Wake Me Up

39 Flores Foram Feitas Para Desabrochar


Notas iniciais
Olá, Nem acredito que já são quatro horas da manhã kkk Fiquei tão distraída escrevendo o capítulo que nem vi a hora passar, mas pelo menos quando vocês acordarem terão capítulo novo para ler né? Espero que vocês gostem do que preparei. Boa leitura.

Quando Aaron estacionou o carro em frente a St. Hilda's College, Cadence foi a primeira a descer. Ela murmurou um “até breve” nervoso para ele e cumprimentou Christopher com um rápido beijo no rosto que o fez esboçar um sorriso pela primeira vez desde que haviam saído dos limites da Trinity College. O clima dentro do carro estava tenso, refletindo o estado de espírito dos dois garotos e, principalmente, o de Aaron que, até então, não havia pronunciado uma única palavra e sequer tinha olhado para algo que não fossem as estradas ou os retrovisores do carro.

Ele parecia tão furioso que Rebecca nem se atreveu a se inclinar para frente e perguntar se ele estava bem, pelo menos não enquanto Cadence estava por perto, mas quando a amiga finalmente saiu do carro, Rebecca percebeu que apenas perguntar a Aaron se ele estava bem não ajudaria em nada. Sendo como era, Aaron provavelmente responderia que sim e continuaria agindo da mesma maneira fechada que estava, então, ela decidiu que faria algo melhor que aquilo.

Ela havia planejado voltar para seu dormitório na St. Hilda's quando o passeio pela universidade terminasse, mas agora achava que seria melhor voltar para o apartamento com os garotos e passar o fim de semana com eles, ajudando no que pudesse.

– Você me espera aqui? – ela perguntou a Aaron enquanto abria a porta do carro e descia – Eu vou pegar algumas peças de roupa e o meu notebook, para fazer um trabalho que preciso entregar na segunda-feira e, aí, vou para o apartamento com vocês.

– Não precisa ir se não quiser. – Aaron respondeu sem olhar para ela e Rebecca fechou a porta traseira do carro e se dirigiu até a janela do motorista.

– Eu quero ir com vocês. – ela afirmou – Só me espere aqui, ok? Eu volto em um instante. – então segurou o rosto dele e depositou um selinho em seus lábios, antes de se afastar.

Rebecca subiu a escadaria, pulando de dois em dois degraus, para alcançar Cadence que tinha parado na porta de entrada do prédio, mantendo-a aberta para que ela pudesse entrar, mas ela nem chegou a fazer isso porque, antes mesmo que pudesse alcançar o último degrau da escadaria, Cadence fez uma careta e meneou a cabeça na direção do carro de Aaron, fazendo-a parar onde estava e se virar para olhá-lo.

Dizer que o ciúme a atingiu, como uma flecha, no instante em que viu uma bela loira de olhos castanhos claros se debruçar sobre a janela dele, com um sorriso radiante estampado em seus lábios carnudos, não seria uma descrição exata do que Rebecca realmente sentiu, mas, pelo menos, o fato de Aaron estar olhando para a garota como se quisesse que ela fosse atingida por um míssil e desaparecesse da face da terra a fazia se sentir melhor. Não que aquilo significasse muita coisa, na verdade. Em seu atual estado espírito, Aaron estava olhando para tudo e para todos como se quisesse que o mundo explodisse.

– Oi, Aaron. – a garota o cumprimentou com um tom meloso e entusiasmado que fez Rebecca ter vontade de descer a escadaria novamente e voltar para o carro só para poder empurrá-la para longe dele, mas ela reprimiu aquela crise estranha de ciúme e se manteve firme onde estava.

Dentro do carro, a expressão de desagrado no rosto de Aaron não se alterou um milímetro sequer e ele, nem ao menos, acenou com a cabeça para mostrar que a tinha escutado ou para retribuir seu cumprimento.

– Eu estive pensando e acho que seria legal a gente sair de novo qualquer dia desses. – a garota continuou como se não tivesse percebido a rejeição óbvia em seu rosto – Você disse que ia me ligar depois da nossa última noite, mas acho que acabou se esquecendo. Quem sabe a gente não pode ir àquela boate a qual fomos da última vez? Podemos ir amanhã à noite, se você quiser. Eu estarei livre.

– Não vai rolar.

– E na próxima sexta-feira? – a garota insistiu – Vai estar livre na sexta?

– Não. Estarei ocupado todos os dias pelos próximos dois mil e quatrocentos anos.

A garota o encarou por alguns segundos, como se esperasse que ele fosse acrescentar algo como um “estou brincando” ao fim da frase, mas como ele não disse nada, ela soltou um risinho nervoso.

– Você não está falando sério, está?

– Olhe bem para mim e diga se parece que estou brincando. – Aaron respondeu de maneira fria.

A garota cruzou os braços diante do peito e abriu a boca para retrucar, mas pareceu pensar melhor e voltou a se debruçar sobre a janela, correndo o dedo indicador pelo braço dele, de maneira suave.

– Sabe – disse ela com um tom doce e afetado –, não era assim que você me tratava quando estava entre as minhas pernas.

Aaron finalmente riu, mas foi uma risada tão sarcástica que até Rebecca começou a se sentir mal pela garota, pois já sabia que nada de bom podia acontecer quando ele ria daquela forma.

– Ora, Chrissy, então você já tem a sua a resposta. – Aaron afastou a mão dela de seu braço e se recostou no banco – Eu não estou mais te comendo, garota. Não tenho mais obrigação de te suportar. Agora, porque você não faz um favor a si mesma e dá o fora daqui, hein? Se quer tanto que alguém te foda, tenho certeza que vai encontrar um cara disponível. Só não seja muito exigente, tá? Você não é tão gostosa assim e, cá entre nós, o seu boquete é uma merda.

O som do tapa que Chrissy desferiu no rosto dele foi audível até mesmo para Cadence, que já estava na porta de entrada do alojamento e, assim como Christopher e Rebecca, ela fez uma careta diante do golpe, mas não conseguiu sentir pena de Aaron porque, como sempre, ele havia feito por merecer aquela agressão.

– Você é um completo imbecíl! – Chrissy rugiu para ele e, então, se afastou, subindo a escadaria do alojamento tão rápido quanto um raio e fazendo os pequenos saltos de seu sapato tilintarem no piso. Apenas quando chegou a porta do prédio foi que ela parou e se virou para olhar para Cadence e Rebecca, que ainda a encaravam meio estarrecidas – Só um conselho – Chrissy disse para as duas –, se ainda não tiverem transado com esse cara, não façam isso. A única coisa boa nele é a aparência porque, por dentro, ele é podre. – ela lançou um último olhar raivoso para Aaron e sumiu pela porta de entrada, praticamente cuspindo fogo.

– Esse aí, sim, é o Aaron Greed que eu conheço. – Cadence disse para Rebecca – Sempre um perfeito cavalheiro e um verdadeiro exemplo de educação e gentileza. Seu namorado é adorável, Becca. Sério. Você não poderia ter escolhido nada melhor. – ela revirou os olhos – Você vai entrar?

Rebecca olhou para Aaron, que agora estava debruçado sobre o volante com uma expressão de completo tédio no rosto, enquanto Christopher parecia lhe passar um sermão e suspirou.

– Vou entrar, sim. – respondeu dando meia volta e seguindo para a porta – E ainda acho que ele é adorável. Só precisa de alguns ajustes.

– Ah, sim. alguns ajustes. – Cadence riu e, então, ela e Rebecca subiram para o dormitório.

Assim que entrou no quarto, Rebecca seguiu direto para seu armário, de onde retirou algumas peças roupa e alguns produtos de higiene pessoal e jogou em sua mochila. Depois, ela recolheu o notebook de cima da cama, desligou-o e guardou-o de volta em sua capa e deu uma olhada nos títulos dos livros na prateleira acima de cama, escolhendo dois dentre eles e jogando-os na mochila também.

– Só para eu ter certeza: você e o Aaron não estão planejando morar juntos e criar o Christopher como um filho, estão?

Rebecca parou o que estava fazendo, no mesmo instante, e olhou para ela com olhos arregalados.

– O que?! É claro que não. De onde você tirou isso?

– Sei lá. – Cadence deu de ombros – Só achei melhor perguntar para não ser pega de surpresa como da última vez.

– Meu Deus! Você é louca, sabia? Eu só vou passar o fim de semana com ele, Cadence. Não é como se estivéssemos pensando em pegar o próximo voo para os Estados Unidos para podermos nos casar em Vegas. – ela olhou para a mochila que tinha largado em cima da cama e franziu a testa – Está falando isso por causa do tamanho da minha mochila? Acha que estou levando coisas demais?

– Eu contei, aproximadamente, três camisetas, quatro shorts, dois vestidos, uma saia, dois pijamas e cinco conjuntos de roupa íntima de cores diferentes, fora o estojo de maquiagem e os dois pares de sapatilhas. E, me corrija se eu estiver errada, mas você também colocou aquele seu baby doll preto, de renda, aí dentro, não colocou?

Rebecca olhou para a mochila e corou.

– Ai, meu Deus. Agora que você falou, parece mesmo que eu estou de mudança.

– Acho que se você fosse mesmo se mudar a sua mala teria que ser um pouco maior, mas, para quem só vai passar um dia e meio no apartamento do Aaron, você está levando uma quantidade de roupas considerável.

– É que eu não sei o que devo levar. – Rebecca se sentou na cama – O que a gente deve vestir quando vai passar o fim de semana no apartamento de um cara?

– Bem, eu não tenho muita experiência com isso, você sabe, mas acho que depende muito dos seus planos para o fim de semana. Os seus, por acaso, envolvem sexo?

– Cadence!

– O que foi? – ela riu – Foi você quem colocou o baby doll preto aí dentro, Rebecca. Não me diga que achou que podia usar aquilo sem deixar o Aaron maluco. Você conhece o cara.

– Acha que é melhor eu deixá-lo aqui, então?

– Eu já disse. Isso vai depender dos seus planos para o fim de semana. – Cadence a olhou de esguelha – Você acha que tem alguma chance de vocês dois… Sabe? Irem para a aquela outra fase?

Rebecca não teve coragem de responder, mas o rubor que se espalhou por seu rosto foi o bastante que Cadence decifrasse seus pensamentos.

– Ai, caramba! Você acha, sim. – ela exclamou em polvorosa – Está mesmo pensando em transar com ele no fim de semana!

Rebecca fechou a cara para ela e cruzou os braços diante do peito.

– Será que você pode falar só um pouquinho mais alto? Acho que o Aaron ainda não conseguiu te ouvir lá do estacionamento. – reclamou.

Cadence voltou a se sentar na cama e cruzou as pernas colocando seu travesseiro sobre elas.

– Desculpe. É que isso é tão… Sei lá. Não vou dizer que é algo surpreendente, porque não é, mas ainda assim é tão... Você entende o que quero dizer?

– Acho que faço uma ideia.

– E você quer fazer isso hoje?

– Quero fazer o quê?

– Como “o quê”? Você sabe do que estou falando. Não comece a se fazer de boba agora.

– Não estou me fazendo de boba. – Rebecca se deitou na cama e cobriu o rosto com as mãos – É que falar sobre isso é muito constrangedor! Não entendo como as garotas da minha antiga escola conseguiam ficar comentando sobre essas coisas umas com as outras.

– É porque falar sobre sexo não é realmente constrangedor. A gente apenas acha que é, porque não temos o costume de falar sobre isso, mas quando você tiver a sua primeira vez e perder um pouco dessa vergonha, vai perceber que esse não é um assunto tão complicado assim.

Rebecca permaneceu em silêncio, apenas pensando no que Cadence havia lhe dito e, então, após um longo instante de hesitação, abriu uma pequena fresta entre os dedos e olhou para ela.

– Dói muito? – perguntou e, instantaneamente, Cadence começou a rir, fazendo-a fechar a cara de novo – Que Droga, Cadence. Eu não vou conversar se você ficar rindo de mim desse jeito. – Rebecca pegou um de seus travesseiros e o atirou sobre ela – Isso não tem graça nenhuma. Pode parar de rir, agora.

– Desculpe. – Cadence sufocou as risadas e ajeitou-se na cama, jogando o travesseiro de volta para Rebecca – É que isso foi muito engraçado, Becca. Você parecia um gatinho assustado.

– É porque eu estou assustada, caramba. Aliás, assustada nem seria a palavra correta. Eu estou mesmo é... Nervosa? Receosa?

– Okay. Vamos começar com o básico. – Cadence a encarou – Do que você tem receio? Do ato em si ou de não estar pronta para ele.

– De ambos.

– Explique-se.

Rebecca olhou para as paredes ao redor como se esperasse que as palavras fossem saltar dali para a sua boca. Falar sobre aquilo não era nada fácil e ela só esperava que Cadence estivesse certa e que, talvez, aquilo se tornasse mais fácil depois que adquirisse alguma experiência no assunto.

– É que eu não sei o que esperar disso. – ela confessou – Por um lado estou com medo porque todo mundo diz que a primeira vez é horrível para as garotas, porque dói e é desconfortável ou algo assim. E, por outro lado, eu tenho medo de tentar e acabar sendo uma verdadeira decepção na cama. Você ouviu o que ele falou sobre aquela garota, não ouviu? Não quero que ele diga algo parecido sobre mim.

– Bem, em primeiro lugar – Cadence enumerou –: o Aaron é um idiota. Todo mundo já sabe disso. Até ele já sabe disso. Então, esqueça o que ele falou, ok? Nem ele deve ligar para as merdas que ele fala. Em segundo lugar, essa será a sua primeira vez, Becca. É óbvio que você não vai ser perfeita e, sinceramente, ainda que me doa admitir, eu não acho que o Aaron está esperando por isso. Ele sabe que você não tem nenhuma experiência. Não creio que vai ficar te julgando ou te cobrando coisas que você não é capaz de fazer. Agora, se a primeira vez dói? É. Dói um pouco, sim. Mas é só no começo e não é nada que você não consiga suportar. É mais como um desconforto, sabe? Depois passa e fica tudo bem. Você nem se lembra da dor. Quanto a essa história de que a primeira vez é horrível, acho que isso vai depender muito do parceiro. Quero dizer, a minha primeira vez foi muito boa. O Aaron é uma coisa na cama e... Cara, que merda eu estou dizendo? – Cadence riu – Eu estou falando sobre ter feito sexo com o cara com quem você quer fazer sexo. O quão estranho isso é?

– Acho que é bem estranho. – Rebecca também riu – Mas, nesse momento, a sua experiência é tudo o que eu tenho e, de certa forma, o fato de ter sido com o mesmo cara até ajuda, né? Você já dormiu com ele, então, sabe como ele...

– Pode parar. – Cadence ergueu a mão pedindo que ela se calasse – Esse assunto não é nada legal, tá? Vamos falar sobre outra coisa. Ou melhor, vamos resumir essa história: a primeira vez não é ruim. A dor não é insuportável e você não precisa ter medo de fazer alguma coisa errada. Agora, se você não tem certeza de que é isso o que você realmente quer, então, não faça. Estou falando por experiência própria. Não deixe ninguém te convencer a ter a sua primeira vez, ok? Essa decisão é só sua.

Rebecca assentiu, vagarosamente e, então, estendeu a mão para ela e abriu um pequeno sorriso.

– Obrigada pelos conselhos e pela breve aula de sexologia. – ela riu – Ajudou muito.

– Disponha. – Cadence apertou a mão dela e então se deitou na cama e apanhou uma revista – Só não vamos mais falar de como Aaron se comporta na cama, ok? Pelo menos não enquanto vocês dois estiverem juntos. Isso é muito esquisito.

– Concordo em número, gênero e grau. – Rebecca se colocou de pé e deu uma última olhada em sua mochila, optando por retirar dela algumas peças que achou que seriam desnecessárias e, então, pegou seu notebook, se despediu de Cadence e voltou para o estacionamento.

Christopher tinha saído de seu lugar no banco da frente e voltado a se sentar no banco de trás do carro e Aaron estava jogando Candy Crush em seu celular sem parecer estar realmente prestando atenção. O silêncio ali dentro era total e nenhum dos garotos parecia estar muito interessado em acabar com ele, mas Rebecca não sabia dizer se isso ainda era uma consequência do encontro que eles haviam tido com o reitor na Trinity College ou se era porque Christopher e Aaron podiam ter brigado enquanto ela estava dentro do alojamento, arrumando suas coisas.

De qualquer forma, Rebecca guardou sua mochila e seu notebook no espaço vazio do banco traseiro e se sentou no banco da frente, ao lado de Aaron, para que eles pudessem voltar para o apartamento. Ninguém falou muito durante o caminho, apesar de todos os seus esforços para fazer a conversa fluir e a pequena discussão que Aaron tivera com Chrissy sequer foi mencionada, apesar de os cinco dedos dela ainda estarem bastante visíveis na bochecha dele.

Ao chegarem ao prédio, Aaron estacionou o carro em uma das vagas externas e tanto ele quanto Christopher se ofereceram para levar as coisas de Rebecca para dentro, então, ela entregou o a bolsa do notebook para um e a mochila para outro e saiu do carro sem carregar nada. Estava pensando no que poderia fazer para o jantar, já que tudo o que haviam comido naquela tarde era um pretzel que compraram em uma padaria perto da Pembroke College durante seu passeio, quando ouviu alguém gritar seu nome e, ao se virar, se deparou com Margareth, parada logo atrás de dela, carregando várias sacolas de supermercado e a encarando com visível surpresa.

– Rebecca, o que faz aqui tão tarde? – Margareth perguntou estreitando os olhos para poder enxergá-la melhor, já que estava sem os óculos – Aliás, porque você não me ligou e avisou que viria? Eu teria ido ao supermercado mais cedo se soubesse que você estava aqui.

Christopher olhou para Margareth como se achasse que ela era meio doida e Rebecca quase teve um ataque cardíaco quando a viu, mas nenhum deles pareceu mais confuso que Aaron, que ainda se lembrava da noite em que ajudara Margareth a levar algumas caixas para o seu apartamento, mas que não conseguia entender qual era a relação dela com Rebecca ou de onde as duas se conheciam.

– Você ficou esperando aqui fora por muito tempo? – Margareth continuou – Porque não me ligou? Achei que eu tinha te dado uma das chaves extras para você entrar quando precisasse. Você a perdeu?

Rebecca a encarou por um instante, parcialmente petrificada pelo pânico e só então se deu conta de que Margareth pensava que ela estava ali para vê-la. Aquilo a deixou um pouco aliviada, mas foi apenas por um momento, pois ela logo percebeu que embora Margareth não soubesse o verdadeiro motivo pelo qual estava ali, aquilo logo seria esclarecido já que Aaron e Christopher estavam bem ao seu lado, carregando suas coisas e olhando para as duas como se estivessem tentando entender a situação. Era apenas uma questão de tempo até algum deles fazer uma pergunta e ela precisar se explicar.

Aquilo era realmente uma droga, pois em seu plano de passar o fim de semana no apartamento de Aaron não havia uma parte onde Margareth a encurralava na calçada e a obrigava a contar a verdade, mas, de certa forma, aquilo era até bom porque ela havia prometido nunca mais mentir e, ocultar uma verdade, era fazer exatamente isso. Seria bom poder esclarecer as coisas de uma vez, mas ela também não podia dizer que aquilo seria agradável.

Desde a briga que tivera com Cadence no dormitório, justamente por causa de Aaron, Margareth tinha se tornado uma pouco mais rígida com ela e menos tolerante com suas escolhas e aquilo não seria um ponto a seu favor quando ela lhe contasse que já tinha passado uma noite no apartamento de Aaron e que pretendia passar também o restante do fim de semana lá. Certamente haveria muitas reclamações e sermões sobre responsabilidade e confiança e aquilo podia não terminar muito bem, principalmente se Margareth decidisse que aquilo era um problema que requeria a interferência de seus pais. Rebecca esperava de coração que ela não decidisse isso.

– Becca, o gato comeu a sua língua, foi? – Margareth abriu um sorriso divertido para ela e se aproximou alguns passos, mas quando notou que Aaron e Christopher estavam a encarando completamente confusos, ela parou e olhou, de um para o outro, sem conseguir entender o que estava acontecendo – Algum problema? – perguntou, achando que os dois estavam parados ali por engano – Posso ajudar em alguma coisa?

Aaron franziu a testa, imaginando se Margareth já não se lembrava mais dele, mas antes que pudesse abrir a boca para perguntar, Rebecca se adiantou e a cumprimentou com um breve abraço.

– Oi, Margareth. – ela disse com um sorriso amarelo – Faz quase uma semana que a gente não se vê, né? O que tem aprontado nesses últimos dias?

– Ah, eu só comprei algumas toalhas de mesa que estou bordando e descobri uma ótima livraria bem perto daqui. A propósito, os seus pais me ligaram ontem. Perguntaram por você e pelo Ty e eu disse que vocês estavam bem, apesar de que a última vez em que vi o seu irmão foi quando ele passou por aqui para me fazer uma visitinha rápida, há mais ou menos um mês.

– Poxa. Faz tempo, hein?

– Faz, sim. Não sei o que ele tem aprontado que não tem tempo nem de vir aqui me dizer um olá de vez em quando. Mas e você, o que veio fazer aqui a essa hora? E não me diga que brigou com a Cadence outra vez, Becca. Não quero saber de você levando mais advertências, viu?

Rebecca abriu um sorriso nervoso para ela e, depois, se virou para Aaron, que a observava como ela tivesse criado um rabo e esse rabo fosse Margareth. Ela se perguntou se, por acaso, já tinha mencionado a existência de Margareth para ele, mas logo se deu conta de que as únicas pessoas que sabiam sobre sua tutora eram Ty, Vlad e Mikhail e, dentre os dois últimos, apenas Vlad tinha conhecido Margareth pessoalmente e, ainda assim, tinha sido um encontro muito rápido.

Ela não sabia dizer se aquele será o momento mais oportuno para apresentar um ao outro, mas já que precisava preparar o terreno para as futuras explicações que teria que dar, decidiu que começar com o básico seria uma atitude bastante sensata.

– Não briguei com a Cadence. – Rebecca respondeu com uma expressão totalmente falsa de tranquilidade estampada em seu rosto – Estamos super bem. Sério. A propósito, você já conhece o Aaron?

Para sua surpresa, Margareth estreitou os olhos na direção de Aaron e assim que conseguiu dar uma boa olhada em seu rosto, abriu um largo sorriso para ele e assentiu.

– Ah, sim. Eu o conheço. – ela estendeu a mão para cumprimentá-lo – Como tem passado, Aaron? Não tem se metido mais em brigas por aí, não é rapaz?

O queixo de Rebecca caiu. Na verdade, sua boca se abriu tanto que ela quase teve a impressão de que poderia colocar a língua para fora e sentir o gosto da poeira da calçada, mas as coisas pareceram ficar ainda mais surreais quando Aaron estendeu a mão para apertar a de Margareth, como se eles fossem velhos conhecidos.

– Eu estou bem. – ele respondeu com um tom mais gentil do qualquer um que já tinha usado desde seu encontro com o reitor naquele dia – E estou tentando não me envolver mais em brigas, mas nem sempre consigo.

– Uma das maiores virtudes de um ser humano é saber lutar usando as palavras ao invés das mãos. – Margareth o aconselhou – Pelo menos o seu olho já está melhor. Da última vez que nos vimos eu quase pedi para que você me deixasse fazer uma compressa de água fria. Não se machuque mais daquele jeito, meu filho. Você é um rapaz tão bonito. Não nasceu para ficar andando por aí cheio de hematomas.

– Alguém te deu uma surra? – Christopher olhou para ele, preocupado – Você teve que ir para o hospital? Se machucou muito?

– Relaxa, moleque. – Aaron despenteou o cabelo dele – Foi só uma briga que aconteceu numa festa no início do semestre. Nada demais.

– Não foi por causa de mulher, foi? Me diz que você não apanhou por causa de uma garota, Aaron.

– Foi por causa de uma garota, sim. Mas valeu a pena. – ele olhou para Rebecca e ela corou tanto quanto um pimentão, mas logo depois ficou branca como um fantasma ao perceber que Margareth estava olhando para os dois com a testa franzida.

– De onde vocês se conhecem mesmo? – ela perguntou olhando de Aaron para Rebecca com uma expressão curiosa.

– Da universidade. – Rebecca se apressou a responder, mas não deu maiores informações – E de onde vocês se conhecem mesmo? Se esbarraram na rua ou algo assim?

Margareth sorriu.

– Não. Eu o conheci quando me mudei para cá. Ele me ajudou a levar algumas caixas para o meu apartamento.

– Ah.

– Aaron, eu tenho a impressão de que já ouvi o seu nome antes. – Margareth se voltou para ele – Por acaso você é amigo do Ty? Foi ele quem te apresentou a Rebecca?

– Não, mas eu o conheço também. Nós éramos colegas de quarto.

A compreensão inundou o rosto de Margareth no mesmo instante em que uma expressão de derrota tomou conta do rosto de Rebecca e, como ela já imaginava, Margareth logo se voltou para ela, com uma expressão questionadora.

– Ele é o colega de quarto do Ty?! Aquele que você disse que inferniza o seu irmão e que ainda jogou um garoto dentro de um rio e quase o fez se afogar?

– Você jogou um garoto dentro de um rio?! – Christopher arregalou os olhos.

Aaron deu de ombros.

– Ele xingou a nossa mãe.

– Ele a xingou? – Rebecca perguntou esperançosa. Se Aaron tinha um motivo para ter jogado Edmond dentro do rio naquela noite, então, talvez, ela pudesse usar isso para defendê-lo diante de Margareth.

– Ele ficou bravo quando eu disse que não tinha espaço para mais um na minha turma. Aí ele xingou a minha mãe e, qual é? Eu não ia deixar o imbecíl falar merda na minha cara e ficar por isso mesmo, né?

Margareth o encarou com uma expressão reprovadora e Rebecca mordeu o lábio. Talvez não fosse ser assim tão fácil convencê-la de que Aaron era um cara legal, apesar de tudo.

– Posso saber o que senhorita faz aqui a essa hora? – Margareth voltou a perguntar, ao notar a mochila e o notebook que Aaron e Christopher estavam segurando – Parece que não estava aqui para me visitar. Então, posso saber o que pretendia?

Rebecca baixou a cabeça e Christopher e Aaron olharam para ela, optando, com muito bom senso, por deixá-la responder a essa pergunta.

– Eu ia passar a noite no apartamento do Aaron. – Rebecca praticamente murmurou – Ia ficar lá esse fim de semana.

– Sem nem me consultar?! – Margareth esbravejou, parecendo estar completamente decepcionada com aquele tipo de atitude por parte dela – E desde quando você acha que é certo uma moça passar a noite em um apartamento sozinha com dois homens.

– Sozinha com dois homens? Do jeito que você fala parece que eu acabei de me candidatar a uma vaga em um prostíbulo Margareth.

– Eu não falei com a intenção de te ofender ou de supor qualquer. Eu só acho que você já está bem grandinha para saber que não é certo fazer coisas desse tipo, Becca.

– Coisas de que tipo? Passar um fim de semana com meu namorado e o irmão mais novo dele? É esse tipo de coisa que não é certo?

– Você disse namorado? – Margareth a encarou pasma – Vocês estão namorando?

Rebecca olhou para Aaron, que sustentou seu olhar sem saber se deveria dizer alguma coisa ou permanecer calado em seu canto e, depois, se voltou para Margareth.

– Estamos nos entendendo. – ela respondeu sem saber ao certo como Margareth interpretaria aquilo. Assim como seus pais, Margareth tinha a mania de só trabalhar com compromissos firmados. Para ela, um noivado não era um noivado, até que alguém estivesse com um anel no dedo, assim como um namoro não era um namoro, até que alguém fizesse um pedido formal.

– Achei que você estivesse namorando o Vlad. – Margareth comentou ainda meio perplexa, mas pelo menos ela não retrucou a história do “estamos nos entendendo”.

– Margareth eu terminei com o Vlad há mais de uma semana. – Rebecca respondeu tentando manter a calma – Achei que eu tinha te dito que ele me traiu.

– Ele te traiu? – Aaron para ela com uma mistura de surpresa e indignação e Rebecca apenas assentiu, pois não queria entrar em maiores detalhes sobre aquilo – Mas que filho da puta hipócrita. Falava tanto sobre mim que achei que ele ia ser canonizado pelo Vaticano e, na verdade, ele estava por aí, fincando a bandeira da Rússia em todo mundo.

– Olha o linguajar, rapazinho. – Margareth o repreendeu e Christopher sufocou uma risada ao ver o irmão mais velho levar uma bronca – Becca, acho que nós duas precisamos ter uma conversa.

– Se por “ter uma conversa” você quer dizer que vai agir igual aos meus pais e aos meus irmãos, tentando controlar a minhas decisões e me dizer como devo viver a minha própria vida, acho que não precisamos, não.

– E desde quando eu sou como os seus pais? Eu sempre defendi você e a sua liberdade.

– Sempre, Margareth, mas agora você está agindo igual a eles. Eu tenho dezoito anos, sabia? Com essa idade você já estava casada, cuidando de uma casa e de uma família, mas eu ainda sou tratada como se tivesse cinco anos de idade e nem soubesse amarrar o cadarço dos meus tênis sozinha. Pelo amor de Deus! Será que eu nem posso escolher o meu próprio namorado sem ter alguém dando palpite nisso?!

Margareth olhou para ela e abriu a boca para refutar, mas pensou um pouco a respeito e percebeu que Rebecca tinha razão. Ela estava sempre falando sobre o quanto respeitava suas escolhas e sobre o quanto confiava nela para tomar boas decisões, mas sempre que Rebecca decidia alguma coisa, fosse ela boa ou ruim, ela ainda se intrometia. Não fazia por mal, é claro. Era mais como um cuidado de mãe que, mesmo depois de os filhos terem crescido e seguido suas próprias vidas, ainda se preocupava. Porém, ela tinha dois filhos já casados e chefes de família e sabia, por experiência própria, que não importava para onde você os empurrasse, eles sempre seguiriam pelo seu próprio caminho.

Rebecca tinha começado a seguir o dela e ainda que Aaron não lhe parecesse a melhor escolha, por tudo o que ele já tinha feito de ruim e por seu jeito brigão, se ele ao menos a fizesse feliz e a amasse de verdade, para Margareth já seria o suficiente.

– Tem razão. – ela disse rendendo-se aos fatos – Eu não tenho te deixado viver a sua vida. Desculpe. Não queria ser como uma segunda versão dos seus pais, mas acabei me tornando uma sem nem perceber.

– Eu sei que você só quer o meu bem, Margareth, mas vai ter que confiar em mim dessa vez. – Rebecca se aproximou dela e a abraçou – Você e a minha família ao podem tomar todas as decisões por mim para sempre.

– Eu sei que não.

– Posso passar o fim de semana com o Aaron, então? – Rebecca perguntou – Saiba que eu vou fazer isso de qualquer jeito, só me sentiria melhor se você não se opusesse a isso.

Margareth pensou a respeito.

– Não vai fazer nenhuma besteira?

– Posso te prometer que vou fazer o melhor que puder. – Rebecca sorriu – Não é isso que você sempre disse que queria que eu e os meus irmãos fizéssemos? O nosso melhor?

– Eu disse isso?

– Para. – Rebecca deu um leve tapinha em seu ombro – Você sabe que disse.

– Então, tá. Faça o melhor que puder. – Margareth concordou e Rebecca a abraçou a de novo.

– Obrigada, Margareth.

– De nada, meu amor. Só me prometa outra coisa.

– O que?

Margareth levou os lábios até seu ouvido e cochichou:

– Se for para cama com ele, por favor, use camisinha.

– Margareth! – Rebecca se afastou dela, tão vermelha quanto um tomate e olhou para trás para ver se Aaron tinha escutado aquilo, mas ele estava distraído olhando os carros que passavam pela rua e parecia não ter ouvido nada.

Que ótimo. Pelo menos ele ainda estava completamente alheio ao fato de que ela o desejava daquela forma, porque para o resto do mundo parecia que seus pensamentos estavam refletidos em outdoor de neon acima de sua cabeça.

Se Aaron era o cara certo para ela ou não, Rebecca ainda não tinha certeza, mas de uma coisa ela sabia: ele seria o primeiro.

Notas finais
Então, minha gente, não sei quanto a vocês, mas eu dei algumas risadas enquanto escrevia esse capítulo, principalmente escrevendo esse breve encontro entre Margareth, Rebecca, Aaron e Christopher XD Espero que tenham gostado e que estejam ansiosos para o próximo, que espero conseguir terminar até o fim de semana. Beijocas e até lá.