Wake Me Up
52 Visita Indesejada
Notas iniciais
Alguns dias após voltarem para Oxford, todos se reuniram no apartamento de Margareth. Ela havia preparado um jantar, alegando que precisava celebrar com eles também e pediu a Ty e a Rebecca que convidassem seus amigos mais próximos, então, Rebecca convidou Aaron e Cadence e Ty, por sua vez, convidou Mikhail e Vlad, o que deixou as coisas ainda mais estranhas naquela casa.
— Você me disse que isso seria como um segundo jantar de Natal. – Aaron comentou puxando Rebecca para o lado, discretamente.
— Mas é.
Ele olhou em volta e fez uma careta.
— Parece mais a reunião do clube de pessoas que odeiam o Aaron.
Mikhail, que estava sentado logo ali ao lado, se voltou para ele com uma expressão divertida.
— Não seja bobo, Aaron. Se realmente fôssemos reunir todas as pessoas que te odeiam, precisaríamos de um lugar muito maior.
Aaron fechou a cara para ele, mas Rebecca não conseguiu segurar o riso. Se ninguém acabasse se matando naquela noite, certamente aquele seria o jantar mais engraçado do qual já participara.
— Sabe, como minha namorada, Bee, uma das suas atribuições é me defender.
— Juro que estou tentando – Rebecca o abraçou pela cintura e depositou a cabeça em seu peito –, mas você tem que admitir que isso foi engraçado.
— Eu não vi graça nenhuma.
— Você e você – Margareth apontou para Cadence e Rebecca, fazendo sinal para que as duas fossem até ela –, venham me ajudar a pôr a mesa.
— Porque só as mulheres têm que ajudar na cozinha? – Cadence reclamou.
— Não só as mulheres. O Ty está fazendo o jantar. – Mikhail esclareceu, mas Aaron riu.
— Logo o questionamento dela continua válido.
Uma panela bateu sobre a pia e, logo, o rosto enfurecido de Ty apareceu na porta.
— Eu ouvi isso, Aaron, seu porco imundo! – Ele ralhou com o ex-colega de quarto e Mikhail revirou os olhos. Já fazia algum tempo que os dois não brigavam, mas a implicância mútua permanecia a mesma.
— Ei – Margareth apontou de um para o outro –, pensei ter dito que não queria brigas essa noite.
— Desculpe, tia Maggie, é que ele me tira do sério. – Ty voltou para a cozinha e o olhar de Margareth se prendeu em Aaron como se ela dissesse a ele o quanto estava decepcionada com sua atitude.
— Foi só uma brincadeira. – Ele disse envergonhado e Margareth suspirou.
— Talvez você devesse vir me ajudar a pôr a mesa, Aaron.
— Eu por que?
— Não é óbvio? – Vlad se pronunciou do outro lado da sala. – Para ver se, enquanto trabalha, você consegue manter essa sua boca fechada.
— E eu te perguntei alguma coisa? – Aaron se voltou para ele, encarando-o com raiva.
— Querem saber, rapazes, ambos estão muito falantes essa noite. Venham os dois me ajudar com a mesa.
— É sério?
— Sim, Vladmir. Levante seu traseiro do sofá e o traga até a cozinha. – Margareth ordenou e Cadence e Rebecca suprimiram os risinhos que ameaçaram escapar de suas bocas. Margareth, provavelmente, era a única pessoa no mundo capaz de falar algo como “levante seu traseiro do sofá” e ainda soar ameaçadora. – Você também, Aaron. Use suas mãos para algo além de segurar a Rebecca ao seu lado.
— E eu, faço o quê? – Mikhail perguntou, colocando-se de pé.
Os olhos de Margareth suavizaram no mesmo instante em que ela olhou para ele.
— Ah, querido, você pode ajudar o Ty com a sobremesa, se quiser, mas acho que ele já tem tudo sob controle por lá. Agora, vocês dois – a expressão de Margareth tornou-se novamente dura –, apressem-se. A mesa não vai se arrumar sozinha.
— Qual é?! – Aaron reclamou. – Por que você ganha colher de chá e a gente não?
— É óbvio que é porque eu sou mais bonito que vocês. – Mikhail respondeu já seguindo para a cozinha para ver se Ty precisava de ajuda com alguma coisa.
— Você é um maldito puxa saco, isso sim! – Vlad retrucou e Margareth fechou a cara para ele.
— Cuidado com esse linguajar, mocinho. – Aaron tentou abafar uma risada por causa da bronca que Vlad havia levado e o olhar ríspido de Margareth passou diretamente para ele. – Não sei do que está rindo, o seu linguajar também é vergonhoso, rapaz.
A expressão no rosto de Aaron passou do deboche para o constrangimento mais rápido que um raio e, quando Margareth arrastou os dois jovens para a cozinha, foi a vez de Cadence e Rebecca caírem na risada.
— Quer apostar dez libras que até o fim da noite ela põe um deles de castigo? – A ruivinha perguntou e Rebecca deu um empurrãozinho nela com o quadril.
— Se continuarmos rindo deles, talvez ela nos ponha de castigo primeiro, só para dar o exemplo. – Respondeu, lembrando-se de todas as vezes que Margareth a colocara de castigo na infância, por rir dos irmãos quando eles ganhavam uma bronca da tutora.
Apesar dos resmungos e das dezenas de olhares raivosos que Aaron e Vlad lançaram um para o outro enquanto trabalhavam, eles conseguiram arrumar a mesa de jantar direitinho. Margareth supervisionou tudo, é claro. Ensinando aos garotos onde colocar os talheres e a forma correta de distribuir as louças pela mesa, algo que Aaron julgou extremamente desnecessário, alegando que todos poderiam comer na sala mesmo, apoiando os pratos sobre o colo enquanto assistiam a TV. Margareth pareceu realmente horrorizada com a ideia.
— Deem as mãos. – Ela pediu quando já estavam todos reunidos ao redor da mesa de jantar, com travessas fumegantes de comida dispostas no centro. Ty havia caprichado nos pratos. O frango assado e os legumes pareciam realmente saborosos e a boca de Rebecca chegou a salivar quando ela sentiu o cheiro do pão e do macarrão com queijo. – Alguém quer ter a honra de fazer a oração essa noite?
— Eu faço. – Cadence se ofereceu. – Já tenho experiência com isso. – Ela sorriu para Rebecca, que acenou levemente para ela com a cabeça, compreendendo o que a amiga queria dizer.
Após todos fecharem os olhos, Cadence agradeceu pela refeição que fariam naquela noite e pelo Natal que haviam passado com suas famílias uma semana antes e também agradeceu por estarem todos reunidos ali para celebrarem aquela data novamente, desejando que pudessem repetir a comemoração no próximo ano, já que todos ainda estariam em Oxford. Rebecca aproveitou o momento para pedir que Christopher pudesse se juntar a eles da próxima vez, porque seria muito bom tê-lo naquele grupo e Aaron apertou a mão dela com um pouco mais de força, grato por ela ter se lembrado do irmão caçula.
Quando terminaram a oração, Margareth permitiu que todos se servissem e pediu aos garotos que lhe contassem como havia sido o Natal deles.
— O meu foi tranquilo. – Cadence deu de ombros. – Fomos para a casa dos meus avós, como fazemos todos os anos e eu tive que descrever a Universidade de Oxford em detalhes para as minhas primas mais novas, que estão loucas para estudarem aqui no próximo ano. – Ela olhou para Aaron e abriu um sorrisinho jocoso. – Avisei para ficarem longe de qualquer um com o sobrenome Greed.
Rebecca riu do comentário, mas Aaron fez uma careta de desgosto, como se lembrar daquela sua fase de bad boy pegador fosse uma verdadeira tortura.
— O nosso feriado foi terrível, no inicio. – Ty revelou, segurando uma das mãos de Mikhail por cima da mesa. – Meu pai fez o show de sempre, mas, seja lá o que o Mikhail disse a ele após a ceia, fez com que o restante do Natal fosse um paraíso. Você precisava ver o quanto ele mudou, Becca. Quando saímos de lá, ele já estava perguntando se voltaríamos nas férias de verão.
Rebecca ficou feliz por eles. Talvez, muito em breve, toda a sua família poderia passar algum tempo juntos de novo e, quem sabe, tanto Aaron quando Mikhail pudessem se juntar a eles nessa reunião. Ela mal podia esperar.
— E o seu Vlad? – Margareth perguntou, sorrindo para ele que havia acabado de devorar sua segunda porção de frango.
— Meu feriado foi bom. Passei o Natal com os meus pais e a minha irmã e, fora a insistência da minha mãe para que eu lhe apresente logo uma nora, acho que foi tudo bem. – Os olhos dele se desviaram por meio segundo para Rebecca, mas ela se concentrou na porção de ervilhas em seu prato com grande afinco. Mesmo que Vlad parecesse ter aceitado até bem o fato de que, agora, ela estava com Aaron, ainda era muito estranho falar com ele sobre o tempo que haviam passado juntos. Talvez aquilo melhorasse no futuro, quando o peso de tudo pelo que tinham passado finalmente se dissipasse.
— E o de vocês? – Margareth olhou para o casal, parecendo completamente alheia àquela alfinetada que o comentário de Vlad provocara neles.
— Foi tudo bem também. Aliás, o Christopher mandou um beijo e disse que mal pode esperar para comer mais dos seus cookies deliciosos. – Aaron respondeu e a expressão no rosto de Margareth era apenas carinho e ternura ao falar sobre Christopher.
— Pois diga a ele que as portas desse apartamento estarão sempre abertas para quando ele quiser vir me visitar.
— Se eu disser isso, ele estará na sua porta amanhã de manhã, como um cachorrinho de rua pronto para ser alimentado.
— Ah, mas ele pode vir. – Margareth era toda sorrisos e Vlad cutucou o primo com o cotovelo.
— Parece que você já perdeu o seu posto de queridinho.
— É – Mikhail assentiu – acho que é o destino dos homens da nossa família sermos trocados por um irmão Greed. – Ele ergueu as sobrancelhas para o primo. – Pelo menos agora podemos confidenciar as nossas mágoas um para o outro, não é Vlad?
Vlad fechou a cara para ele no mesmo instante.
— Você é um idiota. – Resmungou, mas Mikhail apenas deu de ombros.
— Não tente me zoar se você não aguenta.
O silêncio que imperou na sala só podia ser descrito como desconfortável e, dessa vez, nem Aaron teve coragem de fazer um comentário sarcástico sobre o assunto, mas para felicidade de todos os presentes, Ty se colocou de pé e perguntou com uma animação que beirava a falsidade:
— Quem quer sobremesa? – Então, todos voltaram a conversar sobre qualquer assunto que não chegasse nem perto do assunto anterior, enquanto devoravam o pudim de chocolate que ele havia feito.
Margareth contou um pouco sobre o Natal que passou com os filhos nos EUA e Rebecca falou sobre os cãezinhos que ela e Aaron haviam ganhado de Christopher e que, naquele momento, deviam estar transformando o apartamento de Aaron em uma verdadeira zona.
— Não acredito que vocês ganharam cãezinhos de presente de Natal. – Cadence fez bico. – Porque não os trouxeram para cá? Eu amo cãezinhos. Quero conhecê-los para ontem!
— Vamos marcar um dia para irmos ao parque e eu levo os dois. – Rebecca se ofereceu. – Podemos passear com eles por lá e, quem sabe, tomar um sorvete.
— Claro! – Cadence se empolgou. – Vai ser maravilhoso! Uma tarde das garotas.
— Tarde das garotas? Então, eu não estou convidado? – Aaron olhou para ela.
— Claro que não está, Aaron. Você precisa soltar a minha amiga um pouquinho de vez em quando. Não dá para monopolizar a atenção dela desse jeito.
— Não faça essa cara de poucos amigos. – Rebecca deu um tapinha na perna dele. – É só uma tarde. Nós vamos fofocar sobre você, babar pelo Ruffus e pela Cristal, tomar sorvete e, é claro, vamos tecer comentários nada inocentes sobre todos os garotos bonitinhos que virmos no parque.
Os olhos de Aaron se arregalaram.
— Mas nem morto eu vou deixar você ir para essa tarde de garotas.
— É brincadeira! – Rebecca riu e Margareth sacudiu a cabeça, rindo também. Ela gostava de ver Rebecca alegre e descontraída daquela forma, sentindo-se segura para falar coisas que ela nunca teria coragem de dizer quando colocaram os pés na universidade pela primeira vez.
Sentia-se orgulhosa de ver o quanto Rebecca amadurecera desde que chegara ali e, finalmente, estava vislumbrando a mulher forte e decidida que sempre soube que Rebecca se tornaria.
— Então, meus queridos, a conversa está muito boa, mas eu quero saber: quem vai me ajudar com essa louça suja? – Margareth perguntou e Ty logo se colocou de pé, se esquivando do trabalho.
— Eu já fiz o jantar. Então, ninguém aqui me verá lavando louça essa noite.
— Eu arrumei a mesa. – Aaron cruzou os braços e Vlad terminou de comer a sobremesa e empurrou o prato sujo para longe de si.
— Também ajudei a arrumar a mesa. Então, estou fora.
— Eu ajudei o Ty a fazer o pudim. – Mikhail respondeu e Margareth cravou os olhos em Cadence e Rebecca.
— Acho que só restaram vocês, meninas. – Disse e as duas garotas se esparramaram nas cadeiras, desconsoladas.
— Se eu soubesse que teria que lavar a louça agora, preferiria ter arrumado a mesa.
— Bem feito. É nisso que dá tentar ser espertinha. – Aaron provocou a ruiva que mostrou a língua para ele em retribuição.
— Eu e o Aaron ajudamos com a louça. – Rebecca se ofereceu e Aaron a olhou como se ela fosse louca. – Eles ainda têm que ir para a universidade essa noite. – Rebecca explicou. – Seu prédio fica bem aqui ao lado.
— Achei que você voltaria para a universidade comigo. – Cadence observou, mas Rebecca fez que “não” com a cabeça.
— Hoje é sábado. Vou passar o restante do fim de semana aqui e volto para o dormitório na segunda, mas os meninos podem te acompanhar até o alojamento. Vocês podem até dividir a corrida do táxi.
— Ty e eu não podemos. Vamos para uma festa do outro lado da cidade. – Mikhail revelou. – Não vamos voltar para Oxford essa noite.
Os olhos de Cadence, bem como os de todos na sala de jantar se voltaram para Vlad.
— Tá. Eu a levo até o St. Hilda’s. – Ele disse meio a contra gosto e Cadence franziu o nariz para ele, incomodada com seu tom.
— Você também não era a minha primeira opção como companhia, tá legal?
Tendo decidido quem voltaria com quem e quem ajudaria Margareth com as louças, todos se despediram com abraços apertados – ou, pelo menos, todos aqueles que não se odiavam o suficiente para preferirem se abraçar com um cacto, como foi o caso de Vlad, Aaron e Ty – e, então, os garotos seguiram para sua festa, Cadence e Vlad pegaram um táxi de volta para a universidade e Aaron e Rebecca começaram sua tarefa de lavar, secar e guardar as louças.
Quando terminaram, o relógio de parede de Margareth já marcava quase onze horas e tudo o que Rebecca mais queria era voltar para o apartamento de Aaron, brincar um pouco com Cristal e Ruffus e, depois, se aninhar nos braços do namorado até a manhã seguinte. Ela já estava tão acostumada a dormir com o calor do corpo de Aaron junto ao seu que, quando passava as noites no dormitório do St. Hilda’s, a cama lhe parecia tão estranha que ela acordava ainda mais cansada do que se sentia ao se deitar.
— Obrigada pelo jantar, Margareth. Foi uma noite muito divertida. – Rebecca abraçou a tutora quando elas se despediram na porta do apartamento.
— Precisamos tornar esses jantares um hábito e você – Margareth apontou para Aaron –, precisa parar de implicar com o Ty e com o Vlad.
Aaron riu.
— Assim a senhora acaba com toda a minha diversão.
Margareth deu um beliscão de brincadeira nele e Aaron saltou para longe dela, rindo como uma criança, mas o momento descontraído durou pouco.
— Já sabe quando será a cirurgia do seu irmão? – Ela perguntou e, ali estava, o assunto terrível no qual todos evitaram tocar durante o jantar.
A expressão alegre de Aaron desmoronou e não era preciso olhar muito fundo para ver a preocupação estampada em seus belos olhos verdes.
— Em duas semanas. – Ele respondeu. – Minha mãe diz que ele está muito confiante.
— Todos nós estamos. – Margareth deu um tapinha reconfortante nos ombros de Aaron. – O seu irmão é um garoto forte. Ele vai superar isso. Você vai ver.
— Vai sim. – Aaron assentiu e Rebecca passou um braço pela cintura dele, tentando lhe passar aquela mesma segurança que Margareth sentia. Ela também tinha certeza de que Christopher ficaria bem. Ele havia prometido isso a eles quando se despediram após o Natal e Rebecca acreditava nele. Christopher não os decepcionaria.
— É melhor nós irmos. O Ruffus deve estar destruindo o seu apartamento nesse instante.
— Ah, aquele pestinha. Eu não duvido mesmo. – Aaron suspirou. – Obrigado pelo jantar, Margareth.
— O primeiro de muitos, meu querido. O primeiro de muitos. – Ela o abraçou e ele a beijou no rosto e, então, seguiu para o elevador ainda agarrado com Rebecca.
— Acha que a Cadence e o Vlad formariam um bom casal? – Rebecca perguntou de repente e Aaron a encarou como se não tivesse entendido a pergunta.
— Isso é um questionamento qualquer, apenas para preencher o silêncio ou é por que você está pensando em bancar o cupido para cima deles? Porque, se eu bem me lembro, da última vez que você tentou juntar a Cadence com um cara russo dessa universidade, o seu irmão quase teve um surto.
Rebecca gargalhou diante da lembrança daquela noite terrível no parque. De fato, sua tentativa de juntar Cadence e Mikhail havia sido um desastre que ela não pensava em repetir nem tão cedo, mas ela se perguntava se seria possível que os dois acabassem se gostando em algum momento. Tanto Cadence quanto Vlad eram pessoas legais e Rebecca queria que eles fossem felizes, não necessariamente um com outro, mas quem sabe...
— Eu acho – Aaron entrelaçou sua mão a dela e beijou os nós de seus dedos assim que eles saíram do elevador –, que vamos precisar de mais alguns jantares como esse para responder a sua pergunta. Mas, de inicio, tudo que posso dizer é que eu não acho que eles vão esganar um ao outro a caminho da universidade essa noite.
— Eu também não acho.
Aaron segurou a porta de vidro azul da portaria do edifício de Margareth para que Rebecca pudesse passar e, assim que eles se aproximaram da porta de entrada de seu próprio prédio, o corpo inteiro de Aaron se retesou e seus olhos trovejaram com uma fúria pela qual Rebecca não estava esperando.
— O que foi? – Ela franziu a testa, mas nem precisou adivinhar o motivo de tal reação, porque parado, bem em frente à portaria do edifício de Aaron, estava Joseph, segurando uma mochila cujo tamanho considerável deixava claro que ele não estava na cidade apenas a passeio.
— Mas que porra você está fazendo aqui?! – Aaron caminhou até ele com passos largos e Rebecca se apressou em acompanhá-lo sem saber, exatamente, se era para evitar que os dois começassem uma briga ali no meio da rua ou se era para se juntar a Aaron caso ele quisesse dar uns socos no irmão postiço.
— Ah, mas já era hora. Eu estava começando a achar que os pombinhos não iriam voltar para casa essa noite.
Aaron segurou Joseph pela gola da camiseta e o jogou contra a parede do edifício, fazendo um som oco ecoar pela rua quando uma parte da mochila dele se chocou contra a construção.
— Vou perguntar de novo, Joseph. Que merda você está fazendo aqui?
O sorriso nos lábios de Joseph tornou-se quase predatório ao ver a raiva que reluzia nos olhos de Aaron. Parecia que quanto mais furioso ele ficava, mais Joseph se divertia.
— O que você acha, A.J.? Já faz uma semana que você saiu de Londres e, me corrija se eu estiver errado, mas eu não me lembro de ter recebido qualquer telefonema seu.
— Talvez eu não tenha telefonado porque eu ainda não resolvi coisa alguma a respeito daqueles documentos.
— Sério? – Joseph inclinou um pouco a cabeça, como se estivesse avaliando aquela resposta. – Eu sempre soube que você era meio lento, mas não imaginei que fosse tanto.
— O que você quer, Joseph?
— Quero que você cumpra com o nosso acordo.
— Eu já disse que, quando eu decidir o que fazer, te avisarei.
— Ótimo. Então, eu acho que vou ficar por aqui um tempo, só como incentivo, sabe?
— Eu não quero você em Oxford.
— Oxford? – Joseph ergueu uma sobrancelha para ele. – Desculpe, acho que eu não fui muito claro. Quando eu disse “aqui”, na verdade, eu estava me referindo ao seu apartamento.
— Nem pensar! – Aaron o soltou e o encarou como se pudesse matá-lo ali mesmo.
— Mais uma vez, deixe-me ser um pouco mais claro com você, A.J: eu não estou pedindo que você me deixe ficar, estou apenas comunicando que irei ficar.
— Você. Não vai. Ficar. Aqui! – Aaron trincou os dentes, tentando controlar a raiva que percorria seu corpo, mas Joseph pouco se importou.
— Tudo bem. Você prefere que eu ligue para o meu pai e peça para que ele vir até aqui me dar uma carona de volta para Londres? Talvez eu até aproveite a viagem de volta para casa para dizer a ele onde aquela pasta super secreta que ele guardava realmente está.
— Você está blefando. – Rebecca deu um passo na direção dos dois e encarou Joseph com raiva. – Se devolver aquela pasta para o seu pai, não vai conseguir seja lá o que você espera ganhar deixando que o Aaron o denuncie.
— Você tem toda razão, princesinha, mas eu não estou vendo o seu namorado aqui fazer nada de útil com toda a valiosa informação que eu entreguei, de bandeja, a ele. Então, me diga, o que te parece que eu estou ganhando ao deixar que ele fique com aquela pasta, hein?
Rebecca puxou Aaron pela manga da camiseta e o afastou de Joseph o suficiente para que ele não pudesse ouvi-los quando ela sussurrou:
— Você não pode deixar que ele fique no seu apartamento.
— Eu sei, mas eu não acho que ele está blefando, Bee. Se eu me recusar, o Erick estará na minha porta amanhã de manhã.
— Mas não faz sentido ele te entregar todos aqueles documentos, só para ligar para o Erick agora e acabar com a coisa toda.
Aaron deu uma rápida olhada para Joseph por cima do ombro e, em resposta, Joseph apontou para o relógio em seu pulso como se indicasse que o tempo que ele tinha para se decidir estava acabando.
— Nada faz sentindo quando se trata do Joseph, Bee. Mas não dá para arriscar.
— Você não pode estar mesmo considerando a ideia de... – Mas Aaron nem deixou que ela terminasse o pensamento, simplesmente se voltou para Joseph e assentiu. – Aaron! – Rebecca bufou de frustração e ele se voltou novamente para ela, segurando-a pelos ombros.
— Acho que é melhor você ficar com a Margareth essa noite e passar algum tempo longe daqui enquanto eu resolvo isso.
— Não mesmo! Eu não vou te deixar sozinho em um apartamento com o Joseph! – Rebecca exclamou, lembrando-se das ameaças terríveis que Joseph tinha proferido para ela no antes da ceia de Natal e que ainda a causavam arrepios. Então, ela também se lembrou do que ele tinha feito com Screapy, o antigo cachorro de Aaron e tremeu só de pensar em deixar Ruffus e Cristal perto dele também.
— Não é seguro você ficar aqui, comigo, enquanto ele também estiver.
— Tão pouco é seguro para você ficar sozinho com ele. – Rebecca retrucou, soltando-se de Aaron e seguindo apressada para a entrada do prédio, mas antes que ela pudesse alcança-la, Aaron a segurou pelo braço de novo e a fez parar.
— Será que dá para você não bancar a teimosa só uma vez?
— Vocês querem que eu fique de costas para que vocês possam discutir com um pouco mais de privacidade? – Joseph debochou e Aaron lançou um olhar irritado para ele.
— Por que você não fica calado, só para variar?
— Olha, A.J., por mais que eu adore os nossos debates, essa mochila está um pouco pesada e eu já esperei vocês por quase duas horas, então, porque você não me dá a chave do seu apartamento e aí eu deixo vocês discutirem aqui fora pelo tempo que quiserem?
— Nós não precisamos discutir mais nada. – Rebecca respondeu para Joseph, mas seus olhos castanhos se mantiveram presos nos olhos verdes de Aaron, como se para deixar claro que ela não mudaria de ideia. – Vamos subir.
— Bee... Argh! – Aaron resmungou, mas a soltou quando ela forçou o braço para longe da mão dele e saiu caminhando apressada. Ele tinha convivido o suficiente com Rebecca para saber quando uma guerra estava perdida.
— Acho que agora já sabemos quem manda na relação. – Joseph comentou quando Rebecca passou direto por ele e Aaron surgiu ao seu lado.
— Faça um favor a si mesmo, Joseph, e cale a droga da sua boca, antes que eu faça você calar.
— É uma promessa? – Joseph abriu um sorrisinho desafiador para ele, mas Aaron não respondeu.
Não fazia ideia de como suportaria dividir um teto com Joseph de novo, mas estava determinado a tirá-lo, o quanto antes, não apenas de seu apartamento, mas também de sua vida.
Se ele queria forçá-lo a tomar uma atitude a respeito daqueles documentos, tinha escolhido o caminho certo. Na verdade, Aaron percebeu, Rebecca tinha toda razão: Joseph não jogava para perder.
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