Wannabe Cinderela
11 Então é Natal- Parte II
Notas iniciais
–Ok, você pode começar a falar alguma coisa. Qualquer coisa. O elefante está lá na varanda.
–Eu não sei bem o que te dizer, Rachel...
– A tal da Camille está aqui, em Ohio, e você tem certeza de que não tem nada para me dizer? – ela encurralou Finn.
–O que, exatamente, você quer que eu fale e que soe plausível? – ele se irritou. – Ela voltou não sei por quê, não sei como, e... eu realmente...
Rachel e Finn estavam sentados no antigo quarto dele na casa da sua mãe e do seu padrasto. O que era para ser um Natal bonito, animado e divertido tinha se tornado em alguma coisa incômoda e indefinida graças à volta inesperada de Camille, a ex-noiva de Finn.
–Eu vou descer, Rachel. Preciso falar com ela.
Rachel não olhou dentro dos olhos dele, pois estavam marejados:
– Ok. – foi tudo o que disse, afundando na cama após ele bater a porta.
Finn estava totalmente desconcertado com a presença de Camille ali, justo quando ele finalmente conseguira se apaixonar por alguém. Ela esperava-o ansiosa sentada na varanda, e ele sentiu um aperto no peito.
– Oi. Como vai? – ela indagou, assim que o viu.
Seu sotaque francês, seus olhos azuis e sua voz ainda eram tão reais para ele... seu cabelo estava mais longo, mas ainda era de um loiro intenso e natural, brilhante à luz do sol.
– Por que, Camille? – Finn não conseguiu ser ameno para início de conversa: estava muito perturbado com a presença dela.
– Eu posso explicar! Finn, eu... eu não podia mais ficar aqui, meu visto tinha vencido, eu podia ser presa! E, depois, meu pai estava morrendo, eu precisei largar tudo o quanto antes!
–Eu não entendo, Camille! Você não podia ter me atendido? Me ligado? O que diabos passou pela sua cabeça quando me deixou aqui, seu noivo, sem nenhuma explicação?
Ela estremeceu um pouco, tentando conter as lágrimas:
– Eu fiquei confusa. Perdida. Era muita coisa para minha cabeça, eu não conseguia emprego em nenhum restaurante, meu visto estava vencendo, estávamos noivos e sem dinheiro, você também não conseguia arranjar nenhum emprego que nos sustentasse...
–Você sabia que eu larguei a faculdade de música só para poder arranjar dinheiro suficiente? – ele indagou, ainda com um tom de voz machucado. – Eu larguei a faculdade de música, quase não toquei mais com a banda, me mudei para Nova York só por sua causa! Eu queria te dar o céu, se pudesse! E você faz isso comigo? Some sem explicação me deixando no vácuo?!
Rachel ouvia a tudo, pois o quarto de Finn ficava acima da varanda.
– Tô arrasada. – ela disse, ao sentir a presença de outro alguém no quarto. Não precisava perguntar quem era, a única que chegava sem dizer nada e nem fazer barulho era Cassandra.
–Eu sei. Golpe duro, né? – a fada retorquiu.
– Ela é linda, Cassandra. E parece amá-lo tanto que eu fiquei desconcertada. E ele fez tudo por ela, ele a amou de verdade, de um jeito que eu não sei se ele me ama, entende? Como eu vou lidar com isso? Eu, que nunca estive acostumada a perder ninguém? Eu, que tinha tudo e todos aos meus pés?
A fada suspirou. Sabia que aquilo iria acontecer, mas não podia evitar, mexer em uma fissura do tempo era algo proibido para as fadas:
– Você já mudou, Rachel, e é agora que você tem que mostrar para si e para mim que pode passar pelas adversidades da vida.
–Ah, que lindo! “Passar pelas adversidades da vida”!- a morena riu, irônica. – Quer dizer que ficar pobre, virar empregada, levar cantada direto de patrão playboy e ninguém lembrar de mim foi só uma preparação? A ex-noiva e grande amor da vida do Finn tinha que voltar para me dar mais uma motivação para me superar?
Mesmo sob as palavras tão duras de Rachel, Cassandra respondeu impassível:
– Sim, é isso aí.
–Eu me recuso, Cassandra! – vociferou Rachel.- Eu vou embora!
– Vai para onde?! – a fada se espantou.
– Vou pelo menos voltar para Nova York, eu não quero ver ninguém agora.
Rachel passou por Finn e Camille com sua bagagem:
– Eu tô indo, Finn. Não vejo mais clima para ficar aqui, até porque você tem muito o que falar com ela.
–De jeito nenhum! – Finn disse de forma enérgica, segurando-a pelo braço. – Você fica, isso não vai estragar nosso Natal!
– Já estragou, Finn.- Rachel revidou, dura.
–Eu que vou, eu sinto muito por tudo isso. – disse Camille, levantando-se. – Eu acho que escolhi um péssimo momento, mesmo.
– Péssimo momento?! Isso é um eufemismo, minha querida. – Rachel disse, possessa. – Você não podia ter voltado ser fazer esta aparição triunfal no Natal?
Camille encarou os olhos de Rachel:
– Eu juro que não foi minha intenção causar nenhum mal-estar.
– Você, obviamente, devia estar pensando que o Finn ainda estaria aqui, choramingando por você, não é?
–Rachel... – Finn colocou a mão em seu ombro. – Tá bom.
– Tá bom?! – Rachel repetiu, ainda fixando o olhar duro em Camille:
– Eu não sei o que você pensa, mas você com certeza fez isso de chegar aqui, como quem não quer nada, de caso pensado. Eu conheço pessoas como você, e pode ter certeza, estragar o Natal dos outro não é legal. Você não sabe do que eu sou capaz.
Camille ficou parada ainda sustentando o olhar no da outra mulher, com uma expressão indecifrável, até dizer:
– Eu que vou embora, não se preocupe. Talvez, um dia, a gente volte a se ver, Finn. Estarei em Nova York, te esperando.
Rachel teve vontade de pular no pescoço da francesa e dizer muito mais coisa que estava lhe sufocando, mas ela saiu antes que a morena realmente pudesse fazer algo.
Finn e ela ficaram estáticos na varanda, sentindo um vento frio de inverno envolvê-los, como um lamento.
{...}
Após a ceia de Natal na casa dos Hummel-Hudson, os convidados se dispersaram, rindo, conversando e comentando sobre os presentes.
Rachel se distanciou de todos, sentando-se em uma área que ficava atrás da casa. Contemplando a noite com uma taça de vinho tinto nas mãos, ela nunca havia sentido-se daquela forma. Vazia, perdida, triste. Nem quando perdera tudo e ficara vagando pelas ruas se sentira tão desolada como daquela forma. E tudo porque percebia, límpido como água, que o que parecia sólido não era ainda muito frágil.
–Encontrei a garota que adora fugir.- comentou Finn
– É uma padrão, talvez.- ela respondeu.
Ele sentou ao seu lado e também trazia uma taça de vinho, que bebeu um pouco antes de dizer:
– Você não precisa ficar assim, Rach. Eu estou com você.
–Por que você não me falou sobre a faculdade de música? Sobre ter seguido para Nova York só por causa dela? De repente, eu sinto que você pulou esta parte porque ainda não estava pronto totalmente para falar dela.
Finn respirou fundo e olhou-a bem:
– Camille foi muito importante para mim. Por ela eu fiz o que não cogitava antes, por ela eu me joguei num amor que eu não sabia onde ia dar, mas você viu, ela não aguentou, foi embora.
– Eu espero que eu possa chegar aos pés dela. – Rachel disse cheia de sarcasmo.
– Escuta, Rachel. – Finn deixou seu vinho de lado e abraçou a cintura da namorada. – Eu te amo. Eu amo tudo em você, tudo o que vivemos, como quando estávamos vindo para cá e você me pediu para a gente fazer novas lembranças, lembra?
–Lembro. – ela sussurrou.
–Então, você não precisa temer! A Camille foi importante para mim, mas estamos aqui, eu e você, construindo novas lembranças.
Rachel o abraçou e ficou lá, apertada junto a ele. Ela queria acreditar que as suas lembranças fossem mais fortes que as que Finn tinha de Camille.
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