de escalar árvore realmente eram horríveis, pois eu mal conseguia fixar o pé e me erguer um pouco que já caia de volta no chão.
—Maravilha, presa num paraíso artificial de distorção!- reclamei e me joguei na areia.
[...]
—Você acha mesmo que ele vai ouvir?- perguntou Kol, agora sentado.
—A barreira parece não ter teto, então não pode ser a prova de som, acho que um grito ele escuta.- falei.
—EI, ESTRANHO.- chamei.- VOCÊ TEM NOME?
Olhei para ele e ele pareceu pensar por um momento, então sorriu.
—EDRIEL! MEU NOME É EDRIEL.- gritou ele, satisfeito.
—Maravilha, ele também se lembra.- resmunguei.
—EI.- chamou Kol, agora empolgado.- SERÁ QUE VOCÊ PODERIA NOS ARRUMAR ÁGUA OU ALGO PARA COMER?
O garoto de pele dourada olhou ao redor, a procura de nosso pedido.
Eu realmente devo estar ficando maluca por causa da insolação, porque eu realmente acho que aquele garoto tem pele dourada e ninguém é estranho a esse ponto. Mas, enfim, nosso garoto dourado começou a se afastar e eu tinha certeza de que ele ia nos deixar, principalmente quando adentrou um pouco a floresta ao redor, mas surpreendentemente, depois de poucos minutos ele voltou, decepcionado.
Ele parou perto da barreira e murmurou algo que não identifiquei nem pude ouvir.
—O QUE?- gritamos eu e Kol.
—EU NÃO CONSIGO!- gritou ele, frustrado.- EU NÃO SEI O QUE TEM DE ERRADO COMIGO, MAS QUANDO EU ME APROXIMO DE UMA ÁRVORE, ELA PARECE SE DISTANCIAR! EU... EU SINTO MUITO.
E toda a esperança que me permiti sentir se esvaiu tão rapidamente quanto havia chegado.
Estávamos presos, sofrendo os efeitos de uma forte insolação e prestes a morrer, como animais abandonados numa gaiola.
—VÁ EMBORA!- gritei o mais alto e raivosamente que pude, ambos me encararam. Encarei Kol.- Não vai adiantar em nada ele ficar. Ele está lá fora, livre. Nós estamos presos, sem nenhuma saída, vamos morrer! Não quero que me vejam definhar.
Kol se jogou no chão.
—Então está bem. VAMOS MORRER!- exclamou ele.
[...]
Deserto:
Devo confessar que nunca odiei tanto estar na areia, não que eu saiba se algum dia já fui a praia ou coisa do tipo, mas depois de algum tempo eu perdi todo o ânimo.
Tirei os tênis que calçava e amarrei os cadarços para poder pendurar no pescoço. Fala sério, quem anda de sapato na areia? É meio idiota, já que seu pé afunda a cada passo e a areia entra em todos os cantos da sua roupa.
E esse sol? Agora eu gostaria muito daquelas porcarias de filtro solar que parece pomada, sempre deixando uma camada grossa e grudenta na pele, porque eu estava assando. Acho que a experiência mais real que já tive de estar dentro de um forno.
Continuei vagando sem rumo, praguejando a cada vez que uma duna se movia e eu ia de cara no chão. Mas eu sou um cara de esperanças, mesmo que eu fale que vou desistir, na prática isso não acontece de verdade. Então, sim, eu continuo rolando nessas areias infinitas sonhando com o momento que esse pesadelo maldito vai acabar e eu vou encontrar uma saída, onde tenha muita comida, só que isso não vai acontecer tão cedo pelo que vejo.
[...]
A única coisa que eu sabia era que me chamava Edriel e isso não era grande coisa. No atual momento eu estava deitado, sob a sobra de uma árvore, enquanto duas pessoas que pareciam não ser nada más morriam de fome e desidratação numa espécie de prisão.
Eu me sentia um idiota, por vê-los naquele estado e não fazer nada, apenas olhar, deitado em baixo de uma sombra! Eu não conseguia entender o que estava acontecendo, eu tentei, realmente tentei, ajudá-los, mas sempre que me tentava alcançar um fruto de uma árvore qualquer ela parecia se distanciar de mim, também não achei água, apenas terreno seco por toda a parte.
Podia ser crueldade da minha parte, ficar ali e ver eles irem perdendo o pouco de vida que ainda era possível ter nessas condições, mas eu não queria me afastar, e ficar sozinho.
No pouco contato que tive com eles, descobri que o garoto era Kol e que a menina não se lembrava do nome, o que me fez entender a reação chateada dela quando gritei meu nome. Eles disseram que eu apareci de um redemoinho, mas eu só me lembro de uma poeira amarelada e então ver os dois.
À medida que o tempo ia passando, era cada vez pior ficar ali e observá-los. Não demorou muito e logo ambos começaram a perder a consciência, um tentava ajudar o outro, mas não tinha muito o que se fazer, a cada desmaio o tempo que passavam inconscientes aumentava. Eles estavam definhando sem nenhuma chance de lutar.
Quando finalmente começou a escurecer, uma brisa começou a surgir, o que desacelerou um pouco o processo de insolação que eles estavam sofrendo, mas eu estava sem muitas esperanças. Não percebi o momento exato, mas eles já não abriam os olhos e não pareciam respirar. Eu não tive contato o suficiente para poder sentir a dor da perda, mas isso não me impediu de lamentar e sentir um aperto no peito.
Foi quando o céu já estava totalmente escuro e a única iluminação era a luz da lua, que uma tempestade se formou de repente, me deixando ensopado em questão de segundos. Era a última faísca de esperança que restara.
Corri até a barreira e comecei a esmurrá-la. Com a chuva era possível ver o quadrado que ela formava em volta dos dois, sem teto.
—ACORDEM!- gritei.- ESTA CHOVENDO! ACORDEM!
[...]
Em algum lugar no subsolo:
Desmaiando e acordando.
Foi assim que Piter passou seu tempo. Em algum momento entre a lucidez e a inconsciência, lembrou-se de um nome que achou ser dele e foi tudo o que foi capaz de fazer. O tempo que passou mergulhado na água havia causado sérios danos e que só pioravam a cada perda de consciência e enfraquecimento por falta de comida.
[...]
“Paraíso artificial da ilusão”:
Sabe o problema de coisas artificiais? É que elas não são reais. Mas o problema com um paraíso artificial da ilusão? Isso é muito pior.
Eu não consegui fingir que havia desistido por muito tempo, a fome falou mais alto e eu fiquei várias horas tentando alcançar uma fruta qualquer que eu pudesse comer, mas não achei que estava tão mal, afinal, tinha um riacho e riachos são de água doce, certo? Errado!
No momento em que coloquei um pouco de água na boca, senti um pouco de queimação e cuspi tudo pra fora. A concentração de sal estava tão forte, que mesmo sem querer começou a sair lágrimas dos meus olhos.
Fiquei encarando o riacho por um tempo, eu estava perdida. Sem comida e nem um pingo de água que eu pudesse consumir, presa num lugar que achei que era o paraíso, mas que na verdade só serve pra ferrar ainda mais com a minha vida.
[...]
O tempo que aquela brisa deu para Kol e a garota foi o suficiente para serem despertados pela tempestuosa chuva.
—Oh, meu Deus!- exclamou a morena, espantada.
O céu estava negro, a lua fora encoberta pelas nuvens e raios cortavam o céu, iluminando tudo.
Dentro da barreira o acumulo de água já era grande, logo se tornaria uma grande enchente.
—VOCÊS ESTÃO BEM?- gritou Edriel, do lado de fora, agora aliviado.
—SIM!- responderam a garota e Kol, que já haviam enchido as mãos com água da chuva e tomado até ficarem satisfeitos.
—ESPEREM QUE ESSA BARREIRA SE ENCHA DE ÁGUA, VAI SER PERIGOSO, MAS VOCÊS PODERÃO ESCAPAR QUANDO ELA TRANSBORDAR!- gritou Edriel.
—Você sabe nadar?- perguntou a morena.
—Acho que vamos descobrir.- falou Kol, a menina assentiu.
Mas quando a água foi subindo, as paredes da barreira se mexeram e começaram a sumir de repente, e antes que eles pudessem se afogar estavam livres, finalmente livres. O que eles não sabiam é que outras preocupações estavam por vir.
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