Warmness On The Soul
8 Alucinações
Notas iniciais
Desculpem a demora >.
Eu senti minha respiração ficar um pouco mais rápida. Sua pele era mais clara do que a minha, parecia suave e delicada aos olhos, mas ao toque era firme. O cheiro de gel de banho, misturado com perfume masculino preenchia minhas narinas, e eu não pude deixar de sentir o calor que emanava do seu corpo. Era como se eu estivesse a centímetros de uma lareira num dia frio. Gabriel tinha a pele quente.
Deslizei minhas mãos geladas para dentro da jaqueta de couro, contornando sua cintura e parando nas costas, afim de aquece-las. Quase como se tivesse ficado ofendido, ele estremeceu para trás e segurou minhas mãos para perto do meu corpo novamente. O momento todo rompido.
- Vá para casa — disse ele. – Lucius deve estar preocupado com você.
O encarei por um momento, e o vendo de tão perto, uma pergunta surgiu na minha mente, quase como intuição.
- Era você aquele dia perto do aeroporto? Foi você que me jogou numa poça d’água?
O sol se revelou fracamente através das nuvens, me permitindo um vislumbre de seus olhos. Era o tipo de olhos que guardava segredos. O tipo que mentia sem hesitar. O tipo que uma vez que você olhasse para eles, seria difícil esquecer.
Quando Gabriel ficou quieto, tive a certeza de que tinha minha resposta, mas eu queria ouvir da boca dele.
- Me responda! – eu rosnei.
- Sim — ele disse cansadamente.
Meu coração bateu mais rápido.
- Porquê? — Esperei impacientemente – me diga o que eu te fiz pra você me tratar assim!
- Não.
- Não?
Ele simplesmente olhou para mim.
- Então você é um filho da puta. — A acusação voou para fora antes que pudesse impedi-la. Ele suspirou e apoiou os braços sob meus ombros.
- Se eu tivesse alguma coisa boa pra te dizer, confie em mim, eu tinha começado a falar.
- Eu posso lidar com más notícias — eu disse secamente.
Ele balançou a cabeça e me evitou, voltando para trás. Eu agarrei seu braço. Seus olhos caíram para a minha mão, mas Gabriel não se esquivou.
- Eu vou te dar um conselho, e uma única vez, quero que você o siga – seu tom era intimidador — Volte para a sua vida e fique longe de mim. Isso acabará mal se você continuar insistindo em querer saber demais.
- Isso? – abri a boca, incrédula — Eu nem sei o que é isso!
- Será que isso importa? — ele soltou um suspiro perturbado, varrendo os dedos pelos cabelos.
- Importa! Ao menos que você seja um anormal que sai jogando pessoas em poças d’água e tratando mal como uma verdadeira puta de TPM, aí tá tudo bem – disse com sarcasmo. Encontrei seus os olhos instantaneamente. A linha de sua boca, sombria, mas firme, me dizia que não estava no menor tom de brincadeira.
- Diana eu sou perigoso, eu posso te matar – falou mostrando os dentes.
- Eu não tenho medo de você – dei um passo para frente e o encarei de mais perto. Seus olhos suavizaram por um momento, e eu quase pude afirmar que eles faiscaram entre verde e azul.
- Faça um favor a si mesma e corra para tão longe e tão rápido de mim quanto você puder. — Ele se afastou com um gesto de repúdio, sinalizando para eu andar na direção oposta.
- Você é um mentiroso! – gritei. Ele se virou, puto da vida
- Também sou um ladrão, um jogador, um trapaceiro e um assassino. Mas esta passa a ser uma das raras vezes em que estou dizendo a verdade. Vá embora.
Ele não era nada parecido com o tipo de pessoa que eu costumo me relacionar, rápido, cáustico e perigoso. Talvez até um pouco assustador. Mas mesmo assim, eu precisava saber o porque dele me detestar, o porque desse ódio.
- Uma última coisa — disse ele. — Pare de olhar pra mim.
- Não estou olhando para você. – Apertei os olhos e fiz tom de zombaria.
Ele tocou o dedo indicador na minha testa, minha pele disparadamente aquecendo com seu toque. Não me escapou que ele não conseguia parar de encontrar motivos para me tocar. Também não me escapou que eu não queria que ele parasse.
- Sob todas as camadas, uma parte de você se lembra. É essa parte que te faz estar aqui agora. É essa parte que vai te matar, se você não tiver cuidado.
Ficamos cara a cara, ambos respirando com dificuldade.
- Eu não sei o que você quis dizer, mas se sabe tanto, deve saber que eu não vou parar de procurar pelo que você tanto esconde. Eu achava que era só uma implicância, mas agora tu deixou bem óbvio que tem muito mais – eu disse determinada. Gabriel tirou a jaqueta e jogou no chão com irritação, subindo as mangas da camiseta, ele estava suando.
- E deixe-me te dizer o que você vai encontrar — ele retirou um pequeno canivete de prata do bolso da calça em milésimos de segundos, e agora o estava apontando para o meu pescoço. – Seu túmulo. Uma cova rasa no interior da floresta onde ninguém vai encontrá-la. Ninguém irá ao seu túmulo chorar por você. Isso consumirá Lucius, a última família que te resta. A constante sensação ameaçadora do fracasso vai levá-lo mais perto do abismo até que o empurre de vez. E ao em vez de ser enterrado em algum cemitério ao seu lado, onde entes queridos possam visitá-lo até o fim dos tempos, ele ficará sozinho. Assim como você. Pela eternidade.
Eu estava altamente determinada a mostrar a ele que não ia ter medo tão facilmente, mas senti uma pequena agitação nauseante na minha barriga com a premonição.
- Acabou o discurso dramático de quinta? Podemos voltar ao que interessa, por favor? – eu estalei, perdendo a paciência.
Gabriel passou a mão embaixo da boca, rindo para si mesmo. Era um som tenso e cansado. Ele levantou os olhos impenetráveis nos meus, sua boca se curvou para baixo em um canto. Não uma carranca. Algo infinitamente mais atordoante e assustador.
- Você não deveria mais insistir nisso, eu não posso mais ficar te protegendo – MAS QUE DEMÔNIO ESSE DESGRAÇADO TÁ FALANDO? ELE BEBEU? QUE DIABOS!
Então ele juntou a jaqueta do chão e caminhou para ir embora, tendo dito tudo o que disse, mas eu não podia aceitar. Não depois de ouvir toda essa merda sem sentido, agora ele vai ter que explicar.
Bati atrás dele e agarrei as costas de sua camisa com tanta força que rasgou. Não me importava.
- Em que eu não deveria mais insistir? – disse. Só que as palavras não saíram certas. Elas foram sugadas para longe de mim. Eu me senti sendo arremessada no ar, e todos os músculos do meu corpo ficaram moles, como manteiga. A última coisa de que me lembrei foi do rugido de ar passando por meus ouvidos e a minha visão se dissolvendo.
Quando abri os olhos, eu não estava na rua mais. Eu estava dentro de o que parecia um galpão abandonado que cheirava a serragem e algo ligeiramente metálico, como a ferrugem.
Eu tinha agarrado a camisa do Gabriel. Eu tinha ouvido o tecido rasgando. Eu poderia ter tocado suas costas. E agora... Eu estava nesse lugar, ok é loucura, mas está acontecendo.
À frente, vi duas figuras. Gabriel e Rodrigo. Me senti um pouco melhor por não estar sozinha nesse fim de mundo, eu caminhei em direção a eles, esperando que pudessem me dizer onde eu estava, e como eu tinha chegado aqui.
— Gabriel! — chamei.
Nenhum dos dois olhou em minha direção, mas com certeza eles me ouviram, minha voz ecoou nas quatro paredes do galpão e voltou para estremecer meus tímpanos.
Eu estava prestes a abrir a minha boca pela segunda vez, quando eu parei com um susto. Atrás deles, uma poça enorme de sangue e vários corpos totalmente mutilados e carbonizados formavam uma pilha cadavérica. Olhei novamente para Gabriel e constatei sinais de luta, a camiseta preta um pouco rasgada e sangue respingando a pele pálida. Mas o que mais me chamou atenção foram seus olhos, verdes vítreos, tão verdes quanto podiam ser. Eram olhos surreais.
- Tu me trouxe aqui pra me mostrar isso? — Rodrigo disse a Gabriel com desgosto silencioso — Tu entende o risco que eu corro todas as vezes que nos encontramos? Não me chame aqui pra trovar fiado.
- Isso – Gabriel apontou para os corpos que jaziam no chão de terra — É óbvio que você sabe o que significa.
- Sei, e não é novidade.
- O que pretende dessa vez? Todos seus brilhantes planos anteriores foram um desastre — ele perguntou friamente.
- Como os matou? – Perguntou Rodrigo, ignorando a pergunta.
- Comecei serrando as asas. Só porque eu não posso vê-las não significa que eu não tenha uma boa ideia de onde elas estejam — Algo escuro se agitou nos olhos dele.
- Tanto faz, se livre deles antes que os arcanjos descubram onde tu estás — Com um gesto enojado, Rodrigo virou para ir embora.
- Se não consegue agüentar isso, como pretende protege-la quando chegar a hora? – Gabriel perguntou.
- Matar anjos não faz parte da minha tarefa.
- Agora faz.
Fez uma pausa, dando a Rodrigo tempo para pensar.
- Isso não vai quebrar a profecia, Gabriel. Muita gente vai tentar acabar com ela, anjos, demônios, aliados. Não pode matar todos – disse.
- Eu sei, mas ajuda a manter a discrição dos fatos.
- Eu vou te dar um conselho. Não desafie os arcanjos. Rebeldia pode ser o seu forte, mas desta vez tu tá empurrando a tua sorte. Nós dois sabemos como isso vai acabar. Os arcanjos não perdem.
- Ah, mas eles perdem — Gabriel corrigiu — Eles perderam o seu tipo quando traiu. Eles perderam novamente quando criamos a raça Nephilim. Eles podem perder de novo, e eles vão.
Me escorei contra a parede e apertei minhas mãos. Fechei os olhos e respirei profundamente várias vezes. Isso não é real, isso não é real, isso não é real, isso não é real...
Com um baque, meus olhos se abriram. Rodrigo tinha prensado Gabriel contra a parede, mas ele não tinha o menor sinal de querer se defender, sua expressão era calma.
- Vou te dizer mais uma vez – sua voz era baixa e intimidadora – Eu só estou te ajudando porque não quero perdê-la para o inferno, e não quero vê-la se explodindo mais uma vez. Isso não é por ti, é por ela, somente isso – falou, os olhos verdes faiscando. Esperai, VERDES?
Gabriel ergueu as sobrancelhas questionando.
- Ficou nervosinho? É bom se acalmar, você tá preso na coleira dos arcanjos, suas ondas podem ser captadas. O que vai dizer pra eles?
Rodrigo largou Gabriel, relaxando os ombros instantaneamente, seus olhos voltando ao castanho natural.
- Melhor assim — disse simplesmente, mas com um traço de escárnio.
- Me diga, Gabriel, qual o nome dela desta vez? – perguntou Rodrigo.
- Diana, como da primeira vez. – ele deu um sorriso tenso.
Sacudi a cabeça com força, isso não é real!
De repente meus olhos focaram um pedaço de papel velho na parede. Um calendário. O dia 02 de Novembro estava circulado em vermelho. Mais acima o ano, 1996.
O dia em que eu nasci.
O meu corpo foi sugado pelas paredes do galpão. Eu voei através da escuridão, caindo mais e mais. Meu estômago revirava, e minha cabeça latejava.
E então eu estava deitada em algo confortável, uma cama. Abri os olhos e constatei, um quarto de hospital. Quem me trouxe pra cá?
Eu fiquei em uma posição sentada. O tic tac do relógio, marcava seis e meia da tarde. Eu realmente tinha dormido por mais de oito horas? Minha pele estava coberta de um brilho de suor, um vento gelado balançava a cortina branca amarelada e me fazia tremer de frio.
Pensei em chamar alguém, mas vozes no corredor me fizeram ficar calada.
- Ela está alucinando por mais de horas, nenhum sedativo faz efeito – falou uma voz feminina, deveria ser a enfermeira.
- Diana tem algum problema mental, sofreu algum choque emocional? – perguntou outra voz, masculina e grave.
- Sim, ela perdeu os pais num acidente terrível a pouco tempo – disse Lucius.
- Precisamos apagar a mente dela, para tira-la do estado de alucinação. Pra isso temos que usar grande quantidade de sedativo, mas preciso da sua autorização como responsável – falou a voz grave.
- Não sei Dr. Marchz, isso é mesmo necessário? – perguntou Lucius.
- Infelizmente sim.
Algo na voz desse Dr. Marchz me fazia tremer mais ainda, intuição? Loucura? Tanto faz, só sei que esse cara não vai me apagar porra nenhuma. Preciso sair daqui, mas por onde? Olhei para a porta e cogitei a possibilidade e sair correndo pelos corredores, mas aí eu ia ganhar uma passagem só de ida para o manicômio. Olhei para a janela aberta, caminhei até lá e apoiei as mãos no parapeito. O vento violento anunciava uma tempestade, o céu de fim de tarde estava escuro e feio. Olhando para o chão eu constatei que não é tão alto pra morrer, mas é alto o suficiente pra quebrar metade dos ossos. E minha única alternativa. Eu podia tentar me empoleirar na árvore a frente e descer, mas se eu errasse o pulo, ia doer. Olhei para a porta novamente, eu estava perdendo tempo.
Coloquei um pé na janela, e depois o outro. Me equilibrei, como um gato, e com um impulso me joguei contra o galho mais próximo. Assim que consegui me segurar, suspirei aliviada. Desci pelo resto dos galhos, e pulei ainda faltando uns dois metros para o chão. Consegui ouvir quando abriram a porta do quarto e se perguntavam onde eu estava. Corri por trás da parede do hospital para não ser vista, e continuei correndo, mesmo sem saber para onde.
Eu estava numa estrada, cercada por árvores em todos os lados, correndo com uma camisola de hospital. Meus braços e pernas arranhados pelos galhos formigavam e sangravam um pouco. Eu havia tropeçado e caído no asfalto umas quantas vezes, mas eu só queria fugir para o mais longe possível.
Em algum lugar, no fundo do meu inconsciente, eu havia acreditado que aquela alucinação era real. E se fosse? Anjos realmente existem? Isso é o que eu pretendo descobrir.
Parei abruptamente, quando há alguns metros eu vi algo se mover. Parecia ser uma garotinha, com uma camisola infantil e os longos cabelos pretos sacudindo. Ela entrou em meio as árvores e eu a segui.
- Ei! Espera! – gritei, mas ela não esperou.
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