Wanderer

5 IV - Eu não quero ficar sozinha.


Notas iniciais
Não deu para postar ontem, estavam usando meu notebook. Mas, como prometido, aqui está. Ignorem os possíveis erros, eu revisei, mas... Quero agradecer a linda da Thay que fez uma capa in-crí-vel para Wanderer. Moça, eu realmente não tenho palavras para agradecer à você.♥

[...]

Me encontrava de volta à minha casa, deitada sobre o tapete felpudo da sala, observando os últimos raios de sol iluminar o teto. Gaya estava comigo, deitada bem ao meu lado, dormindo enquanto eu enrolava os dedos em seus pelos brancos. Ouvia ao fundo a voz de minha mãe, talvez discutindo com minha irmã outra vez.

Por algum motivo, me sentia completamente em paz, como se os últimos dias não tivesse passado de um pesadelo. Eu estava em casa e estava segura, nenhum demônio me alcançaria ali.

— Isobelle. — A voz de minha mãe chamou, e eu me voltei em direção a porta da cozinha.

Minha mãe surgiu na porta, mas havia sombras e escuridão onde devia existir seu rosto. Senti meu corpo tremer e entrei em pânico, me vi gritando, o mais alto que meus pulmões permitiam. Um riso debochado e assustador soou ao meu redor e vi minha mãe dar passos desordenados em minha direção.

Fechei os olhos com pressa, desejando que ele sumisse, e quando os abri novamente, estava de volta ao quarto da estalagem, sentindo meu coração bater fora de controle em meu peito e minha respirando com dificuldade.

Levei um tempo para me acalmar, ouvindo o som da chuva que castigava Halvan do lado de fora daquelas paredes e quando o fiz, a compreensão de que estava longe demais de minha casa, de minha mãe e as brigas com Lizzy me arrasou outra vez.

Senti meus olhos marejarem, só então percebendo o quanto elas me faziam falta e me encolhi sobre a cama, abraçando meus joelhos. Foi quando, em meio aos meus soluços e os trovões lá fora, que ouvi os chiados de antes.

Me sentei com pressa, buscando sua imagem assustadora e não demorei encontrar.

Ele estava lá novamente. Parado frente a janela, se fundido à escuridão da noite e do quarto. Mas eu sentia sua presença e o via toda vez que um relâmpago cruzava o céu.

Belle. — Chamou, sua voz soando no fundo de minha mente, como se ecoasse nas profundezas de uma caverna. — Venha até mim, Belle.

Sem entender o que estava acontecendo, me livrei dos cobertores e me coloquei em pé. Senti todo meu corpo tremer de medo, mas dei um passo a frente. E outro. E outro...

Você tem a marca, Isobelle. — Ele falou novamente, e vi seus olhos se tornarem mais brilhantes ao me ver obedecer. — Você me pertence agora.

Lá fora a tempestade se tornou mais urgente, fazendo chover raios por todos os lados. Os trovões eram tão altos que faziam as paredes daquela estalagem tremer e eu temia que desabassem sobre minha cabeça.

— Venha até mim, Isobelle. — Pediu novamente e me estendeu a mão feita de sombras. — Não tenha medo. Juntos nós vamos governar o inferno.

Meu pulso queimou e vi a marca ficar vermelha sobre minha pele quando levantei a mão. Faltava pouco para que eu aceitasse seu toque quando a porta fora aberta com violência.

Alden adentrou ao quarto empunhando sua espada e com o cristal brilhante em mãos. Pisquei algumas vezes, saindo do transe e só então percebi o que estava acontecendo. E o que estava fazendo.

E eu gritei profundamente, recolhendo a mão que ainda ardia e me afastei o mais rápido que podia. Alden avançou, desferindo golpes contra o demônio, levando o cristal cada vez mais alto, iluminando o quarto todo com sua luz.

— Você jamais irá tê-la, Arsene. — A voz raivosa de Alden soou por todo o quarto.

Ouvi o demônio gargalhar e me encolhi sobre a cama, abraçando meu próprio corpo e escondendo o rosto de todo que se passava ao meu redor.

Estava trêmula de pavor e com dor. Aquela marca ainda parecia rasgar minha pele. Senti as lágrimas tomarem meu rosto e não controlei o choro ou os soluços de escaparem. Eu estava em pânico, havia quase me entregado ao demônio por livre e espontânea vontade.

— Belle. — A voz de Alden me trouxe de volta.

Levantei o rosto encontrando com seus olhos azuis cansados. O observei por um momento por entre as lágrimas que ainda inundavam meus olhos. Estava mais cansado que antes e parecia não ter dormido sequer um minuto naquela noite, mas havia preocupação nublando o azul de seus olhos.

— Por que ele veio atrás de mim? — Perguntei, com a voz chorosa e embargada.

— Ele a marcou. — Vi seu rosto de tornar sombrio quando seus olhos caíram sobre a marca negra em meu pulso. — Por que mentiu mais cedo?

— Por que não entendo o que isso quer dizer. — Limpei algumas lágrimas com a mão. — Pensei que fosse me deixar sozinha na floresta se soubesse da marca.

— Eu jamais a deixaria para trás, sua tola. — Havia raiva contida em sua voz, mas ele suspirou. — Eu a teria levado direto ao templo. Lethien saberia o que fazer.

— Lethien? — Repeti o nome, tentando encontrar qualquer menção a ele.

— O primeiro Guardião. — Revelou e eu assenti, embora não fizesse sentido algum para mim. — Deixe-me ver a marca.

Sua mão se estendeu em minha direção, mas ele não me tocou, ficou aguardando por minha permissão. Eu suspirei profundamente e lhe estendia a mão com a marca.

Alden tomou meu pulso, excepcionando a marca negra em forma de W sobre minha pele por um momento. Vi suas sobrancelhas loiras arquearam em dúvida e senti medo.

— Eu nunca vi tal marca. — Ponderou em voz alta. — Normalmente é usada outra marca, mas jamais está. — Alden suspirou, rasgando uma faixa da própria túnica. Enrolou-a sobre a marca com tamanha calma, escondendo-a. — É melhor manter oculto dos olhos dos outros.

— Está ardendo. — Revelei e ele pareceu surpreso. — O que quer dizer?

— Talvez seja por que Arsene esteve aqui. — Contou, soltando um profundo suspiro. — Agora você precisa dormir um pouco, vamos partir assim que amanhecer.

Observei-o caminhar até a porta e quase saltei em sua direção.

— Não! — Gritei, fazendo se voltar para mim novamente. — Não me deixe sozinha.

— Eu não posso ficar aqui, Belle. — Contou, com a mão ainda sobre a porta. — Vou arruinar sua reputação e a minha.

— Eu não me importo com reputação, mas não me deixe sozinha. — Eu quase suplicava, ajoelhada a cama. — Por favor, Alden.

Ele pareceu ponderar por um momento, depois voltou os olhos para o quarto, excepcionando cada canto. Vi-o suspirar e voltar a fechar a porta. Me senti completamente segura quando o vi se virar e caminhar até a cadeira.

Deixou o corpo cair sobre a mobília, soltando outro suspiro e me sorriu. Um sorriso exausto e cansado, que fez meu coração disparar.

— Durma, Isobelle. — Mandou, se apoiando a mesa. — Vou estar aqui a noite toda, vigiando-a.

— Obrigada, Alden. — Agradeci, voltando a deitar sobre a cama e me cobrindo. — Tenha bons sonhos.

— As estrelas vão iluminar seus sonhos essa noite. — Recitou melancolicamente e me vi caindo ao sono logo em seguida.

Notas finais
Até o próximo, que terá algumas explicações. ;*