Wanderer

6 V. - A estranha sabedoria de Letizzia.


Notas iniciais
Pessoas, me perdoem pela demora, mas esse Enem acabou comigo. Eu estive estudando pra prova e quase enlouqueci, fiquei, inclusive doente nesse meio tempo. Mas, como prometido, aqui está o capítulo. Espero que apreciem. Desculpem os possíveis erros.

[...]

Alden havia me desperto bem cedo no dia seguinte, mal o sol se ergueu e já estávamos nos estábulos buscando por Ghia.

Seguimos pela aldeia enquanto eu me arrastava sonolenta, evitando aglomerações de pessoas até alcançar uma pequena venda. Havia alguns vestidos dispostos sobre as janelas, todos bordados rica e delicadamente. Fiquei admirando-os ainda em meu estado sonolento, apoiada à Ghia.

Eram lindos, tinha de admitir e se tivesse dinheiro, teria levado todos.

— Venha. — Alden chamou me despertando e me surpreendi ao vê-lo prender Ghia, seguindo até a porta do lugar.

— O que vamos fazer aqui? — Perguntei curiosa, me juntando a ele.

— Vamos comprar algumas roupas para você. — Contou e deu de ombros, despreocupado, mas aquela informação me pegou de surpresa. — Não posso deixá-la caminhar por toda Belthar apenas com sua roupa de baixo.

Olhei para minhas próprias roupas por um momento. Entendi então a forma quase desesperada que me entregou sua capa e evitava me olhar.

— Não estou indecente. — Comentei, seguindo-o para dentro da loja.

Mas qualquer argumento que eu tinha para dizer se perderá quando vi o interior da loja. Havia ainda mais vestidos por ali, de incontáveis modelos — mas todos longos e comportados -, nas mais diversas cores.

Eu estava tão distraída admirando um vestido ornamentando de pedras quando a voz esganiçada soou.

— Alden. — Dei um pulo sobre o lugar, devido ao susto. — O que faz em minha loja tão cedo?

Uma jovem surgiu ali. Era muito bonita, tinha os olhos verdes apertadinhos que lhe davam o ar de menina, apesar do corpo ser de mulher e os cabelos tão ruivos quando cobre, caindo em cachos por seus ombros.

— Letizzia. — Alden lhe sorriu, abraçando-a brevemente, e eu desviei os olhos para não ver a cena. — Vim por que preciso de sua ajuda.

Ele me indicou com as mãos, parada logo às suas costas e a vi levantar o pescoço para me olhar. Seus olhos verdes correram por meu corpo, medindo cada centímetro meu, incluindo meu vestido.

— O que você fez, seu danado? — Havia malícia na voz da mulher quando ela se aproximou de mim.

— Nada. — Foi sincero, mas Letizziaainda sorria daquela forma, me causando arrepios. — Sabe que a ordem não permite.

Senti curiosidade acerca daquilo, mas me contive antes de começar fazer perguntas sobre a Ordem dos Guardiões, para onde, ironicamente, estava sendo levada.

Ficamos em silêncio por um momento, onde a Letizzia apenas rodava ao meu redor. Em certo momento, ela pediu para tirar a capa e eu o fiz, vendo Alden corar fortemente e se virar. Tal ato divertiu a mulher.

— Não seja tão puritano, Alden. — Letizzia brincou, rindo logo em seguida. — Sua amiga está totalmente vestida ainda.

Mas Alden soltou um profundo suspiro e se obrigou a manter os olhos fixos na ruiva, me ignorando completamente.

— Só me arrume alguns vestidos e um manto. — Pediu, abanando a mão. — Estarei com Ghia lá fora.

E se foi, me deixando sozinha com a ruiva.

...

Letizzia franziu o cenho por um momento, puxando meus cabelos para o alto, tocando minha pele e fazendo mais um milhão de exames estranhos.

— Como é seu nome, criança? — Eu quase ri, não devíamos ser tão distantes de idade.

— Belle. — Respondi, sentindo meu nome soar estranho por meus lábios.

— Você não é daqui, Belle. — Indagou, o óbvio e senti um arrepio subir por minha espinha.

— Não, não sou.

Ela apenas assentiu e me deu às costas. Observei-a caminhar até um dos vestidos dispostos sobre a janela, passando a ponta dos dedos sobre os tecidos.

— De onde vem?

Eu não sabia explicar, mas havia algo envolvendo aquela mulher. Algo que me deixava desesperada e apavorada. Me sentia como se sufocasse dentro de uma caverna.

— De muito longe. — Sussurrei, torcendo para que aquilo a convencesse.

— Eu vejo. — Falou simplesmente, puxando um vestido de um azul que me lembrava os olhos de Alden. — Você vem de muito longe, de terras Além do Mar e além do tempo.

Arregalei os olhos perante suas revelações, enquanto ela se aproximava de mim com o vestido azul em mãos.

— C-como sabe? — Perguntei, completamente surpresa e com medo.

— Não importa agora. — A ruiva abriu um sorriso conciliador. — Você possui muito segredos, Isobelle e ira se afogar neles antes de encontrar a paz.

E me entregou o vestido, sorrindo-me ainda, como se suas palavras nada significassem. Mas pesavam em minha alma e sobre meus ombros. E ela sabia da verdade.

— Experimente.

Ficou me olhando com expectativa, esperando que eu vestisse o vestido. Balancei a cabeça, afastando aqueles pensamentos que não me levaria a lugar algum. Não enquanto eu não soubesse como voltar para minha casa, meu tempo.

No fundo, eu queria que tivesse um trocador ali, como nas lojas do meu tempo. Mas não tinha e eu teria que me trocar na frente dela.

Suspirando profundamente, deslizei as alças do meu vestido pelos ombros, deixando-me cair aos meus pés. Tentei não corar e tratei de vestir o vestido azul, sentindo-o se acomodar perfeitamente em meu corpo.

— O que é isso? — Ela perguntou, indicando meu pulso com os dedos.

— Me feri mais cedo. — Menti, dando de ombros, mas sabia que ela conhecia a verdade.

Seus olhos verdes brilhavam seguindo meus pulsos.

— Ele a marcou, criança. — Contou, pesarosa.

Eu tentei não expressar nada, mas estava ficando difícil com ela adivinhando tudo que acontecia comigo. Talvez ela fosse sensitiva. Desejei que Alden estivesse ali comigo.

— Posso ver? — Pediu, estendendo as mãos.

Apertei meu pulso contra meu corpo por um momento, mas logo cedi, lhe entregando a mão. Assisti-a desenrolar a faixa e a vi estremecer quando a marca se revelou, murmurando palavras estranhas em uma língua que não conhecia.

— Oh, criança. — Lamentou. — Que destino terrível.

— Sabe o que isso quer dizer? — Perguntei, ignorando totalmente o que ela dizia.

— Não, sinto muito criança. — Respondeu-me, mas eu sabia que não era verdade.

Ela sabia, sabia e não queria me contar.

Soltou outro suspiro pesaroso e voltou a enrolar a faixa em meu pulso, me dando as costas logo em seguida, seguindo para outro vestido.

— Experimente esse. — Me estendeu o vermelho rendado.

...

Tempos depois, atravessei a porta carregando os outros vestidos e a capa de Alden, sorrindo largamente para Letizzia.

— Volte em algum momento, Belle. — Pediu, e eu concordei, esperando retornar de fato.

Haviam coisas que ela precisava me dizer, coisas que eu precisava saber e só ela poderia me contar.

— Obrigada por tudo, Letizzia. — Agradeci e ela me sorriu novamente.

— Cuide bem dela, Alden. — Ouvi-a dizer e quase sorri, se não fosse pelo rosto surpreso do homem me observando.

Alden parecia mal piscar com seus olhos azuis sobre mim. Imaginei por um momento que o vestido estivesse horroroso, mas logo um sorriso claro e iluminado abriu em deus lábios e eu soube que estava tudo bem.

— Cuidarei como minha vida. — Proferiu e eu desejei que fosse real.

— Ela vai precisar de toda proteção quando Arsene voltar. — Sussurrou apenas para Alden ouvir.

Mas eu ouvi também e não pude evitar o medo de me tomar quando entendi as entre linhas, tudo o que ela não dizia e que estava estampado em seus olhos e explicito em nossa conversa de mais cedo.

Ele iria voltar... E dessa vez, eu não teria como escapar.

Estava condenada desde o dia que ele me marcou.

E no fundo, eu sempre soube disso.

Notas finais
Bem, esse foi o capítulo. Não ficou aquelas coisas, mas é apenas para fazer uma ponte para os próximos. A partir de agora as coisas vão começar a desenrolar e se complicar para Belle. Arsene vai aparecer com mais frequência e teremos o Templo e os demais Guardiões. Até o próximo. ;*