Walldern

3 Intruso.


Notas iniciais
Leitores fantasmas, apareçam!! O que será de mim sem seus reviews?

“Essas ruas esburacadas, que vergonha! E as calçad- Olhe o hospital! Giga enorme desse jeito e nenhum médico decente, ainda mais agora que precisamos de profissionais para curar essas doenças repentinas e- Do que vocês estão rindo?”

“Você disse ‘giga enorme’, querida.”

Estávamos a caminho do colégio e minha mãe reclamava -como sempre- da cidade. Ela sempre brigava comigo e com Andrew por misturar palavras e acabara de fazer isso. Normalmente levávamos suas reclamações a sério, mas caímos na gargalhada.

“Mania dessas crianças.” grunhiu ela. “É contagiante.”

Tomamos fôlego e paramos de rir. Meu pai disse:

“Mas, voltando ao assunto, de que doenças repentinas você estava falando?”

“Não ficou sabendo? Teve até algumas mortes, ninguém sabe a causa e estão longe de uma cura. É como se os poderes enfraquecessem, quase sumissem, e levassem a força vital da pessoa junto. O pai da dona Judith da nossa rua está com isso, foi para o Canadá e voltou assim. E Judith contou que ele nega que tenha ido para o Canadá, não se lembra, algo do tipo. Coitados.”

“A dona Judith já é velha, o pai dela então…” disse meu irmão. “Foi fazer o que no Canadá? Esquiar? Praticar esportes radicais porque tem que aproveitar a vida?”

Comecei a rir com ele até minha mãe nos lançar um olhar ameaçador.

"Não falem assim deles, que falta de respeito! Continuando, querido…”

Ela prolongou o assunto com papai enquanto eu e meu irmão comentávamos baixinho de como andar de metrô facilitaria nossas vidas. Chegamos ao colégio e eu me despedi deles:

“Tchau, mãe revolucionária. Espero que você chegue atrasado ao trabalho, Andrew. Bom trabalho, pai.”

“Espero que você derrube seu material na frente do garoto que você gosta, Carol. Mas boa aula!” rebateu Andrew. Fechei a porta na cara dele.

Fui à estufa procurar Diana mas ela não estava lá, estava voltando para o colégio, distraída, quando alguém que estava correndo esbarrou no meu ombro derrubando minha mochila -que eu percebi estar aberta por alguma razão chamada Andrew Loyd-, todo meu material caiu no chão.

“Caralho, olhe por onde and- Você!” Gritei furiosa para a pessoa, que era Nico.

“Comecei o dia bem. Bom dia.” disse ele, sem sarcasmo nenhum e sorrindo. Ele jogou a bola de futebol americano que estava segurando para alguns garotos e fez um sinal para eles continuarem.

“Seu conceito de ‘bem’ é péssimo.”

“Falar com você é péssimo?”

“Falar comigo por ter derrubado meu material é péssimo.”

“Ah, desculpe. E é nesse momento que nós nos abaixamos, nossas mãos se tocam e nos apaixonamos perdidamente um pelo outro, não é?”

“Esperava algo menos clichê de você.” respondi enquanto abaixava para juntar minhas coisas, ele me ajudou e disse:

“Eu também.”

“Você viu a Diana por aí?” perguntei.

“Entrou na Principal agora pouco.”

“Obrigada, até que você é útil, Blaze.” virei-me pra ir embora e ele disse:

“Mais do que você pensa, Loyd.”

Encontrei Di na sala, fazendo o dever, completamente concentrada.

“Há! Peguei no flagra, não fez o dever de casa, que vergonha, Lady Di!” falei e ela deu um pulo, sentei na minha carteira e virei-me pra ela.

“Eu estou estudando, mocinha!” respondeu ela, virando a cabeça pra cima e rindo. “Tem prova hoje, lembra?”

“QUÊ?!”

Ela riu da minha cara:

“Que vergonha, Lady Carolyn! Brincadeira, não tem. Estou fazendo dever atrasado mesmo, e daí?!”

“Quase tive um ataque cardíaco! E não existe nenhuma Lady Carolyn, existe?”

“Sei lá. Hein, vou embora mais cedo hoje, você vai ter que ir de metrô.”

“Sem problemas.”

Após o fim da aula, segui até a estação mais próxima, que estava praticamente vazia, exceto por um garoto loiro de óculos e Nico.

“Destino?” provocou-me.

“Acho que a palavra certa seria ‘azar’.” respondi, rolando os olhos.

Ignorei-o e fiquei observando o desconhecido, que era magrelo, alto, bonito e tinha o rosto um pouco queimado do sol. Parecia um pouco confuso, tinha algo de estranho nele. Mas aparentemente era perfeitamente normal, normal… demais. Aproximei-me e resolvi perguntar:

“Você parece confuso, precisa de ajuda?”

Nico franziu a testa, cruzou os braços e se apoiou na parede. O ignorei novamente, era tipo um hábito. O garoto respondeu com um sotaque desconhecido:

“Não, eu… Ah, acho que sim. Essa estação fica em que rua?”

“A Rua do Nettle.”

“Aquele colégio deu nome a rua?”

“A rua deu nome ao prédio. Enfim, qual sua dúvida?”

“Não me lembrava desse lugar, é muito longe do Tâmisa?”

Nico mudou sua expressão desconfiada/ciumenta/qualquer-coisa para uma surpresa, se aproximou e perguntou:

“Tâmisa? Você quer dizer… o rio Tâmisa?”

“Sim.” respondeu o garoto, como se fosse algo normal um rio londrino em Walldern.

Antes que pudéssemos dizer alguma coisa, nosso metrô chegou. Fui despedir-me e Nico me interrompeu:

“Bom, nós não podemos ajudá-lo, mas alguém irá, pergunte para algum policial, taxista ou alguém que trabalhe na estação. Esse metrô aqui não te deixa perto do Tâmisa. Tchau, tenha um bom dia.”

“Hã, ok. Obrigado mesmo assim.”

Nico assentiu e me puxou para dentro do vagão. Nos sentamos nos últimos bancos, confirmei minha suspeita em um sussurro:

“Ordinário?” Nico assentiu, pensativo. “Mas… Como?”

“Não faço ideia.” respondeu ele. “Mas, pelo sotaque, é de Londres.”

“Mas ele estava falando português.”

“Não, não estava. Entre todos os métodos de proteção de Walldern, uma das coisas que eles fazem é traduzir qualquer língua estrangeira, como uma TARDIS.”

“Como uma o quê?”

Ele me olhou confuso:

“Nunca assistiu Doctor Who?” balancei a cabeça e ele suspirou. “Que merda... Ok, esqueça essa parte. Eu tenho uma leve suspeita sobre o que está acontecendo.”

“O quê?”

“Não vou falar aqui, alguém pode nos ouvir.” ele pensou por um tempo e disse, hesitante: “Você… Pode ir à minha casa? Tipo, agora?”

“Claro que não! Eu te conheci ontem, meus pais nunca deixariam.”

“Ah, certo. Então… Comece a mencionar que eu existo e no próximo treinamento você vai, pode ser?”

“Tá. Mas como eu vou ‘mencionar’ você?”

“Que tal: ‘Mamãe, papai, conheci um garoto maravilhoso chamado Nico Blaze e ele me chamou para ir à casa dele, não posso recusar, né?’” ele fez a minha voz em falsete e imitou uma patricinha. Eu ri e dei um soco nele.

“Parece a Nancy Tanaka! Eu não sou nenhum pouco assim.”

“A amiga da Jenny Crowther?! Verdade!” começamos a dar gargalhadas. “Ela é toda fresca! Não gosto dela.”

“Eu também não, e eu conheci ela essa semana.”

Ofegamos e paramos de rir, algumas pessoas no vagão nos olhavam, mas ignorei. Nico me olhou, se aproximou e disse, sorrindo de lado:

“Já você, é quieta, sempre na defensiva, natural e muito mais bonita que ela.”

Não preciso nem dizer que fiquei morrendo de vergonha. E ele nem tinha razão, eu não era ‘natural’: meu cabelo tinha mechas azul-escuro e eu sempre passava muito lápis de olho.

Pigarreei, olhei para baixo e mudei de assunto:

“Enfim, eu… Vou falar a verdade. Sobre você.”

“Sobre- Ah! Para seus pais. Tá, ok!” ele se afastou. “Mas eles não vão achar que é loucura a parte do ordinário?”

“Não, eles são tranquilos. Desde que minha mãe não saia espalhando para todo mundo e faça uma pequena revolta na rua. Os seus não?”

“Minha mãe não presta atenção em nada, provavelmente vai achar que você é só mais uma namoradinha.” fitei-o com uma sobrancelha arqueada e ele se corrigiu: “Não que eu seja assim! Não sou galinha nem nada mas… é complicado.”

“Pode dizer.”

“Quando você for lá, eu lhe explico.”

“Certo. Mas... se é melhor ninguém saber, por que você disse para o garoto procurar um guarda ou um taxista? Não vai ser pior?”

“Não, eles sabem o que fazer em uma situação dessa. Pelo menos é o que eu aprendi.”

“Entendi. Nico… O que você suspeita que esteja acontecendo?”

Ele virou-se para mim com uma expressão pensativa e respondeu, em tom preocupado:

“Semana que vem eu lhe digo, não vou te deixar nervosa adiantadamente.”

O metrô chegou à estação da minha rua e, quando levantei para descer, ele segurou meu braço.

“Mas saiba, Carol: tem algo muito errado com a nossa cidade.”

Notas finais
Gostaram? Reviews, reviews, reviews, por favor! Não dá pra postar sem saber a opinião de vocês! ):