Walldern

4 Trauma.


Notas iniciais
Oi! Dedico este capítulo a Cami Luiza, minha querida beta. E Le, muito obrigada pelos comentários, você é tão boa leitora quanto é escritora!

O barulho que saía da televisão era irritante.

O prefeito fazia um "Aviso Urgente". Felizmente, não consegui escutá-lo graças aos resmungos indignados de minha mãe e pude tomar meu café da manhã em paz.

"Então, pai..." comecei, hesitante. "Eu vou poder ir à casa do Nico hoje, né?"

Meu pai tomou mais um gole de café e fez uma falsa expressão zangada antes de perguntar:

"Mas não era só semana que vem? E esse garoto não parece muito confiante."

"Era só semana que vem, uma semana atrás. E você ainda não me deu resposta. E pare de fingir que você suspeita dele, nem a mamãe suspeita."

Ele relaxou o rosto e sorriu, então franziu as sobrancelhas, murmurou algo sobre o tempo passar rápido e voltou a atenção ao seu café.

"Pai?" estalei os dedos na frente dele.

"Oi?" ele olhou para mim.

"E então... ?"

"Então o quê?"

"Posso ou não?"

Meu irmão apareceu na cozinha, pegou uma maçã de cima da mesa, deu uma mordida e disse com a boca cheia:

"Se eu fosse você, não deixava, dizem que esse Nico é problema na certa."

"Também dizem isso de você e, infelizmente, ele nos deixa viver na mesma casa." sorrimos ironicamente um para o outro.

"Se amem menos." disse meu pai, passando a mão no cavanhaque. "E sim, você pode ir, Carol, mas volte antes das cinco da tarde!"

"Ah, qual é! Você realmente acha que eles vão estudar?" perguntou Andrew, levantando os braços, indignado, e, acidentalmente, esbarrando na cabeça de minha mãe.

Ela, que antes estava vidrada na televisão provavelmente pensando no próximo movimento revolucionário que organizaria, virou-se para ele confusa e perguntou:

"Que foi?"

"Nada, foi sem querer. Mas já que perguntou, sua filhinha quer ir à casa de um garoto completamente desconhecido para "estudar"." ele fez aspas no ar quando disse a última palavra.

"Eu sei, ela me disse isso semana passada, ela vai à casa de um amigo chamado Nico Blaze, não de um completo desconhecido. E eles não vão estudar mesmo, ele irá mostrar tudo que ele anda suspeitando sobre a nossa cidade. Você realmente achou que ela não iria me contar que um ordinário apareceu no ponto de ônibus e que eu não ia gostar que ela investigasse isso? Ela vai praticamente fazer o que eu faço!"

"Reclamar?!" ele bufou e virou-se pra mim, comemorei:

"Há! Na sua cara!"

Nico deu um pulo do meu lado, pondo um braço ao redor dos meus ombros enquanto eu caminhava até a estufa.

"Vai embora comigo hoje, né, Loyd?" perguntou ele.

"Bom dia pra você também, Blaze. Eu vou muito bem, obrigada. E, sim, vou." respondi, rindo.

Na semana que se passara, nos aproximamos, mas ainda nos provocávamos e eu ainda tinha uma queda por ele. Era divertido. Percebi que tinha algo diferente nele e perguntei:

"Desde quando você usa óculos?"

"Desde sempre." respondeu Nico, mexendo distraidamente na manga da minha blusa estampada.

"Claro que não!"

"Claro que sim, usei lentes de contato na última semana, mas elas me irritam."

"Então por que as usou? E como alguém consegue se irritar com lentes de contato?" questionei, com uma sobrancelha arqueada.

"Para causar uma boa impressão em você." ele disse, sorrindo de lado. "E elas incomodam, ficam saindo do lugar! Viu como eu sofri para você me notar?" ele fez um biquinho e eu ri.

"Quanta meiguice! Só que não. Você fica muito melhor de óculos, quem vê pensa que é suuuuper intelectual."

"Você gosta de garotos intelectuais?"

"E quem não gosta?"

"Lizzie e suas amiguinhas vagabundas, Jenny e Nancy." respondeu ele, mas completou "Lizzie não era assim antes."

"Tem razão." Se em dois dias de aula eu já tinha visto o pior de Nancy, imagine o que eu vira de todas em uma semana. "Antes do quê, exatamente?"

Chegamos na estufa. A expressão de Nico ficou um pouco séria e ele disse:

"Deixe as perguntas para mais tarde, hoje você terá uma tarde inteira de respostas."

"Na verdade, só até as cinco da tarde. Pais." rolei os olhos.

"É o suficiente." ele deu uma piscadela e soltou seu braço de meus ombros. "Te vejo no treinamento."

Na hora do intervalo, Diana foi comprar sucos para nós duas e eu fiquei na arquibancada de um dos campos de futebol americano, sozinha, em uma das fileiras do meio, esperando. No campo havia alguns garotos que apenas jogavam a bola um para o outro e corriam. Entre eles, Simon e Nico, que havia tirado a camisa xadrez vermelha e amarrado-a na cintura, ficando só com uma regata branca, os braços branquelos a mostra. Ri sozinha com essa visão. Na primeira fileira, gritando que nem cadelas no cio quando algum dos garotos fazia algo que elas nem ao menos entendiam.

Rolei os olhos e virei-me para me poupar daquela cena e vi Katie na penúltima fileira, lendo um livro apoiado nos joelhos, a capa preta contrastando com a saia godê vermelha. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo alto com alguns fios rebeldes, mas nem um mínimo fio atrapalhando sua visão. Tentei ler o título de longe, não consegui, mas reconheci a capa escura: Jogos Vorazes. Eu realmente gostava da trilogia, então me aproximei dela e resolvi puxar assunto:

"Oi, Katie." apontei para o livro "Muito bom, né?!"
No segundo em que as frases saíram da minha boca, me arrependi. Percebi que, se ela não deixava nem fios de cabelo atrapalharem sua leitura, ela estava me assassinando mentalmente. E eu sabia disso porque eu também detesto que interrompam minha leitura.

Mas quase respirei de alívio quando ela respondeu, com um sorriso:

"Oi, Carolyn. Com certeza! Estou relendo, já li os três, e você?"

"Também!"

Começamos a conversar animadamente sobre o assunto e Diana se juntou a nós quando voltou. Por um breve momento pensei sobre os tais ataques que Diana havia mencionado, quase cheguei a acreditar que poderia ser apenas um boato, Katie parecia tão... Normal, feliz, parecia que tinha seguido em frente.

Eu estava errada.

Mesmo quando sorria, seus olhos demonstravam uma tristeza profunda, eles nunca sorriam junto. O dia estava nublado e claro, mas não havia sol para iluminar as íris castanhas e isso tornava seu olhar mais triste ainda.

"Eu fiquei tão triste quando Rue morreu, não consigo nem imaginar como foi para Katniss perder a única pessoa confiável na Arena." comentei.

Nenhuma das duas respondeu e Katie parou de falar e nos olhou com uma expressão assustada.

Diana ficou confusa por uma fração de segundo, depois fez uma cara preocupada e olhou para o campo: os garotos estavam indo embora, Simon não estava lá e Nico nos olhava, ele percebeu que Katie começava a tremer e saiu correndo.

Eu já sabia o que acontecia com ela quando lembrava de James, mas isso não ajudava, eu não sabia o que fazer, resolvi ficar quieta e observar Di, ela estudara com Katie desde que isso começou, sabia o que fazer.

"Onde está Simon?" Katie perguntou depois de perceber o campo vazio. As líderes de torcida ainda estavam na arquibancada, mas nos ignoravam. "Simon?! Simon! SIMON!"

Ficando de pé no banco, seu rabo de cavalo e sua saia balançavam freneticamente cada vez que ela olhava para uma parte do colégio, tentando encontrá-lo. As líderes de torcida se viraram e começaram a cochichar, dando risadinhas. Diana tentou chamar a atenção de Katie:

"Katie, daqui a pouco vai bater o sinal, vamos indo?" mas foi ignorada.

Os olhos de Katie estavam arregalados e ela tremia cada vez mais. Então, finalmente, ouvi passos correndo e o barulho dos bancos sendo pulados por Simon, que logo alcançou a amiga, murmurou alguma coisa em seu ouvido e a abraçou, acalmando-a. Nico veio logo atrás.

"Onde ele estava?" Di sussurrou à Nico.

"Na... cantina." respondeu ele, e eu senti que era mentira. Diana aparentemente percebeu também, pois apenas assentiu, um tanto desconfiada.

O sinal bateu.

Nós descemos da arquibancada, as líderes infelizes já tinham ido embora, Katie estava mais calma e todos fomos para a Principal.

No treinamento, vi mais lembranças de Katie do outono do mesmo ano que eu vira anteriormente, todas eram igualmente divertidas. Em uma delas, James apoiou cada braço em torno dos ombros dos garotos, sorriu e disse:

"Nós somos invencíveis."

Numa outra, James e Simon estavam na sala de estar de Katie, vestindo smokings, assim como um garoto com maçãs do rosto elevadas, furinho no queixo e cabelos castanhos e outro com cabelos vermelho ferrugem e ainda mais sardas que Simon.

Reconheci os dois imediatamente: Matthew Gale e Carew Damek, amigos de infância do meu irmão. O primeiro, pela clara semelhança, era irmão mais velho de Katie, mas ele nunca usara o sobrenome Lawer, logo, apesar de ele passar a infância inteira com Andrew, eu não sabia que essa era sua irmã mais nova.

Quando Katie desceu, com uma trança incrível no cabelo e um vestido mullet vermelho-escuro, todos os olhos se viraram para ela. De salto alto, ela era exatamente da altura de James, mas ainda um pouco menor que Simon. Carew assobiou e disse:

"Ainda não sou maior de idade, sabe, Katie..."

Ela riu e Matthew deu um tapa na cabeça dele.

"Se você pode pegar a irmã dele," disse Katie, enquanto sua mãe colocava uma linda pulseira marrom em seu pulso. "ele tem o direito de falar o que quiser de mim, Matthew."

"SE VOCÊ PODE O QUE?" indignou-se Carew, Matthew tentou se explicar. "MANTENHA AS MÃOS LONGE DE ARABELLA, SEU FILHO DA PUTA!"

"Ei!" disse a Sra. Lawer, rindo.

"Perdão, Sra. Gale– Sra. Lawer–" ele desistiu. "Anne."

"Eu não peguei a sua irmã." defendeu-se Matthew, e então sussurrou: "Ainda."

Carew abriu a boca para responder mas James falou antes:

"Então, vamos? Austin já me ligou várias vezes me apressando."

"Vamos! Não podemos nos atrasar, cara, é o baile de Outono! O mais legal de todos!" respondeu Katie, pegando sua bolsa e saltitando em direção a porta com o máximo de graciosidade possível com aqueles sapatos.

"Você diz isso sobre todos os bailes, Katie." respondeu Simon, abrindo a porta para ela.

Na última lembrança, os três melhores amigos estavam em uma loja de fantasias. Simon colocou uma peruca loira em James e Katie completou com um óculos de coração cor-de-rosa com roxo. James fez uma pose engraçada: colocou a mão na cintura, inclinou o quadril para o lado, apoiou o cotovelo em uma arara de roupas, deixou a mão desmunhecada e disse em uma voz forçada, fingindo mascar um chiclete:

"Meu nome é Jamie, estou disponível para relacionamentos que durem até que eu troque a minha calcinha."

Katie e Simon começaram a rir e pararam quando um travesti entupido de maquiagem se aproximou de James e falou:

"Oi, gracinha." encostou em seu queixo com o polegar, piscou e saiu da loja.

Os três se olharam por um segundo e começaram a gargalhar descontroladamente e, quando lágrimas já saíam dos olhos de Simon, Katie já segurava a barriga e James já derrubara a peruca, o fôlego deles ainda não tinha acabado.

Eu estava rindo quando as memórias acabaram, Katie me olhava um pouco confusa e Simon desviou os olhos de Nico, arqueando uma sobrancelha para mim.

"Eu acabei de ver quando vocês três foram em uma loja de fantasias e um travesti deu em cima de James." expliquei, meio sem graça, tentando parar de rir.

Para meu alívio, os dois se lembraram e deram risada também.

"Onde Simon realmente estava, Blaze?" questionei Nico, quando estávamos no metrô indo para sua casa.

"Já disse, na cantina." respondeu ele, sem olhar para mim.

"Eu perguntei "realmente", não minta. Não vou contar para ninguém, só quero saber."

"Na. Cantina."

"Ok! Então... Com quem?"

Ele suspirou e me olhou, mas ele não estava impaciente, só não queria falar.

"Olha, eu admiro muito Simon e não quero quebrar a confiança dele. Então, por favor, não fale para Katie. Ele estava com Lizzie."

"O QUÊ?!" quase gritei.

"É, isso mesmo, escandalosa!" ele rolou os olhos e segurou uma risada pela minha reação exagerada. "Mas eles só estavam conversando. Quer dizer, ela estava tagarelando e mexendo o cabelo de um lado para o outro enquanto ele a ignorava e, quando ele tentava se afastar, ela puxava mais assunto. Estava atrasando ele de propósito, ela sabe o que acontece quando com Katie quando ele demora."

"Garota nojenta. Mas, se, teoricamente, era só uma conversa, por que a Katie não pode saber? Eles não são namorados, nem nada."

"Não é ciúme, mas Katie não gosta dela. Katie não odeia ninguém, mas o que ela sente por Lizzie é o mais próximo disso."

"Por quê?"

Ele sorriu de lado (ah!) e disse:

"Muitas perguntas, Loyd. Faltam uns cinco minutos para chegarmos em minha casa, paciência."

Notas finais
Espero que tenham gostado! Novamente: vivo de reviews, leitores anônimos não me animam! Beijos, até o próximo ;)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.