Warmness On The Soul

9 O coração de Elisabeth


Notas iniciais
Estou aqui mais uma vez com um novo capítulo, este ficou pequeno mas prometo postar o próximo em pouco tempo.

"E agora me deito para dormir, peço a Deus para minha alma guardar. E se eu morrer antes de acordar, peço a Deus para minha alma levar."

O vento frio jogava as folhas e galhos na minha direção e eu não via exatamente aonde estava indo. Eu estava descendo, cada vez mais.

- Menina, espera! — gritei mais uma vez, mas ela apenas olhava pra trás e seguia em frente. Parecia querer me mostrar alguma coisa, mas o que se teria para ver no meio desse monte de árvores?

Depois de quase 20 de descida e muitas voltas, percebi que o solo havia ficado em linha reta novamente. Agora sem as árvores obstruindo minha visão, eu pude analisar o lugar. Tinha muitas pedras, estava escuro, pequenos e grandes arbustos, muito mato. Os dedos dos meus pés se contorciam na terra úmida, algo nesse lugar me dava arrepios. Olhei para baixo e notei que um pouco atrás do meu calcanhar tinha um pedaço de cerâmica, não uma cerâmica comum, era um pedaço de vaso. Eles faziam uma trilha de cacos quebrados e quando eu levantei a cabeça pude ver melhor. Tinham muitos vasos. Em cima de várias lápides.

Eu estava dentro de um cemitério.

Na hora eu fiquei surpresa, o último lugar que eu pensaria que fosse parar era um cemitério, mas eu não estava exatamente com medo. Ao contrário das outras pessoas, eu acho que cemitérios são lugares de recomeços e não de fins, pois todo fim é um recomeço. Confuso? Um pouco. Me aproximei das lápides, eram bem velhas e caindo aos pedaços, algumas tinham buracos e como boa fã de Resident Evil eu imaginei mãos saindo dali para agarrar meu pé. Afastei o pensamento com um arrepio.

Diana, mortos não levantam das tumbas, calma aí.

Estavam dispostas em duas fileiras e no centro um pequeno caminho, fui passando e olhando para cada uma delas. Apertei os olhos para as datas, todas indicavam 1623, 1658, 1612... Alguém realmente já deve ter visitado esse lugar? Parece que não. Isso era quase como um patrimônio histórico não descoberto, velho pra caralho. Fui me dirigindo para o fundo do cemitério, onde os túmulos começavam a ficar mais imponentes, com esculturas de mármore e detalhes em ouro.

- Schlafendes kind... - De repente ouvi uma melodia, procurei pelo som e vi a garota dos cabelos negros sentada em cima de um dos túmulos, balançando as pernas no ar e cantarolando algo em outra língua. Parecia alemão.

- Schlafendes Kind, mein süßes Kind. Schlaf den Schlaf, die kommt, ist Papa gegangen und Mama ist nicht mehr hier. — Sua voz era doce e inocente, me trazia certa paz e no fundo era como se eu já a tivesse escutado antes. Fui me aproximando dela devagar, agora a garota me encarava e continuava a cantarolar — Schlafendes Kind, kommt der ewigen Schlaf erwartet Feuer im Dunkeln. (Dorme criança, minha doce criança. Dorme que o sono já vem, papai foi embora e mamãe já não está aqui. Dorme criança, que o sono eterno já vem, o fogo te espera dentro da escuridão. )

Ela estava sentada em cima do túmulo mais alto do cemitério, um metro e meio do chão mais ou menos. Atrás dela, um enorme anjo de mármore ostentava tristemente. As mãos juntas como se estivesse rezando, mas ele olhava para baixo e suas asas desciam caídas até os joelhos. Seus olhos estavam abertos, focados no túmulo, a impressão era de que ele o estivesse guardando, vigiando.

- Elisabeth Linsenbroder — li a lápide em um sussurro — nasceu em 1632, morreu em 1648 — passei os dedos sobre as letras ásperas. A menina havia parado de cantar e apenas me encarava. Quando segurei seu olhar e dei um passo a frente, ela pareceu se assustar e recuou mais para trás, recostando-se aos pés do anjo.

- Não tenha medo. Não vou te fazer nada — assegurei-a. A garota continuou muda.

- Ela era da sua família? — perguntei. Bom, uma tatatatatatatatata...ravó quem sabe, ou talvez ela só gostasse do cemitério em si, era isso que eu iria descobrir. Mas ela não me respondeu, apenas me estendeu a pequena e delicada mão. Eu não conseguia alcançar de onde estava, então coloquei um joelho em cima do túmulo cuidadosamente e com a outra mão me apoiei, ficando quase de quatro. A menina fez menção para eu me aproximar mais. Cheguei mais perto dela e segurei sua mão, ela se inclinou perto do meu rosto e sussurrou.

- É você.

Um grito metálico encheu meus ouvidos e eu senti a estrutura de mármore cedendo, ao mesmo tempo que imagens aleatórias passavam a frente de meus olhos.

Sangue. Sangue. Cruzes. Padre. Água. Muita água. Pouco ar. Gritos. Lágrimas. "Como ela morreu?" "Caiu do penhasco" "Dizem que ela havia morrido duas horas antes de cair"

Minha cabeça girava no escuro e eu senti algo quente escorrer pelos meus lábios e bochechas. Pingou no cadáver, sangue... Espera...

Cadáver.

Eu cai dentro do túmulo e havia um cadáver em alto estado de decomposição bem na minha cara. Um mulher. Eu estava apavorada e não conseguia me mexer. Seus olhos estavam abertos e ela parecia saber que eu estava ali. Meu sangue continuava pingando em seu rosto. E no seu pescoço algo brilhava, cintilando no escuro. De repente eu obriguei meu corpo a me obedecer, mas a única coisa que consegui foi gritar, tão desesperadamente quanto pude, e aí tudo ficou escuro.

Notas finais
Reviews? Recomendações? ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.