Wannabe Cinderela
18 A Força do Elo
Notas iniciais
Após um instante confuso, Finn desvencilhou-se de Camille:
– O que foi? – ela perguntou.
Finn passou as mãos pelo rosto, exasperado:
– Eu não consigo fazer isso, Camille. Não agora.
Ela segurou suas mãos nas dela:
– Eu ainda amo você, sabe disso! Por que não vamos embora? Podemos refazer nossas vidas de onde nós paramos!
–Meu Deus, por favor! – ele praticamente implorou. – Eu tive uma briga horrível com a Rachel, ela terminou comigo, você fica me pressionando... eu lembro do que sofri quando você foi embora... mesmo tendo motivos fortes, eu ainda não digeri direito o fato de você não ter confiado em mim, não ter sequer me dado notícias. O show mais importante da DSB é daqui a dois dias, eu não tô aguentando tanta pressão!
Camille suspirou, acuada:
– Tudo bem, Finn. Mas, quem sabe o fato de a Rachel ter terminado com você não seja um sinal do destino para que nós fiquemos juntos?
– Eu não quero saber de sinais do destino ou de coisa parecida. – ele revidou. – Eu só quero ter tempo para entender e organizar meus sentimentos. Não vou dar nenhum passo antes de ter certeza.
{...}
Cassandra surgiu no quarto de Rachel quando ela estava preparando-se para dormir naquele fatídico dia. Ela estava tão acostumada a ficar no apartamento de Finn, a dormir aconchegada nos braços dele, que só a ideia de deitar-se sem ele ao seu lado já a deprimia mais ainda.
– Que surpresa. – ela comentou sem ânimo. – Duas visitas em um mesmo dia, Cassandra?
– Fazer o quê, eu evito ver sua cara o máximo que posso, mas desta vez a coisa ficou muito séria. – respondeu Cassandra, estalando os dedos e fazendo surgir um livro enorme e antiguíssimo.
– Você vai ler uma historinha para eu dormir? – perguntou Rachel, sarcasticamente, enquanto passava um creme nas mãos.
– Vou contar uma historinha linda sobre como a missão de uma fada-bota-na-linha foi parar no limbo após não calar a boca e parar de falar gracinhas. – a fada se irritou.
Rachel fez uma careta para Cassandra e sentou-se defronte a ela:
– Vai, manda logo qual é a desse livro.
–Eu estava pesquisando e percebi que a Holly pode, provavelmente, estar infringindo vários regulamentos do Estatuto das Fadas. A maior infração de todas deve ser uma que tô imaginando ser muito séria. Esta aqui. – a fada abriu numa página e apontou uma imagem de uma mulher caquética vestida com roupas negras.
– Esta aqui é uma bruxa? – Rachel indagou.
– Sim. Essa era Morine, uma bruxa que inventou vários feitiços e poções de amor e amarrações durante a Idade Média. Morine era a bruxa mais famosa da França nesse tipo de assunto... ela criou o feitiço da “Força do Elo”.
–Espera, mas se vocês são fadas... como estão metidas com bruxas? – perguntou Rachel.
–Vocês, vírgula! – Cassandra corrigiu. – A Holly está envolvida com magia bruxa, e eu preciso provar isso para impedi-la e, de quebra, enquadrá-la de acordo com as leis das fadas!
–Você tem certeza de que ela tá usando bruxaria para ajudar a Camille a ficar com o Finn?
Cassandra balançou a cabeça:
– Não. Mas eu tenho suspeitas! Esse feitiço da “Força do Elo” ajuda a enfraquecer ou fortalecer o elo que o amor cria entre as pessoas. No caso, ela estaria fazendo as duas coisas ao mesmo tempo.
Rachel levantou-se e coçou a nuca:
– Olha, eu sei que magia existe... ô, como sei. – ela afirmou. – Mas isso já tá me parecendo esdrúxulo demais! A Camille ser ajudada por uma fada que é sua concorrente... essa tal fada estar usando mágica de bruxa... o Finn estar agindo sob um feitiço de amarração...
Cassandra fez o livro sumir e reiterou:
– Rachel, lembra de uma frase que eu te disse uma vez? Do Shakespeare? “Existem mais coisas entre o Céu e a Terra do que supõe nossa vã filosofia”?
A empregada fez um aceno de cabeça, confirmado.
– Magia está em todo lugar! Duendes, fadas, bruxas, tudo isso está por aí, vocês humanos comuns é que não percebem. E sim, existe uma possibilidade real de a Camille estar usando este feitiço da Morine, ou vir a usá-la em pouco tempo. Não é a primeira vez que ela usa recurso bruxo.
–Por que ela te odeia tanto, Cassandra?
– Nós nos detestamos desde que nos conhecemos. Fizemos treinamento de fadas juntas, sempre concorríamos entre si, para ver quem era a melhor. Na nossa primeira missão, eu fiquei com o trabalho que ela queria, recebi muitas glórias, fui até condecorada... ela sempre teve inveja de mim.
– O Finn... o Finn pode estar mesmo enfeitiçado? – Rachel perguntou, insegura.
– Ainda não. Meus sentidos de fada ainda não detectaram presença de magia densa como esta. Mas ele poderá ficar, à medida que se aproxima da Camille e se distancia de você.
– E o que eu posso fazer?! Como vou me reaproximar dele assim?
– Infelizmente, eu não sei. Mas, lembre-se: quanto mais longe do Finn você ficar, mais próximo de fortalecer o elo dele com a Camille o Finn estará.
{...}
Acordar sem Finn, tentar se reaproximar dele, chegar à mesa na cozinha, na hora das refeições dos empregados e, mesmo assim, sentir-se como se ela e Finn estivessem em polos opostos estava deixando Rachel à beira de um ataque.
Por isso, desastradamente, distraída em suas próprias angústias, ela não viu na hora em que seu patrão se dirigia à quadra de tênis e quase o derrubou em um esbarrão:
–Oh, sr. Benson, me desculpe! – ela pediu, atabalhoada, quase derrubando um balde cheio de produtos de limpeza.
–Calma, garota! – o patrão riu. – Você estava muito distraída.
–Desculpe. – ela repetiu. – Só... só estou com a cabeça cheia de coisas.
–Bom, preste mais atenção por onde anda. – Charles Benson disse, dirigindo-se à quadra, mas Rachel deu algumas passadas e se aproximou dele de novo:
– Senhor, eu devo lhe dizer muito obrigada por ter dado a folga para os garotos. O senhor não têm ideia do quanto isso foi importante para eles. – dizendo isso, ela simplesmente abraçou-o, com sinceridade.
O homem retribuiu, um pouco desconcertado, mas ainda sorrindo, disse:
– Ah, eu tenho ideia, sim. Tenho ideia de que vou precisar de um novo motorista e de uma novo jardineiro e limpador de piscinas, porque os que tenho agora vão se tornar estrelas.
Rachel sorriu e foi cruzando o jardim, rumo à lavanderia, quando Finn a parou:
– O que você tava fazendo abraçada com o senhor Benson?
– Nada de mais. – ela decidiu desconversar, porque não diria a ele sobre a conversa que tivera com o seu patrão. – Ele foi apenas muito gentil comigo.
– Primeiro o filho, agora o pai. Parece que os homens dessa família são meio obcecados por você. – ele provocou, ferino.
– Desculpe?! – ela arregalou os olhos. – Você tá insinuando o quê?
Finn começou a falar alto, com fúria:
– Um dia, você termina comigo, no outro, te pego cheia de abraços e conversinhas com o patrão, ora, Rachel...
–O quê?! Finn... eu... – ela perdera a fala, perplexa. – Eu não tô tendo nada com ele!
–Quem me garante que você não é só uma vigarista, caçadora de ricaços que inventou aquilo tudo de se jogar na frente do meu carro só para eu te trazer aqui e...
Finn parou de falar porque, mesmo com sua baixa estatura, Rachel conseguiu levantar a mão e tacar um tapa na cara dele:
–Escute aqui, eu sei bem como mulheres assim agem, e eu posso lhe garantir que nunca ter um caso com o patrão esteve nos meus planos! Aliás, se eu fosse uma interesseira querendo dar o golpe do baú, eu teria me envolvido com o motorista? Você sabe bem porquê nós terminamos!
– Eu só não suporto te ver assim com outro cara! – Finn gritou, fora de si. – Eu não aguento isso, Rachel!
–Eu é que não aguento essa sua indecisão! – ela esbravejou, e saiu correndo, deixando-o lá, ainda confuso, raivoso, triste.
Rachel correu e chorou escondida no banheiro dos fundos da casa. Era como se estivesse chorando por todas as dores que causara nos outros, pelos sofrimentos que tinha feito os outros passarem quando não ligava a mínima para os sentimentos das pessoas ao seu redor. Agora, ela certamente sabia o que era sofrer por alguém, o que era ser tratada de forma injusta, o que era ser honesta e só receber ingratidão.
À noite, na hora do jantar, Puck e Finn anunciaram que tinham ingressos para o show que fariam a dali a dois dias no festival de música; deram um para cada amigo, e Puck, sendo gentil e percebendo como Finn e Rachel estavam de mal, entregou um para a amiga. Ela não falou nada, apenas guardou o pedaço de papel, apática.
Quando acabaram de comer, Kurt, Santana, Mercedes e Puck se aproximaram dela:
– Hey, que tal uma noite de filme lá no meu quarto, hein? – perguntou o mordomo, tentando reconfortá-la.
– Acho que só preciso ir me deitar, mesmo. Valeu. – ela agradeceu, forçando-se a sorrir.
–Eu sabia que aquela francesa ia melar geral para vocês. – Santana balançou a cabeça.
– Tem certeza de que não quer mesmo ficar um pouco com a gente? – insistiu Mercedes.
– Tenho, gente. Obrigada pelo apoio, mas agora eu só preciso ir descansar.- respondeu Rachel.
Ela se retirou e foi para o seu apartamento. Finn estava parado na sua porta:
– Você bateu forte.
– A raiva me impulsionou. – ela murmurou.
–Eu não deveria ter dito o que disse. – ele confessou.
Rachel lembrou-se do que Cassandra lhe disse sobre o elo: era preciso ficar perto de Finn para fortalecê-lo... mas como, se ele a tinha machucado tanto?
– Eu estou envergonhado pelo o que disse hoje mais cedo. Mas entendo sua posição, Rachel. Eu só estou muito confuso.
Ela sentiu seu coração pular uma batida ao vê-lo tão triste daquele jeito:
– Eu só queria muito que você soubesse... que tudo o que sinto por você não é e nunca foi mentira. Que eu te amo mais do que já amei alguém na minha vida. – ela e Finn ficaram se encarando, a dor cintilando nos olhos deles. – Eu não vou apagar o que você teve com a Camille, mas eu quero que você saiba que eu te amo, muito. – Rachel terminou, beijando-o com doçura, dor, lágrimas.
Ele a rodeou pela cintura, naquele encaixe tão perfeito.
Rachel não sabia como lutar contra um feitiço, mas parecia que o amor era a magia mais poderosa de todas.
Fale com o autor