Wake Me Up

33 Oferta de Paz


Notas iniciais
Olá, Olha quem voltou. Demorei um pouco, mas beeem pouco dessa vez não é. Esse capítulo é meio conhecido meio inédito e eu espero que vocês gostem dos acréscimos e dos ajustes. Boa leitura.

Naquela manhã, Aaron acordou com o barulho ininterrupto do aspirador de pó ressoando a sua volta. Abriu os olhos, devagar e se deparou com Emma, sua diarista, limpando a sala. Não sabia exatamente que horas eram ou mesmo que dia era, mas se Emma estava ali, fazendo faxina, então, deveria ser terça-feira ou sexta-feira, em um horário entre sete da manhã e três da tarde, pois esse era o período em que ela trabalhava.

– Bom dia. – Emma o cumprimentou, sem se virar para olhá-lo, enquanto levantava o tapete da sala para passar o aspirador de pó embaixo dele – Eu fiz o café da manhã. Também passei no supermercado e reabasteci a geladeira. Sua amiga foi embora há algumas horas. Deixou um bilhete para você no balcão da cozinha.

Aaron olhou para ela enquanto tentava processar todas aquelas informações:

Café da manhã?

Ok. Ele estava mesmo com um pouco de fome.

Geladeira abastecida?

Isso era ótimo. Ele não precisaria sair de casa para fazer compras no fim de semana.

Amiga?

É. Ele se lembrava, vagamente, da loira que ele havia pegado de quatro no sofá da sala.

Bilhete no balcão da cozinha?

Bem, isso era novidade. Mas, pelo menos, a garota tinha se dado o trabalho de procurar por uma caneta ao invés de rabiscar o espelho de seu banheiro com batom. Era sempre uma droga quando elas faziam isso. Dava um tremendo trabalho para limpar.

Ainda meio grogue Aaron se remexeu no sofá, tomando o cuidado de verificar se estava vestido da cintura para baixo antes de se colocar de pé. Ele estava. Era apenas uma boxer vermelha, mas já era alguma coisa. Não que Emma fosse se importar muito com isso. Ela já o tinha visto em situações piores – como, por exemplo, entre as pernas de uma garota –, mas ela era sempre muito discreta e não comentava nada a respeito depois.

– Que horas são? – Aaron se forçou a perguntar, mas sua voz saiu meio áspera por causa da garganta seca e ele percebeu que precisaria de muitos, muitos copos de água gelada.

– São pouco mais de meio dia. Fiz uma jarra de limonada para você. Está na geladeira. – Emma respondeu, decifrando seus pensamentos.

Aaron sorriu.

– Eu já disse o quanto eu amo você? – ele perguntou abraçando-a pelas costas – Sério, mulher. Vou te dar um aumento.

– Ah, sim. Seria ótimo. Agora me solte e vá tomar um banho. Você está atrapalhando o meu serviço e está fedendo a perfume barato e cerveja.

Aaron fungou o ar algumas vezes.

– Está tão ruim assim?

– Está péssimo. – Emma fez careta – Você já teve um pouco mais de classe.

– É. Acho que eu tive, sim. – Aaron se afastou dela e seguiu para o chuveiro.

De fato, ele estava se sentindo um caco nos últimos dias. Tinha perdido a conta de quantas vezes acordara de ressaca ou de quantas vezes tinha dormido com uma garota da qual nem conseguia lembrar o nome depois – e isso, claro, quando ele dormia apenas com uma garota, pois, algumas vezes, já tinha acordado com mais de uma desconhecida em seu apartamento – e aquilo não era um bom sinal. Não que sua vida fosse um exemplo de castidade e de bom senso antes, mas, agora, tudo estava pior.

Antes, Aaron ia para algumas festas com seus amigos, Adam e William, e passava a noite com uma ou outra garota, mas ele, geralmente, não ficava tão bêbado e até conseguia se lembrar dos nomes delas depois ou, pelo menos, da maior parte delas. Agora, porém, não havia um único dia em que ele não acordasse se sentindo um lixo e com uma dor de cabeça infernal.

Isso o fazia se lembrar da época em que tinha seus dezessete ou dezoito anos, quando quase arruinou sua vida inteira com bebidas e drogas, antes de sua família decidir intervir e trancafiá-lo em uma clínica de reabilitação. Ali dentro, Aaron passou alguns dos piores meses de sua vida, mas quando saiu de lá e veio estudar em Oxford, ele prometeu a si mesmo que aquela vida de vícios e confusões tinha chegado ao fim. Alguns anos depois, entretanto, ali estava ele, se afundando na bebida de novo e fazendo, exatamente, o que prometera nunca mais fazer. Isso, sim, podia ser chamado de um desastre, mas, em sua cabeça, Aaron culpava Rebecca por sua terrível decadência.

Desde que haviam brigado, mais de uma semana antes, por causa das chantagens que ele fizera com Ty, Rebecca nunca mais tinha lhe dirigido a palavra e isso o estava deixando louco. Aaron tinha até quebrado seu celular só para não acabar ligando para ela, no meio da noite, e lhe pedindo desculpas de novo, porque ele já tinha feito isso, aquele dia, no jardim da St. Hilda’s e, como Rebecca não o perdoou, seu orgulho estava falando mais alto agora.

Passar as noites sozinho, em seu apartamento, também tinha se tornado um verdadeiro inferno porque, mesmo tentando muito, ele não conseguia deixar de pensar em Rebecca e nos momentos agradáveis que tinha passado ao lado dela – ainda que esses momentos tivessem sido raros e curtos – e, exatamente por isso, Aaron tinha começado sair todas as noites e a voltar para casa bêbado, normalmente, acompanhado por uma completa desconhecida, que ele dispensava no dia seguinte só para repetir a mesma rotina ridícula em outra noite.

Estava se tornando patético. Ele sabia disso. Principalmente, porque nenhuma dessas coisas estava funcionando de verdade.

Passar a noite em festas e boates não adiantava quando, no dia seguinte, ele já acordava pensando em Rebecca. Beber também não adiantava quando tudo o que ele conseguia era arranjar uma dor de cabeça terrível na manhã seguinte e transar com uma série de desconhecidas também não adiantava quando ele sabia exatamente quem ele queria em sua cama e não era nenhuma daquelas garotas.

Tudo estava uma droga e Aaron não sabia como iria lidar com aquilo, mas uma coisa era certa: até o momento ele tinha feito um péssimo trabalho.

Após sair de seu banho e se vestir, Aaron passou rapidamente na cozinha, onde tomou seu café da manhã atrasado e se desfez do recado idiota que Christie – esse era o nome da loira – tinha deixado sobre o balcão. Por ter acordado tarde, Aaron tinha perdido a primeira aula daquele dia, mas, se corresse um pouco, conseguiria chegar a tempo de assistir o início da segunda, então, após tomar um comprimido para dor de cabeça, ele entrou em seu carro e seguiu direto para a universidade.

***

Rebecca acordou cedo e de mau humor. Aliás, acordar de mau humor era o que ela mais tinha feito nos últimos dias e o motivo se resumia a uma única pessoa: Aaron.

Desde que havia descoberto aquelas coisas sobre seu passado, Rebecca vinha tentando encontrá-lo na universidade, diariamente, mas era como se Aaron tivesse tomado um chá de sumiço. Ela não o encontrava na Trinity College – e olha que, uma vez, ela tinha até montado guarda no portão da faculdade para ver se Aaron passava por ali, mas nenhum sinal dele. Não o encontrava no dormitório – recentemente ela havia descoberto que Aaron desistira de seu lugar no alojamento e que Ty, agora, era o único dono do espaço. Não o encontrava perambulando pelo campus – mas o engraçado é que quando ela o odiava e não queria vê-lo nem pintado de ouro, Aaron sempre surgia em seu caminho como se tivesse brotado do inferno. Não o encontrava na biblioteca – okay, esse lugar merecia um desconto porque ela, raramente, conseguia encontrá-lo ali em situações normais. E, ainda por cima, Aaron não atendia às suas ligações ou respondia as suas mensagens de texto e isso a deixava enfurecida.

Como ainda era muito cedo e Cadence tinha ficado até tarde fazendo um trabalho sobre História Medieval, que deveria entregar naquela manhã, Rebecca se arrumou e decidiu ir tomar seu café da manhã sozinha. Passou em um bistrô próximo ao St. Hilda’s, comprou um Latte e uma porção de waffles e, de lá, seguiu para sua aula de Teoria Psicanalítica que, devido ao seu estado de humor deplorável, pareceu durar dez horas a mais que o normal.

Quando a aula terminou, Rebecca teve de ir almoçar sozinha já que Cadence parecia ter deixado todos os seus trabalhos para fazer de última hora e, agora, estava usando cada minuto livre que tinha para conseguir concluí-los. Como não estava com muita fome, ela pediu apenas uma salada de frango com molho de iogurte e, quando terminou de comer, retornou à universidade para assistir a sua aula de Neuropsicologia que, mesmo sendo uma de suas aulas prediletas, pareceu tão ruim quanto a aula de Teoria Psicanalítica que tinha tido mais cedo.

Rebecca se perguntava até quando aquele seu mau humor persistiria e o quanto ele interferiria em seus estudos até lá. Ela esperava que a resposta não fosse “até que conseguisse falar com Aaron”, porque com seu desaparecimento súbito da universidade, ela tinha quase certeza de que estaria reprovada antes de conseguir encontrá-lo.

Estava justamente resmungando sobre isso, enquanto atravessava a área verde que delimitava o campus da Christ Church College, quando a conhecida voz de Aaron, seguida de sua característica risada de deboche, a fez parar e olhar em volta.

Aaron estava a alguns metros de distância, em meio a uma conversa animada com seu costumeiro grupo de amigos e mais algumas garotas. Usava um gorro vermelho vinho e vestia uma camiseta branca com uma jaqueta preta por cima e calça jeans Levi’s.

Era a primeira vez que Rebecca o via desde a briga que tiveram em frente à biblioteca e, automaticamente, ela se sentiu animada com a possibilidade de, finalmente, poder conversar com ele e pedir desculpas como havia planejado, mas antes mesmo que pudesse decidir como abordá-lo, Aaron já estava se despedindo dos amigos e se afastando, o que forçou Rebecca a praticamente correr atrás dele.

– Aaron! – ela gritou enquanto apressava o passo para alcançá-lo.

Seu grito chamou a atenção dos amigos de Aaron, que se voltaram para ela, encarando-a com curiosidade, mas Aaron mesmo pareceu não ouvi-la e continuou a seguir seu caminho sem, ao menos, olhar para trás.

Apreensiva com a possibilidade de perder a única chance que tivera de falar com ele, após dias, Rebecca se apressou ainda mais para alcançá-lo. Entretanto, ao passar por seu grupo de amigos, sentiu alguma coisa esbarrar em seu pé e, foi apenas milésimos de segundos antes de seu corpo atingir o chão, que ela percebeu que um deles havia estendido a perna propositalmente para fazê-la tropeçar.

– Foi mal, Virgem Maria. – disse William, um dos amigos de Aaron, fazendo os demais explodirem em risadas.

Enraivecida e envergonhada, Rebecca se pôs de pé devagar e tentou limpar a poeira de seu uniforme, sentindo seus joelhos e as palmas de suas mãos arderem por causa da queda. Ela tinha odiado William desde a primeira vez em que o viu, no dia em que Aaron empurrou Edmond da ponte, e agora sabia que sua implicância não tinha sido à toa.

– Esse seu uniforme é realmente lindo. – William continuou – Quem é o estilista? Maomé?

O grupinho ao seu redor voltou a explodir em risadas e Rebecca se virou para ele, disposta a xingá-lo com o primeiro palavrão que passasse por sua cabeça, mas antes que fizesse isso, Aaron se aproximou e pousou a mão em seu ombro.

– Você se machucou? – ele perguntou virando-a para si e a analisando.

Se a situação fosse diferente, Rebecca provavelmente estaria chorando de dor naquele momento, mas diante dos amigos babacas de Aaron ela se recusava a ser fraca, por isso, apenas balançou a cabeça negativamente.

– Desculpe por isso. – Aaron lançou um olhar de reprovação a William e, depois, se abaixou para recolher os livros de Rebecca do chão.

– Mas olha quanta gentileza. – William disse cruzando os braços e erguendo uma sobrancelha para Aaron – Eu não sabia que você tinha se tornado cristão, Greed. Está bancando o bom samaritano porque quer entrar no céu?

– Acho que ele quer é entrar em outro lugar. – o garoto loiro, ao lado de William, fez um gesto obsceno com a mão e arrancou mais risadas das pessoas ao seu redor com isso.

– Porque você não cala a sua boca, Adam? – Aaron se colocou de pé e o fuzilou com o olhar, depois, se voltou novamente para Rebecca – Você precisa cuidar disso. – ele apontou para os arranhões que ela havia adquirido com a queda – Eu tenho alguns band-aid’s no carro, se você quiser.

Rebecca olhou ao redor e esfregou as mãos uma na outra antes de pegar os livros que Aaron lhe estendia.

– Seria uma boa. – concordou, recebendo um pequeno sorriso dele em resposta.

Sem dar importância aos olhares de indignação que seus amigos lhe lançavam, Aaron conduziu Rebecca até o local onde havia estacionado seu carro e, ao chegar lá, abriu uma das portas de trás para que ela pudesse se sentar enquanto ele vasculhava o porta-luvas a procura dos band-aid’s.

– Eu te liguei essa semana. – Rebecca disse, finalmente tomando coragem para quebrar o silêncio que havia se instalado entre eles durante a caminhada.

– Ligou, é? – Aaron retirou uma caixa de band-aid’s, uma caixa de algodão e um pequeno vidro de álcool do porta-luvas – E o que você queria comigo?

– Eu só... queria conversar. – Rebecca deu de ombros, casualmente – Porque você não me atendeu quando liguei?

– Eu não estava com o meu celular.

– Vinte e quatro horas por dia, durante a semana inteira? – ela o encarou, desconfiada – Isso parece muito tempo para alguém como você ficar sem celular.

– O que quer dizer com “alguém como eu”? – Aaron a encarou através do retrovisor.

– Você sabe. – Rebecca desviou os olhos dos dele, incomodada – Estou falando de um cara que recebe ligações de dezenas de garotas diariamente.

Por algum motivo, pensar em todas as garotas que deveriam ter ligado para Aaron nesses últimos sete dias e que, diferente dela, tinham sido atendidas, deixava Rebecca irritada e magoada ao mesmo tempo. Ela sabia que não deveria se sentir assim, afinal, o celular era de Aaron e ele atendia as ligações de quem ele quisesse, mas ainda assim, pensar que ele havia recusado todos os seus telefonemas a entristecia.

– E quem foi que te disse que eu recebo ligações de dezenas de garotas diariamente? – Aaron perguntou, indignado.

– Ah, qual é? – Rebecca voltou a erguer os olhos para ele – Você já deve ter ido para cama com metade das garotas de Oxford e vai me dizer que nenhuma delas te liga?

Aaron fechou o porta-luvas, com mais força que o necessário e, então, caminhou até ela, no banco traseiro.

– Nenhuma delas me liga. – ele respondeu, irritado – Eu não passo o número do meu celular para garota nenhuma.

– Você o passou para mim.

– É. Mas você... Foi uma exceção. – foi tudo o que Aaron respondeu, porque a constatação do fato o pegou de surpresa. De fato, Rebecca tinha sido sua única exceção.

Ele abriu a caixa de algodão e retirou de lá um pequeno chumaço que molhou com o álcool e depois se dirigiu novamente a ela.

– Posso? – perguntou, indicando seus joelhos feridos com um aceno.

– Vá em frente. – Rebecca deu de ombros. Ainda estava irritada, embora nem soubesse exatamente o porquê.

Aaron se abaixou e, com cuidado, ergueu a barra da saia do uniforme de Rebecca até deixa-la acima de seu joelho e, depois, passou o algodão encharcado de álcool sobre os pequenos cortes que havia ali.

Assim que o álcool entrou em contato com o ferimento em seu joelho, Rebecca gritou de dor e tentou recolher a perna, mas Aaron rapidamente segurou seu calcanhar impedindo-a de fazer isso.

– Shhh. – ele sussurrou, assoprando seu joelho de maneira carinhosa e deslizando a mão de seu calcanhar para sua panturrilha – Já vai passar.

O coração de Rebecca deu um salto e ela sentiu suas mãos começarem a suar no mesmo instante. Costumava ficar desconcertada quando Aaron estava muito perto, mas quando ele fazia aquele tipo de coisa, ela mal conseguia respirar direito.

– Melhorou? – Aaron perguntou erguendo os olhos para encará-la.

Constrangida, Rebecca apenas assentiu e desviou o olhar do dele novamente. Sentia que suas bochechas coravam um pouco mais a cada segundo que Aaron permanecia segurando sua panturrilha e isso a deixava extremamente desconcertada.

Após mais alguns pequenos protestos de sua parte, Aaron finalmente terminou de higienizar seus dois joelhos feridos e a palma de suas mãos e, então, colocou os band-aid’s nos locais onde eles se fizeram necessários.

– Prontinho. – ele disse após guardar o algodão, o álcool e os band-aids de volta no porta-luvas – Está nova em folha.

– Obrigada. – Rebecca se colocou de pé e arrumou a saia de seu uniforme.

– Não foi nada.

Aaron fechou as portas do carro e Rebecca observou enquanto ele recolhia os algodões sujos e as embalagens de band-aid’s usadas, que havia deixado no chão, e se dirigia até a lixeira mais próxima para jogá-las fora.

– Você realmente não estava com o seu celular essa semana? – ela perguntou assim que ele voltou a se aproximar dela no carro.

– Não. Não estava. – Aaron respondeu de maneira franca – Eu quebrei o meu celular.

– Quebrou deixando-o cair ou... quebrou, quebrou mesmo?

– Quebrei mesmo.

– Sério? – os olhos de Rebecca se arregalaram – Porque fez isso?

– Longa história. – Aaron deu de ombros – Não estou a fim de falar disso agora.

– Tá bom.

O silêncio voltou a imperar entre os dois e, por um longo instante, tudo o que eles fizeram foi ficar parados ali, ao lado do carro, se encarando. A cabeça de Rebecca fervilhava com todas as coisas que ela queria dizer ou perguntar, como, por exemplo: “eu sei sobre o suicídio do seu pai” ou “porque o irmão do reitor da universidade te agrediu?”, mas, no fim, tudo o que ela conseguiu dizer foi:

– Me perdoa. – e uma expressão confusa tomou conta do rosto de Aaron no mesmo instante.

– Perdoar pelo quê?

– Pela briga que nós tivemos e por todas as coisas que eu te disse naquele dia. – Rebecca explicou, calmamente – Eu não deveria ter te tratado daquela forma, Aaron. Sinto muito.

Aaron a encarou por um momento.

Nos dias que havia ficado sem falar com Rebecca ele também havia pensado em lhe pedir desculpas, mas sempre acabava voltando atrás nessa decisão. Como já tinha tentado pedir desculpas antes, mas Rebecca não o havia escutado, ela tinha ficado magoado com a atitude dela e deixado seu orgulho falar mais alto desde então, apesar de saber que Rebecca tinha todo direito de ficar brava com ele pelas coisas que ele havia feito com Ty.

Tinha sido exatamente por esse motivo que Aaron havia quebrado seu celular, recusando-se a ser o primeiro a voltar atrás naquela briga, pois, por mais que gostasse de Rebecca, para ele, tinha sido mais fácil tentar ignorá-la que se arriscar a pedir desculpas de novo e receber outro não. Aaron tinha agido assim, mantendo tudo o que era complicado demais, à distância durante quase sete anos de sua vida, mas pela primeira vez, ele teve vontade de mudar.

Ver Rebecca lhe pedir perdão quando não tinha razão alguma para fazer isso, o fez perceber o quanto estava errado. Ele sempre achou que uma pessoa forte era aquela que jamais cedia, mas agora via que, na verdade, uma pessoa forte era aquela que tinha coragem de assumir seus erros e de insistir até consertar o dano que havia causado.

O que ele vinha fazendo durante quase sete anos não era ser forte. Era ter medo. E ele não queria mais ser assim.

– Eu não vou te perdoar. – Aaron disse, por fim – Não importa o quanto você peça.

Ao ouvir sua resposta, a expressão esperançosa no rosto de Rebecca logo se desfez e ela olhou para o chão, triste.

– Bem, eu... – ela começou baixinho, mas Aaron a interrompeu.

– Espera. Eu não terminei. – ele disse aproximando-se dela e erguendo seu queixo delicadamente para que ela o olhasse nos olhos – Eu não vou te perdoar porque, na verdade, você não fez nada de errado. Sou eu quem te devo desculpas e você sabe disso. Então... – Aaron soltou seu queixo e segurou suas mãos, colocando-se de joelhos.

– O que você está fazendo? – Rebecca o encarou, confusa e alarmada ao mesmo tempo – Aaron, levanta daí.

– Shhhh. – Aaron pousou o dedo indicador sob os lábios, pedindo silêncio – Essa é a primeira vez que faço algo assim, então, não me deixe mais nervoso do que já estou.

– É a primeira vez que você faz o que?

– Isso. – ele respirou fundo e, depois, ajeitou melhor a postura – Rebecca Andrews – disse em tom solene –, eu sei que sou um babaca.

– Como é que é? – Rebecca riu.

– Shhh! – Aaron exclamou novamente – Não estraga o momento, caramba?

– Você é doido? – Rebecca olhou ao redor, constrangida.

– Silêncio, Rebecca! – Aaron sorriu e, depois, recomeçou seu discurso: – Como eu estava dizendo, eu sei que sou um babaca. Eu tenho feito coisas horríveis com as pessoas, principalmente com o seu irmão, e eu sinto muito por isso. Eu sinto muito por ter chantageando o Ty por quase um ano. Sinto muito por ter colocado a Cadence contra você e por ter feito vocês brigarem no início do semestre. Sinto muito por ter mentindo para você e por ter te irritado tantas e tantas vezes e, acima de tudo, eu sinto muito por nunca ter sentido muito por fazer isso. Eu sei que esse, provavelmente, é o pedido de desculpas mais tosco que você já recebeu na vida e sei que, no mínimo, eu merecia ganhar um tapa na cara por tudo o que eu já fiz de ruim para você e para as pessoas que você ama, mas eu estou arrependido do que fiz. Arrependido de verdade. – Aaron a encarou com um olhar sério – Eu também sei que isso não é o bastante, mas... você me perdoa?

Rebecca o encarou, emocionada e, ao mesmo tempo, divertida com aquele pedido de desculpas inusitado. Já fazia algum tempo que ela tinha deixado de enxergar Aaron como um monstro de sete cabeças, cruel e insensível, mas, ainda assim, ela não acreditava que, algum dia, ele seria capaz de tomar uma atitude como aquela. Ver Aaron Greed reconhecer seus erros e pedir perdão por eles de uma maneira tão sincera era surpreendente e fez Rebecca perceber que havia tomado a atitude correta ao resolver fazer as pazes com ele.

Aaron não era perfeito e ainda tinha muito que aprender sobre a vida e sobre como se relacionar corretamente com as pessoas, mas era óbvio que, aos poucos, ele estava evoluindo nisso e Rebecca sentia-se feliz por estar, não apenas presenciando aquilo, mas, também, sendo parte dessa mudança. Essa era a realização que todo psicólogo queria ter e olha que ela ainda nem tinha começado a trabalhar direito com ele.

– Eu perdoo você. – ela finalmente respondeu e Aaron abriu um sorriso radiante.

– Sério?

– Sério. – ela assentiu – Mas... eu tenho duas condições.

A expressão de felicidade de Aaron logo se transformou em uma careta e Rebecca riu.

– Não faça essa cara. – ela disse ajudando-o a se levantar – São duas condições fáceis.

– Fáceis de verdade? – Aaron a olhou, desconfiado.

– Eu juro que sim. – Rebecca ergueu a palma de uma das mãos, confirmando.

– Então, tudo bem. – ele concordou meio a contra gosto, dando alguns tapinhas no joelho para limpar a sujeira que havia se acumulado em sua calça ao se ajoelhar – Quais são as condições?

Há alguns dias, Rebecca jamais teria coragem de pedir a Aaron algo como o que estava prestes a pedir, mas depois do que presenciara naquele dia, ela sentia que ele finalmente estava mostrando quem era de verdade e, mais que isso, sentia que se o incentivasse e o ajudasse ele poderia se tornar uma pessoa ainda melhor. Por isso, resolveu arriscar.

– Primeiro – ela enumerou contando nos dedos –, você tem que parar de me chamar de Rebecca.

– Como é? – Aaron franziu a testa, confuso.

– Olha aqui, você inventou aquele apelido bobo e, agora que não o usa mais, eu sinto falta dele, tá legal? Me acostumei a ter você me chamando de Bee toda hora e, simplesmente, não consigo mais aceitar que você me chame de Rebecca, entendeu?

– Entendi. – Aaron sorriu, satisfeito – Próxima condição.

– Você vai pedir desculpas ao Ty.

– Ah, não! – ele fez careta novamente – Isso eu não vou fazer.

– Porque não? – Rebecca o encarou, questionando – Você mesmo disse que estava arrependido do que fez para ele. Então, nada mais lógico que pedir desculpa.

– Nem pensar. – Aaron descartou a opção, com um aceno de mão – Eu não vou pedir desculpas para ele. Me peça qualquer outra coisa, tipo... sei lá, fazer todos seus deveres de casa ou lavar a sua roupa por um mês, mas não peça para eu me desculpar com o Ty, porque isso eu não vou fazer.

– Aaron! – Rebecca colocou as mãos na cintura, fuzilando-o com olhar – Você chantageou o meu irmão por um ano, fez da vida dele um inferno! Você tem que pedir desculpas!

– Não vou pedir.

– Porque não?! – Rebecca praticamente gritou.

– Ora, por quê? – Aaron a encarou como se a resposta fosse óbvia – Você não conhece o seu irmão? Ele nunca vai me desculpar. O Ty preferiria pular de um avião sem paraquedas a fazer isso.

– Eu não acho que ele seja tão duro assim.

– Você não acha porque não foi você que o chantageou por um ano. Se fosse, você iria entender o que eu que estou dizendo.

– Olha, você e o Ty precisam resolver isso. – Rebecca insistiu – Sério. Não dá para vocês ficarem com raiva um do outro pelo resto da vida.

– Dá, sim.

– Aaron! – Rebecca respirou fundo para controlar o riso que ameaçou brotar em seus lábios – Você é uma das pessoas mais teimosas que eu já conheci na vida, sabia? E você vai ter que pedir desculpas para o meu irmão, sim. Eu não aceito outra coisa.

– Ah! Fala sério! – Aaron chutou o ar, indignado – Você não pode me obrigar a fazer isso. Eu não quero fazer isso.

– Mas você precisa. – Rebecca afirmou, determinada – Então, você vai pedir desculpas a ele ou não?

Aaron a encarou por um instante, ainda parecendo completamente insatisfeito com a ideia, mas por fim, baixou os olhos para o chão e assentiu levemente.

– Vou. – disse voltando a fazer uma careta de desgosto.

– Isso! – Rebecca ergueu os braços em comemoração.

– Mas não hoje. – Aaron se apressou em dizer.

– Porque não? – ela baixou os braços e olhou para ele.

– Porque eu preciso de um tempo para me preparar, psicologicamente, para isso. Não vou enfrentar a fúria do seu irmão munido apenas com a cara e a coragem, não é?

Rebecca pensou naquilo por um momento e decidiu aceitar os termos. O mais difícil, que era fazer com que Aaron concordasse em pedir desculpas para Ty, ela já tinha conseguido, então, não havia problema em lhe dar o tempo que ele queria.

– Tudo bem. – ela respondeu, complacente – A gente pode falar com ele depois, mas não vá fugir, tá?

– Eu não vou fugir. – Aaron resmungou irritado e, pela primeira vez desde que tinha chegado a Oxford, Rebecca sentiu que as coisas finalmente estavam entrando nos eixos.

Estava tão feliz por tudo estar se resolvendo que nem se importou em pular nos braços de Aaron e abraçá-lo, por ele ter concordado em se desculpar com Ty e, quando ele a abraçou de volta, Rebecca percebeu, assustada, que nunca tinha feito aquilo com ele antes, mas que a sensação de ter seus braços fortes em volta do corpo dela era muito boa. Os braços de Aaron pareciam ter sido feitos, exatamente, para abraçar e, completamente surpresa, Rebecca notou que cabia perfeitamente neles e que, por algum motivo, não queria mais que ele a soltasse.

Notas finais
Awwwn, finalmente a paz entre esse dois! E fico feliz em dizer que essa paz se estenderá por alguns capítulos *-* Aliás, outra coisa que fico feliz em dizer é: geeente, o Christopher está voltando! Quem aí sentiu falta dele? Espero que tenham gostado do capítulo e que estejam ansiosos pelo próximo. Beijos e até breve.