Wanderer
2 I - Despertei muito longe de casa.
Notas iniciais
Por um momento, um breve segundo entre a razão e a inconsciência, minha mente estava em branco. Não havia lembranças, não havia preocupações e não havia dor.
Mas a realidade me atingiu, como uma represa se rompendo e me vi em meio ao furacão de emoções e lembranças.
Me vi em frente à loja mais cedo, admirando aquele colar. A vendedora estranha. O acidente. A luz e a voz.
Eu havia sido atropelada, mas estranhamente, não sentia dor. Imaginei por um momento que estivesse no hospital, medicada e por isso não sentia dor.
Mas, ao abrir os olhos me vi rodeada por árvores, que cresciam como se desejassem tocar os céus e não por um teto, como imaginei antes.
Franzi o cenho, completamente confusa, mas uma brisa fresca me envolveu e me vi inebriada.
Permaneci por um breve momento apreciando aquela sensação de paz ainda deitada ao chão, antes de me sentar e começar a fazer as perguntas que tanto preenchiam minha mente.
Como eu havia ido parar ali? E onde exatamente eu estava? Era para eu estar em um hospital, não em uma floresta, sabe se lá onde.
Talvez ainda estivesse sonhado, delirando de dor, mas as sensações eram tão reais e vividas. Eu era capaz de sentir o vento sobre minha pele e a grama abaixo de mim pinicar meu corpo. Era real demais para ser apenas um sonho.
Olhei para meu próprio corpo procurando por alguma ferida. Meu vestido estava sujo pela batida contra o carro, mas era só isso. Não havia contusão, hematoma ou feridas. Não havia nada. Eu estava intacta.
Aquilo era muito estranho. Talvez, eu estivesse realmente dormindo.
Soltei um profundo suspiro e ponderei sobre minhas escolhas brevemente. Eu poderia permanece até que finalmente despertasse e correr o risco de ser devorada por algum animal, ou procurar ajuda aceitando que era real.
Decidi pela segunda opção. Parecia mais segura para mim.
Levantei-me do chão, sentindo meus membros dormentes e formigando. Tive de esperar um momento até que parasse e finalmente caminhar pela floresta que me cercava sem ter exatamente para onde ir.
Estava sem nada, tinha apenas minha bolsa. Foi quando me lembrei o celular. Rapidamente comecei a revirar o conteúdo da bolsa, até puxar o aparelho com pressa. Mas, minhas esperanças fora para o ralo quando vi que ali não tinha rede. Ótimo.
Soltei outro suspiro, quase amaldiçoado o fato de ter aberto os olhos naquela manhã e comecei a caminhar, seguindo qualquer direção.
Subitamente, as lembranças da minha infância me ocorreram, e percebi que estivera em situação semelhante uma vez. Eu havia me pedido na floresta que ladeavam a fazendo de meus avós no interior, havia ficado perdida por dois dias antes que fosse encontrada, totalmente desidratada e fraca.
Ninguém nunca tocava naquele assunto e eu nunca mais voltei a cada de meus avós.
Mas, dessa vez, eu não teria ninguém me procurando e sabia que teria de encontrar civilização, ou alguém. Depois procurar por um médico e dizer que estava ficando louca.
Eu tinha quase certeza que havia batido a cabeça no acidente. Quase certeza.
Caminhei por algum tempo, seguindo uma trilha imaginaria que havia inventado, mas parecia não me levar a lugar nenhum. Eu percebia o sol se movendo no céu, indicando que as horas estavam passando e sentia meus pés doerem.
Parava às vezes, estudando as frutas nas árvores e pegando algumas maçãs vermelhas para comer, tentando saciar a fome que me corroía. Eu já havia acabado com as barras de cereais e balinhas que normalmente carregava na bolsa.
Em certo momento comecei ouvir o som de água correndo e tratei de me guiar em sua direção, logo encontrando um lago cristalino que refletia todas as nuances do céu.
Ajoelhei-me perante o lago e mergulhei as mãos na água, sentindo o frio gelar meus ossos. Bebi da fonte cristalina, sentindo minha sede saciar, e meu corpo relaxar aos poucos, embora eu ainda estivesse faminta e cansada.
Foi quando ouvi chiados soando ao meu redor. Busquei pela origem do som com os olhos, tentando enxergar ao longe, mas não havia nada por lá.
A luz do sol ia lentamente desaparecendo, logo a noite chegaria finalmente. Senti um arrepio de medo, e percebi com assombro que permanecer ali naquele riacho não seria seguro.
Me levantei e comecei a seguir na direção oposta a que vinha, seguindo para o meio de um aglomerado de árvores que havia ali. Sabia vagamente que lugares como aquele eram mais seguros.
Quando a noite finalmente chegou, me arrepiei de pavor. Os sons ao meu redor se tornaram mais proeminentes, soando cada vez mais próximos. Liguei o fleche do celular, iluminando o caminho há minha frente.
Não havia nada, nada além de árvores e escuridão. Segui adiante, pensando dez vezes antes de pisar sobre o amontoado de folhas que forravam o chão e rezando aos deuses para que a bateria durasse até o amanhecer.
Foi quando ouvi. Era um choro, soando ao longe. Parecia um lamento, mas não conseguia entender o que dizia. Movi o celular, tentando enxergar a frente, mas não havia nada ali.
— Isobelle. — Chamou a mesma voz de antes, soando ao longe.
Me voltei novamente à frente, apavorada e nervosa e foi quando o vi.
Em meio a escuridão e ao luar que me cercava, eu conseguia distinguir apenas a silhueta alta e imponente a minha frente.
Uma silhueta feita de sombras e escuridão. Os olhos eram vermelhos como faróis, assustadores e tenebrosos. Fazia todo meu corpo se arrepiar perante ao perigo.
Era uma visão tirada de meus pesadelos.
E eu estava paralisada ali, bem a sua frente iluminando-o com a luz do celular.
Ele flutuou ao meu encontro e eu gritei, gritei o mais alto que consegui, na esperança daquilo bastar.
Mas não bastou e ele avançou ainda mais até parar a minha frente, sorrindo friamente. Seu rosto um borrão de sombras e escuridão, mas com olhos vermelhos e brilhantes.
— Isobelle. — Percebi então, que a voz vinha dele. Era ele me chamando. Era dele a voz que ouvi mais cedo, antes de perder a consciência. — Isobelle
Senti suas mãos frias tocarem meu pulso e soltei o celular com o susto.
Ele apertou os dedos feito de sombras sobre meu pulso e eu gritei de dor ao sentir minha pele queimar. Meus olhos marejarem perante a dor e ouvi um riso rouco e sádico soar dele.
— Consegue sentir a dor, Isobelle? — Perguntou, aproximando o rosto de sombras no meu. — Você consegue?
Eu não o respondi, eu simplesmente não conseguia reagir perante sua imagem. Era assustador demais para mim. E ele percebia isso, pela forma como seu riso soava ao meu redor, e apertava ainda meu pulso com seus dedos.
Eu gritei novamente, ainda mais apavorada. Era um pesadelo, um pesadelo. E eu precisava despertar. Fechei os olhos e comecei a rezar para todos os santos que acreditava, a todos os deuses.
Naquela altura, meu choro e meu pranto já era sonoro e eu não me preocupava em me manter firme. A criatura parecia apreciar minhas fraquezas.
A dor em meu pulso aumentou e senti minhas forças cedendo lentamente. Comecei a perder a força nas pernas e tudo que me sustentava era os dedos da criatura.
Foi quando ouvi, e tive esperanças novamente.
Eu poderia ser salva.
E eu seria.
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