Wake Me Up
50 Então é Natal - Parte II
Notas iniciais
Sentar-se naquela mesa, bem de frente para Joseph, logo depois de ouvir todas as coisas horríveis que ele havia lhe dito na varanda, foi uma das coisas mais difíceis que Rebecca já teve que fazer e, por um momento, ela chegou a se questionar se realmente tinha vocação para ser psicóloga.
Tudo bem, a psicologia podia parecer fácil quando seu maior desafio era sentar-se diante de um paciente e ouvir todos os seus problemas com atenção, mas encarar alguém como Joseph, sessão após sessão, sabendo que seu trabalho podia ser o ponto decisivo entre a vida ou a morte de algum inocente, era pressão demais. Rebecca nem podia imaginar como o psicólogo de Joseph sentia-se ao final de cada encontro com ele. Será que o homem chegava em casa, tomava um banho e se deitava, imaginando se Joseph estaria se comportando ou se estaria planejando cortar a garganta de alguém com uma das facas da cozinha? Por Deus! Como alguém poderia dormir em paz tendo um paciente como aquele?
— Rebecca? – Aaron tocou seu braço e só então Rebecca percebeu que todos na mesa – todos, até Joseph – a olhavam como se esperassem que ela dissesse algo.
— O que? – Ela sentiu as bochechas corarem no mesmo instante por ser o centro das atenções.
— Você gostaria de dizer algo? – Briana questionou. Ela ainda estava de pé na ponta da mesa e Rebecca percebeu que, provavelmente, a mãe de Aaron havia acabado de fazer um discurso todo emocionante de natal que ela perdera por estar viajando completamente. Que vergonha.
— Ah, claro. – Rebecca se colocou de pé devagar e ficou em dúvida se deveria pegar uma das taças da mesa e a erguer enquanto falava. Não tinha muita experiência com discursos, pois nunca havia feito um, mas pensou que talvez discursos de natal e brindes não fossem a mesma coisa, então, apenas entrelaçou as mãos e deixou a história de segurar a taça para lá. – Eu queria dizer que... – Ela começou, mas na mesma hora percebeu que, na verdade, não sabia o que queria dizer. Havia aceitado a oferta de Briana quase que por impulso, mas sua cabeça estava vazia, exceto, é claro, pelas ameaças de Joseph que ainda estavam bem frescas em sua mente.
Ela olhou para Aaron, sem saber se buscava nele uma inspiração ou uma rota de fuga e ele sorriu para ela, incentivando-a a continuar, totalmente alheio às preocupações que faziam morada por trás de seus olhos.
Os olhos de Rebecca, então, passearam pela mesa até encontrarem os de Christopher, que parecia ter um sorriso constante nos lábios naquela noite e, então, chegaram aos de Briana, que a encarava com uma expressão serena e gentil. Rebecca fez questão de evitar os olhos de Joseph porque não sabia bem o que encontraria neles: a expressão desinteressada de sempre ou a crueldade intensa que ela demonstrara na varanda? Pelo sim e pelo não, ela não precisava de outra onda de pânico naquele momento.
— Eu queria dizer – ela recomeçou com um pouco mais de firmeza – que estou extremamente grata por estar aqui hoje. Esse é o primeiro natal que eu passo longe da minha família, mas sinto que encontrei outro tipo de família igualmente boa aqui. – Ela virou-se para Aaron novamente, mas, dessa vez, estendeu a mão para segurar a dele. – Conhecer você foi a coisa mais louca e mais certa que já me aconteceu. – Disse rindo. – Eu nem sei dizer o quanto estou feliz por ter vindo para Oxford e por ter ficado sentada naquele corredor frio, enquanto o meu irmão ia buscar a chave dele na biblioteca.
— Logo antes dele voltar e socar a minha cara. – Aaron completou e Rebecca riu ainda mais, enquanto Briana e Christopher se entreolharam confusos. Eles não faziam ideia do quão maluca era a história de amor daqueles dois.
— Sim. Logo antes disso. – Rebecca concordou e apertou um pouco mais a mão dele na sua. – Você é o meu milagre de natal, Aaron Greed. Nem nos meus maiores sonhos eu poderia imaginar que aquele garoto terrivelmente chato e maldoso que conheci há alguns meses se tornaria esse homem maravilhoso que está na minha frente agora. Eu não tive a intenção de me apaixonar por você, mas, agora, a cada dia eu te amo mais e sou grata por isso. Sou grata por você ter entrado na minha vida.
Provavelmente, se não estivesse na frente de Joseph Aaron teria derramado uma lágrima ou duas ao ouvir aquilo, mas com o irmão postiço malvado o encarando e lendo cada uma de suas expressões, ele se limitou a sorrir e soprar um beijo para Rebecca, surrando um “eu te amo” silencioso para ela.
— E você, Christopher Hamilton, meu doce e habilidoso chefe de cozinha! – Rebecca continuou, voltando sua atenção para Christopher, cujo sorriso ficou ainda maior ao ouvi-la. – Não há um único dia na minha vida que eu não agradeça por ter conhecido você e as suas panquecas deliciosas. É sério. Já pensei em sequestrá-lo e levá-lo para morar comigo, só para te obrigar a cozinhar para mim, mais de uma vez. Se eu fosse a sua mãe, teria cuidado comigo. – Ela sorriu rapidamente para Briana e voltou sua atenção novamente para o garoto. – Você é a criatura mais amorosa, inteligente, leal e determinada que eu já conheci, Christopher. Estou feliz por poder ser uma parte da sua vida agora. Você é o irmão mais novo dos meus sonhos.
— Achei que você já tinha quatro irmãos, Bee.
— E eu tenho, seu espertinho, mas eles são todos mais velhos que eu. – Rebecca fez um biquinho e Christopher não hesitou em se levantar de seu lugar e correr para abraçá-la. De certa forma, Rebecca também era a irmã dos sonhos dele. – Agora, Briana... – Rebecca continuou quando Christopher a soltou e voltou para sua cadeira. – Eu não tive a oportunidade de conhecê-la direito ainda. A primeira vez que nos encontramos, a situação não era muito favorável para conversas, mas pelo pouco que pude conhecê-la agora, já posso dizer que tenho muita consideração por você. A senhora trouxe ao mundo dois dos homens mais importantes da minha vida e só posso agradecê-la por isso. E também por você ter aberto as portas da sua casa para mim, tão gentilmente. Obrigada, de verdade.
— Você será sempre bem vinda aqui, querida. – Briana sorriu para ela e Rebecca retribuiu com um sorriso igualmente sincero.
Ela pensou em terminar seu discurso de natal ali, mas, então, seus olhos esbarraram em Joseph e, por mais que ele a tivesse ameaçado apenas alguns minutos antes, Rebecca percebeu que não poderia encerrar aquilo sem falar sobre ele também. Às vezes o espírito natalino era mesmo uma droga!
— E, Joseph – Rebecca se voltou para ele, que ergueu os olhos para ela com uma expressão de surpresa, pela primeira vez desde que ela o conhecera. Provavelmente ele também não cogitara a possibilidade dela se dirigir a ele depois do episódio da varanda –, você não fala muito e acho que nós começamos com o pé esquerdo, mais de uma vez, mas você também é importante para mim. Se não fosse por você, talvez o Aaron nunca tivesse ido a Oxford e talvez eu nunca o tivesse conhecido. O Christopher também não o teria visitado, não fosse pela sua ajuda e, então, provavelmente, nenhum de nós estaria sentado aqui nessa mesa hoje. Às vezes, nós não sabemos como as nossas ações vão impactar a vida de outras pessoas, mas podemos ter certeza de que nada nesse mundo é de todo mal. Sempre há um lado bom em todas as coisas, até onde não esperamos que haja e é por isso que sou grata por ter te conhecido também.
Se alguém ali notou que as palavras de Rebecca soaram um pouco mais duras que de costume, ninguém comentou. Todos pareciam estar surpresos com sua declaração – até mesmo Joseph, aliás, principalmente Joseph, que a encarou com o cenho franzido como se Rebecca fosse algum tipo de jogo que ele ainda não tinha aprendido a jogar.
Ela voltou a se sentar e sorriu para todos, esperando para ver quem seria o próximo a falar, mas ninguém se pronunciou de imediato. Todos os olhos permaneceram nela por mais alguns segundos, até que Briana tomou as rédeas da situação e voltou a falar:
— Aaron – Ela sorriu para o filho –, gostaria de dizer algo?
Aaron correu os olhos por todos na mesa.
— Eu?
— Bem, eu quero. – Christopher se colocou de pé. – Quero agradecer a minha mãe por preparar tudo isso pra gente. Digo, não a comida, isso foi a Leilah. – Então, ele se virou para a porta da cozinha e gritou: – Obrigado, Leilah. Você é a melhor! – E Rebecca pode ouvir a cozinheira responder um “de nada” com um tom ligeiramente divertido. Christopher sorriu e, então, voltou-se novamente para as pessoas na mesa. – Também quero agradecer à Bee, minha nova irmã, por vir comemorar o Natal com a gente e por ter trazido o Aaron com ela. E quero agradecer ao Aaron por vir e, principalmente, por namorar a Bee. – Ele ergueu dois polegares para o irmão. – Ela é demais, mano! – Disse arrancando risadas de todos ali. – E também quero agradecer ao Joseph, meu cúmplice – ele sorriu para Joseph – por me ajudar a ir visitar o Aaron. Foi muito legal da sua parte, mano. Valeu mesmo.
Então, ele voltou a se sentar e, por um instante Rebecca pensou ter divisado algum tipo de sentimento nos olhos de Joseph quando Christopher falou sobre ele, mas foi só por um instante.
— Acho que agora é sua vez. – Rebecca cutucou Aaron com o cotovelo e ele riu um pouco porque aquilo lhe causou cócegas.
— Tá bem. – Ele suspirou e se colocou de pé. – Acho que vocês já falaram tudo que eu gostaria de falar, mas eu quero agradecer à minha mãe por ter nos convidado para passar o Natal aqui. – Aaron olhou para ela e a expressão de Briana era só amor e emoção por ouvir o filho falar daquela maneira.
— Eu que agradeço por você ter vindo, Aaron.
— Mas eu não teria vindo se você não tivesse nos convidado, então, obrigado. E ao meu irmão, Christopher, por ser uma peste e juntar todos nós aqui hoje.
— Eu não sou uma peste! – Christopher reclamou, mas mesmo assim o sorriso não deixou seus lábios por um segundo sequer.
— Ah, você é, sim. Mas é uma peste muito amada. – Ele piscou para o irmão caçula. – Também quero agradecer a Bee, que é a melhor pessoa que eu já conheci e que me ensinou muitas coisas nos últimos meses, principalmente o valor de uma segunda chance.
— Ou de sete. – Rebecca o corrigiu e Aaron franziu a testa para ela.
— Ah, qual é? Eu não vacilei tanto assim.
— Ah, você ficaria surpreso... – Ela brincou e, então, todos na mesa esperaram para ver o que ele diria sobre Joseph, mas Aaron apenas voltou a se sentar.
— E é isso. – Ele disse como se para encerrar as esperanças de que ele fosse se dirigir ao irmão postiço. Provavelmente, ele ainda não estava pronto para dar algumas segundas chances, mas Rebecca não o culpou. Se alguém tivesse matado seu bichinho de estimação a sangue frio, ela também teria muita dificuldade de perdoar. Talvez nunca perdoasse.
— Joseph? – Briana perguntou, mas como todos ali já esperavam, Joseph apenas balançou a cabeça de forma negativa, indicando que não queria falar. – Tudo bem, então, acho que podemos começar a nossa ceia. Quem quer cortar o peru? – Ela questionou e um Christopher muito animado já foi logo se levantando e pegando a faca e o garfo de servir.
A ceia transcorreu de maneira pacífica e alegre. Todos se empanturram de comida, principalmente Christopher e Aaron que, juntos, conseguiram comer quase metade do peru. Rebecca se perguntava para onde ia toda aquela comida, já que nenhum dos dois estava acima do peso e, pessoalmente, sentia um pouco de inveja do metabolismo dos dois, pois se fosse ela a comer tanto assim, em cerca de um mês estaria pesando algo em torno de cem quilos.
Aaron conversou bastante com a mãe, o que para Rebecca foi a maior vitória da noite e, pelo olhar maravilhado de Christopher, ela percebeu que não era a única ali encantada com aquela reconciliação. Aaron realmente parecia ter levado a sério seu conselho sobre criar novas lembranças e Briana também parecia muito empenhada e demonstrar o quanto o amava e sentira sua falta em todos esses anos.
Joseph foi o único que não falou muito, mas Rebecca percebeu que ele não parecia muito atento ao que se passava a sua volta. Seu olhar estava distante, como se sua cabeça estivesse em outro lugar, mesmo quando ele respondia a alguma pergunta que Briana ou Christopher, vez ou outra, lhe faziam. Rebecca se perguntou em que ele estaria pensando e se ela devia se preocupar com aquilo. Ainda não tinha esquecido suas ameaças.
Quando o jantar terminou, Christopher praticamente arrastou todos para as poltronas junto da árvore e disse que era hora de começarem a abrir os presentes. Ele parecia excepcionalmente animado com aquilo e Rebecca se lembrou de que, ao chegarem, ele havia comentado que tinha uma grande surpresa para Aaron e para ela.
— Então – Christopher começou, pegando um pacote púrpura da pilha de presentes que estava aos pés da árvore de natal –, esse primeiro presente aqui é para alguém muito especial e que eu amo muito. Uma mulher muito bonita, que tem um filho mais bonito ainda e, não, eu não estou falando de você, Aaron. – Ele riu da própria piada e Aaron sacudiu a cabeça e revirou os olhos ante o comentário. – Esse aqui é da minha mãe. – Christopher correu até ela e depositou o pacote em seu colo. – Espero que goste. O Joseph me ajudou a escolher.
Briana olhou para Joseph e murmurou um “obrigada” ao qual Joseph não deu muita importância e, então, se voltou para Christopher e lhe deu um abraço apertado.
— Obrigada, meu amor. – Ela apertou uma das bochechas dele e Christopher afastou a mão dela dali, com gentileza. Aquilo fez Rebecca se lembrar de sua própria mãe e de sua irritante mania de sempre apertar suas bochechas. Talvez aquele fosse um tique que toda mãe tivesse.
— Vai, abre. – Christopher insistiu quase pegando ele mesmo o pacote e o abrindo.
Briana retirou o papel púrpura do pacote com todo cuidado e então abriu a caixa, retirando de lá a belíssima moldura de um porta retrato.
— Ainda não tem foto – Christopher avisou –, mas é porque eu espero que a gente possa tirar uma fotografia hoje, de todo mundo junto, para a senhora guardar de recordação. Foi o melhor natal que a gente já teve, né?
Os olhos de Briana se encheram de lágrimas e ela puxou o filho mais novo para outro abraço apertado.
— Foi, sim, meu amor. O primeiro de muitos outros maravilhosos natais que teremos juntos – Ela olhou rapidamente para Aaron – e eu vou adorar guardar essa recordação.
Christopher pareceu satisfeito com aquilo e, então, pegou outro pacote da árvore, dessa vez, embrulhado com um papel azul marinho.
— Esse é do meu irmão, que certamente não estava esperando ganhar um presente hoje, mas vai ter que lidar com isso mesmo assim.
— Ei, como assim? Eu estava esperando por um presente ou dois essa noite. – Aaron brincou, mas Christopher mal olhou para ele.
— Você também vai ganhar um, Aaron, mas esse é do Joseph. – Christopher caminhou até ele e lhe entregou o presente. – Não sei se vai gostar, mas eu escolhi com carinho.
Joseph ficou olhando para ele, como se estivesse diante um ET com três cabeças e quatro braços e, por um longo instante, ele sequer olhou para o pacote em suas mãos. Aaron e Briana pareciam igualmente pasmos com o gesto do garoto, mas Rebecca estava sorrindo de uma orelha a outra porque aquilo era bem a cara de Christopher. Será que algum dia ele não tomaria uma atitude que a deixaria encantada? Parecia improvável. Christopher era dono do coração mais bondoso e bonito que ela já conhecera.
— Abra. – Ele incentivou Joseph, empurrando um pouco mais o pacote para junto do corpo do irmão.
Parecendo deslocado e muito sem jeito, Joseph pegou o presente e retirou o embrulho, encontrando dentro dele um conjunto de lápis para desenho, lápis de cor e folhas brancas.
— Você... você andou xeretando no meu quarto? – Ele perguntou para Christopher, mas não havia raiva em sua voz, apenas uma curiosidade verdadeira.
— Talvez eu tenha dado uma olhadinha nele um dia... – Christopher deu de ombros e, depois, se aproximou um pouco mais de Joseph e baixou o tom de voz. – Você tem uns desenhos bem legais lá dentro, Joe. Aquele do barco pirata é o melhor. – Ele deu uma piscadela para Joseph e se afastou sorridente.
Joseph não retrucou, também não agradeceu, mas não passou despercebido a ninguém que ele guardou, com muito cuidado, os conjuntos de lápis e as folhas de volta no pacote.
— Tudo bem, acho que agora está na hora de eu ganhar o meu. – Rebecca sorriu para Christopher, mas ele balançou a cabeça.
— Não. Vou buscar o seu e o do Aaron daqui a pouco. Eles estão no meu quarto.
— Ah, certo. – Rebecca franziu o cenho, confusa. – Então, acho que é hora de eu entregar os meus.
Ela se aproximou da árvore, pegou o pacote que tinha dado a Christopher mais cedo e o entregou novamente a ele. Depois pegou outros dois menores e entregou um para Aaron e outro para Briana. Com pesar, percebeu que não havia comprado nada para Joseph, mas se ele se importou com aquilo não deixou transparecer. Talvez Christopher estivesse certo, talvez Joseph não esperasse por presentes de ninguém naquela noite.
— Wow! – Christopher exclamou ao abrir seu presente e se deparar com um jogo de videogame que Rebecca esperava, com todas as forças, que o garoto ainda não tivesse. – Dark Souls III. – Ele a abraçou. – Obrigado, Bee. Eu estava mesmo querendo este, mas o meu pai não quis me dar por causa da classificação indicativa.
— Classificação indicativa? – O sangue de Rebecca congelou.
— Maiores de dezesseis. – Christopher revirou os olhos. – Quem liga para essas bobagens, não é?
Rebecca olhou para Briana e esta, por sua vez, acenou com uma das mãos, indicando que não se importava com esse fato, o que a deixou aliviada. Não entendia nada de videogames e nem se atentou ao detalhe da classificação indicativa, mas se Christopher gostava do jogo e sua mãe não proibia, então, estava tudo bem.
— Isso é uma pulseira? – Aaron questionou enquanto terminava de abrir seu presente.
— É, sim. Espero que você goste. – Rebecca se aproximou dele e esperou que ele terminasse para ajudá-lo a colocar a pulseira no braço. Era uma daquelas pulseiras masculinas, feita de tirinhas de couro preto entrelaçadas e com um pingente de prata em forma de âncora, que por alguma razão ela achou que ficaria bem em Aaron e acertou. A pulseira lhe caiu muito bem.
— Obrigado. – Ele depositou um beijo rápido nos lábios dela. – Nunca tive uma dessas.
— Agora você tem.
— Pois é. – Ele olhou para a pulseira e, depois, novamente para ela, envergonhado. – Olha, eu queria muito ter alguma coisa para te dar agora, mas a verdade é que... eu saí de casa com muita pressa e esqueci o seu presente lá em Oxford. – Rebecca teve que rir. Aaron parecia uma criança que precisava contar aos pais que havia quebrado a janela da casa com uma bola de baseball.
— Ei, tudo bem. – Ela segurou o rosto dele entre as mãos. – Meu maior presente é você estar aqui e estarmos passando esse tempo juntos.
— Eu também não trouxe nada para o Christopher, nem para a minha mãe.
— Não esquenta com isso não. – Christopher pulou em cima dele, obrigando Aaron a firmar bem os dois pés no chão, para não cair por causa do peso do irmão caçula. – Você me recompensa no meu aniversário.
— E ter vocês dois aqui já é presente suficiente para mim. – Briana comentou. – Apesar de que eu adorei a fragrância desse perfume que você me deu, Rebecca. Obrigada. – Ela deu um abraço carinhoso em Rebecca e passou um pouco do perfume nos pulsos, sentindo o aroma. – Muito bom mesmo.
— Fico feliz que tenha gostado. – Rebecca sorriu.
Para a surpresa de todos ali, Joseph não havia comprado presentes, mas havia preparado cartões de natal para Briana e Christopher. Na verdade, preparar não era bem a palavra. Ele apenas tinha comprado cartões enfeitados na papelaria mais próxima e escrito os nomes deles na parte de dentro, mas em se tratando de Joseph, que sempre era tão frio e distante, aquilo já era uma grande coisa.
Briana também havia comprado presentes para todos. Deu a Christopher um aeroplano com controle remoto que fez os olhos dele brilharem como se ela tivesse lhe dado o mundo e deu à Rebecca um belo par de brincos de pérola pelos quais ela nem hesitou em substituir os que usava. Para Joseph, Briana deu um belo casaco preto de grife e, na opinião de Rebecca, o presente não poderia ter sido melhor já que ela nunca o vira usando outra cor.
O presente de Aaron foi um relógio de ouro, com correias de couro pretas e alguns detalhes em vermelho no visor. Rebecca achou o relógio muito elegante, mas quando viu os olhos de Aaron se encherem de lágrimas, ela percebeu que devia haver mais por trás daquilo que apenas a alegria por ter ganhado um relógio bonito.
— Esse relógio era... ele era...
— Do seu pai. – Briana completou segurando as mãos dele. – Quando o Anthony faleceu, eu doei a maior parte das coisas dele, mas não pude me desfazer do relógio. – Ela olhou para o objeto ainda na caixa que Aaron segurava. – Seu pai amava esse relógio e acho que ele gostaria que você ficasse com ele agora.
Aaron nem pensou antes de envolver a mãe em um abraço apertado. Havia tantos sentimentos por trás daquele gesto: perdão, gratidão, amor, saudade. Tudo se misturava em uma coisa só e, dessa vez, ele não se importou que Joseph estivesse ali vendo-o chorar. Aquele era o melhor presente que sua mãe poderia ter lhe dado de natal, porque ter aquele relógio nas mãos era como ter uma parte do pai de volta em sua vida.
— Obrigado. – Ele disse com a voz carregada de sentimento. – Obrigado mesmo, mãe.
— Ele tinha que ser seu, querido. Acho até que foi por isso que o guardei durante todos esses anos.
— Obrigado.
— Tudo bem, meu amor. – Briana secou as lágrimas que escorriam de seus olhos verdes e depositou um beijo em sua bochecha. – Feliz natal.
— Essa foi uma atitude incrível. – Christopher sussurrou para Rebecca e ela só pode sacudir a cabeça, concordando, porque na verdade sua garganta também estava obstruída pela emoção do momento. Aquele era um presente tão cheio de significado e Aaron havia ficado tão feliz que ela só podia se sentir da mesma forma por ele. – Agora eu vou buscar o presente de vocês.
Christopher saiu de fininho, enquanto a comoção na sala ainda perdurava e voltou minutos depois com uma caixa de tamanho considerável.
— Eu não sei se vocês vão gostar, mas acho meio difícil vocês não gostarem deles.
— Deles? – Aaron questionou e no mesmo instante um latido baixo ecoou de dentro da caixa. – Ai, meu Deus.
Christopher pousou a caixa no chão e retirou a tampa, libertando dois filhotes de Beagle cujos pescoços estavam adornados por grandes laços vermelhos.
— Conheçam Cristal e Ruffus. – Christopher os apresentou e assim que saíram da caixa os filhotes já começaram a andar pela sala, cheirando tudo que encontravam. Ruffus logo fez xixi nos pés do sofá. – Bem, ele ainda precisa de um pouco de educação – Christopher completou –, mas ela é uma lady.
Briana parecia chocada e Rebecca ficou divida entre a vontade de apertar aquelas coisinhas pequenas ou dizer a Christopher que ela não teria onde criar um cachorro em Oxford. A universidade tinha políticas bem severas quanto a permanência de animais nos dormitórios.
— Quando foi que você comprou esses cachorros? – Briana perguntou, ainda boquiaberta.
— Não comprei. A dona de um abrigo aqui perto estava doando alguns filhotes e eu escolhi esses dois.
— Quando? Você nem saiu de casa essa semana, Christopher.
Christopher revirou os olhos.
— Dããã. Eles têm um site, mãe. Resolvi tudo pela internet e o Joseph foi buscá-los para mim há três dias.
— Três dias? – Briana alternou o olhar entre Joseph e o filho.
Christopher sorriu para ela.
— Eu os mantive bem cuidados, mãe. Eu juro. Eu dei comida e água e limpei a sujeira deles... A senhora nem vai notar que eles estiveram no meu quarto.
— Vocês dois... – Briana apontou para os garotos. – Vocês dois são criaturinhas terríveis.
— Foi tudo ideia do Christopher.
— Pare de me dedurar. – Christopher reclamou, mas Joseph apenas deu de ombros.
— Você me dedurou primeiro, seu pivete.
— Tá. Verdade. – Christopher riu e, para o espanto de todos ali, Joseph também riu. Não foi bem um riso de verdade, foi mais como o esboço de um sorriso, mas vindo dele aquela era uma novidade e tanto. – Mas, então, o que vocês acharam? – Christopher perguntou para Aaron e Rebecca. – Eles são lindinhos, não é?
— Ah, Christopher...
A expressão no rosto dele tornou-se deprimida.
— Ah, não. Vocês não gostaram, não é?
— Gostamos. – Rebecca se apressou em dizer. – Gostamos muito. Eles são lindos e muito, muito fofos, mas é que eu não tenho onde criar um desses. A universidade não nos deixa ter animais no dormitório.
— O Aaron tem um apartamento. – Christopher se voltou para o irmão. – Tem espaço para eles lá. É só vocês os levarem para passear todos os dias. Oxford tem muitos parques.
— Mas Christopher...
— Aaron, por favor. – Os olhos de Christopher se tornaram quase suplicantes. – Olha só para eles. Parecem o Screapy.
Aaron parou e olhou para Cristal e Ruffus, enquanto esses faziam uma verdadeira algazarra nos pés da árvore de natal. Sempre sonhara em ter outro cachorro depois de Screapy, mas nunca teve coragem de adotar um, porque a lembrança da morte de seu cachorrinho ainda o machucava muito. Porém, olhando para aquelas duas criaturinhas na sala, ele não tinha como não aceitá-las. De fato, seu apartamento tinha espaço suficiente para criar dois cachorros de pequeno porte e ele já conseguia até se imaginar correndo com Ruffus pelos parques próximos da universidade. Quem conseguia resistir a filhotes? Quem conseguia resistir aos pedidos de Christopher?
Abaixou-se e pegou Ruffus no colo.
— Se você fizer xixi no meu sofá não vamos poder ser amigos. – Alertou. Ruffus latiu e tentou lambê-lo no rosto. – Acho que ele me entendeu. – Aaron riu e Rebecca logo correu para agarrar o corpo gorducho de Cristal.
— Tem certeza que pode ficar com os dois em casa, pelo menos até eu terminar a universidade? Posso pedir a Margareth para cuidar dela, mas detestaria ter de separá-los.
— Sem problemas. – Aaron acariciou a cabeça de Cristal. – Quero ver você encontrar uma desculpa para não me visitar agora, Bee. A Cristal acaba de me fazer um grande favor. – Ele comentou e Rebecca gargalhou, fazendo carinho em Cristal e murmurando o quanto ela era linda.
Os filhotes logo se tornaram a atração da noite, latindo e correndo pela sala, tropeçando um no outro e nos pés de todos ali. Rebecca quis agradecer a Joseph por ele ter ajudado Christopher com os cachorros, mas quando se virou, ele já tinha sumido da sala. Típico. Joseph sempre desaparecia sem deixar rastros.
Eles continuaram na sala, conversando e se divertindo com as peripécias de Cristal e Ruffus até as altas horas da noite, então, cada um se retirou para seu quarto e Christopher levou os cachorros consigo, alegando que ficaria com eles por mais uma noite antes de entregá-los permanentemente para Aaron e Rebecca.
Aquela tinha sido uma noite incrível e quando Rebecca trocou de roupa e colocou seu pijama, até mesmo as ameaças que Joseph tinha lhe feito mais cedo haviam sido retiradas de sua cabeça. Aliás, por mais que Joseph a tivesse assustado e estivesse sempre pregando que era um cara mau, Rebecca ainda não tinha deixado de acreditar que havia uma pequena parte dele que valia a pena. A forma como ele tratava Christopher, mesmo que se mostrasse indiferente e frio na maioria das vezes, era algo que a fazia pensar. Ele havia até mesmo se preocupado em fazer um cartão de natal para Christopher e para Briana. Isso devia significar alguma coisa, não é?
Mesmo assim, após se trocar, Rebecca se dirigiu até o quarto de Aaron logo ao lado. Bateu uma vez na porta, só para se certificar de que ele estava realmente lá e, então, entrou, encontrando-o sentado na cama, ainda olhando para o relógio do pai com um fervor que ele raramente demonstrava.
— Oi. – Ela o cumprimentou, indo se sentar ao lado dele. Aaron sorriu para ela, mas não disse nada. – Esse é um relógio muito bonito.
Ele assentiu.
— Em todas as lembranças que tenho do meu pai ele está usando esse relógio. Foi a minha mãe quem deu para ele, no primeiro aniversário de casamento deles. Meu pai não o tirava para nada.
— Ele a amava muito, não é?
— Mais que a própria vida. – Aaron respondeu e, por um instante, uma sombra de tristeza passou por seu rosto, mas logo se desfez e ele fechou a caixa do relógio e a depositou na mesinha de cabeceira. – E quanto a você? Gostou dos presentes?
— Muito! Sua mãe tem um ótimo gosto e a Cristal... Meu Deus, ela é tão linda, Aaron. Dá vontade de colocá-la nos braços e não soltar mais.
Aaron sorriu.
— Eu faria o mesmo com o Ruffus, mas ele provavelmente faria xixi em mim.
— É. Provavelmente.
— Desculpe ter esquecido o seu presente em casa.
— Não se preocupe, você pode me entregar quando voltarmos.
— Obrigado por ter me trazido aqui hoje.
Rebecca acariciou o rosto dele.
— Eu não trouxe. Você decidiu vir por livre e espontânea vontade e estou muito orgulhosa de você por isso.
— Eu te amo. – Ele sussurrou para ela e Rebecca sentiu o coração dar pulinhos em seu peito. Isso sempre acontecia quando Aaron dizia que a amava.
— Também amo você. – Ela se inclinou para perto dele e depositou um selinho em seus lábios, que logo se tornou um beijo cálido quando Aaron segurou sua nuca e a trouxe para mais perto.
Instintivamente, Rebecca se sentou em seu colo, com seus corpos separados por nada mais que a roupa íntima dela e o calça de moletom que Aaron usava e não demorou muito para que as mãos dele se esgueirassem por baixo de seu baby doll e fossem se acomodar sobre os seios dela, fazendo-a rir da situação.
— Pelo menos tranque a porta. – Ela pediu. – Eu detestaria que sua mãe viesse lhe dar um beijo de boa noite e nos encontrasse assim.
Aaron também riu, mas retirou Rebecca de seu colo e se levantou para trancar a porta do quarto.
— O que acha de passar a noite comigo? – Perguntou.
— Você vai se comportar?
O sorriso no rosto dele se alargou.
— Mas é claro que não. – Negou firmemente e voltou para a cama, acomodando-se sobre o corpo de Rebecca e voltando-o a beijá-la com intensidade.
As mãos de Aaron passearam por todo o corpo dela, por vezes aventurando-se por baixo de sua calcinha e Rebecca fez o que pode para reprimir os gemidos que vez ou outra escapavam por seus lábios. E quando a Aaron a despiu e retirou seu próprio moletom, Rebecca nem parou muito para pensar no que Briana poderia dizer sobre ela passar aquela noite no quarto de Aaron, pois não importava. Nada importava quando Aaron e ela estavam juntos assim.
Ela suspirou com cada beijo que ele depositou em seu corpo e com cada “eu te amo” que ele sussurrou em seu ouvido e, quando seus corpos se uniram, Rebecca teve certeza de que não havia outro lugar no mundo onde ela gostaria de estar mais do que naquela cama, nos braços de Aaron.
Eles fizeram amor até estarem cansados demais para sequer raciocinar direito e quando Aaron a encaixou em seus braços, Rebecca adormeceu quase instantaneamente. Para Aaron, aquela tinha sido a melhor noite de natal de sua vida e ele devia tudo aquilo a Rebecca e a toda a sua grande insistência e amor.
Beijou-a ternamente no rosto e já estava quase adormecido quando alguém bateu na porta de seu quarto e, depois de ponderar bastante os prós e os contras de se levantar, apanhou sua calça do chão, vestiu-a e foi atender a porta.
Quase deixou escapar um xingamento quando viu que era Joseph quem estava lá, mas decidiu relevar, afinal, tinha prometido a Rebecca que tentaria fazer daquela visita o melhor possível e, infelizmente, isso envolvia não ser um ogro com Joseph desde que ele também não o fosse.
— Precisa de alguma coisa? – Perguntou cruzando os braços sobre o peito nu.
Joseph avaliou sua roupa, seus lábios avermelhados e o estado de completo caos em que se encontrava seu cabelo e ele nem precisou dizer nada para que Aaron percebesse que Joseph sabia exatamente o que ele andara fazendo minutos antes.
— Não. Eu não quis atrapalhar, só queria te entregar uma coisa. – Ele estendeu uma pasta preta de escritório para Aaron e esperou que ele a pegasse, mas Aaron não moveu um músculo.
— O que é isso?
Joseph revirou os olhos.
— Uma bola de basquete, A.J. Droga, o que parece que isso é?
— Sei que é uma pasta, Joseph, quero saber é o que há dentro dela.
— Você terá que ver por si mesmo.
Aaron olhou para a pasta, avaliando.
— Não, obrigado.
— É sério? – Joseph o encarou, impaciente. – O que acha que tem aqui dentro? Uma bomba?
— Talvez. Vindo de você...
— São apenas documentos. Documentos que talvez sejam importantes para você, mas já que você não os quer... – Joseph lhe deu as costas, mas antes que se afastasse muito, Aaron o chamou de volta.
— Me mostre o que tem na pasta.
— Abra e veja você mesmo.
— Olha, se isso for alguma armação...
— Eu estou te entregando a pasta, A.J. Se você vai abri-la ou não, o problema é todo seu. – Joseph jogou a pasta para ele e se retirou da porta de Aaron, voltando para seu quarto no final do corredor.
Aaron ainda permaneceu encarando a pasta por alguns segundos, ponderando se deveria jogá-la no corredor e esquecer o assunto, mas, por fim, a curiosidade o venceu e ele voltou para dentro do quarto com a pasta nas mãos.
— Quem era? – Rebecca perguntou, meio dormindo, meio acordada.
— Só o Joseph. – Aaron depositou um beijo na testa dela. – Ele veio me entregar uma coisa, mas já foi. Volte a dormir. – Mas antes mesmo que ele tivesse terminado a frase, Rebecca já estava em sono profundo novamente.
Sorrindo por causa daquilo, Aaron se dirigiu com a pasta até o banheiro do quarto e fechou a porta. Esperava por Deus que aquela não fosse mais uma armação de Joseph, porque se fosse, ele não poderia se impedir de dar um soco na cara dele na manhã seguinte.
Afastou alguns produtos de higiene pessoal do balcão e colocou a pasta sobre ele, abrindo-a com cautela.
De fato, a pasta estava repleta de papéis e Aaron não viu qualquer vestígio de que houvesse algo a mais ali, por isso, pegou algumas folhas e passou os olhos por elas rapidamente.
De inicio, não viu nada além de números sem sentido e informações bancárias, mas conforme foi prestando mais atenção a tudo que lia, percebeu o que, de fato, tinha em mãos.
Aqueles documentos continham todas as informações sobre a empresa de seu pai e, mais que isso, eram uma prova de que seu pai era inocente e de que havia sido Erick quem fraudara o balanço patrimonial da empresa e armara para colocar seu pai na cadeia.
Aaron nem pode acreditar que realmente estivesse com tudo aquilo nas mãos e chegou a se perguntar se aqueles documentos eram realmente autênticos, mas era verdade. Estava tudo ali. Tudo que ele precisava para provar a inocência do pai, colocar Erick atrás das grades e retomar o controle da empresa que, por direito, deveria ser sua.
Aaron não fazia ideia do porque, mas Joseph havia acabado de lhe entregar todas as provas que ele precisava para destruir a vida e a carreira de Erick de uma vez por todas.
Fale com o autor