Walking After You
7 Capítulo 6: Doomed
Notas iniciais
Bom, o capítulo de hoje me fez sentir orgulho de mim mesma ^^ eu finalmente consegui descrever e detalhar tudo o que eu queria detalhar, então eu acho que de todos esse é um dos meus favoritos. Talvez tenha ficado um pouco exagerado, mas eu sou muito extrema hehe, então acho que é normal.
Algumas coisas podem ficar confusas, mas não se preocupem, elas serão esclarecidas depois.
Ah, e eu revisei, mas tava louca pra postar, então se deixei algum erro passar despercebido, por favor, me avisem T.T
É isso, chega de avisos! Estou ansiosa pra saber a opinião de vocês =~=
Boa leitura!
Shizuo pegou o envelope e o abriu sem cerimônias. Era pequeno, havia um papel dentro dele, que estava simetricamente dobrado – apesar da aparência velha e amarelada. Desdobrou lentamente, pois, embora curioso, também temia sobre o que estava escrito lá dentro. A aura demoníaca já havia se dissipado completamente, e agora o ar estava estranhamente pacato. Perguntava-se como conseguia fazer isso, mas aparentemente não haveria resposta tão cedo. A carta já estava toda aberta, deixando à mostra uma folha A4. A caligrafia continuava horrível, fazendo-o apertar os olhos e trazer a folha bem para perto para que pudesse entender.
“Olá, meu querido Heiwajima. Você estava realmente estressado, hein? Queria notícias minhas desesperadamente, não é? Haha, eu fico feliz de estar sendo importante – espero que tenham gostado da minha visita hoje. Vejo que você tem um aliado poderoso ao seu lado... Izaya-kun. É uma surpresa vê-los trabalhando juntos; mas eu não me surpreenderia depois do que vi acontecer naquele beco. Oh, foi um dia bonito. Uma pena que você demorou para se lembrar, deve ter partido o coração do pobre Izaya. Não que isso venha ao caso nesse momento.
De qualquer forma, aqui estou eu. E se você acha que agora que sabe quem eu sou não há o que temer, eu não contaria com isso. É, o Izaya está certo, eu sou a CN. E se vocês estão buscando saber o que essa sigla significa é melhor desistirem, não vou falar, isso revelaria coisas que só quero que você descubra mais tarde. Acho que você não se lembra de como nos conhecemos, provavelmente não, mas logo você vai lembrar (até porque eu não te deixaria esquecer).
Não sei o que passa nessa sua cabeça, mas espero que não esteja pensando que eu vou dizer exatamente o que eu vou fazer para você. Isso seria tããão sem graça! Em vez disso, vou deixar uma charada para você. Então, boa sorte para resolvê-la! Até porque, caso não resolva, eu não me responsabilizo pelo que vai acontecer. Mas aí vai:
Preto e branco, juntos, viram cinzas.
Mas será que o fogo consegue apagar essa chama acesa por tantos anos?
Fácil, certo? Não? Foi o que eu imaginei. Mas se fosse óbvio, não haveria graça nisso.
Até mais!
P.S.: Como eu sou uma pessoa incrível, vou te dar uma dica. Espere o próximo dia santo desse mês.
Oh, você não sabe quando é o próximo dia santo? Oops.”
Heiwajima alterou-se. Embora não pudesse ver em que tom CN havia escrito a carta, a ironia lá colocada estava mais do que clara. Ela estava zombando dele. Bufou de raiva e em seguida quase deu um soco na parede, mas foi parado por Izaya, que – já recuperado de toda aquela adrenalina que estava sentindo antes – pediu para ler a carta antes que o loiro despedaçasse a parede com o ato de violência. O informante leu vagarosamente, às vezes parando e voltando para reler os trechos, como se estivesse tentando captar todas as informações. Ao terminar, parecia um pouco trêmulo, estava pensativo com o final e um pouco hesitante sobre como falar para seu amado o modo que havia encarado a carta. Talvez estivesse tentando decifrar a charada, mas não sabia ao certo por onde começar. Suas informações sobre CN ainda era muito vagas para saber como ela agia, mas, pelo menos, não precisaria continuar buscando saber sobre os outros dois suspeitos já que ela própria havia se revelado. Isso era um alívio, mas ao mesmo tempo era algo para se preocupar. Ela estava encarando aquilo tudo como um jogo, e provavelmente tinha algum motivo para fazê-lo. O que seria? Era impossível de saber. Orihara tentou questionar Shizuo, perguntando se ele se lembrava de alguma mulher com quem havia esbarrado ou brigado, mas o loiro não tinha nem um rastro de memória. Nunca havia prestado atenção em mulheres, elas nunca o chamaram a atenção. Logo Izaya desistiu. Sabia que se uma mulher daquelas tivesse resolvido falar com Shizuo, ou brigado com ele, o loiro não iria esquecer. CN não parecia do tipo que fosse difícil de ser lembrada, pelo contrário. Era marcante. E isso fazia com que o moreno ficasse cada vez mais perplexo, em vista que a mesma havia dito que já encontrara Heiwajima antes.
– O que poderia ser um “dia santo”? – Questionou Shizuo, arqueando as sobrancelhas em seguida.
– Depende de qual religião ela está falando. – Retrucou o informante que começava a andar em círculos pelo recinto (coisa que fazia quando estava tentando raciocinar).
– Pode ser qualquer uma e qualquer dia. Pode ser amanhã, pode ser daqui há duas ou três semanas. Não dá pra saber! – Heiwajima sentou-se em sua poltrona e apoiou seus cotovelos nos joelhos, depositando sua cabeça sobre suas mãos logo em seguida. Aquilo era muito complicado para ele.
– Shizu-chan, não é bem assim. – Izaya, que havia parado para pensar por um tempo, finalmente chegara a uma conclusão. Tinha sorte de ser bom em raciocinar rápido. – Eu vou pelo senso comum, mas, como ela é escocesa e a Escócia é um país extremamente religioso, deve estar falando de presbiterianismo.
– Pres- o quê?!
– É a religião predominante por lá. – Respondeu. – Acredito que o dia santo que ela fala é o domingo, que é quando a maioria das religiões “derivadas” do catolicismo celebram cultos ou cerimônias.
– Impressionante, Izaya-kun. – Elogiou admirado.
– Não é nada demais, só usei a lógica. – Sorriu sem graça. – De qualquer forma, agora só temos que descobrir o que é o preto e branco. Ou quem.
– Hoje é quarta-feira, nós temos até domingo para descobrir quem é. Não é muito tempo, então é bom que nos apressemos. – O loiro foi razoável. Izaya assentiu com a cabeça, ele tinha razão, afinal de contas. Estavam correndo contra o tempo, e, se bem sabia, CN não estava de brincadeira.
De qualquer forma, ignoraram aquilo por aquela noite. Ambos estavam cansados, mal podiam esperar para terem uma ótima noite de sono. Apesar disso, estavam nervosos em relação ao que aconteceria. Era a segunda vez que dormiriam na mesma casa, mas dessa vez, Orihara mantinha-se perfeitamente consciente e saudável. Shizuo nunca fôra um bom anfitrião – não era como se recebesse muitas visitas, também –, então ficava na dúvida se deveria colocá-lo para dormir em sua cama ou no colchão. Não sabia o que sugerir para que eles jantassem, embora soubesse que Izaya provavelmente estava com fome. Seus dotes culinários não eram exatamente os melhores, então preferia não arriscar. Era tudo muito complicado para ele, por isso, simplesmente disse para que o moreno se “sentisse em casa e fizesse o que achasse melhor”. Este respondeu com um sorriso e mandou uma mensagem para um de seus contatos e pediu que trouxesse sua bagagem pela manhã, e, ao receber a confirmação, pediu para que Heiwajima lhe emprestasse roupas para aquela noite, pois só receberia suas malas no dia seguinte. O rapaz não se queixou, pegou o menor de seus pijamas – um daqueles que nem usava mais –, uma peça de roupa íntima, uma toalha e entregou tudo para que Orihara pudesse tomar um bom banho e relaxar. O informante, sem cerimônias, seguiu para o banheiro e se trancou lá. Suas roupas logo estavam no chão do banheiro limpo e branco do loiro, ele via seu reflexo no próprio espelho e passava os dedos lentamente por todos os seus ferimentos (seria um problema se Shizuo os visse). Mas não tinha como esconder. Passou alguns minutos tentando inventar uma desculpa convincente, mas resolveu falar que havia sido ferido há alguns dias. Não que Heiwajima fosse acreditar – até porque o conhecia bem, e sabia que ele não se feriria tão facilmente –, mas também não o questionaria quando percebesse que não queria falar. Aquelas eram cicatrizes eram muito antigas para falar sobre todas, então era melhor mantê-las ali, caladas. Aqueles segredos eram como um tesouro perdido no fundo do mar para o informante.
Tomou um banho quente, a água fervente lhe aquecia na noite essencialmente fria que resolvera aparecer naquele dia. Pela pequena janela do banheiro, pôde ver uma lua amarelada brilhar no céu. Era um pouco estranho... Era amarelada como os cabelos de Shizuo, mas não deixava de refletir o branco que cegava, ou deixava o aspecto frio e distante de lado. Talvez aquilo fosse como o relacionamento dos dois que começara a se mesclar vagarosamente, mas continuava o mesmo de alguma forma. Talvez ele só estivesse especulando demais. Seus olhos estavam quase se fechando de tanto sono que sentia, então, resolvera apressar as coisas. Era horrível ficar só. Sempre terminava pensando demais sobre Heiwajima, e isso o machucava. Não por estar pensando nele, mas por pensar em tudo o que fizera até ali para machucar a si mesmo e ao tão amado monstro. Fora tão doloroso passar todos aqueles anos daquele jeito que sentia um nó na garganta só de se lembrar. Sacudiu a cabeça tentando afastar os pensamentos e desligou o chuveiro, vestira as roupas de Shizuo de modo desajeitado por serem muito largas. A calça quase caía e a blusa batia no meio de suas coxas, tornando as coisas um pouco incômodas de usar. Penteou os cabelos molhados e saiu do banheiro, Shizuo estava esparramado no sofá assistindo um programa de televisão qualquer, e ao ver que Orihara havia terminado o banho, posicionou-se para ir. Mas, antes disso, avisou que havia comida congelada caso o informante estivesse com fome. Izaya sabia que as coisas não poderiam ficar melhores que isso, e nem exigiria que ficassem... Sabia que o loiro estava dando o seu melhor para cuidar dele, então, não reclamaria. Foi até a geladeira e olhou tudo o que tinha lá dentro: não havia muita coisa além de doces e leite lá dentro. No congelador havia várias refeições instantâneas e na dispensa também. Izaya pegou um potinho de macarrão e preparou para ele. Shizuo havia dito que já havia jantado então não se preocupou em escolher o melhor sabor para degustar – mas ficou surpreso, pois não tinha muita variedade. Heiwajima parecia muito sistemático com a comida: só havia dois sabores de macarrão, e Orihara honestamente não sabia julgar qual era o pior. Sempre tivera um gosto refinado para comida, seria complicado viver com alguém que só come comida industrializada e bebe leite, mas teria que se acostumar com isso. Ou não. Resolvera ir fazer compras no dia seguinte para dar àquela casa uma dispensa recheada de comida de verdade. Perguntava-se como o loiro conseguia manter-se em forma comendo aquelas porcarias. De qualquer forma, sem se importar com o gosto horrível daquela coisa nojenta, comera tudo o que tinha direito. Estava morrendo de fome, estranhamente. Talvez fosse a ansiedade.
Ao dar a última garfada no macarrão, Shizuo saiu do banho e foi até a cozinha ver se estava tudo bem e sorriu ao ver que a casa estava inteira e o informante estava vivo. Observou os braços machucados do informante, assim como o mesmo havia previsto, mas decidira manter-se calado sobre isso, já que não lhe convinha o que tinha acontecido. Izaya estranhou o fato de Heiwajima dormir só com um samba-canção e uma camiseta numa noite fria como aquela, mas não questionaria os costumes do loiro. E provavelmente ele não sentia frio, resistente como era. Orihara tentava tirar de sua cabeça a imagem do belo físico de Shizuo, mas era impossível com ele deixando seu corpo visível daquela maneira. “Sorte a minha” pensou dando uma risada baixa. Os dois estavam exaustos, então o loiro sugeriu que fossem dormir. Posicionaram-se no quarto, onde ele ajeitou o colchão no chão e pegou cobertores quentes o suficiente para todos.
– Você vai querer dormir aonde, pulga? – Perguntou coçando os olhos e bocejando logo em seguida. Izaya achou aquela cena uma graça.
– Pode dormir na cama, Shizu-chan. Eu fico com o colchão. – Respondeu e quando ia se preparar para deitar Shizuo o interrompeu:
– Mas... Você parece ser uma daquelas pessoas cheias de alergias. Talvez seja melhor eu dormir no colchão.
Izaya arqueou as sobrancelhas.
– Eu? Cheio de alergias? – Gargalhou. – Não seja bobo, Shizu-chan, eu sou uma pessoa saudável, embora não pareça.
– Se você diz. – Deu de ombros. – Mas eu tenho sono pesado, então se você começar a esgoelar durante a noite eu provavelmente não irei ouvir.
– Eu não vou “esgoelar” de noite... – Rolou os olhos e cruzou os braços. – Que idiotice.
– De qualquer forma, tem remédios numa caixinha dentro daquele guarda-roupa. – Apontou para o local. – Caso esteja morrendo, pegue algo lá. Só me acorde se for uma emergência, porque eu fico de mau-humor quando não durmo direito.
– Ok, mãe. – Brincou.
– Nem vem com essa, pulga. – Jogou-se na cama, que fez um estalo. – Eu estou muito cansado para brigar com você agora.
– Tudo bem.
Izaya também se ajeitou no colchão, mas não conseguiu pregar o olho durante toda a noite, mesmo morrendo de sono. Em parte porque estava realmente nervoso por estar dormindo no mesmo quarto que Heiwajima, mas por outro lado, era porque não conseguia tirar da cabeça CN e seus planos. Quem seria preto e quem seria branco? Será que eram duas pessoas? Será que era uma só? Não conseguia tirar tais coisas da cabeça. CN era uma pessoa perigosa, e havia tantos rumores sobre ela que Orihara não tinha uma “base sólida o bastante” para uma pesquisa, teria de ir por intuição. Sua intuição lhe dizia que haveria muitas perdas dali em diante. Se a mesma dissera naquela carta que não se importava que soubessem sua identidade, o informante simplesmente não conseguia deduzir o que ela estava planejando. E a odiava por isso. Sempre odiara pessoas imprevisíveis. Já bastava Shizuo em sua vida, mas agora ela aparecia e tornava tudo mais complicado. Tinha medo de CN, e isso o fazia ficar olhando por todos os cantos para ver se ela estava em algum lugar, tentando sentir sua presença. Mas não, não conseguia ver nada, só conseguia ouvir alguns miados dos gatos de rua e corujas piando, pelo fato do loiro morar no segundo andar, o barulho da cidade era evidente. Os gatos lhe assustavam, miavam de um jeito terrivelmente melancólico e alto, como se ensaiassem uma marcha fúnebre. Imaginava que se ela conseguia deixar sua presença evidente, conseguia facilmente escondê-la também. Estremecia só de cogitar a ideia de ela estar ali... Tentava dissipar tais pensamentos, mas sentia-se tenso demais. Não se movia, ficava a encarar o teto fixamente. Não queria olhar para os lados e correr o risco de encontrá-la observando-o embaixo da cama, nem olhar para o outro lado e ver seus olhos por entre a brecha semi-aberta do armário. Nenhum de seus músculos se relaxava, estavam todos contraídos e em alerta, qualquer barulho – por mais baixo que fosse – era ouvido por Izaya como um estrondo e o fazia ficar nervoso. Por um instante, pôde jurar que havia visto um vulto na janela observá-lo, mas, quando se virou para observar mais nitidamente, havia sumido. Aquela sombra simplesmente se desvaneceu no ar. Como se fosse só uma ilusão para amedrontá-lo. Provavelmente já estava delirando de tanto sono, mas ainda sim, aquilo parecera extremamente real para ele. Perguntava-se se estava ficando louco de fato? Perguntava-se se não estava caindo num abismo de insanidade de onde nunca mais voltaria. Havia tantas coisas se passando em sua mente que era difícil até mesmo conectar palavras ou pensamentos. Seus neurônios provavelmente também estavam exaustos. Deu uma última olhada para a janela e em seguida para Shizuo, que adormecera num sono profundo. Estava tão bonito com a luz baixa refletindo em seu rosto perfeitamente pacato que Orihara ficou observando sua paz por tanto tempo, e terminou por adormecer também. Num sono inquieto, mas bom.
Apesar de estar aparentemente relaxado, Shizuo estava tendo um pesadelo naquela noite. Os sonhos ruins tornaram-se cada vez mais frequentes depois que CN aparecera, como se ela os estivesse controlando. Sentia que ela conseguia entrar em sua mente discretamente e ficar por lá. Ele se encontrava em um lugar que poderia até mesmo ser descrito como o inferno de Dante na Divina Comédia. Estava passando por todos os nove círculos do inferno e seus olhos se horrorizavam a cada um que passava, uma voz ecoava dizendo que o sexto círculo lhe esperava, pois era lá onde ficavam os violentos com o próximo. Era lá que ele passaria a eternidade, sendo flechado pelas mais terríveis bestas para compensar o remorso que não sentira ao praticar atrocidades enquanto em vida. A voz o chamava de monstro, dizia que não havia diferenças entre ele e os demônios que estavam lá. E isso seria provado quando retornasse ao pó. Talvez não houvesse mesmo, e aquilo fosse um fim digno, mas estremecia as bases ao ver como as pessoas ali sofriam e tentava se colocar no lugar das mesmas. Era um horror. Seu estômago se embrulhava e ele sentia vontade de vomitar as próprias tripas – por várias vezes, quase o fez. Queria acordar, mas não conseguia. E sentia todas aquelas almas que não tiveram piedade do Salvador se contorcerem de dor quando submetidas a tais tratamentos como se fossem ele mesmo. O fogo, o sangue, as aberrações... Eram demais para seus olhos. Durante todo o percurso, um rosto conhecido por ele – mas que não sabia dizer quem era, pois só sua boca estava à mostra e o resto coberto por uma longa capa preta – o acompanhava, dizendo tudo o que sabia e passando-lhe certa serenidade. Nem mesmo podia dizer se era um homem ou uma mulher, pois sua voz estava muito distorcida para que ele soubesse. Embora isso, o sentimento de familiaridade mantinha-se ali e isto lhe fazia manter a razão. O indivíduo lhe disse que aquilo tudo era para que Heiwajima soubesse o que acontecia com os pecadores, com aqueles que derramavam o sangue de inocentes – como ele fazia. Dizia também que ele tinha de mudar seu jeito o quanto antes, pois o Senhor não perdoava os que eram como ele. O Senhor não permitia manchas negras em seu mundo composto de pureza, e por pureza apenas. E ele era como uma mancha negra. Sempre fôra, desde que nascera estivera destinado a ser. O sujeito também disse que rezaria por sua conversão, mas que não poderia fazer nada por sua alma na Terra. E também não podia levar-lhe ao céu ou ao purgatório, pois aqueles eram lugares onde Shizuo não poderia passar nem para observar. O loiro questionava-se se aquilo era ou não uma profecia sobre o que aconteceria quando ele morresse. Nunca cogitou ser religioso, até porque nunca acreditou nesse tipo de coisa, mas talvez realmente houvesse um Deus para julgá-lo e mandá-lo para as profundezas daquele lugar horrível, onde realmente merecia ficar.
Nunca lera a Divina Comédia, portanto não sabia o que aconteceria quando chegasse ao nono círculo, nem mesmo cogitava (e isso fazia com que um medo tremendo lhe invadisse o íntimo). O tempo parecia passar cada vez mais devagar no inferno, como se ele estivesse cada vez mais preso naquela escuridão eterna. Viu, por fim, Lúcifer. Aquela fôra, com certeza, a pior visão que já tivera em toda a sua vida. Não desejava nem ao seu pior inimigo que presenciasse tal cena. Era tão amedrontador que Shizuo vomitou um muco sangrento no chão, sem se conter de tanto nojo que sentia. E apertava os olhos incessantemente, tentando se livrar de tudo aquilo, mas o demônio parecia invadir sua mente e permanecer ali. Seu corpo pesava, podia ver que Lúcifer o olhava e lia seus pensamentos repletos do mais puro horror. Podia ouvir sua risada infernal ecoar por todos os cantos do lugar, como se zombasse dele. O nono andar era um lugar tão frio que sentia que iria morrer congelado a qualquer momento; já não sentia mais suas pernas ou dedos. Caiu sobre seus joelhos e sentiu lágrimas grossas se formarem em seus olhos a cada vez que o olhar do diabo se tornava mais intenso sobre si. As lágrimas escorriam e passavam por seu rosto como lâminas de navalha. Ele estava sendo julgado.
– Ó, meu caro... – A voz de Lúcifer ecoava estrondosa pelo lugar, como se todo o inferno pudesse ouvi-lo. – Não tenhas medo de se juntar a nós quando chegar à hora!
– Lúcifer. – Disse o acompanhante de Heiwajima, que parecia intacto a todo o cenário. – Pare de encará-lo. Ai de você se tentar algo.
– Ai de mim. – Ironizou. – Imagino quem sejas. Que honra conceder-me o ar de tua graça! Já estás preso aqui, lembra-te?
– Nunca esqueci. – Respondeu seriamente. – Mas eu vou salvá-lo.
– Tolo. – O indivíduo rangeu os dentes por baixo da capa, levemente irritado com o zombeteiro Satã. – Se me desafiares, pobre de ti. Não há meio de salvares uma alma como a dele.
– Se eu disse que vou, é porque eu vou.
– Queres mesmo que eu te acuse pelo teu verdadeiro nome, maldito? – O demônio exaltou-se um pouco, fazendo o capuz negro recuar. – Pediste minha permissão para que pudesse invadi-lo, e agora que lhe concedi queres desafiar o teu rei? Se te descobrirem, estás morto.
– Jamais faria isso, majestade. – Um sorriso irônico estampou-se por meio daquele rosto encoberto pelo capuz negro e passou despercebido por Lúcifer. – O levarei de volta, minhas desculpas pela rudeza.
– Vá e não te atreves a voltar sem que eu lhe dê permissão, encosto.
Shizuo assistiu àquele dialogo perplexo e atordoado, não sabia mais se estava consciente o bastante para saber se aquilo era um sonho ou se era vida real. Sua visão estava afetada e ficara embaçada desde que caíra, provavelmente feito do encapuzado para que não sentisse mais o olhar de Lúcifer sobre si, e nem pudesse vê-lo. Mas ouvira a cada palavra trocada ali, e se perguntava quem era aquele ser e por que razão quis lhe arrastar para o inferno para te mostrar o que lá havia. Decidira, finalmente, não questionar, até porque estava muito fraco para fazê-lo e sabia que não receberia uma resposta nítida nem se quisesse muito. Lúcifer havia dito que não havia um meio para que ele fosse salvo, e Heiwajima não podia fazer outra coisa além de refletir e questionar para si mesmo se aquilo era de fato verdade. Aliás, questionar era a única coisa que podia fazer, embora não recebesse respostas (e nem quisesse, era tenebrosa a ideia de poder saber sobre o que lhe aconteceria no futuro). Sabia que havia batido em muitas pessoas, e muitas vezes cometido atrocidades – mas nunca matara ninguém. Talvez fosse só porque ele nascera um demônio e voltaria para o lugar de onde nunca deveria ter saído para começo de conversa. Mas doía mesmo pensar, e ele estava tão enojado que preferia evitar trazer tais pensamentos à tona. Que visão devastadora tivera ali. Sem tempo para esperá-lo se recuperar, o indivíduo ajudou-lhe a se levantar e seguiu com Heiwajima apoiado em seu ombro até o ponto de onde partiram, dizendo que a jornada dos dois chegara ao fim. Por fim, Shizuo perguntou-lhe quem era. Pôde ver um lindo sorriso sereno por baixo das vestimentas do ser, que tirou o capuz e revelou quem realmente era. Shizuo sentiu uma paz instantânea ao ver quem estava à sua frente, como se fosse um anjo que lhe aparecera depois de tantos horrores. Tinha o sorriso mais sincero que já lhe fora visto e um rosto de feições finas e maravilhosamente harmoniosas. Se aquela pessoa também estava no inferno, então talvez não fosse tão ruim para ele ficar ali. Foi abraçado pelo anjo caído que refletia brilho próprio no meio daquele antro de aberrações e recebeu um beijo em cada bochecha, o que fez com que retornasse à paz interior e recobrasse a consciência, lembrando-se de que tudo aquilo não passava de uma fantasia, um sonho, algo escondido em seu subconsciente.
– Quando vou te ver de novo? – Perguntou Shizuo, antes de partir.
– Eu sempre vou estar do seu lado, até porque eu sempre estive, bobo. – Sua risada soava como música aos ouvidos do loiro.
Heiwajima acordou em plena paz e extremo bom humor, o que era raro para ele, que estava constantemente mal-humorado. Lembrava-se pouco do sonho que tivera, apenas até a parte em que fôra de encontro com Lúcifer – e ainda sim, os detalhes lhe fugiam da mente. Nem lhe passava pela cabeça quem era o encapuzado, o diálogo que tivera com o diabo, ou mesmo as terríveis sensações que sentira. Sentia-se exasperado por não se lembrar do resto, pois sabia que algo bom tinha acontecido... Terminou por relevar tal fato, ainda mantinha o hábito de esquecer pesadelos muito rapidamente, e isso era ótimo, em sua opinião. Ao mesmo tempo, estava sereno, como se tivesse se recuperado e descansado completamente. Algo bem estranho para quem tinha acabado de acordar de um pesadelo. Bocejou e sentou-se na cama, Izaya também acabava de acordar, mas estava com um visual abatido, como quem não havia dormido direito – e era justamente o que havia acontecido. Suas olheiras eram fundas e seu estado parecia fraco. Parecia que era ele quem havia tido um sonho ruim, na verdade. Mas ainda sim, sorriu ao ver Shizuo bem. Havia saliva seca na bochecha do loiro, de tão bem que havia dormido.
– Bom dia, Shizu-chan. – Orihara coçou os olhos. – Dormiu bem essa noite?
– Não sei dizer. Eu tive um pesadelo.
Izaya arregalou os olhos.
– Oh, mas você estava dormindo como uma pedra. Deveria ficar atordoado se estivesse com alguma sensação ruim, não acha?
– Sim, acho que só não aconteceu porque eu estava sendo protegido por alguém. – Ele tentava se lembrar do que havia acontecido, mas apenas algumas coisas lhe eram claras. – Eu fui até o inferno e voltei, literalmente.
– E quem era esse alguém? – Perguntou curioso.
– Sabe que eu não lembro? – O loiro respondeu. – Só sei que o sonho parecia-se com algo que alguém me falou há alguns dias... Como num filme.
Orihara pareceu um pouco perplexo – arqueou uma de suas sobrancelhas deixando isso ainda mais claro –, sabia que parecia loucura chegar a uma conclusão daquelas de um modo tão repentino, mas achou melhor perguntar, pois se lembrara de uma notícia que recebera há não muito tempo e sentiu que poderia estar relacionado a isso, não sabia o porquê, mas havia algo que lhe dizia que este era o questionamento que desencadearia todas as respostas:
– Shizu-chan, o Kasuka não está fazendo um filme sobre céu é inferno?
Notas finais
Agora vamos aos meus comentários quiloméétricos:
Nhaaa, eu amo a Divina Comédia. Não sei se vocês já leram, mas é muito bom c: Um pouco complexo, mas com certeza um dos meus livros favoritos de todos os tempos~ Tentei adicionar um toque pessoal pra não ficar muito parecido, hehe. Espero que tenha conseguido atiçar a curiosidade de vocês sobre quem é a pessoa por trás da capa preta e porque ele tá fazendo isso... (ou não)
Eu queria ter adicionado o céu e o purgatório também, mas aí o capítulo ia ficar muito maior do que eu esperava. E tem um motivo para o Shizu-chan não ter ido dar uma olhadinha lá - e não é porque ele não pode passar por lá.
Enfim, as coisas vão ser esclarecidas então não achem que eu surtei e comecei a pirar na batatinha UHEUHE, eu particularmente gostei desse capítulo, mas, de novo, não é muito levado pro lado emotivo. Vou tentar voltar com alguns capítulos sentimentalóides, mas as coisas tão ficando mais serious business.
De qualquer forma, espero que estejam gostando, semana que vem sai novo capítulo, ou não, essa semana são as provas de recuperação da minha escola e eu fiquei de recuperação em Ed. Física (sério, SÉRIO.) vou ter que fazer um trabalho gigante UHEUHE, então sei lá, mas é isso ♥ Obrigada por estarem lendo.
xx
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