Wanderer
4 III - Segura, por hora.
Notas iniciais
Quando acordei pela manhã, havia um verdadeiro acampamento ao meu redor. As brasas de uma fogueira à muito acessa, ainda ardiam a minha frente. Havia equipamentos estranhos amontoados em um canto, onde uma espada repousava ameaçadoramente, pronta para ser pega.
Um cavalo de pelagem marrom e crinas negras comia maçãs vermelhas próximo à mim. Franzi o cenho, confusa e procurei por Alden ao redor. Mas não havia sinal do Guardião.
— Alden? — Chamei em vão.
Soltei um profundo suspiro e me levantei. A manhã havia chego fria e uma baixa neblina pairava sobre o solo. Puxei a manta para meus ombros e decidi dar uma volta pelo acampamento, em busca do Guardião.
— Olá, amigo. — Sussurrei, acariciando a clina do cavalo. — Não está com frio, garotão?
— Ela é fêmea, Belle. — A voz de Alden soou e eu saltei de susto, me virando para olhá-lo. — Se chama Ghia.
— Ah! — Foi tudo o que eu disse, notando finalmente a flor roxa na clina do cavalo. — Ela é muito bonita.
— É sim. — O Guardião sorriu, se encaminhou até a espada. — Está com fome?
— Muita. — Respondi, arrancando-lhe um riso rouco.
Alden me serviu de frutas que havia acolhido mais cedo, um pão velho e vinho, e eu não reclamei, estava ótimo. Ele se sentou a minha frente e me observou comer, deixando-me constrangida.
— Consegue se lembrar de onde vem agora? — Perguntou, um momento depois.
Eu suspirei, tentando encontrar qualquer desculpa ou mentira que pudesse dar. Eu ainda achava que não era boa ideia dizer a ele sobre NY e que aquele colar idiota havia me levado até ali.
Foi só então que me lembrei do colar.
Arregalei os olhos e deixei o pão escorregar de meus dedos. Rapidamente comecei a tatear meu pescoço, mas não havia sequer um sinal do colar ali.
Ele havia desaparecido.
— Meu colar. — Sussurrei, completamente surpresa. — Ele sumiu.
— Era alguma herança de família? — Alden perguntou confuso.
— Não...
E de fato não era, mas fora tudo por causa dele. Eu tinha quase certeza disso. Quase.
— Sinto muito então. — Fora tudo que o Guardião disse, pesaroso.
Eu suspirei e dei de ombros, voltando a comer. O silêncio reinou entre nós, onde apenas o farfalhar das folhas era ouvido. Minha mente viajava, cada vez mais distante, para meu tempo.
O que estaria dizendo sobre meu sumiço? Estariam preocupados? Meus pais teriam sido avisados? Quem alimentaria Gaya?
Senti mus olhos marejarem com tantas perguntas, mas impedi as lágrimas. Eu não queria chorar, não ainda.
— Temos que ir agora, Belle. — Falou, um tempo depois, quando eu finalmente terminei o desjejum.
Eu apenas assenti e o ajudei a desmontar o acampamento, recolhendo tudo que se encontrava espalhado.
Caminhamos boa parte da manhã, por entre os arvoredos, bosques e clareiras. A companhia de Alden era agradável, ele me explicava coisas sobre as árvores que nos cercavam, sobre as flores que cresciam aqui e ali e os frutos que poderia comer.
No fundo, agradecia por não me fazer mais perguntas, mesmo que eu estivesse louca para fazer as minhas. Entre uma conversa e outra, descobri que estávamos em um reino chamado Belthar, onde a monarquia ainda era vigente.
Perto do horário do almoço, fizemos uma parada em um lago, para reabastecer os odres. Comemos as sobras do desjejum e logo voltamos a caminhar.
...
Estava quase noite quando finalmente avistamos os primeiros indícios de civilização. Era uma aldeia, perdida entre dois montes, margeada por uma floresta densa.
Havia um muro rodeando toda a aldeia, e um portão onde dois homens faziam a guarda. Aquilo me deixou intrigada.
— Que lugar é esse? — Perguntei à Alden enquanto nos aproximávamos dos portões.
— Halvan. — Contou aos sussurros.
— Por que tem guardas aqui?
— Você nunca esteve aqui? — Havia descrença em sua voz. Eu apenas neguei, mordendo os lábios temendo ter dito algo ruim. — Nem mesmo nas peregrinações?
— Não. — Respondi e abaixei o olhar, fitando o caminho sobre meus pés.
— É uma aldeia sagrada, foi onde Morus morou quando chegou há Belthar. — Contou, como se aquilo fizesse algum sentido para mim. — E é aqui também que ele dorme.
— Ah. — Foi tudo que eu disse.
Logo alcançamos os portões. Alden parou, puxando o cristal de antes de dentro da túnica e o mostrando aos guardas. Eu não sabia o que aquilo significava, mas logo os homens começaram a fazer reverências à Alden.
— Seja bem vindo, senhor. — Um deles murmurou quando passamos.
Alden apenas assentiu, sorrindo para o homem. Seguimos por entre as construções e casas.
— O que você fez? — Perguntei, curiosa.
— Eu sou um Guardião. — Aquilo também deveria fazer algum sentido para mim.
Continuamos seguindo adiante, até que alcançamos uma pensão. Alden pediu para um garoto levar Ghia aos estábulos e nos encaminhamos para a entrada.
Estava vazia, exceto pelo dono, atrás de um balcão. Seguimos até ele. Era um homem simples, mas charmoso de cabelos ruivos e olhos castanhos. Percebi que lembravam barro, quando nos aproximamos.
Seus olhos escuros se demoram em mim por um momento, antes de se voltarem ao Guardião.
— Alden. — Saudou, abrindo um sorriso claro e bondoso. — Outra incursão?
— Olá, Theo. — Algo me dizia que o Guardião estava desconfortável. — Estou retornando ao Templo.
— Mande saudações minhas à Aghenor. — Eu queria perguntar quem era Aghenor, mas me mantive em silêncio, apenas observando a conversa. — Diz que a mãe dele ainda sente falta.
— Eu direi, Theo. E lhe garanto que ele sente tanta falta de casa quanto vocês. — Pude sentir a tristeza na voz de Alden e imaginei se teria família, se sentia falta dela.
— Obrigado. — Theo suspirou, realmente agradecido, mas eu era capaz de ver um resquício de mágoa na forma como olhava para Alden.
Minha mente voou alto, tentando descobrir o que aquelas informações jogadas significavam.
Tanto Alden quanto Theo ficaram um momento em silêncio, onde ambos se perdiam em memórias.
— O mesmo de sempre, imagino? — Theo perguntou, quebrando o silêncio, com um pequeno sorriso.
— Dessa vez, terá que ser dois quartos, velho amigo. — Alden apontou discretamente para mim, parada logo atrás de si.
— E quem é a jovem senhora? Pensei que fosse proibido. — Quis perguntar sobre aquilo também, mas percebi Alden desconfortável.
— Apenas uma jovem que esta sobre minha proteção. — Alden deu de ombros, despreocupado. — Devo levá-la aos cuidados do rei.
Vi Theo assentir, com os olhos arregalados mirados em mim, mas não fez perguntas. Em seguida, pegou as chaves e nos entregou.
— Seja bem vinda, senhora. — Desejou, me entregando a chave. — Você sabe qual quarto é, Alden.
Alden sorriu, e me puxou pela mão. Subimos uma escada ao lado do balcão, até o segundo andar da pensão, onde se abria a um corredor de portas fechadas.
Ele parou na última porta, se soltando para mim logo em seguida.
— Esse é seu quarto. — Falou indicando a porta. — O meu é logo ao lado, se precisar de algo, basta me chamar.
Por algum motivo, aquela informação me causou arrepios. E se o demônio aparecesse novamente? E se não Alden estivesse dormindo e não me ouvisse?
— Não seria mais seguro se estivéssemos juntos? — Vi-me perguntando, completamente apavorada.
— Vai estar segura, Belle. — Alden tocou meus ombros, tentando me reconfortar. — Estarei bem aqui, se precisar.
— Okay. — Suspirei vencida. — Obrigada.
— Descanse, amanhã partiremos bem cedo. — Falou, caminhando pelo corredor, até a porta ao lado. — Tenha bons sonhos, Isobelle.
— Você também, Alden.
Ele sorriu, e abriu a porta, e eu fiquei ainda um tempo ali, parada no corredor, tentando entender tudo que estava acontecendo.
Mas logo o cansaço me venceu e me vi entrando ao quarto, me jogando sobre a cama e adormecendo logo em seguida.
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