Wake Me Up
32 Montando o Quebra-Cabeça
Notas iniciais
Quando Rebecca acordou, na manhã seguinte, o cabelo ruivo de Cadence estava espalhado sobre seu rosto e metade do corpo dela estava, praticamente, despencando da cama. Ela havia ido se deitar ali, na noite anterior, ao ver o estado em que Rebecca voltara de sua visita à Brookes College e, embora Rebecca tivesse deixado claro que preferia não falar a respeito, isso não impediu que, após tomar um banho e vestir seu pijama, Cadence pulasse para sua cama com duas canecas de chocolate quente que ela havia preparado no pequeno micro-ondas da sala comunal do alojamento.
As duas não conversaram muito. Na verdade, tudo que fizeram foi tomar o chocolate quente e assistir a um filme de suspense qualquer que Cadence colocou para rodar em seu notebook e, em algum momento – enquanto a mocinha tentava fugir do serial killer que, até aquele momento, ainda não havia dado às caras –, as duas acabaram caindo no sono e largado o notebook aos pés da cama.
Com cuidado, Rebecca retirou o cabelo de Cadence de seu rosto e se levantou da cama, saltando o corpo inconsciente da amiga para chegar ao banheiro. Seu lábio tinha parado de doer, mas ainda tinha uma aparência ruim apesar de o corte estar cicatrizando e as manchas roxas que haviam em seu rosto tinham praticamente desaparecido, mas eram compensadas pelos olhos inchados que ela havia adquirido ao chorar tanto na noite anterior.
– Você está um trapo. – Rebecca disse para seu reflexo no espelho – Nunca pareceu tão patética na vida.
Então, abriu o pequeno armário que ficava sobre a pia do banheiro e pegou sua escova de dente e o creme dental, para começar a se arrumar, pois mesmo que sua vida estivesse uma droga e que sua aparência física refletisse isso, ela ainda tinha aula naquela manhã. Cadence acordou apenas alguns minutos depois dela, quando seu despertador começou a tocar ao som de Wild da Jessie J, e quando ambas ficaram prontas, pegaram seus materiais e seguiram para a lanchonete mais próxima a fim de tomar seu café da manhã.
Rebecca passou a maior parte dele em silêncio, apenas contemplando a arquitetura imponente dos prédios históricos de Oxford, ao seu redor, enquanto Cadence se esforçava para espelhar sua atitude silenciosa, mas quando elas finalmente terminaram de comer e caminharam de volta para a faculdade, Candence não conseguiu mais aguentar toda aquela quietude e decidiu puxar assunto.
– Okay. Acho que essa história de permanecer em silêncio já durou por tempo o bastante. – ela disse enquanto tentava acompanhar os passos apressados de Rebecca – Eu estou começando a ficar preocupada com você. Então, me conta: o que foi que aconteceu ontem à noite?
Rebecca resmungou alguma coisa inaudível e suspirou alto.
– Não há muito que dizer sobre ontem. – ela respondeu de má vontade – Só o que tenho a dizer é que eu sou uma idiota, mas isso o Reino Unido inteiro já deve saber.
– Porque está dizendo isso? – Cadence olhou para ela – É porque o Vlad não te perdoou? Porque, se for por isso, saiba que o único idiota aqui é ele.
Mesmo com seu humor em frangalhos, Rebecca teve que rir desse comentário.
– Ah, não. O Vlad me perdoou, sim. – ela respondeu cheia de sarcasmo – O único problema é que, antes de ele fazer isso, eu o encontrei com a língua enfiada na garganta de outra garota.
– Como é? – Cadence parou, completamente chocada com aquela revelação, mas Rebecca apenas olhou para ela rapidamente.
– Olha, é longa história. – disse com um suspiro cansado – Se quiser mesmo saber os detalhes, nós podemos almoçar juntas nessa tarde e aí eu te conto tudo, mas agora não vai dar mesmo para conversar. – ela acenou com a cabeça em direção a escadaria do St. Hilda’s – Preciso chegar a tempo na aula, pois já que tudo na minha vida está uma merda, pelo menos os meus estudos eu tenho que manter em ordem.
– Tudo bem. – Cadence assentiu, ainda um tanto pasma com as palavras de Rebecca – Te vejo depois de aula, então? Para o almoço?
– Vou te esperar lá no dormitório. – Rebecca concordou e depois acenou debilmente para ela, antes de seguir para sua primeira aula.
A aula foi um saco!
Rebecca nunca imaginou que poderia ficar tão entediada assistindo a um seminário sobre as cinco mulheres mais importantes no ramo da psicologia clínica, mas ela também nunca tinha imaginado que seu primeiro namoro terminaria da forma como terminou, então suas suposições não estavam valendo de muita coisa ultimamente.
Quando finalmente saiu da aula, ao meio dia, ela encontrou Cadence a caminho do dormitório e, depois de guardarem seus materiais, as duas seguiram para o Angel & Greyhound, que era um dos restaurantes mais próximos do St. Hildas.
Cadence parecia ansiosa para ouvir toda a história que Rebecca tinha para lhe contar sobre sua visita a Brookes College, na noite anterior, mas Rebecca, por sua vez, não podia estar menos interessada em falar sobre o assunto. Só de pensar em tudo o que havia presenciado atrás daquela arquibancada já se sentia um pouco deprimida, mas como tinha prometido que contaria os detalhes, então, tomou coragem e contou tudo.
Quando terminou, Cadence tinha no rosto uma expressão que era um misto de perplexidade e revolta.
– Mas que safado! – ela exclamou indignada – Não acredito que ele teve o descaramento de falar aquele monte de merda para você e, depois, fazer isso. Como ele ousa?
– Ele disse que pensou que a gente tinha terminado. – Rebecca explicou – Disse que ficou magoado porque achou que eu tinha escolhido ficar com o Aaron e, então, aquela garota apareceu e ele disse a si mesmo “porque não?”. Como se eu fosse capaz de terminar com alguém sem dar nenhuma explicação ou sem parar para conversar antes. Quero dizer, que tipo de garota ele acha que eu sou? O tipo que termina com alguém e não manda nem um torpedo, dizendo: “olha, eu só queria te avisar que o nosso namoro acabou, então, se alguma garota gostosona der em cima de você hoje, não se acanhe. Arraste-a para trás da arquibancada do campo de futebol e lhe dê uns bons amassos.” É sério?!
– Se quer saber minha opinião – Cadence se pronunciou enquanto devorava uma batata frita de seu Fish and Chips –, essa foi a desculpa mais esfarrapada que eu já ouvi até hoje. Quero dizer, se vocês tivessem dito um ao outro que iriam dar um tempo no relacionamento e ele tivesse ficado com a menina durante esse período ou mesmo se você tivesse se envolvido com o Aaron de alguma forma, eu até entenderia a atitude dele, mas isso? – Cadence grunhiu – Isso foi uma tremenda falta de respeito. E eu não acredito que ele ainda disse que vocês podiam esquecer tudo e começar do zero. Como se fosse possível esquecer que o seu namorado estava se agarrando com outra atrás de uma arquibancada.
– De fato é meio difícil de esquecer. – Rebecca admitiu – E ainda tem aquela desconfiança que fica, do tipo: será que isso só aconteceu hoje mesmo ou será que ele estava me fazendo de idiota durante todo esse tempo? Acho que eu não conseguiria olhar para ele sem me lembrar daquela garota e do que eu vi ontem e, tudo bem, isso pode até parecer uma bela hipocrisia depois do que aconteceu entre mim e o Aaron no apartamento dele, mas... sei lá. Eu não pedi para ele me beijar aquele dia, sabe? Não quis que as coisas acontecessem como aconteceram. O Vlad, porém, parecia muito feliz com aquela garota ontem.
– Acho que você fez bem em terminar. – Cadence estendeu a mão para segurar a dela em um gesto reconfortante – Mesmo que ele só tenha conhecido a garota ontem e mesmo que ele só tenha ficado com ela porque achou que o namoro de vocês tinha acabado... Bem, você sabe o que dizem sobre isso, não é? Se vocês não conseguiam nem se comunicar direito ou confiar um no outro, como é que essa relação podia ter um futuro?
Rebecca suspirou.
– É. Acho que você está certa. – ela concordou, embora pensar em tudo que havia acontecido entre ela e Vlad ainda fizesse seu coração se apertar um pouco – Acho que a nossa história estava fadada a dar errado, pois, como você bem observou, a nossa comunicação era horrível e a gente não confiava plenamente um no outro. Quero dizer, eu achei que confiava no Vlad, mas olhando para tudo isso agora, eu não tenho certeza. Eu menti para ele algumas vezes, como no dia em que o Aaron me atropelou e tudo mais. Acho que isso não é confiança de verdade e, bem, ele certamente não confiava em mim também, então... É. Talvez o nosso namoro não tivesse sido feito para dar certo mesmo. Eu só... Só queria que as coisas não tivessem terminado tão ruins, sabe? O Vlad pode não ser a minha alma gêmea, mas isso não significa que ele não pudesse ser um bom amigo. Ele é legal apesar de tudo.
– Eu entendo. – Cadence assentiu – Não exatamente, na verdade, porque, você sabe: o único cara com quem eu já me relacionei foi o Aaron e aquilo nem foi um relacionamento. Mas acho que, apesar de ele ter vacilado comigo, se nós pudéssemos ser amigos seria legal. – ela pensou por um instante – Ou talvez não. Sei lá. Diferente do Vlad, o Aaron é um completo babaca, então, eu não sei. – ela riu – Mas acho que eu entendo o que você está querendo dizer.
Rebecca não pode deixar de rir um pouco também.
– Acho que sei por que o destino nos fez ser colegas de quarto. – ela disse cheia de certeza – É porque nós duas não temos sorte com esse negócio de romance. Sabe como é. Os sentimentalmente fracassados precisam ficar juntos e se dar algum apoio moral de vez em quando.
– É. Acho que você está certa. – Cadence anuiu – Acho até que pode usar isso como tema do seu TCC, sabe? Certamente renderia uma pesquisa interessante.
– É. Ou talvez eu devesse pesquisar o porquê dos garotos serem tão babacas.
– Bom... Eu não acho que haja uma explicação científica para isso. – Cadence riu e Rebecca a acompanhou.
As decepções que havia sofrido, tanto com Vlad quanto com Aaron, nos últimos dois dias ainda atormentava seus pensamentos, mas pelo menos agora ela estava se sentindo mais leve. Conversar sobre o assunto e encontrar alguma compreensão em Cadence a fazia se sentir bem melhor. Sua vida podia não estar às mil maravilhas, mas ter uma amiga com quem pudesse desabafar certamente tornava as coisas um pouco melhores.
Elas terminaram de almoçar e, quando se dirigiram à saída do restaurante, ainda estavam rindo de coisas aleatórias – como os professores estranhos que tinham na universidade ou a última bronca que Cadence havia recebido de seus pais –, mas os risos logo cessaram quando, sem prestar atenção no caminho a sua frente, Rebecca se esbarrou em um dos clientes que entrava no restaurante e, ao erguer a cabeça, deu de cara com Andrew Hamilton, o reitor da Universidade de Oxford, parado diante de si.
Pega de surpresa, ela quase caiu para trás e, a julgar pela cara de descontentamento com que o reitor a encarou, ficou claro que ele ainda se lembrava muito bem da visita que ela e Cadence haviam feito ao seu gabinete dois dias antes. Porém, antes que qualquer uma das duas pudesse se apavorar com a possibilidade de receber outro sermão do reitor, um homem de cabelos escuros, trajando um terno preto bem alinhado, entrou em seu campo de visão e Rebecca sentiu seu coração dar um salto dentro do peito ao reconhecê-lo.
Aquele era o mesmo homem que ela tinha visto no apartamento de Aaron e que o havia agredido de maneira tão covarde e o deixado tão desesperado a ponto de ele destruir todos os móveis da sala de seu apartamento.
– Qual é o problema, Andrew? – ele perguntou ao reitor em um tom mal humorado – Vai entrar ou não?
Andrew Hamilton, que até o momento estivera com seus olhos de águia grudados em Cadence e Rebecca, desviou o olhar delas e ajeitou melhor a gravata.
– Problema nenhum. – respondeu calmamente, desviando-se das garotas para entrar no restaurante – Venha. Vamos procurar uma mesa, irmão.
Os dois passaram pela porta e Cadence respirou aliviada quando eles se afastaram, mas o coração de Rebecca continuou retumbando em seu peito. Ela não conseguia acreditar no que tinha acabado de ouvir. Andrew Hamilton era irmão do homem do assustador que havia agredido Aaron em seu apartamento? O que isso poderia significar?
Com a cabeça fervilhando de pensamentos, Rebecca seguiu Cadence de volta ao St. Hilda’s, sem realmente prestar atenção no caminho ou no que a amiga estivera falando enquanto caminhavam e, quando chegou ao dormitório, ao invés de pegar suas coisas e seguir de volta para a faculdade para assistir ao seu segundo período de aula, assim como Cadence estava fazendo, Rebecca decidiu inventar uma dor de cabeça e ficar no quarto.
– Tem certeza de que não quer ir para a aula? – Cadence perguntou preocupada – Você disse que já tinha muitas faltas e eu tenho um comprimido para dor de cabeça na bolsa, se você quiser. Na embalagem diz que ele tem efeito rápido, então, você não precisa perder mais uma aula.
– Obrigada. Mas não é só uma simples dor de cabeça. – Rebecca se jogou na cama, bancando a rainha do drama – É uma crise de enxaqueca, sabe? Eu tenho isso de vez em quando e sei que não vai passar só com um remédio. É melhor eu ficar no quarto e descansar. Qualquer coisa eu procuro a enfermaria depois.
– Quer que eu fique com você, então? – Cadence se ofereceu – Só para o caso de você... sei lá, desmaiar ou algo do tipo. Não quero ir para aula e encontrar você em coma quando voltar.
– Não. Tudo bem. Pode ir. – Rebecca garantiu – Eu vou ficar bem. Só preciso e me deitar e descansar um pouco. Daqui a pouco a dor passa.
– Tem certeza?
– Tenho, sim. Pode ficar tranquila.
Cadence olhou para ela, ainda um pouco insegura quanto a deixá-la sozinha com uma crise de enxaqueca, mas, por fim, concordou e se encaminhou para a porta do dormitório.
– Vou deixar o meu celular ligado. – avisou – Qualquer coisa me dá um toque que eu saio da aula e venho correndo para cá, ok?
– Ok. Valeu.
– Tá. Então... até mais tarde. E se cuida.
– Você também. Boa aula. – Rebecca desejou e assim que Cadence fechou a porta atrás de si, ela se colocou de pé e correu para pegar seu notebook de cima da cômoda.
Não tinha ideia do quê, exatamente, estava fazendo ou do por que – já que achava que, seja lá o que descobrisse sobre Aaron, aquilo não faria qualquer diferença na relação mal sucedida que tivera com ele –, mas sua curiosidade falava mais alto.
Desde que saíra do apartamento de Margareth, tantas semanas antes, Rebecca se perguntava quem era aquele homem e qual seria sua relação com Aaron, além de se perguntar porque ele o havia agredido daquela forma e porque Aaron não havia revidado como sempre fazia, mas suas tentativas de investigação anteriores tinham fracassado tão miseravelmente que ela até tinha desistido de descobrir. Por outro lado, agora que tinha feito novas e, digam-se de passagem, surpreendentes descobertas sobre o caso, ela não podia evitar que a curiosidade voltasse a rugir dentro dela como um leão.
Por algum motivo, Rebecca achava que se descobrisse quem aquele homem representava na vida de Aaron, acabaria descobrindo também muitas coisas importantes sobre o seu passado. Um passado que ele fazia questão de manter escondido à sete chaves. Ela disse a si mesma que, o que quer descobrisse sobre Aaron, teria apenas o objetivo de saciar sua curiosidade e que, de maneira alguma, influenciaria no seu julgamento sobre ele, afinal, ele tinha brincado com seu irmão de uma maneira cruel e isso ela não podia perdoar, mas, no fundo, Rebecca também sabia que estava mentindo para si mesma.
Aqueles breves momentos de paz que tinha passado ao lado de Aaron havia tocado fundo em sua alma e, mesmo que negasse, ela ainda não tinha perdido as esperanças de encontrar algo bom dentro dele. Algo verdadeiro e forte, embora não tivesse certeza do porque estava procurando com tanto afinco.
Então, sem perder mais tempo, Rebecca ligou seu computador e se concentrou em todas as informações que tinha até aquele momento.
Primeiro: ela sabia que alguém havia agredido Aaron.
E, segundo: ela sabia que esse alguém era irmão do reitor da universidade.
Então, assim que reuniu esses dois fatos, Rebecca descobriu, exatamente, por onde deveria começar sua investigação.
Ela não sabia o nome do homem que agredira Aaron em seu apartamento, mas sabia o nome do reitor da Universidade de Oxford e como Andrew Hamilton era alguém conhecido mundialmente, não seria difícil encontrar informações sobre ele na internet. Rebecca tinha certeza de que, já que o homem que agredira Aaron era irmão do reitor, ela poderia encontrar alguma informação sobre ele usando o nome de Andrew Hamilton como tema de pesquisa. Então, assim que o computador terminou de inicializar, Rebecca abriu o site de pesquisas e digitou o nome do reitor na caixa de busca.
Imediatamente, várias páginas contendo informações sobre Andrew Hamilton sugiram na tela de seu computador e Rebecca abriu a primeira delas.
A página continha, em sua maioria, informações sobre a formação acadêmica do Reitor, sobre sua gestão na Universidade de Oxford e sobre os prêmios que ele havia ganhado ao longo de sua vida. Em resumo: nenhuma informação que fosse realmente relevante para Rebecca.
As cinco páginas seguintes, revelaram-se tão inúteis quanto a primeira e, mesmo depois de alterar seu tema de pesquisa várias vezes, Rebecca não conseguiu encontrar nada sobre o irmão do reitor, o que a deixou frustrada, porém, ainda mais decidida a continuar procurando até encontrar qualquer informação que julgasse útil.
Quase uma hora mais tarde – e depois de já ter devorado o pacote de biscoitos que tinha guardado em sua gaveta – ela finalmente começou a achar que toda aquela persistência seria inútil e, já estava quase desistindo da pesquisa, quando uma foto, no canto inferior direito da página que estava olhando, chamou sua atenção.
Na foto, Andrew Hamilton exibia um grande sorriso enquanto segurava um cheque de quinhentas mil libras com uma das mãos e, com a outra, cumprimentava o homem que Rebecca havia visto no restaurante. Logo abaixo da imagem havia a legenda: “Andrew Hamilton e seu irmão, Erick Hamilton, Presidente das empresas Skyline Motor’s, a principal patrocinadora dos Projetos de Iniciação Científica da Universidade de Oxford.”.
– Erick Hamilton. – Rebecca repetiu em voz baixa – Agora sei quem você é.
Rapidamente, Rebecca abriu outra aba em seu navegador e digitou o nome de Erick no site de pesquisas. Assim como aconteceu em sua pesquisa sobre Andrew Hamilton, uma infinidade de páginas com informações surgiu a sua frente e ela se concentrou em ler o enunciado de cada uma delas antes de decidir qual abrir primeiro.
Seus olhos se fixaram em uma página cujo enunciado dizia: “Após suicídio do fundador da empresa, Erick Hamilton é nomeado o novo presidente da Skyline Motor’s.”. E Rebecca decidiu começar por ela.
Abriu a página e se ajeitou melhor na cama enquanto lia a matéria do site.
Era uma notícia antiga. Publicada cerca de dezesseis anos antes e repleta de termos técnicos usados por economistas. Ao que Rebecca pode entender, a Skyline Motor’s era uma rede de concessionárias de renome mundial, especializada na venda de carros luxuosos e velozes como Bugatti’s, Pagani’s e Agera’s. Uma vez por ano, a empresa realizava um evento – parecido com o Salão de Genebra – onde colocava seus carros em exposição e, ao que parecia, suas ações eram muito visadas no mercado.
A situação financeira da empresa era impressionante, mas o que realmente chamou a atenção de Rebecca não foi o seu valor, nem o fato de Erick Hamilton – que era o co-fundador da empresa – ter sido nomeado seu novo presidente. O que chamou a atenção de Rebecca foi um único nome: Anthony Greed.
Segundo a matéria, ao lado de Erick – seu sócio e melhor amigo –, Anthony Greed tinha fundado a Skyline Motor’s, empresa da qual era acionista majoritário e presidente. Antes de cometer suicídio, Anthony tinha sido acusado de fraudar o balanço patrimonial da empresa e, por isso, tinha sido processado e condenado, o que acabou resultando na perda de suas ações na empresa, que foram à venda e terminaram sendo compradas por Erick Hamilton.
A matéria dizia ainda que, Anthony tinha ido à falência depois da condenação e que a Skyline Motor’s só tinha se mantido de pé por causa da intervenção de Erick Hamilton. Os jornalistas relatavam que, depois de tudo isso, Anthony Greed havia se separado da esposa e entrado em depressão, o que provavelmente o tinha levado ao suicídio.
Quando Rebecca terminou de ler a matéria, sua cabeça fervilhava de perguntas: Será que Anthony Greed era o pai de Aaron? E, se fosse, será que esse fato explicaria porque Erick Hamilton o tinha agredido?
Disposta a encontrar as respostas para suas perguntas, Rebecca abriu uma nova aba em seu navegador e digitou o nome de Anthony Greed. Novamente, várias páginas surgiram na tela de seu computador e, dentre elas, Rebecca procurou por uma página que pudesse lhe dar mais informações sobre o suicídio do fundador da Skyline Motor’s.
A página escolhida continha uma matéria do jornal Daily Express¹ que relatava todo o caso da fraude no balanço patrimonial da Skyline Motor’s e o quadro de depressão pelo qual Anthony, provavelmente, estava passando quando se suicidou. Além disso, a matéria relatava que Anthony havia se matado com um tiro na cabeça e que, no momento de sua morte, ele estava acompanhado do filho de apenas seis anos. Havia ainda alguns comentários da ex-esposa e dos amigos e sócios de Anthony sobre o ocorrido, mas ao invés de se concentrar nisso, a atenção de Rebecca se voltou para a foto que encabeçava a reportagem.
A foto havia sido tirada durante o funeral de Anthony Greed e, em meio a uma infinidade de adultos com roupas pretas e óculos escuros, os olhos de Rebecca focalizaram a imagem de um pequeno garoto, cujos cabelos eram loiros e brilhantes e cujos olhos verdes e tristes mantinham-se fixos no caixão fechado que estava a sua frente.
– Aaron. – Rebecca disse quase com um sussurro.
O garoto na foto era pequeno e magro. Não possuía o olhar desafiador e nem a expressão de deboche tão característicos em Aaron, mas não havia dúvidas para Rebecca. Ela reconheceria aquele rosto e aqueles olhos verdes em qualquer lugar. Aaron não havia mudado quase nada.
Assim que Rebecca se deu conta dos fatos, um grande peso se instalou em seu peito. Aaron não apenas perdera o pai muito cedo como estivera presente no momento de sua morte e, se isso já era muita coisa até mesmo para um adulto suportar, imagine para uma criança de seis anos. Não que isso apagasse as maldades que Aaron fizera em sua vida, mas pelo menos explicava por que ele era tão frio.
Rebecca nem conseguia imaginar tudo o que ele havia suportado, não conseguia nem se colocar em seu lugar. Era bem verdade que seus pais eram ausentes e que, na maior parte do tempo, ela só os encontrava em datas comemorativas ou durante as férias, mas só de imaginar como seria passar pela situação que Aaron havia passado ao ver o pai se suicidar diante de seus olhos, Rebecca já sentia o coração se apertar.
Não era a toa que ele era do jeito que era. Um trauma como aquele podia afetar uma criança de uma maneira terrível e, sendo estudante de psicologia como Rebecca era, ela sabia muito bem que havia casos em que o trauma era tão profundo que as crianças jamais se recuperavam.
Ela já tinha lido sobre casos assim e suspeitava que esse fosse exatamente o caso de Aaron. Ver seu pai se suicidar com certeza havia influenciado na maneira como ele se comportava atualmente e, embora Aaron não fosse mais uma criança, como futura psicóloga, Rebecca sentiu que era seu dever ajudá-lo a superar aquele momento de terror que ele havia vivido na infância.
Ela disse a si mesma que, em um caso como esse, as maldades que Aaron havia cometido não tinham tanta importância – afinal, era óbvio que ele precisava de ajuda profissional – e, assim, decidiu, ali mesmo, que na próxima vez em que o visse tentaria fazer as pazes.
Esperava que Ty não interpretasse isso como uma traição e que compreendesse que ela estava apenas cumprindo com o seu dever, como ser humano e como futura profissional da área de psicologia, mas, internamente, Rebecca sabia que aquilo era apenas uma meia verdade.
Ela queria, sim, ajudar Aaron a superar seus problemas de infância – ou, pelo menos, os problemas que ela achava que ele possuía por causa do suicídio do pai –, mas, mais que isso, Rebecca queria ter de volta aquele garoto que ela havia conhecido na noite em que encontrou Aaron bêbado no estacionamento da Christ Church. O garoto que havia declarado que gostava dela porque ela o fazia rir de verdade. O garoto que havia chorado em seu ombro até adormecer e que a havia levado até o Florence Park e aberto seu coração.
Aaron era um cafajeste? Sim. Era um encrenqueiro da pior espécie? Sem dúvida. Era um chantagista terrível? Bom, isso ninguém poderia negar. Mas, para Rebecca, ele também era apenas um garoto perdido, um garoto que havia presenciado algo horrível na infância e que só precisava de alguém que o compreendesse e o aceitasse e ela estava disposta a ser essa pessoa.
Rebecca disse a si mesma que só estava se comprometendo em fazer algo assim porque aquela era coisa certa a se fazer e que sua motivação, no caso, era estritamente profissional e humana, mas, em seu íntimo, seu coração disse outra coisa. Obviamente, ela jamais assumiria que Aaron havia atingido uma parte dela que nem mesmo Vlad fora capaz de atingir em pouco mais de um mês e meio de namoro, mas a verdade é que tinha acontecido. Ela não sabia exatamente quando ou como, mas Aaron Greed a havia atingido como um raio e, sim, ele a havia mudado.
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