Wanderer
7 VI - Contos de outras eras.
Notas iniciais
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Dias se passaram desde nossa visita à venda de Letizzia, mas suas palavras ainda permaneciam em minha mente. Eu sonhava com elas todas as noites, ouvia como sussurros na escuridão toda vez que fechava os olhos.
Ele vai voltar... Ele vai voltar... Ele vai voltar...
E ela vai precisar de toda segurança possível...
Dormia com medo de sonhar, ou sequer dormia, virava a noite em claro. Os poucos momentos que tinha de descanso, eu acordava soando e assustada, com medo até mesmo do vento.
E eu que cheguei a imaginar que aquele lugar pudesse ser meu refúgio, meu santuário. Onde um príncipe me salvaria dos demônios e eu me tornaria sua rainha. Mas tudo parecia um conto de horror agora, daqueles que evitava quando criança.
Fruto de minha imaginação ou não, tudo virava cinzas. E o meu conto de fadas lentamente se transformava em um pesadelo.
Continuamos nossa caminhada até o tal Templo, que parecia há milhas de distância cada dia que passava. Dias se tornavam noites e voltavam a ser dias e nunca alcançávamos o Templo. E eu ia me arrastando, cada dia mais cansada, cada dia mais perto da morte.
Alden havia se mostrado um bom amigo, sempre que me via distraída, imersa em meus pesadelos, puxava algum tipo de assunto ou me contando suas histórias, foi em um dessas nossas conversas que ele me contou sobre o Templo e a Ordem dos Guardiões, finalmente.
Tinha algo relacionado com um cristal que caiu dos céus há milhares de anos, quando o mundo ainda estava imerso na escuridão. Homens sábios e antigos, guiados por Morus de Halvan seguiram o rastro que o cristal deixou e o encontraram. Descobriram que a estrela era capaz de expulsar as criaturas noturnas e usaram a luz, dando paz novamente à Belthar.
— Esse cristal... – Murmurei, encantada com a história que ele me contava. – É esse que carrega?
Havíamos percorrido um longo caminho durante o dia e decidimos acampar ali, a beira daquele lago, com as estrelas e a lua refletidas sobre as águas calmas, como um espelho. Alden já havia acendido a fogueira e nos sentávamos próximos a ela, para nos aquecer, enquanto Ghia descansava próxima a nós.
— Sim, uma pequena fração do verdadeiro cristal. – Contou, puxando o cristal de sobre as vestes. – O Lyrial.
O cristal brilhou em meio a escuridão a nossa volta, parecia o próprio sol, com sua luz pálida.
— Esses homens se tornaram os Guardiões, os primeiros. – Voltou a contar, mas meus olhos permaneciam sobre o cristal em sua mão. – Eles lutaram por anos e anos contra essas criaturas, até que um dia eles venceram. – Fez silêncio, como se recordasse algo. – Eu nasci naquele dia. No dia da vitória. Isso foi há mais de quinhentos anos...
Levei um momento para entender o que ele dizia e não pude evitar arregalar os olhos em surpresa.
— Você então é...
— Velho? — Ele concluiu por mim e sorriu de lado. – Sou.
Mas ele não parecia. Seus olhos eram pesados e cansados como os de um idoso, isso era verdade, mas ele não possuía sequer uma ruga em seu rosto. O cabelo loiro como ouro derretido não possuía sequer um fio grisalho. Era belo e jovem, e não parecia ser tão mais velho que eu mesma.
— Mas como é possível? — Vi-me perguntando, ainda com os olhos arregalados.
— Quando você aceita ser um guardião e aceita o poder de Lyrial, seus anos param de ser contados. — Ele me contou, mas havia dor em sua voz. — Eu vivi tantos séculos, vi tantas coisas...
— Você é imortal. — Ele abriu um sorriso largo com meu comentário e eu senti algo dentro de mim se aquecer.
— Não, eu sou humano e posso morrer ainda, mas doença e nem velhice podem me atingir. — Suspirou outra vez. – Devo sempre carregar o cristal comigo, para me fortalecer.
O observei voltar a guardar o cristal perto de seu peito e a escuridão novamente nos rodear, e foi só então percebi que era o cristal que o mantinha jovial, o mantinha são e o mantinha forte.
Tudo pelo cristal.
— Não imagina o fardo que é isso... – Sussurrou, em um suspiro. – Também não podemos casar ou gerar filhos, nosso comprometimento será sempre com a ordem.
— Deve ser solitário. – Indaguei e ele abriu um fraco sorriso.
— Depois de tantos anos, você se acostuma com a solidão e ela para de ser tão cruel.
Eu não o respondi. Fiquei apenas o olhando por um momento, divagando sobre suas palavras.
— Eu fui deixado sobre os degraus do Templo. – Voltou a contar, soando distante. – Fui criado pelos guardiões em meio a todos os segredos e mistérios da ordem. Morus foi como um pai para mim. E ele pereceu quando houve a Ruptura no éter, quando Arsene liberou seus demônios...
Ele se calou, não conseguindo terminar seu relato. Vi seus olhos banharem em lagrimas.
— Sinto muito. – Sussurrei, tocando-lhe o ombro carinhosamente, tentando lhe passar algum tipo de conforto.
Alden apenas assentiu, suspirando algumas vezes, antes de se voltar para as chamas da fogueira.
— Arsene o matou naquele dia e eu me tornei um guardião. – Concluiu, soando mais firme e mais decidido. — Jurei proteger Belthar de Arsene e seus demônios e vou cumprir, à levando até o Templo onde estará segura.
Ele se livrou de meu toque e se levantou, passando as mãos sobre os cabelos loiros, antes de se voltar de novo para mim.
— Durma, amanhã já devemos alcançar o Templo. – Aconselhou, puxando mais madeira e a jogando na fogueira. – Estarei lhe protegendo.
Apenas concordei e me aconcheguei sobre a manta que ele havia comprado com Letizzia. Não consegui dormir, como era de se imaginar, fiquei observando as chamas dançando sobre a fogueira e ao homem, sentado mais ao longe em meio a escuridão, que observava as estrelas e sussurrava cânticos antigos.
Quando finalmente amanheceu, Alden veio me chamar, mas eu já estava acordada. Nos aprontamos rapidamente e voltamos a nossa longa jornada. Mal conversamos, talvez por estar com sono e ele estar distante, perdido em suas próprias lembranças.
Fizemos uma parada para almoçar e para Ghia descansar, consegui cochilar por alguns minutos, mas logo voltamos a caminhar.
Era quase noite quando alcançamos, finalmente, o Templo.
A construção parecia antiga, feita em mármore puro e pálido. O sol poente banhava a pedra, dançando em tons alaranjados. Parecia hipnótico. Fiquei alguns minutos apenas observando, com os olhos arregalados e a boca entreaberta.
Era enorme, se estendendo além de meus olhos, para o norte e para os céus.
— Bem-vinda, Isobelle, ao templo dos Guardiões; lar de Lyrial e minha casa. – Alden desejou, tomando minha frente e seguindo até os portões.
Caminhei logo atrás de si, ainda completamente boba e o segui para dentro da propriedade sem saber o que me aguardava lá dentro.
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