Wanna Play?
1 Alli - Arranjando um emprego de meio período
Notas iniciais
Da primeira vez que o vi, ele estava no mesmo lugar que está agora — pegando um controle e selecionando seu personagem favorito. Naquela vez, há um ano atrás, foi por acaso. Eu só tinha pegado um caminho alternativo pra ir pra casa. Foi naquela hora que o vi pela primeira vez, e ,desde aquele dia, nunca mais tomei outro caminho quando voltava da escola.
O seu companheiro de jogo logo chega e seleciona outro personagem, com um ar cansado, mas logo os personagens começam a se espancar e os olhos de ambos se preenchem de concentração na partida. Os dois sorriem e de vez em quando soltam uma ofensa ao outro, que dá o troco no jogo. Parece ser bem divertido.
Daqui deste banco, tem-se uma boa visão da loja de jogos onde os dois trabalham — jogos enfileirados em uma organização impecável, chão branco de azulejos brilhantes, videogames suntuosos em vitrines de ótimo acabamento e, é claro, ele.
– Eu venci! – declara ele. – Então é você quem limpa o chão hoje.
– Que injusto – diz o companheiro em uma voz baixa, tão quase inaudível que nem parece um protesto.
– Vitória é vitória! Quer uma revanche? Prometo que pego leve dessa vez.
Ele sorri e fico feliz. Sempre torço pra ele, de uma maneira ou de outra. Levanto do banco e limpo a saia. Enquanto dou os primeiros passos para continuar a caminhada pra casa, resolvo dar uma última olhada para a loja. Lá está ele, olhando pra mim com a boca aberta, como se estivesse com as palavras na ponta da língua. O silêncio continua por alguns segundos até que as palavras finalmente saem:
– Quer jogar?
Sinto uma gota de suor descer bem lentamente da testa até o clavícula. Minha garganta seca e sinto as batidas do meu coração nas minhas têmporas. Queria que algo quebrasse esse silêncio.
– O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO, DESGRAÇADOS?
Sua face se enche de uma expressão de terror e seu companheiro parece mais assustado ainda. Logo e, seguida, passos pesados anunciam a presença da fonte da voz – uma garota de cabelos negros na altura dos ombos, óculos e com a mesma camisa da loja que eles usam. É uma garota bastante bonita, mas a maneira com a qual falou é realmente assustadora.
– Calma, Emily! – diz ele, fazendo um sinal de pare com a mão. – É a hora do almoço e...
– G-E-R-E-N-T-E! Me chame de "gerente", entendeu?
– Tá, tá! Mas...
– A hora do almoço significa que vocês têm que estar almoçando, droga! Sem "mas"! – A expressão de Emily assume um caráter furioso.
– Você anda muito estressada desde que saiu do colégio! Por favor, se acalme! – tenta ele novamente.
– Videogames não enchem a barriga de vocês, droga! Vocês querem morrer? – Não funciona.
O outro rapaz que jogava com ele, um pouco mais baixo e de cabelos e olhos castanhos, treme cada vez mais violentamente à medida que a tensão aumenta. Sentindo que é a minha deixa, me aproveito da situação e continuo a caminhada olhando para baixo, tentando disfarçar o constrangimento.
*****
O jantar é a mesma coisa de sempre. Tomo sozinha a sopa que os cozinheiros fazem pra mim. Como sempre, meu pai e meu irmão não estão. Tomo um banho e me jogo na cama. Encaro o travesseiro por alguns instantes e em um ímpeto o abraço, deixando escapar as palavras:
"Eu quero jogar com você."
Cubro a boca com a mão e sinto pouco a pouco a sensação das duas palavras que ele me disse voltarem. Quanto mais penso nisso, mais minha vontade de jogar cresce, e logo me vejo atolada em pensamentos. Quando sinto que não sei mais o que fazer, ligo pra minha melhor amiga, Rahja, e, como sempre, ela me diz para esquecê-lo, que esquecê-lo é melhor e que somente coisas ruins me aguardarão se eu persistir nisso. Dou um jeito de fingir que a ligação caiu.
Me dói ouvir isso. Não consigo esquecê-lo. Uma possibilidade dessas é inconcebível. Passei um ano pensando que somente observá-lo me faria feliz, mas agora que ouvi suas palavras e seus olhos direcionados a mim, estou faminta por mais. Pensamentos voltam a lotar a minha cabeça e me pego pensando numa possibilidade muito maluca. Meu pai não aprovaria de maneira alguma. Mas quem liga? Ele nunca está aqui mesmo.
Levando da cama e corro para a escrivaninha para planejar a loucura que estou prestes a fazer, ignorando todos os avisos de Rahja.
*****
Emily me ligou hoje de manhã. Tenho que passar lá depois da escola, como sempre faço, mas à medida que vou me aproximando do local, sinto minhas pernas tremerem e tropeço duas ou três vezes. Quando tomo coragem para aparecer em frente à loja, suspiro aliviada por ver que ele não está lá.
– Chegou mais cedo do que eu esperava, Alastria! – Reconheço a voz de Emily que ouvi pelo telefone e me viro em direção a ela.
– Ah, sim. Eu estava meio ansiosa – digo, coçando a cabeça e tentando afogar o meu nervosismo soltado uma pequena risada.
– Venha, vou te mostrar a loja.
Ela me leva para o lado de dentro, me apresentando as seções da loja. A voz dela parece bem animada e alegre hoje, ao contrário daquele dia. Estranho a maneira que ela se refere aos aparelhos de videogame — consoles– e aos jogos — videogames, raramente falando games. Sempre pensei que videogames fossem os aparelhos em si, mas agora estou feliz de ter aprendido o termo correto, pois vou precisar.
Olho em volta e me absorto em pensamentos novamente. Todos aqueles games e consoles são tão coloridos e bonitos, mas tudo parece tão vazio sem aqueles olhos cor de mel e aquele cabelo loiro. Pergunto a mim mesma onde ele está tantas vezes que esqueço Emily falando sozinha.
– Ei, Alastria!
A voz dela me tira do transe de surpresa, me assustando um pouco.
– Pois não, gerente?
– Emily está bom. Gostei de você. Você parece curtir o lugar, mas não parece do tipo do tipo que gosta de jogos. Você tem algum interesse em especial aqui?
– Eu tenho alguns... interesses... – Me pego pensando nele antes que perceba, mas me esforço ao máximo para não cair num transe e completar mais a resposta: – Mas eu gosto de jogos!
– Gosta, é? – Ela ergue uma sobrancelha e a imagem da Emily intimidadora daquele dia volta à minha mente.
– Sim, eu não... desgosto deles. – Não consigo evitar de sorrir ao pensar nas vezes que vi ele jogando e sinto o meu rosto ficando quente.
– Isso é bom! – A expressão intimidadora some e dá lugar a um sorriso de orelha a orelha. — Meu pai gosta de gente assim!
– Seu pai?
– Sim, o dono dessa loja. – A maneira que ela fala isso sai extremamente natural, sem nenhuma intenção de se gabar.
– Onde ele está?
Seu rosto fica extremamente sério e ela parece estar buscando uma resposta.
– Ocupado, eu presumo? – diz ela, sem mais nem menos. Então após alguns segundos de silêncio começa a rir. – Venha, vou te mostrar as pessoas que trabalham aqui.
A parte que eu mais esperava não parece mais tão assustadora assim, mas a ausência dele me causa insegurança. E se ele tiver sido despedido? E se tiver sido por minha causa?
– Este aqui é Geniard Hernandéz, mas todos o chamam de Geez – diz ela indicando com a mão o rapaz que estava tremendo naquele dia.
Ver Geez me deu um pouco de alívio, mas a ausência dele ainda me incomodava.
– Muito prazer! – disse, tentando sorrir o mais docemente possível.
Ele não respondeu. Logo virou o rosto para uma caixa e voltou a organizar os jogos.
– Não se preocupe. Ele só é tímido. Logo ele se acostuma com você – diz Emily, tentando amenizar a tensão.
Decido confiar nela e olho ao redor para procurar por ele. Não acho o que procuro, mas noto uma porta preta estranha na parte mais interna da loja.
– Que porta é aquela? – indago. Emily parece surpresa pela pergunta.
– Ela é... — Ela parece tão confusa quanto quando perguntei pelo seu pai. — Não entre lá. Ignore-a por enquanto.
A expressão dela permanece séria por alguns instantes, mas logo ela recupera o bom humor e tenta disfarçar a situação:
– Não é nada perigoso – ela ri. – Se está procurando o banheiro, é bem aqui à direita.
– Deixando o banheiro de lado, gostaria de conhecer o resto dos funcionários.
– Eu já falei que gostei de você? Gosto como você é direta. – Ela passa os olhos na loja com um olhar preocupado e ajeita os óculos. – Ainda tem o... – ela pausa – Caramba! Cadê aquele irresponsável? – e então explode de raiva.
– Ouvi me chamarem? – Reconheço a voz vinda do lado de fora da loja e logo minhas pernas voltam a tremer.
Ele entra com uma caixa de console debaixo do braço e a deixa no chão bem à nossa frente. E então começa a arfar freneticamente. Ainda bem que força não é o que me atrai nele.
– Que bom que reconhece suas desqualidades! – fala Emily, se dirigindo ao rapaz que eu tanto queria conhecer.
– Esse fracote aí é Dianiel Scherb. Todos chamamos ele de Dian.
Ele se dirige ao bebedouro sem nem me notar e à medida que ele bebe àgua, minha garganta seca. Depois de três copos, ele reponde a Emily:
– Dian, por favor! Você sabe que eu acho meu nome estranho!
– Pois bem, Dian. Essa é a sua aprendiz, nossa nova vendedora.
Ele crava os olhos em mim e vem em minha direção. Vejo-me presa no mesmo transe do seu olhar.
– Você é a garota daquele dia! – Ele parece surpreso e sai correndo e volta em poucos segundos com uma camisa amarela nas mãos e a estende em minha direção sorrindo. – Prazer em conhecê-la!
Olho para a camisa e então para o rosto dele. Pego a camisa e dou o sorriso mais doce que já dei até agora. Antes que pudesse retribuir o cumprimento, ele continua:
"Sabia que você queria jogar!"
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