Notas iniciais
Oláris, Demorei, mas voltei haha não tenho muito que falar aqui nas notas, então, espero que apenas que gostem do que preparei para esse capítulo. Boa leitura.

O restante do fim de semana foi um ensaio sobre a tortura. Joseph não fez nada além de assistir a TV ou jogar vídeo game, mas todas as vezes que ele se movia pelo apartamento, Aaron e Rebecca se tornavam ultraconscientes de sua presença e todos os seus sentidos ficavam alertas. Os de Rebecca, em especial, sempre disparavam quando ele estava na cozinha ou muito perto de Ruffus e Cristal e, na verdade, os dois cãezinhos pareciam ser os únicos ali que não viam Joseph como uma ameaça em potencial. Onde quer que ele fosse, Ruffus e Cristal o seguiam e, mais de uma vez, Rebecca precisou afastá-los dele, reclamando sobre sua total falta de obediência.

— Tem mais alguma coisa para se fazer nessa cidade, além de frequentar as aulas e morrer de tédio? – Joseph perguntou, lá pelas oito da noite, quando ficou claro que apenas pôr os nervos de Aaron e Rebecca à prova não era o bastante para mantê-lo entretido.

— Você sempre pode voltar para Londres caso não esteja satisfeito aqui. – Aaron retrucou e Joseph esboçou um sorriso.

— Boa tentativa, A.J., mas por mais que vocês dois sejam um pé no saco, eu sei que deve haver alguma diversão por aí. – Ele se colocou de pé e pegou sua jaqueta. – Alguém quer me acompanhar?

Tanto Aaron quanto Rebecca o ignoraram, então, Joseph deu de ombros e seguiu para a porta.

— São vocês quem saem perdendo. – Ele retirou a chave da maçaneta e a guardou no bolso da calça. – Vou levar isso aqui comigo, só por precaução. – Avisou e saiu do apartamento sem dar a qualquer um deles a chance de reclamar.

Rebecca se voltou para Aaron assim que os passos dele sumiram pelo corredor.

— Você precisa dar um jeito nisso. Precisa se livrar dele.

— Eu sei. – Aaron suspirou. – Vou tentar resolver tudo amanhã.

— Eu tenho certeza de que ele está armando alguma coisa, Aaron. E tenho mais certeza ainda de que nós não vamos gostar de descobrir o que é.

— Bee, calma. – Aaron a puxou para seus braços e a aninhou em seu peito. – Nós vamos resolver isso, ok? Amanhã você vai para a faculdade e eu vou procurar um advogado para dar uma olhada naqueles documentos. O Joseph vai estar fora das nossas vidas antes que a gente perceba.

— E quanto à Cristal e o Ruffus? – Rebecca olhou para os dois cãezinhos que faziam uma verdadeira algazarra no tapete da sala. – Não vou deixá-los sozinhos com o Joseph.

— Será só por algumas horas, Bee, eles ficarão bem. Além disso, o Joseph não é idiota. Ele não os machucaria sabendo que isso apenas nos voltaria contra ele e acabaria com quaisquer que sejam os planos que ele tenha.

— Ele é racional demais. – Rebecca concluiu, percebendo que Aaron tinha razão. A mente de Joseph funcionava como uma partida de xadrez. Ele não se arriscaria a eliminar uma peça dos adversários se isso o impedisse de dar o cheque-mate. Cristal e Ruffus estariam em segurança, por ora. – Acho que eu vou convidar a Cadence para aquela tarde das garotas amanhã. – Rebecca avisou. – Vai ser mais fácil você se concentrar no que precisa fazer se nós estivermos longe desse apartamento e longe do Joseph.

— Eu acho uma ótima ideia. – Aaron depositou um beijo breve em seus lábios e outro na ponta de seu nariz. – Divirta-se, mas não faça nada que eu não faria.

— Nada que você não faria? – Ela riu. – Ora, ora, mas isso ainda me deixa com infinitas possibilidades.

— Atrevida. – Aaron a puxou para mais alguns beijos e eles se permitiram aproveitar aquele momento, esquecendo-se da tensão que os rodeava, agora que Joseph estava longe.

E, de fato, ele passou muito tempo longe. Já eram quase duas da manhã quando a porta da sala finalmente foi aberta e Rebecca ouviu os passos dele ecoarem pelo apartamento, mas Joseph não parecia estar sozinho. Ela se perguntou se ele seria tão cara de pau ao ponto de levar alguém para passar a noite ali, mas a resposta para a sua pergunta veio alguns minutos mais tarde, quando a porta do quarto de hóspedes se fechou e ruídos muito característicos inundaram o apartamento.

Definitivamente, Joseph não tinha voltado para casa sozinho.

Rebecca pensou em pedir a Aaron para fazer algo a respeito, mas ele estava dormindo tão profundamente que ela não quis acordá-lo. A noite anterior havia sido muito longa para os dois e se Aaron conseguia descansar mesmo com os gemidos nada discretos que vinham do quarto de Joseph, não era ela quem iria perturbá-lo. Então, ela apenas se aconchegou um pouco mais junto a ele e fez o possível para tentar dormir também, mas, quando acordou na manhã seguinte, ainda sentia-se exausta.

Se o momento fosse outro e ela estivesse sozinha com Aaron, teria cogitado matar a primeira aula para dormir um pouco mais, mas Aaron tinha coisas a fazer e, de qualquer forma, ela tinha um seminário para apresentar naquela manhã, então, reuniu toda a força que tinha e se colocou de pé.

O pior dos dias de neve já tinha passado, mas as manhãs ainda estavam bastante frias e Rebecca foi praticamente pulando até o banheiro para escovar os dentes. Ao sair de lá, no entanto, ela quase caiu para trás quando se deparou com uma morena voluptuosa desfilando pelo corredor com nada além de uma camiseta preta que ela tinha certeza de que pertencia a Joseph.

— Você deve ser a Rebecca. – A morena a cumprimentou com um sorriso. – Sou a Johanna. Espero que você não se importe se eu tomar um banho antes de ir embora.

Rebecca nem soube o que responder. Simplesmente balançou a cabeça, mais por reflexo que por vontade própria e recebeu outro radiante sorriso de Johanna antes dela seguir, despreocupadamente, para o chuveiro. Pensou em matar Joseph, não apenas por ele não ter um pingo de vergonha na cara, mas, principalmente, por deixar que sua convidada desfilasse naqueles trajes pelo apartamento de Aaron – que era seu namorado—, mas, em vez disso, Rebecca apenas respirou fundo e voltou para o quarto.

— Seja lá o que você precisa fazer hoje, não saia da cama antes das 8h30. – Avisou a Aaron assim que trancou a porta e começou a se vestir.

Ele rolou na cama, ainda meio grogue de sono e se espreguiçou um pouco.

— Por que não posso sair da cama antes disso?

Rebecca terminou de vestir seu uniforme, amarrou o cabelo em um rabo de cavalo e pegou sua mochila, inclinando-se para depositar um beijo breve nos lábios dele.

— Porque a Johanna está desfilando seminua por esse apartamento e se esses seus olhos verdes e bonitos sequer piscarem na direção dela, eu vou ter que castrar você. – Ela respondeu e Aaron franziu a testa.

— Quem é Johanna?

— É melhor você nem saber.

Ela saiu do quarto, soprando um beijinho de despedida para ele e se dirigiu até a cozinha para fazer um lanche, mas parou antes de entrar no cômodo porque encontrou Joseph de pé, ao lado da pia, com uma caneca fumegante nas mãos.

— Café? – Ele ofereceu e Rebecca resmungou algo nem um pouco educado e lhe virou as costas, saindo do apartamento logo depois. Ela preferiria beber a água da privada a aceitar qualquer coisa que viesse de Joseph e, provavelmente, ele sabia disso, mas não se importava, assim como não se importou de levar uma completa desconhecida para passar a noite em um apartamento que nem era seu.

As aulas naquela manhã se arrastaram com a velocidade de uma tartaruga e, após apresentar seu seminário, Rebecca se esforçou para prestar atenção nas demais disciplinas, mas sua mente estava bem longe do St. Hilda’s, vagando dos cãezinhos que a esperavam no apartamento até Aaron. Ela se perguntava se ele já teria conseguido resolver a questão dos documentos, porque não tinha certeza se sua paciência sobreviveria a mais um dia com Joseph.

Ele era simplesmente demais para lidar e parecia estar se esforçando para levá-los a loucura, embora Rebecca suspeitasse que ele sequer se dava conta disso. Psicopatas não eram muito bons em detectar emoções, fossem elas boas ou ruins, então, era provável que Joseph nem tivesse notado o quanto os incomodava. Ainda assim, Rebecca sabia que ele tinha se estabelecido no apartamento de Aaron com uma missão e, embora ela não fizesse a mínima ideia de que missão era essa, não queria que Joseph ficasse ali por tempo suficiente para concluí-la. Qualquer segundo perdido com ele era tempo demais.

Quando o sinal que anunciava o fim das aulas do primeiro período finalmente tocou, Rebecca enviou uma mensagem para Cadence e pediu que a amiga a encontrasse no dormitório. Ela esperava que Cadence não tivesse nenhuma tarefa importante para aquela tarde, caso contrário, teria que voltar para o apartamento e não estava muito entusiasmada com essa ideia.

— Você está com uma cara péssima, sabia? Vai ter que pegar leve nas suas noites com o Aaron, porque nem só de amor vive o homem. As pessoas também precisam dormir. – Cadence brincou e Rebecca suspirou, derrotada. Se ao menos ela tivesse passado a noite em claro por esse motivo, estaria de bom humor agora, mas, com Joseph os infernizando, a situação era totalmente diferente.

— Será que podemos fazer aquela nossa tarde das garotas hoje? – Ela perguntou, sentando-se na escadaria do alojamento.

— Você não tem aula no segundo período?

— Tenho, mas hoje eu não estou conseguindo me concentrar em nada, então, tanto faz estar presente ou não.

— Está tudo bem entre você e o Aaron? – Cadence a olhou de esguelha. Já fazia algum tempo que Rebecca deixara de ser aquela aluna irritantemente certinha, mas todo esse desinteresse com as aulas, por parte dela, não era algo normal.

— Está tudo ótimo com o Aaron. O problema das nossas vidas é o novo colega de apartamento dele.

— O Aaron tem um colega de apartamento? – Cadence pareceu confusa e Rebecca suspirou de novo.

— Não exatamente. Na verdade, essa é uma longa história, mas a questão é que o Joseph tira a gente do sério.

— Ok. – Cadence se sentou ao lado dela na escadaria e apoiou os livros no colo. – E quem é esse tal de Joseph?

— É o irmão postiço do Aaron, embora não tenha nada de fraterno na relação dos dois.

— E ele está morando com o Aaron agora?

— É só por um tempo. Eles precisam resolver uma coisa juntos e, até lá, nós precisamos aturá-lo.

— Mas o cara é tão ruim assim? Quer dizer, pela forma como você fala, ele não parece mesmo ser a melhor companhia do mundo, mas ele não vai ficar em Oxford para sempre, não é? Vocês poderiam tentar ignorar a presença dele enquanto ele estiver por aqui.

Rebecca olhou para Cadence imaginando se deveria lhe contar toda a verdade sobre Joseph. A relação complicada que ele tinha com Aaron e toda a situação que eles viveram no passado era algo muito pessoal e ela tinha certeza de que Aaron não gostaria que ela compartilhasse esses detalhes da vida dele com Cadence, mas por outro lado, sua amiga parecia ter um fraco por cafajestes e ela receava que, caso seu caminho viesse a se cruzar com o Joseph, Cadence acabasse entrando em uma relação bem perigosa com ele. Então, pelo sim e pelo não, Rebecca decidiu que seria melhor alertá-la sobre a personalidade do rapaz.

— O Joseph não é o tipo de pessoa que a gente consegue ignorar. Ele é um psicopata. – Rebecca esclareceu e Cadence a encarou sem entender.

— Como assim um psicopata? Você quer dizer em um sentido figurado, não é?

— Não. Estou falando que ele é, literalmente, um psicopata, daqueles com laudo médico e tudo. O Joseph passou os últimos seis anos da vida dele em um hospital psiquiátrico.

— Tá de brincadeira! – Cadence arregalou os olhos, chocada com aquela revelação. – E o que diabos o Aaron tem na cabeça para deixar esse cara se hospedar no apartamento dele?!

— Não é como se ele tivesse outra opção, mas, como eu disse antes, essa é uma longa história e não tenho permissão para compartilhar os detalhes. Problemas de família, sabe? Então você vai ter que se contentar com isso.

— Cara, isso é bizarro. – Cadence esfregou os braços como se estivesse tentando se livrar de um arrepio e Rebecca se voltou para ela com olhos suplicantes.

— Sei que eu não deveria te incentivar a matar aula, mas, caso você não tenha nada importante para fazer no segundo período, você poderia, por favor, tirar a tarde de folga e ir ao parque comigo hoje? Eu estou mesmo precisando me distrair um pouco.

— E que tipo de amiga eu seria se não te ajudasse a manter uma distância segura do meio-irmão psicopata do seu namorado? – Cadence passou um braço ao redor dos ombros de Rebecca e a encorajou a se levantar. – Vamos lá, garota. Vamos tirar esses uniformes horríveis e vamos nos divertir.

Então, após trocarem de roupa e guardarem seus materiais no dormitório, as duas se dirigiram até o edifício de Aaron para buscarem os cãezinhos para um passeio no parque, mas Cadence decidiu não subir até o apartamento, alegando que o lugar lhe trazia más recordações.

Rebecca nem insistiu no assunto, porque sabia muito bem quais recordações eram essas e, mesmo a contra gosto, ela subiu até lá sozinha, rezando para que Joseph não estivesse à vista. Suas orações, é claro, foram ignoradas porque, assim que abriu a porta, ela deu de cara com ele, largado no sofá, assistindo a algum filme de ação que ela desconhecia. Johanna, pelo visto, já tinha ido embora e Rebecca não soube se ficava aliviada por isso ou tensa por saber que estava sozinha com Joseph ali dentro.

— O Aaron já voltou? – Ela se forçou a perguntar e Joseph apenas sacudiu a cabeça, sem prestar muita atenção quando ela passou por ele apressada e foi até o quarto buscar Cristal e Ruffus para levá-los ao parque.

Rebecca os vestiu com um agasalho quentinho de lã e, depois de se certificar de que havia pegado seus saquinhos higiênicos, colocou suas coleiras e se dirigiu para a porta.

Joseph pareceu prestar atenção nela pela primeira vez desde que ela entrara ali.

— Aonde você vai? – Ele perguntou, franzindo a testa para as roupinhas bem elaboradas dos cães e para todos os agasalhos que a própria Rebecca usava.

Ela nem olhou para trás quando respondeu:

— A nenhum lugar para o qual você esteja convidado. – Então, ela fechou a porta com força e desceu para se encontrar com Cadence na recepção do prédio.

Ruffus e Cristal ganharam uma admiradora logo que Cadence pousou seus olhos neles. Ela perdeu uns bons cinco minutos apenas fazendo carinho nos dois e repetindo o quanto eles eram lindos e eles pareceram bastante à vontade com toda aquela atenção. Deitaram, rolaram e latiram e, algumas vezes, até pularam sobre Cadence, tentando lamber seu rosto enquanto ela ria como uma boba. Rebecca também riu bastante dessas tentativas.

Elas passaram em uma confeitaria, a caminho do parque, para comprar um pretzel doce e, depois seguiram em sua caminhada, apreciando a paisagem desfolhada do inverno e o pouco que tinha sobrado da neve que cobrira a cidade durante o feriado, enquanto conversavam sobre quaisquer coisas que lhes fossem interessantes. Cadence confidenciou a Rebecca que havia conhecido um garoto na biblioteca e que os dois vinham trocando mensagens desde então e Rebecca lhe pediu todos os detalhes sobre isso, agradecendo pelo descanso que esse momento de descontração lhe proporcionava dos problemas que a aguardavam no apartamento.

A grande questão, porém, é que mesmo sem convite, “o problema” do apartamento tinha decidido segui-la até o parque e Rebecca nem notou sua presença até que ele estivesse parado, bem ao lado dela, segurando um café expresso tamanho família.

— Dia frio, não é? – A voz de Joseph a atingiu com a mesma intensidade de um caminhão e Rebecca quase gritou ao vê-lo ali, mas Joseph, por sua vez, era a personificação da calma.

Ele estava totalmente descontraído, saboreando seu café e, se Rebecca não o conhecesse, ela até poderia tê-lo achado atraente com suas características roupas pretas e um par de luvas azul marinho, mas ela o conhecia muito bem e teve vontade de chutá-lo e de sair correndo, logo em seguida, mas, em vez disso, se contentou em perguntar:

— O que você está fazendo aqui, Joseph?

— Estou caminhando. – Ele deu de ombros. – Aproveitando uma bela tarde no parque.

— Acontece que eu não te convidei para esse passeio.

— E quem disse que nós viemos juntos? – Ele esboçou um sorrisinho. – Foi apenas uma grande coincidência a gente esbarrar por aqui, afinal, eu vim sozinho.

Rebecca o encarou, praticamente fervendo de raiva, mas antes que ela dissesse qualquer coisa da qual pudesse se arrepender, Cadence se aproximou de Joseph e disse:

— Imagino que você seja o irmão postiço do Aaron, não é?

Ele olhou para ela, como se apenas naquele momento tivesse se dado conta de sua presença e, para a grande surpresa de Rebecca, assentiu.

— Eu também deveria saber quem você é?

— Meu nome é Cadence. – Ela respondeu, calmamente. – Sou amiga da Rebecca.

— Ah é? – Joseph prendeu seu olhar ao dela e a expressão amistosa que ele exibia sumiu de seu rosto como num passe de mágica. – Muito legal, ferrugem, mas foi uma pergunta retórica. Na verdade, eu não dou a mínima para quem você é.

Cadence ficou lívida de vergonha e Rebecca, mais uma vez, cogitou a ideia de dar um chute em Joseph, mas ao que parecia, todo mundo havia decidido que aquela era uma ótima tarde para um passeio no parque porque, no momento em que ela abriu a boca para respondê-lo, Ty e Mikhail apareceram em seu campo de visão e aceleraram o passo até ela, acenando com entusiasmo.

— Ah, caramba, eu não acredito que você trouxe os cãezinhos! – Ty se abaixou diante de Cristal e Ruffus e eles não perderam tempo em pular sobre ele, fazendo a algazarra de sempre. Para aqueles dois pestinhas, cada segundo do dia era uma farra diferente. – Olha como eles são uma gracinha, Mikhail. Eu quero um desses quando eu me formar.

— Você mal consegue cuidar de si mesmo, imagina de um cachorro. – Mikhail brincou e Ty fez careta para ele, protestando contra aquela afirmação.

— Vocês dois não deveriam estar na aula? – Rebecca estreitou os olhos para eles e Mikhail ergueu as mãos, desvencilhando da responsabilidade. – Eu tenho um horário vago. O seu irmão é quem queria sair para tomar um café, então, eu vim.

— A minha aula do segundo período era um saco. – Ty se explicou, então, ele olhou para Rebecca e foi sua vez de semicerrar os olhos para ela. – Você também não deveria estar na aula, irmãzinha?

Rebecca teve, pelo menos, a decência de ficar constrangida por ter sido pega em flagrante.

— A minha aula do segundo período também não era uma das melhores. – Ela respondeu envergonhada e Ty riu.

— Mas quem diria que eu viveria para ver Rebecca Andrews matar aulas, hein? Nossos pais ficariam chocados. – Ele acariciou a cabeça de Ruffus enquanto Cristal lambia sua orelha com grande afinco. – A dona de vocês é uma rebelde, estão vendo? Não sigam o exemplo dela. Ela é uma péssima aluna.

— Pare de envenenar os meus cachorros contra mim. – Rebecca deu um tapa na cabeça dele e Mikhail sorriu diante daquela implicância mútua de irmãos.

— Acho que nós estamos sobrando aqui, ruivinha. – Ele disse para Cadence e, no mesmo instante, Ty se colocou de pé e se voltou para ele com cara de poucos amigos.

— Que negócio é esse de “ruivinha”? O que é isso?! Pode ir parando com essa intimidade toda.

— Que intimidade? Ela é ruiva mesmo, Ty.

— Mas ela também tem um nome, não tem? – Ty resmungou e tanto Cadence quanto Rebecca não conseguiram conter o riso diante daquele ataque bobo de ciúme.

— Relaxa, Ty. Eu não vou me atirar em cima do seu namorado de novo. Aprendi a minha lição.

— É bom mesmo. – Ele cruzou os braços, ainda insatisfeito com o apelido e Mikhail o abraçou, depositando um beijinho em sua bochecha.

— Você é uma graça, sabia?

— E você não vai me comprar tão fácil. – Ty retrucou, mas o sorriso que se instalou em seus lábios dizia o contrário.

Rebecca só pode rir dele. Estava na cara que Ty era um bobo apaixonado, mas ela não estava em posição de julgar. Com certeza, quando estava com Aaron, ela não era muito diferente do irmão.

— Vocês querem se juntar a nós? – Ela perguntou, torcendo para que eles aceitassem o convite e para que sua presença no grupo fizesse Joseph recuar. Rebecca ainda podia senti-lo, parado bem atrás dela e não duvidava de que, naquele momento, ele estava observando-a e analisando cada movimento seu. Joseph era um estrategista e o que mais a incomodava era o fato de não saber o que ele estava tramando.

Será que ele se divertia aterrorizando-a? Era pouco provável. Rebecca sabia que uma das principais peculiaridades de um psicopata era sua incapacidade de reconhecer o medo em outros indivíduos, então, ainda que ela estivesse apavorada e tremendo dos pés a cabeça, Joseph não conseguiria identificar tal expressão e, portanto, não teria como ele se divertir com isso.

Talvez atormentá-la suprisse sua necessidade constante de dopamina¹. Isso certamente explicaria porque Joseph parecia quase alegre ao segui-la pelo parque daquele jeito, afinal, psicopatas eram viciados nesse neurotransmissor e o grande problema nisso era o fato de que eles precisavam de cada vez mais estímulos para suprir essa necessidade. Isso fazia Rebecca se perguntar quando aquela perseguição deixaria de ser suficiente para Joseph e ele precisaria recorrer a outros meios para satisfazer aquele vício.

Isso sim lhe causava arrepios.

— A gente estava indo comprar um café. – Ty acenou para a saída do parque e Rebecca não perdeu tempo em se juntar a eles.

— Maravilha! Estou mesmo louca por um Macchiato. – Ela sorriu e Joseph passou os dentes, levemente, pelo piercing em seu lábio inferior.

— Não vai poder entrar na cafeteria com os cachorros, Rebecca.

Os olhos de Ty se voltaram para ele e suas sobrancelhas se franziram como se, apenas naquele momento, ele tivesse reparado na presença de Joseph e tentasse entender qual era a relação dele com sua irmã.

— Vocês estão juntos? – Ty questionou, apontando de um para outro.

Rebecca abriu a boca para responder, mas Joseph foi mais rápido.

— Não. A gente só estava caminhando pelo parque e aí nos esbarramos. Cidade pequena essa...

— Hum. – Ty olhou para Rebecca como se pedisse explicações e ela suspirou pesadamente.

— Esse é o Joseph, irmão postiço do Aaron. Ele está na cidade a... negócios. – Ela se virou para Joseph e ele concordou com um aceno breve.

— Algo do tipo.

— Ah, então, você o conhece. – Ty concluiu, mas Joseph prendeu seu olhar em Rebecca e ergueu uma sobrancelha.

— Conhece?

Aquilo, com certeza, era uma provocação. Ele queria deixar claro que sempre estaria um passo a sua frente e que ela jamais conseguiria vencê-lo em seu próprio jogo. Joseph estava, praticamente, desafiando-a a desvendar seus planos e Rebecca sabia que, se cedesse à curiosidade, ela acabaria presa em uma teia muito bem elaborada. Ele era um jogador nato e ela não podia se deixar cair em seus joguinhos mentais.

— Talvez eu não te conheça tão bem quanto deveria, mas sei que você também não me conhece. Foi por isso que você me seguiu até aqui hoje, não foi Joseph? Porque eu sou uma variável que você ainda precisa estudar. – Ela retrucou com um quê superioridade e os olhos dele brilharam com o desafio.

— Talvez. Ou talvez eu estivesse muito entediado e precisasse de uma distração. Talvez eu nem tenha te seguido até aqui, já pensou nisso? Talvez esse nosso encontro tenha sido mesmo uma mera coincidência. Talvez eu tenha vindo encontrar outra pessoa e, talvez, só talvez, eu ainda esteja aqui, discutindo essa bobagem, porque estou gostando do olhar agressivo que o seu irmão está direcionando a mim.

— Como é? – Ty, que realmente estava encarando-o com irritação, franziu as sobrancelhas, completamente confuso e Rebecca ficou tão confusa quanto ele quando Joseph, simplesmente, se desviou dela e puxou Ty para junto de si, depositando um beijo em seus lábios.

— Não precisa ficar com ciúme – ele disse para Mikhail, quando esse fez menção de avançar sobre ele –, tem espaço suficiente para vocês dois na minha cama. A gente pode até fazer uma festinha qualquer dia.

Então, ele se afastou, como se nada tivesse acontecido e Rebecca observou, boquiaberta, enquanto ele seguia até o outro lado do parque para se encontrar com um tipo assustador que, claramente, o estava esperando. Joseph retirou algumas libras da carteira e entregou ao homem e, em resposta, o homem retirou um pacote de tamanho considerável do casaco e o entregou a ele, antes de se afastar, rapidamente, olhando para os lados para se certificar de que estava tudo sob controle.

— São tantas opções, não é mesmo? – Joseph sorriu para ela e, então, sumiu de vista, deixando-a com ainda mais perguntas do que já tinha.

O que diabos ele tinha acabado de comprar e, seja lá o que fosse aquilo, tinha alguma relação com o acordo que ele fizera com Aaron? Encontrá-la no parque tinha sido mesmo coincidência ou tudo não passava de um plano? Joseph queria que ela visse aquele encontro? Ele esperava que ela dissesse a Aaron o que tinha presenciado no parque? E, além disso, ele realmente sentia atração por garotos também ou aquilo tinha sido só mais uma provocação?

Fosse como fosse, talvez Joseph estivesse certo. Talvez fosse mesmo impossível vencê-lo no próprio jogo.

Notas finais
NOTAS EXPLICATIVAS: 1) Dopamina: é um neurotransmissor que desempenha importantes funções no organismo, sendo, a primeira delas, a sensação de prazer. No decorrer de circunstâncias agradáveis, a dopamina é liberada, desencadeando impulsos nervosos, que levam a uma sensação de prazer e bem estar e, segundo cientistas da Universidade de Vanderbilt, nos EUA, o cérebro de um psicopata não apenas produz mais dopamina que o normal, como esses indivíduos também são viciados nesse neurotransmissor, o que pode explicar seu desejo de matar e sua vontade de manipular as pessoas. *** Então, meus amores e minhas amoras, esse capítulo deixou muitas perguntas sem respostas, não é? A pobre da Rebecca até perdeu o rumo de casa depois desses acontecimentos, mas eu quero saber de vocês: quais suas teorias? Como disse Joseph "são tantas opções, não é mesmo?" haha. Espero que vocês tenham gostado do capítulo e eu sei que vocês sentiram falta do nosso ex-bad boy, mas não se preocupem porque ele estará mais presente no próximo. Eu prometo. Obrigada por acompanharem e comentarem e eu vejo vocês em breve. Até lá o/