Wanna Play?
2 Dian - Primeiro dia com a novata
Notas iniciais
Quando soube que teríamos uma nova funcionária na loja, fiquei bastante animado. Seria ótimo ter mais uma garota no time. Quem sabe isso melhoraria o humor de Emily, que anda estranha desde que saímos do colégio, provavelmente por causa do peso da responsabilidade sobre ela.
Eu, ela e Geez, um dos nossos companheiros de trabalho, éramos colegas de classe e nos formamos juntos no Ensino Médio há dois anos. Alguns dias depois da formatura ela resolveu subitamente cuidar da loja, me convidando para trabalhar junto, e eu sugeri a participação de Geez, que ela aceitou com alguma relutância.
A loja chamada Funnyard Games, criada pelo tio Alexander Funnyard, pai de Emily, sempre foi amada pelas crianças das redondezas. Eu mesmo o considerava um pai. No começo era somente uma loja de cartas, daquelas de Card Game* ou coleções, mas em tentativas de adequar-se às novas tendências, pouco a pouco foi aberto espaço para fliperamas — moda que não durou muito — e aluguel de jogos, até chegar a uma loja de jogos propriamente dita.
Estranhei no início, pois nunca faltava gente querendo trabalhar na loja. Sei muito bem, pois, como amigo de infância de Emily, dois anos mais velha que eu, sempre ia lá para brincar. Começamos somente com esses três funcionários, e finalmente, depois de dois anos, conseguimos mais alguém.
Eu realmente esperava uma garota bonita, mas não sabia que seria ela. A garota chamada Alastria, de olhos verdes e cabelo castanho, que começou a trabalhar aqui hoje já passava aqui pela frente da loja há tanto tempo que nem me lembro. Na maioria das vezes a presença dela passava tão despercebida que é como se ela sempre estivesse sentada naquele banco em frente à loja. Na maioria das vezes que eu perdia pra Geez, não era por falta de prática, e sim porque olhava pelo canto dos olhos para ela.
Era como se ela sempre pertencesse a esse lugar. E agora ela está aqui a meio metro de mim, abrindo a caixa que acabei de trazer.
– Alastria, pode deixar isso pro Geez. Ele é mais detalhista quando se trata de organização — diz Emily. Ela olha pro relógio em seu pulso e continua: — Hora do almoço. Já almoçou, Alastria? Posso pagar o seu hoje como presente de boas-vindas.
– Não precisa — responde a novata timidamente. — Acho que tomei um bom café hoje.
– Vamos, não seja tímida! — Emily põe a mão na cintura. — Finalmente tenho uma parceira feminina pra conversar!
– Bem, eu acho que...
– Que bom que aceitou.
E Emily sai meio puxando, meio arrastando a garota para fora da loja. Faz tempo que não a vejo animada assim, então não posso evitar de ficar feliz.
– Acho que também devemos almoçar, não é, Geez?
Geez desvia sua atenção da caixa e assente com um sorriso, e nos dirigimos à televisão aonde as pessoas testam os consoles e os jogos.
*****
Jogamos algumas partidas e percebo que Geez está bem animado hoje. Talvez ele também esteja feliz por ter uma nova funcionária na loja, mas logo desisto de perguntar a ele. Ele prefere evitar todos os assuntos que tenham alguma relação com garotas.
Olhando ele desse jeito, pouco me lembra o Geniard mudo de quando o conheci. Faz cinco anos desde então. Foi quando entrei no Ensino Médio. Ele sempre sentava em um dos cantos no fundo da sala e falava somente para responder às perguntas que os professores faziam.
Quando perguntei a Emily quem ele era, ela me disse seu nome e que já tinha ficado na mesma sala que ele nos dois anos anteriores. Tentei me aproximar dele algumas vezes, mas ele sempre ignorava.
Um dia, quando estava cruzando o portão da colégio, ouvi algumas vozes altas vindo do lado de fora. Geez estava cercado por alunos mais novos, porém bem maiores que ele. Eles pisavam em sua bolsa e ele estava de joelhos com a cabeça baixa. Quando pensei em tomar uma atitude quanto a isso, Emily colocou a mão no meu ombro e deu um passo à frente.
– EI, DESGRAÇADOS! — gritou ela, em um tom assustador, e o rostos dos garotos que o importunavam viraram-se na direção dela. — QUE BADERNA É ESSA, CARAMBA?
– Ih, ferrou! É ela! — disse um dos garotos, e o bando logo se dispersou e sumiu em meio aos outros alunos que iam embora.
Emily andou até Geez e disse:
– Levante a cabeça e pare de chorar! Você assim é tão patético quanto aqueles lá.
Geez ergueu a cabeça e mostrou o rosto inchado.
– Caramba, Dian, dá um jeito nesse moleque aqui! Eu tenho mais o que fazer.
Aquela foi a primeira vez que eu vi Emily agir daquele jeito, assim como a primeira vez que tive medo dela. Não pude evitar de pensar por que eles se assustaram com ela daquele jeito e questionar como era o comportamento dela antes de me ter como colega de classe, mas logo tirei isso do pensamento.
Após isso, levei Geez ao banheiro para lavar o rosto e comecei a fazer algumas perguntas sobre ele, que respondia tomando cuidado com cada palavra escolhida, e logo descobri seu interesse por jogos. No outro dia, já conversávamos normalmente, embora Emily nunca tenha dirigido muitas palavras a ele.
– HÁ! HOJE EU VENCI! — declara ele.
– Hoje sou eu quem limpa, então.
– Isso mesmo. E eu venci de lavada! Venci de cinco a três — diz ele. — Você não parece tão concentrado no jogo hoje. — Ele parece preocupado. — Concentrado na novata?
O tom dele foi tão pretencioso que não pude deixar de exclamar:
– Claro que não!
Tentando dar o troco impotunando-o, pergunto:
– O que achou dela?
– É uma boa garota... — diz ele, em tom baixo, enquanto bebo um copo d'água — e bonita...
Engasgo e acabo cuspindo toda a água do copo ao exclamar:
– O QUÊ?!
– Qual é? Você não achou? — Ele parece mais pretencioso do que surpreso com a minha reação.
– Não estou falando disso. É a primeira vez que te ouço falar que uma garota é bonita.
– Vai dizer que não achou? — Sinto uma profunda vontade de ignorar esses cinco anos de amizade e esganá-lo quando ele diz isso.
– Que seja! — tento disfarçar — Vamos mais uma? Só pra descontrair?
– Não mude de assunto!
– Você vai perder essa! — digo, selecionando meu personagem.
– Ei, me espera!
Sabia que ele não ignoraria o desafio.
O jogo que estamos jogando é bem simples. É um jogo de luta entre até quatro personagens, que lutam cada um por si em uma arena. Geralmente utilizamos somente dois, pois não gostamos dos CPUs* se intrometendo entre nós. O jogo não possui uma barra de vida, e sim um medidor de porcentagem para cada personagem. Quanto mais a porcentagem sobe, mais o personagem sofre impacto pelos golpes e mais fácil é ser jogado para fora da arena, que, no caso, significa perder uma vida. Sempre jogamos partidas com três vidas pra cada; dessa forma, as partidas sempre duram de 3 a 5 minutos.
O jogo também conta com o modo de batalha em times, possibilitando batalhas 2x2, 1x3 e 1x1x2*, que, no caso, não jogamos muito, pois estamos mais acostumados a jogar um contra o outro do que cooperando.
– Venci de novo! — diz ele, se gabando. — Você deveria parar de pensar na novata e se concentrar no jogo, Dianiel.
– Eu já que não gosto des...
– Olá...
Dou meia e volta e lá está Alastria. Espero que ela não tenha ouvido o que Geez falou, mas ela não estava com a...
– VÃO LOGO ALMOÇAR, DESGRAÇADOS! — grita Emily, e bate um livro na cabeça de Geez, que desaba no chão na hora — NÃO VOU DEIXAR VOCÊS SAÍREM MAIS CEDO PORQUE ESTÃO COM FOME!
– K.O.*! — digo, rezando pra não ser próximo a morrer pelas mãos dela por causa da brincadeira.
– Sem gracinhas, Dianiel! Os vermes no estômago de vocês têm que comer, sabiam? — Enquanto me pergunto se ela se importa mais com a minha vida ou com a dos vermes, ela continua: — Vocês não têm jeito mesmo.
Ela cruza os braços e olha para Alastria:
– Você não acha?
Alastria parece um pouco intimidada, mas responde:
– Não seja tão dura com eles.
– HEIN!? — Nesse momento direciono todas as minhas preces em prol de que ela não morra logo no primeiro dia de trabalho.
Ao meu lado, Geez levanta com a mão na cabeça e o agradeço mentalmente por não ter entrado na luz.
– Acho que você tem razão — diz Emily, e eu suspiro de alívio.
– Gerente Emily, onde você conseguiu esse livro?
Olho de relance para a lombada do livro e vejo o título: "Manual Oxford de Programação". Eu estaria mais preocupado com o uso dele como arma do que com a fonte.
– Esqueça a parte do "gerente" — responde. — Ah, isso? É um livro de cortesia da Universidade de Oxford. Eles me deram ele e disseram pra pensar sobre a possibilidade de aceitar o curso.
– Dessa eu não sabia — digo.
– Você fala como se soubesse tudo sobre mim.
A resposta dela soa defensiva demais e isso me causa uma preocupação profunda. Olho para o rosto de Geez e de Alastria e os dois parecem estar tão confusos quanto eu. É a primeira vez que vejo Emily agir desse jeito.
"Vamos duelar! Vamos duelar! Vamos duelar! Vamos duelar!"
A voz se repete várias vezes até que Emily tira o celular do bolso e atende. Quase tinha esquecido a paixão dela por Card Games, pois não a vejo jogar ou falar sobre um há dois anos. Após alguns "sim" e um "não", ela fala "entendido" e desliga.
– O fornecedor ligou de novo. Dian, você vai voltar lá pra pegar duas caixas de jogos — diz ela, em tom resoluto. — Leve Alastria com você. Será bom pra ela aprender o caminho.
– Conto com você — diz Alastria, concordando com Emily.
*****
O fornecedor não fica muito longe — cerca de quatro quadras -, mas quando chegamos, ele não estava lá, então tivemos que aguardar o seu retorno. Quando ele chegou, me fez uma série de perguntas sobre Emily e o tio Alex, que respondi com o máximo de discrição, pois sei que Emily odeia quando falam dela em sua ausência. A jornada durou mais que o planejado. Após pegarmos as caixas, ela se oferece para carregar uma:
– Posso ficar com essa menor?
– A de portáteis? Tudo bem pra você?
– Claro! — Ela parece feliz em ajudar. — Essa grande é de quê?
– Jogos para plataformas ou consoles de mesa. — Ela parece deixar uma dúvida no ar e eu continuo: — Aqueles consoles que precisam estar ligados a uma TV ou a um monitor para rodarem.
– Ah, entendi! — Ela parece absorver cada palavra e feliz por ter suas dúvidas sanadas.
Andamos três quarteirões e ela parece cansada, então sugiro um descanso e ela concorda. Paramos num banco próximo e colocamos as caixas no chão. Ainda temos algum tempo até a loja fechar, então podemos relaxar um pouco.
– Dian, você ama videogames?
– Claro! — respondo por impulso. Tentando disfarçar a rispidez da minha resposta, pergunto: — E você?
– Na verdade nunca joguei. — A resposta dela me surpreende e ela parece notar isso. Ela entrelaça os dedos. — Mas acho que gosto deles.
Ela esboça um sorriso brando e eu decido contar a minha história com os videogames:
– Sabe, eu não sou daqui. Na verdade sou do interior e meus pais são imigrantes. Com cinco anos, vim para essa cidade. E aqui eu conheci a Emily e o pai dela, Alexander. Se não fosse por ele, eu provavelmente nunca teria tocado em um videogame.
"Não tínhamos dinheiro para comprar um, mas tio Alex, como o chamo, simpatizou comigo e me perguntou se queria ser amigo da filha dele. Emily era apaixonada por Card Games, e jogávamos todos os dias.
"Quando tio Alex fechava a loja, ele ficava por mais meia hora e me dava fichas para jogar nos fliperamas. Às vezes ele me emprestava ou me dava jogos e consoles. Eu gosto muito dele. Ele abriu um mundo de possibilidades pra mim, e graças a ele conheci a Emily, que é como uma irmã mais velha pra mim."
– Entendo — diz Alastria, em tom reflexivo. — A Emily tem irmãos?
– Dois. Um irmão e uma irmã. Só que eles não são muito...
– Ligados?
– Essa não seria a palavra correta — respondo. — Desde que ela começou a tomar conta da loja, há dois anos, os outros dois tomaram caminhos diferentes.
– E a sua família, Dian?
Minha garganta seca e não sei direito como responder. Checo cada uma das palavras no meu dicionário mental, mas não consigo achar nenhuma que responda a essa pergunta, então apenas respondo:
– É uma família normal — tento sorrir ao máximo para disfarçar minha resposta seca. — E você?
Ela protela um pouco com a mão abaixo do queixo até responder:
– Normal também.
A tensão parece aumentar um pouco, então tento mudar de assunto, mas ela fala primeiro:
– Onde você estuda? — Justamente o que eu tinha pensado. — Você deve fazer faculdade, não?
– Design e Desenvolvimento de Jogos*.
– Que incrível! Algo que você gosta! Mas design... Tem algo a ver com desenhar?
Não consigo evitar de rir um pouco antes de responder:
– Na verdade tem mais a ver com programação, mas também estudamos coisas como os gráficos e o som. Estudamos até mesmo sobre público alvo e essas coisas. — Ela parece entender. — Na verdade sou péssimo em desenhar.
Ela ri:
– Eu também.
– E você, onde estuda?
Ela pensa um pouco e responde apenas:
– Aqui perto. — Ela não deve ser boa com detalhes.
– Em que ano você está?
– No segundo ano do Ensino Médio, ainda. — Ela abaixa a cabeça e continua: — Tive alguns problemas há dois anos, então entrei no colegial um ano mais tarde.
Não me parece delicado tocar no assunto, então troco de assunto:
– Qual a sua idade?
– Dezessete — ela responde — E a sua?
– Dezoito.
– E já na faculdade e trabalhando? — Ela parece bastante surpresa.
– Na verdade já estou no penúltimo ano — respondo. — Pulei os dois últimos anos do ginasial, então terminei o Ensino Médio mais cedo.
– Você deve ser inteligente!
– Nem tanto. Emily que me ajudou a estudar e me fez pular dois anos e passar no exame para o mesmo colégio.
– Mesmo assim!
Ela parece admirada, mas odeio esse tipo de atenção em mim, então volto o assunto para ela:
– Já que você nunca jogou, o que faz nas horas livres pra se divertir?
– Eu escrevo e planejo.
A resposta me pega de surpresa:
– Você também? Que tipo de coisas?
Continuamos conversando e esquecemos que temos que voltar para a loja. Como resultado, ela já está fechada quando chegamos lá.
– Não tem jeito. Vou ter que levar essas coisas pra casa e trazer amanhã — digo, com um toque de desapontamento. — Sorte que não tenho aulas hoje à noite.
– Está mesmo tarde. Tenho quer ir pra casa — diz ela.
– Você mora muito longe daqui? — pergunto.
– Não muito — responde ela -, na verdade.
– Eu posso te levar até lá, se você quiser.
*****
Ao contrário da nossa conversa animada no banco, a caminhada até a casa dela foi silenciosa. Ela se despediu de mim e me devolveu a caixa menor quando disse que faltava somente uma quadra e que de lá poderia ir sozinha.
Quando chego em casa, coloco as duas caixas no chão e jogo as chaves em cima da mesa. O único que vive aqui sou eu, então o silêncio reina. Quando vejo minha camisa amarela em um espelho, me lembro de Alastria. Ela é bonita, simpática e aprende rápido, e logo não precisará mais da minha ajuda.
A conversa sobre escrever e planejar volta à minha mente. Esquecendo-me completamente de jantar e ignorando o almoço perdido, corro para o quarto e tiro o maço grosso de folhas — meu jogo, meu futuro — da gaveta.
"Ela será uma ótima substituta daqui a dois anos, quando eu deixar a loja."
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Glossário:
Card Game: Jogos de estratégia com cartas, geralmente visando o duelo entre a força das cartas dos participantes. Ex: Yu-Gi-Oh!, Pokémon TCG...
CPU: Sigla para Central Processing Unit. No caso, Dian se refere aos CPU Players, ou seja, jogadores controlados pelo jogo, também conhecidos como bots.
2x2, 1x3 e 1x1x2: O "X" é falado como "contra". Dessa forma, cada número simboliza o número de jogadores em um time.
K.O.: Sigla para Knock Out, conhecido no português como "nocaute", geralmente falado no fim das partidas dos jogos de luta.
Design e Desenvolvimento de Jogos: Curso ligado à área de produção de games, estudando sobre todos os recursos que compõem um jogo, tanto na sua produção, quanto na sua distribuição ao público. Esse curso também é conhecido pela nomenclatura de "Design de Games/Jogos Digitais".
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