Wannabe Cinderela
23 Ainda mais Cinderela
Notas iniciais
Ainda um pouco abalada por ter visto Finn, Rachel entrou na sala de Quinn, seguida por esta, que fechou a porta atrás de si e perguntou sem rodeio:
– O que você quer? Vou contatar seus advogados sobre a rescisão de contrato, para que você possa logo procurar outra empresária.
–Quinn, eu... eu vim te pedir desculpas, e reconhecer todas as minhas péssimas atitudes. Eu sei que errei muito, que fui grosseira, mas não posso imaginar melhor pessoa para ser minha empresária que você.
A loira ficou visivelmente perturbada e se sentou:
– Como é? Quem é você e o que fez com a Rachel Berry?!
A artista reiterou:
– De verdade, Quinn, eu sou uma nova pessoa, disposta a reparar todas as inconsequências e falta de caráter que tive.
– Você mudou assim, do nada? De ontem para hoje, num passe de mágica? – a empresária franziu o cenho.
“Passe de mágica”, Rachel sorriu para si mesma, “você nunca iria acreditar se eu te contasse”.
– Olha, Rachel, eu estou confusa e muito surpresa com a sua visita. – Quinn ponderou. – Mas eu nunca tinha te visto pedir desculpas e ser tão humilde como agora. Eu aceito continuar sendo sua empresária.
Pega de surpresa, ela mal registrou o momento em que Rachel e engolfou em um longo abraço:
– Obrigada, isso significa muito para mim. – disse a morena.
– Bom. – disse Quinn, também emocionada. – Você não devia estar gravando cenas externas para a sua nova série?
–Ah, eu... – Rachel nem sequer lembrava que um dia tinha aceitado o convite para estrelar uma série. – Você pode cancelar este trabalho? Não quero mais fazer isso. Aliás, desmarque tudo o que eu já tinha ficado por fazer. De repente, nada dessas coisas fazem mais sentido para mim.
–Mas, Rachel! – Quinn exclamou estupefata. – Você tem alguns contratos milionários em jogo!
–Dinheiro não é tudo. – Rachel mostrou-se calma e resoluta. – Eu quero fazer algo mais orgânico, que tenha mais a ver comigo. Chega de ser uma bitch. Que tal mostrar que nesse peito também bate um coração?
Quinn balançou a cabeça, incapaz de não se assombrar com aquela nova Rachel à sua frente.
Quando a artista chegou em casa, deparou-se com um convite mandado pela sua gravadora: haveria uma espécie de “baile de gala” em comemoração aos cinquenta anos que a empresa estava fazendo, em que o uso de roupas black-tie e máscaras era obrigatório. Ela ficou pensando se finalmente voltar a desfrutar de um momento de luxo depois de tanto ter batalhado como doméstica seria bom.
{...}
Finn jogou as chaves sobre a pequena mesa de vidro e se sentou no sofá. Com o dinheiro adiantado por Quinn, pelos primeiros shows que estavam fazendo, ele e Puck alugaram um apartamento em Manhattan. Ele estava se sentindo desconcertado: conhecera a famosíssima estrela Rachel Berry no escritório da empresária e sentiu uma conexão inexplicável naquele olhar que trocaram. Era quase como se... era como se eles se conhecessem de outra vida. Reparou em um convite que estava ali por perto, parecia vindo da sua gravadora.
Foi retirado dos seus devaneios quando Camille surgiu vinda da cozinha:
– Oi, amor. – ela sorriu. – acabei de fazer espaguete. – ela mostrou a travessa em mãos.
– O que você tá fazendo aqui? – ele indagou.
–Ué, eu pensei que...
– Camille, eu acho que a gente precisa conversar. – Finn levantou-se. – O que há entre nós? Nós namoramos? Ficamos? Eu não entendo por quê estamos juntos. Na verdade, eu não lembro a razão disso tudo.
–Nós nos amamos, Finn, e... – o tom de voz da chef começou a ficar mais agudo.
– Eu não lembro de te amar! – ele estourou. – Por favor, Camille, não faz sentido isso aqui. – ele apontou para si e para ela. – Eu espero que você entenda, eu não quero mais isso. Seja lá o que isso for.
– Finn! – ela berrou, lágrimas começando a jorrar de seus olhos, jogando a travessa no chão. Voou macarrão e molho para todo o lado. – Eu amo você!
– Não, não ama! – ele revidou. Depois, mais controlado, ele levantou o queixo da francesa e disse com calma – Você ama a ideia de nós voltarmos a ter o que existiu entre nós. Só que, a partir do momento em que você sumiu, tudo acabou. Seja feliz, siga seu caminho.
Camille saiu dilacerada, chorando, sem ligar para a cara dos outros na rua estranhando aquele comportamento. Chegou no apartamento que alugara para si e desabou em um choro convulsivo, desesperado.
– Holly! – ela começou a gritar. – Onde você está, sua fada estúpida?!
Segundos depois, Holly surgiu:
– Quem é fada estúpida?
– Você! – Camille vociferou. – Sua poção foi um fiasco, o Finn me deu um fora!
A fada fez uma careta de ódio:
– Eu realmente não fiz a receita direito. – ela admitiu. – Troquei um ingrediente importante sem perceber. Mas você também é muito incompetente! Eu o afastei da Rachel, o que custava você saber seduzi-lo? Eu estou tão perto de ser nomeada chefe das fadas no lugar da Sue, que vai se aposentar, eu não posso perder este cargo para a Cassandra!
– Você não tá nem aí para mim, não é? – a chef falou sombriamente. – Só aceitou me ajudar porque tem suas próprias ambições em jogo.
– Não seja idiota, você sabia como as coisas seriam desde o começo!
– Eu estava louca para ter o Finn de volta! Você me usou, você não presta!
– Você, muito menos. – Holly desdenhou. – É preciso valer muito pouco para correr atrás de um homem que não te quer mais.
Camille foi para cima da fada, pronta para arranhar a cara dela, mas Holly estalou os dedos e apareceu noutro ponto da sala do apartamento:
– Eu vou contar tudo para as outras fadas! Você vai pagar caro, Holly!
– Eu duvido que você consiga me atingir. – a fada revidou.
“Não duvide, você não sabe do que uma pessoa com raiva e dor é capaz”, Camille pensou, tendo uma ideia do que poderia fazer para desbancar Holly e se vingar do que ela havia feito.
{...}
Rachel estava ainda brincando com o convite em suas mãos quando sentiu uma presença atrás de si e virou-se rapidamente:
– Cassandra! – ela guinchou. – Meu Deus, que susto!
–Oi. – a fada a cumprimentou, mas não estava sozinha. – Esse é o Will, um duende.
Rachel analisou o duende. Era um homem de orelhas levemente pontudas, mas muito bonito, de cabelos castanhos encaracolados ( na verdade, parecia o irmão mais velho do Justin Timberlake).
–Prazer. – ele disse sorridente.
–Han... – Rachel pigarreou. – Eu pensei que duendes fossem pequenos. E verdes.
– Aham, e que só existiam fadas com vestido cor-de-rosa bufantes como se tivessem saído de uma festa brega de quinze anos e que usassem varinhas de condão, não é? – Cassandra retrucou. – Ele vai nos ajudar a descobrir uma forma de você quebrar o feitiço imposto pela poção da Holly sobre o Finn.
– Sério?! – Rachel ficou animada. – Como?
– Pelo o que a Cassandra me relatou – Will começou – a poção não parece ter saído cem por cento. É bem provável que a Holly não tenha acertado a medida certa do alecrim encantado que é colhido apenas de dez em dez anos numa colina da Escandinávia, ou ter sido ludibriada.
–Hein? – Rachel estava boiando.
– É um produto raríssimo. – ele continuou. – Ou a Holly errou na medida, ou foi enganada pelas bruxas do mercado de especiarias. As bruxas de lá detestam as fadas, principalmente quando elas se metem a fazer os feitiços delas; daí, devem ter vendido o alecrim irlandês, que é mais abundante e que pode até entrar na poção do amor da bruxa Morine, da Força do Elo, mas não funciona com eficácia. No máximo, a pessoa que toma a poção não lembra do que sente por outra que ele verdadeiramente ama, mas ele continua amando-a... fui claro?
– Hum, acho que sim. O Finn me pareceu desse jeito, sabe? É mais como se ele não conseguisse lembrar, mas eu acho que ainda sente algo por mim.
– E você tá disposta a lutar por ele? – Cassandra foi incisiva. – Agora você tem a sua vida de volta, tudo é diferente. Nós podemos fazer o possível, o que estiver ao nosso alcance, Rachel, mas só se realmente você quiser.
–É CLARO QUE EU QUERO! – Rachel se exasperou. – Meu Deus, Cassandra, eu amo aquele homem! E, além do mais, não podemos deixar a Holly se dar bem em cima de você!
A fada deu de ombros:
– Se ela conseguir se tornar a chefe das fadas, eu terei minha consciência tranquila. Vou saber que ela só conseguiu isso por trapacear. O que está em jogo aqui é você.
– Puxa, Cassandra... você abriria mão de ser a chefe das fadas por uma decisão minha?
A fada se empertigou:
– Com certeza. Sabe, Rachel, eu venho de uma linhagem tradicional do mundo mágico. Fui ensinada desde cedo que a honra e o bem estar da missão estão acima das nossas ambições pessoais.
– Pois eu quero quebrar esse feitiço e fazer você ocupar o cargo que merece. Vamos destroçar essa Holly Hollyday!
{...}
Algumas horas depois, Rachel estava sendo conduzida na limousine para o baile de gala ao lado de Cassandra e Will, de quem recebia as últimas instruções:
– Você só pode ficar até à meia-noite, entendeu? Esse sapato que nós te demos está encantado. Finn precisa pegá-lo para que venha até você depois. Ele tomar a iniciativa é importante para sabermos o quanto ainda se interessa por você.
– Sério? Hoje eu vou viver meu dia de “wannabe cinderela”? – Rachel debochou.
– Ai, minha tia teve muito trabalho com ela. – comentou Cassandra.
– Como assim?! A Cinderela existiu de verdade? – Rachel tomou um susto.
– Sim, minha tia Clarice foi a fada dela! Titia sempre nos contava o quanto aquela garota era songa-monga e que teve que empurrá-la para a festa. Este feitiço que usamos no seu sapato, aliás, é o mesmo que tia Clarice usou no da Cindy. Ou esse Finn te ama, mesmo que ainda não saiba tal qual o Príncipe Encantado, ou a gente tá ferrado.
Finn e os rapazes da DSB estavam muito surpresos por mal terem sido contratados e já estarem em uma festa como aquela. Só estavam um pouco travados porque, além de ainda não serem enturmados com gente do showbizz, ainda deveriam estar usando máscaras e smoking. Pelo menos, o ex-motorista sentia-se mais contente, porque se livrara de Camille, e o calor que irradiara dos olhos de Rachel Berry naquela manhã, perscrutando os seus, ainda estava aquecendo seu peito.
Será que ela estaria ali? Eles agora eram da mesma gravadora. Finn nunca tinha demonstrado interesse na artista, mas, agora, não conseguia parar de pensar nela.
Aproveitando que estava sozinho, pois seus amigos se dispersaram com seus respectivos pares (Puck com Quinn; Sam com Mercedes e Artie com uma fã com quem estava saindo, Sugar), Finn foi para a pista de dança. Era péssimo em dançar, mas ele queria se distrair. Correu os olhos pelo local e viu uma morena linda, em um vestido longo, azul royal, justo ao corpo e com um profundo decote nas costas. Aproximou-se dela, como por magnetismo. Ela sorriu e eles encaixaram seus corpos em uma dança sensual, como se as batidas da música estivessem guiando suas ações.
–Você é linda, sabia? – ele sussurrou em seu ouvido, segurando com firmeza sua cintura.
– E você é o mais lindo de todos, Finn. – ela falou, também sussurrante.
– Você sabe quem eu sou? – ele ficou surpreso, afinal de contas, não era famoso ainda, e também estava com máscara.
– Eu reconheceria você em qualquer lugar.
Ficaram dançando com os corpos bem juntos, até começar tocar With or Without you, do U2.
A morena sentiu o mundo girar quando ele baixou o rosto e beijou-a com fogo e entrega, apaixonado, enquanto a voz do Bono ecoava e o mundo parecia desaparecer ao redor.
– De onde você saiu? – ele perguntou ainda com os olhos enuviados pelas descargas elétricas que perpassaram seu corpo.
–Me beija, por favor. – ela pediu, puxando-o para si e enterrando os dedos na nuca dele, louca por mais.
Como não conseguiam parar de se beijar, foram para uma área privada. Agora, a morena estava sentada sobre o colo dele; a gravata de Finn estava torta e seu rosto e o colarinho cheio de marcas de batom, mas ele não se importava, porque ficar com aquela mulher parecia tão certo, como se sua mente ainda não tivesse lembrado quem era ela, mas seu coração sempre soubesse disso.
– Eu quero ver seu rosto direto. – ele gemeu, mas ela se desviou de suas mãos.
Então, o celular que ela tinha guardado na clutch que trazia consigo tocou um alarme:
– Ai, meu Deus, já é meia-noite! – ela quase gritou, saindo do colo dele, às pressas.
– Espera, onde você vai? – Finn perguntou, aturdido.
Ela saiu correndo, e ele foi atrás; no entanto, ela, por ser pequena e rápida, lhe escapara em meio a multidão na festa. Apenas um sapato quase tão fino e delicado, como se fosse de cristal, ficara como um rastro. Ele tinha que saber quem ela era, e faria de tudo para encontrá-la novamente.
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