Wake Me Up
49 Então é Natal - Parte I
Notas iniciais
Ty tentou se concentrar apenas no rosto de Mikhail. Ele estava sentado entre os gêmeos, no grande sofá da sala de estar de seus pais, conversando casualmente sobre alguma bobagem referente ao basquete e parecia muito à vontade ali. Mais à vontade do que o próprio Ty se sentia naquele momento.
Parecia estranho estar naquela casa, reunido com sua família para celebrar o natal quando, apenas um mês antes, lembrava-se muito bem de quase ter voado no pescoço do pai, proferindo para ele todo tipo de ofensa em que conseguia pensar e recebendo palavras igualmente pesadas em troca. Era quase como se alguma coisa não se encaixasse mais agora. Quase como se ele não pertencesse mais à vida naquele lugar.
— Acho melhor você tomar partido. – Chad, seu irmão mais velho, se postou às suas costas e Ty se virou para ele de supetão, sendo pego de surpresa.
— Tomar partido em que?
Chad acenou levemente com a cabeça na direção do sofá onde os rapazes estavam sentados.
— Jared e Josh parecem ter encontrado o parceiro de crime perfeito. – Ele comentou. – Se você não se cuidar, pode ser que tenha que aturá-los monopolizando a atenção do seu amigo pelo resto do feriado.
Amigo, Ty repetiu mentalmente.
Muito embora todos ali soubessem que Mikahil era muito mais que um amigo para ele, parecia que as palavras “companheiro” ou “namorado” queimariam suas línguas se eles as pronunciassem. Desde que haviam pousado no Aeroporto JFK naquela manhã, Ty vinha se deparando constantemente com as pessoas referindo-se a Mikhail daquela maneira. Até mesmo sua cunhada, Lisa, a pessoa que ele considerava ser a mais compreensiva de sua família – depois de Rebecca, é claro – o havia encurralado no corredor uma vez e dito: “Seu amigo é adorável. E possui um sotaque muito charmoso também.”. Ela sorrira para ele e lhe dera um leve empurrãozinho com o quadril, como se tivesse acabado de lhe confidenciar um grande segredo e Ty sorriu para ela, solícito, mas por dentro se sentiu decepcionado.
— Dê um tempo a eles. – Mikhail o aconselhara enquanto o ajudava a desfazer suas malas. – Eles vão se acostumar aos poucos.
Mas Ty não tinha certeza quanto a isso.
Por mais que seus pais ainda torcessem o nariz para o fato de que Rebecca estava em um relacionamento sério agora, nenhum dos dois parecia ter qualquer dificuldade de se referir a Aaron como o namorado da filha caçula. Com Mikhail, no entanto, usar esse termo parecia impossível.
— Daqui a pouco eles se cansam. – Ty respondeu para o irmão, voltando a si. – Deus sabe que nem mesmo os gêmeos são capazes de passar o feriado inteiro falando sobre basquete.
Chad lhe deu um tapinha no ombro esquerdo.
— Ainda assim, eu iria salvá-lo se fosse você. – Comentou e, então, foi se juntar a sua esposa do outro lado da sala de estar, onde ela brincava com o filho, fazendo-o rir até quase se engasgar. Seu sobrinho, Louis, era mesmo uma criaturinha adorável.
***
— Então, Mi... Mik...
— Mikhail. – Ty completou para o pai que, até então, não havia pronunciado o nome de Mikhail corretamente nem uma vez sequer. Ele já o havia chamado de Michael, Mikael e, até mesmo, de Mitchel e, embora Ty sempre se irritasse com seus erros constantes, Mikhail apenas sorria e o respondia educadamente.
— Mikhail. – Benjamin repetiu, pousando os talheres sobre o prato para que os empregados os retirassem e olhando brevemente para Ty, antes de se concentrar no outro rapaz. – O que é mesmo que você cursa em Oxford?
Mikhail terminou de engolir o pedaço de peru que estava mastigando e também pousou seus talheres no prato, sorrindo brevemente para a empregada que se aproximou para retirá-lo da mesa.
— Curso Engenharia Industrial Mecânica, senhor.
As sobrancelhas de Benjamin se ergueram.
— É um ótimo curso. Bem conceituado e com uma ótima área de atuação.
— É sim, senhor.
— O Tyler também era da área de exatas. Engenharia, como você. – Benjamin comentou. – Surpreendeu a todos nós quando decidiu desistir do curso e trocá-lo por... O que é mesmo que você cursa agora? – ele fitou o filho com um olhar inquisitivo e Ty cerrou os punhos sob a mesa, já arrependido de ter aceitado passar o natal em casa.
— Eu curso gastronomia, pai. O senhor sabe disso.
— Claro. Gastronomia. – Benjamin sorriu e, então, se voltou para a esposa e segurou uma das mãos dela sobre a mesa. – Querida, porque não deixamos que o Tyler preparasse a ceia desta noite? Já faz alguns anos que não o vemos cozinhando sequer um ovo. Seria uma ótima ideia descobrirmos se o nosso dinheiro está sendo realmente bem investido em Oxford.
Samantha olhou para o filho, constrangida.
— Quem sabe em outro momento, querido. O feriado é longo. Tenho certeza de que não faltarão oportunidades para que o Tyler nos impressione com seus dotes culinários.
Benjamin riu.
— Dotes culinários. – Repetiu divertido. – Há alguns anos, esse era o tipo de coisa que eu esperava ouvir sobre a Rebecca.
Aquilo foi o suficiente para Ty. Já sabia que o pai não aprovava sua mudança de curso, mas vê-lo desdenhando de sua escolha e usando-a para, indiretamente, julgá-lo por sua opção sexual era demais. Quando recebeu o convite do pai para passar o natal com a família e prometeu a Rebecca que daria a ele uma chance de se redimir, ele estava preparado para a possibilidade de receber algumas alfinetadas durante o feriado, mas não esperava se tornar a chacota da família em plena ceia de natal.
E o que mais o magoava em tudo aquilo era o silêncio de sua família. Ninguém repreendia o pai por sua língua afiada e maldosa. Todos pareciam apenas esperar que, se ficassem calados e com cara de paisagem por tempo suficiente, a situação se tornaria menos incômoda. Mas não se tornava. Pelo menos não para ele.
— Com licença, acho que vou voltar para o meu quarto. – Ty comunicou ao se levantar e arrastar sua cadeira para trás.
— Mas, querido – sua mãe tentou impedi-lo –, nós ainda nem servimos a sobremesa.
Ty correu os olhos pelos rostos de toda a sua família e parou, encarando o pai por um segundo.
— Tudo bem, mãe. Eu perdi a fome. – Então, ele se retirou da sala de jantar e o silêncio absoluto continuou reinando ali até ele estar longe demais para saber se as conversas haviam recomeçado ou não.
***
Mikhail ficou em dúvida se permanecia na mesa ou se retirava para ir atrás de Ty. Era óbvio que ele se entristecera com os comentários maldosos de seu pai, mas o jovem não tinha certeza se abandonar o jantar e ir até o quarto dele, para consolá-lo, poderia ou não piorar a situação que já estava tensa.
— Isso foi o maior vacilo, pai. – Um dos gêmeos comentou, quebrando o silêncio insuportável que se instalara na sala de jantar. Mikhail ainda não tinha aprendido a distingui-los corretamente, mas a mãe de Ty nunca confundia seus nomes.
— Que linguajar é esse, Josh? – Samantha repreendeu o filho, entortando os lábios levemente para ele. Ela se parecia um pouco com Rebecca, Mikhail notou. Era alta, magra e possuía o mesmo tom de castanho nos cabelos, mas ele também reparou que a garota havia herdado a cor dos olhos do pai e também o formato do nariz.
— O Josh está certo. – Chad, o mais velho, se pronunciou. – Foi mesmo um grande vacilo. – Seus olhos relancearam para Mikhail, mas ele não soube o que dizer.
Se achava que o pai de Ty estava sendo um completo estúpido com o filho? Sem dúvidas. Mas se seria educado dizer ao dono da casa que ele estava mesmo sendo um estúpido? Disso Mikhail já não tinha tanta certeza.
— A mamãe nos contou toda a merda que aconteceu entre vocês na universidade. – Jared disse parecendo verdadeiramente chateado. – Foi feio até mesmo de se ouvir e eu nem quero imaginar como deve ter sido assistir àquilo. Achei que o senhor o tinha convidado para tentar fazer as pazes e, não, para humilhá-lo na nossa frente e na frente do namorado dele.
Mikhail virou-se para Jared meio boquiaberto. Aquela era a primeira que alguém se referia a ele como sendo o namorado de Ty e, não, apenas seu amigo.
— Eu não estava humilhando o seu irmão. – Benjamin se defendeu.
— Não diretamente, não é mesmo, Sr. Andrews? – Dessa vez foi Lisa, a cunhada de Ty, quem decidiu se pronunciar a respeito. – Mas o senhor também não pode dizer que estava sendo amável com ele. O Tyler é um bom garoto e gastronomia também é um excelente curso. O senhor não devia tê-lo tratado da forma como tratou. Não é assim que um pai deveria agir.
— Sobremesa? – A chefe da cozinha apareceu na porta da sala de jantar, mas no mesmo instante as cadeiras começaram a ser arrastadas ao redor da mesa.
— Já comi o bastante. – Lisa se levantou e pegou o pequeno Louis de sua cadeirinha, lançando um olhar de total reprovação ao sogro. Chad partiu logo atrás dela.
— Acho que também perdi o apetite. – Jared deu um beijo de despedida na mãe e saiu apressado dali.
— Vacilo. – Josh repetiu antes de pegar uma uva da bandeja no centro da mesa e seguir atrás do irmão gêmeo. – Um grande vacilo mesmo, pai.
Com a mesa praticamente vazia, Mikhail ficou em dúvida entre se levantar e seguir os demais ou ficar e aguardar a sobremesa para não fazer uma desfeita à mãe de Rebecca, mas quando a própria Samantha Andrews se retirou da sala de jantar parecendo muitíssimo irritada com o marido, Mikhail também se colocou de pé.
— Por favor, sente-se, filho. – Benjamin pediu, indicando-lhe a cadeira novamente. – Temos torta de abóbora para a sobremesa. Não permita que esse velho tolo termine a ceia sozinho.
Ainda em dúvida, Mikhail demorou alguns segundos para voltar a se sentar, mas, por fim, decidiu que podia fazer aquela boa ação, afinal, era natal.
A chefe de cozinha pareceu compreender a deixa e se retirou da sala de jantar, voltando pouco tempo depois com dois pratos de torta de abóbora.
— Você deve me achar um velho estúpido. – Benjamin disse e tudo dentro de Mikhail gritou um enorme “SIM”, mas ele apenas balançou a cabeça, educado.
— Não, senhor.
— Eu fui criado de outra maneira. – O homem tentou se explicar ainda assim. – No meu tempo, ser... ser como vocês são – ele disse, sem conseguir pronunciar o termo correto – não era uma coisa natural e vista com bons olhos pelas pessoas, entende? As famílias se envergonhavam. Meu pai teria me deserdado se eu fosse como o Tyler.
Mikhail se ajeitou melhor na cadeira.
— O senhor quer dizer gentil, determinado, inteligente, íntegro e dono do coração mais bondoso que eu já vi na vida?
Benjamin pareceu um pouco surpreso.
— Ouvi palavras parecidas com essas, vindas da minha filha, há algumas semanas.
— Acho que o senhor devia tê-la escutado, então. – Mikhail disse com seriedade. – Olha, eu sei que o senhor não gosta de mim. Sei que acha que eu fiz alguma lavagem cerebral no Ty para que ele se apaixonasse por mim e essas foram exatamente as mesmas coisas que o meu pai pensou sobre o Ty quando eu contei a minha família que estava me relacionando com um garoto.
Benjamin ergueu os olhos para ele, mas não disse nada.
— Sua reação não é uma novidade para mim, na verdade, embora seja triste de admitir, é ela até esperada, porque a maioria das pessoas não consegue mesmo aceitar a nossa opção tão fácil. Sei que quando algumas pessoas olham para mim e para o Ty, tudo o que elas veem é o rótulo. Somos garotos gays de vinte e poucos anos e nada mais. Algumas pessoas chegam a ter pena de nós por acharem que nossa opção é o equivalente a uma condenação eterna ao inferno e, outras pessoas, só conseguem sentir raiva, mesmo sem nos conhecer. Mas quem nos conhece de verdade sabe que não somos apenas isso e eu acredito que ninguém conhece melhor o Ty que o senhor e sua esposa. Vocês são os pais dele, lhe deram a vida e todo o mais. Mesmo que o mundo nunca o aceite como ele é, se vocês o aceitarem, nada mais vai importar.
— E os seus pais te aceitam? – Benjamin perguntou, curioso. Eram palavras bonitas de se ouvir e de se dizer, mas o mundo não era exatamente o conto de fadas que se esperava que fosse.
— Por muito tempo eles não aceitaram. – Mikhail admitiu. – Chegaram a me expulsar de casa no início, o que não fez tanta diferença já que eu estava em Oxford, mas que me magoou bastante mesmo assim. Eu ainda tenho um irmão que não fala comigo e, sim, isso ainda me machuca quando penso a respeito, mas agora eu tenho os meus pais ao meu lado e, para mm, isso vale mais que a opinião de qualquer um. Até mesmo a sua. Mas a sua opinião importa para o Ty, tanto quanto a do meu pai importava para mim. Ele saiu de Oxford e veio até aqui esperando por uma reconciliação com a família e por uma boa noite de natal. O senhor não devia frustra-lo assim. A vida da gente é muito curta. Não deixe para perceber o que é realmente importante quando já o tiver perdido.
Mikhail se calou para saborear a torta de abóbora em seu prato, mas ficou confuso quando Benjamin se levantou de seu assento e se postou, de pé, ao lado dele, estendendo-lhe os braços.
O homem não disse nada, apenas aguardou ali e, sem saber bem o que fazer quanto aquilo, Mikhail também se levantou e ficou de frente para ele, encarando-o.
— Venha aqui, filho. – Benjamin o puxou para um abraço e Mikhail teve certeza de que seu queixo havia ido parar em algum lugar lá no chão.
Ele havia imaginado muitos cenários para a aquela visita à família de Ty, alguns felizes, outros desastrosos, mas nenhum deles envolvia um abraço entre ele e seu... sogro.
— Meu filho tem sorte de ter você. – Benjamin disse, deixando-o ainda mais perplexo com toda aquela situação. – Sei que enquanto ele tiver você, poderei ficar tranquilo sabendo que ele está feliz e protegido. Ninguém nunca o defendeu com tanta garra quanto você e a Rebecca. Sou grato por ele ter encontrado alguém que realmente o ame por quem ele é. Isso é tudo que um pai poderia pedir.
Antes que Mikhail pudesse pensar em algo para dizer, Benjamin o soltou e se dirigiu para fora da sala de jantar. Ele ainda estava muito confuso para formular uma frase completa, mas respondeu com gentileza quando o sogro parou e lhe desejou um feliz natal antes de sair dali.
***
Ty não queria conversar. Era errado, mas sentia que, mesmo se o próprio Mikhail aparecesse ali lhe oferecendo o seu abraço mais carinhoso, iria colocá-lo para fora de seu quarto e lhe pedir que o deixasse sozinho.
Aquele não era o natal que ele esperava. Imaginou mesmo que tudo poderia não sair bem como ele havia idealizado, com sua família reunida e em um total clima de festa e aceitação, mas não imaginava que tudo terminaria tão mal. Não imaginava que havia viajado tanto somente para ter seu pai quebrando seu coração em outra porção de pedaços.
— Posso entrar? – Benjamin bateu a porta e colocou a cabeça parcialmente para dentro do quarto de Ty, tentando divisar a silhueta do filho naquele cômodo escuro.
— Não. Não pode. – Ty sequer ergueu a cabeça para olhá-lo, mas Benjamin entrou no quarto assim mesmo e se sentou na beirada da cama onde o garoto estava encolhido, praticamente abraçado com o travesseiro. – Eu disse que o senhor não podia entrar.
— Eu ouvi, mas sou o dono da casa. Posso entrar onde eu quiser. – Benjamin tentou fazer uma brincadeira, mas Ty, irritado, se levantou e tentou passar por ele, para sair do quarto. Não sabia para onde iria – talvez para o quarto de Mikhail –, mas se o pai queria monopolizar cada centímetro daquela casa, então, ele que fizesse bom proveito do espaço. – Tyler, sei que está chateado comigo agora, mas precisamos conversar.
— Para quê? – Ty parou, encarando-o com raiva. Mesmo no escuro, dava para perceber que ele andara chorando por causa do tom de sua voz e, mentalmente, ele se amaldiçoou por isso. Não queria que o pai notasse o quanto seu julgamento o afetava. – Se for para que o senhor me diga que não sou o filho que esperava ter, não se incomode. Eu já sei que sou uma decepção para você.
Benjamin suspirou. Sentia-se um estúpido por deixar que o filho se sentisse assim em relação a ele e por nunca ter se esforçado sequer um pouco para demonstrar que ele estava errado.
— De fato você não é o filho que eu esperava ter, Tyler. Mas está muito longe de ser uma decepção para mim. – Ele comentou com sinceridade. – Acabei de sair de uma conversa muito esclarecedora com o seu namorado na sala de jantar e pude perceber que tenho agido como um tolo com você por todos esses anos.
Ty o encarou boquiaberto. Não estava certo de que o pai havia mesmo se referido a Mikhail como sendo seu namorado.
— Você quis dizer discussão. – Ty o corrigiu, mas Benjamin balançou a cabeça, negando.
— Não. Eu quis dizer conversa. Seu namorado, aliás, é muito bom com as palavras. Garoto inteligente aquele. – Benjamin elogiou e ty teve certeza de que devia ter adormecido e estava sonhando. Não era possível que o pai realmente estivesse dizendo aquelas palavras.
— Vocês conversaram? O que conversaram? – Ele perguntou sem entender.
— Conversamos sobre você. Sobre mim. Sobre ele. Eu não sabia que a família o havia expulsado de casa. Também não sabia que ele tem um irmão que já não fala com ele. Deve ser triste, para os pais dele, terem filhos separados assim.
— O Mikhail te contou sobre a família dele? – Ty sentia-se como se tivesse saído da sala de jantar e entrado em outra dimensão. Só isso explicaria Mikhail e seu pai tendo uma conversa amistosa sobre família e relacionamentos.
— Ele me contou algumas coisas parcialmente. – Benjamin esclareceu. – Acho que pretendia que eu compreendesse como é, do seu ponto de vista, ter um pai que não lhe dá apoio e que o julga tão mal quanto eu vinha julgando vocês dois. Eu sinto muito pelo que fiz esta noite, Tyler. E pelo que fiz a vocês na universidade também. Seu pai é um velho tolo, cheio de preconceitos e falhas, mas eu estou disposto a ser um pai melhor agora. – Ele segurou os ombros de Ty e tentou olhá-lo nos olhos, mesmo na penumbra do quarto. – Não posso garantir que vou acertar todas as vezes e que nunca vou cometer um deslize, mas posso garantir que vou me esforçar para ser um pai de quem você se orgulhe tanto quanto eu me orgulho de você.
— Você se orgulha de mim? – Ty praticamente sussurrou, de tão estarrecido que estava com aquela declaração.
— Como eu poderia não me orgulhar? Você e seus irmãos são os melhores filhos que alguém poderia ter. Nem em nossos maiores sonhos sua mãe e eu poderíamos ter imaginado crianças mais perfeitas.
— Não somos mais crianças, pai.
— São sim. Para nós, vocês serão sempre aqueles menininhos que corriam por essa casa deixando a Margareth louca da vida com tamanha bagunça. Exceto a sua irmã. – Benjamin revirou os olhos. – Ela certamente ainda deixa a pobre Margareth louca.
Ty não pode evitar rir. Não sabia bem o que Mikhail havia conversado com o pai e que o fizera mudar tão drasticamente, não sabia nem mesmo se acreditava naquela mudança maluca e repentina, mas era natal. Tudo o que ele mais queria era que seus desejos se realizassem e que aquela fosse a primeira de muitas outras noites especiais que passaria com as pessoas que mais amava: sua família e Mikhail.
— Obrigado, pai. – Ty o abraçou e Benjamin retribuiu ao seu abraço com força.
— Obrigado a você, por não desistir do seu velho pai mesmo depois de tantos erros.
— A gente não desiste de quem a gente ama, não é?
Benjamin engoliu em seco. Aquele era seu melhor presente de natal: ouvir, depois de tantos anos e de tantas provas, seu filho dizer o quanto o amava.
— Eu também o amo, Tyler.
Uma fresta de luz invadiu o quarto e Ty cerrou os olhos ante a claridade repentina.
— Desculpe, eu não quis interromper. – Mikhail parou na porta, parecendo verdadeiramente constrangido por ter entrado ali no meio de um grande momento entre pai e filho. Ou, pelo menos, foi isso que lhe pareceu quando abriu a porta de supetão e os encontrou abraçados.
— Ah, Mikhail. – Benjamin sorriu para ele e nem Mikhail nem Ty puderam deixar de notar que ele acertara a pronuncia de seu nome pela primeira vez naquele dia. – Você nunca atrapalha, filho. Venha, eu estava aqui dizendo ao Tyler como você me ajudou a entender o quanto eu estava errado.
— Ajudei?
— Na verdade, ele está quase te colocando em um pedestal. – Ty comentou. – Não sei o que disse a ele, mas nem a Oprah faria melhor.
Benjamin gargalhou e de um tapinha nas costas do filho.
— Tyler sempre tem um comentário divertido para fazer. Bem, eu vou deixar vocês a sós. Tenho certeza que precisam conversar. – Ele olhou para o embrulho colorido que Mikhail segurava. – E, também, tenho outros três filhos, uma nora, uma esposa e, possivelmente, um neto a quem preciso pedir desculpas por meu comportamento essa noite. Não posso me demorar.
Ele deu mais um abraço em Ty, que sorriu de encontro ao seu corpo e, depois, deu um tapinha amigável no ombro de Mikhail, antes de sair do quarto.
— O que foi que você fez com ele? – Ty perguntou ainda meio abobalhado com tudo aquilo.
— Acho que é o espírito natalino. Ou toda aquela coisa dos Fantasmas de Scrooge¹. – Mikhail sorriu. – Acho que seu pai finalmente entendeu que algumas coisas são mais importantes que outras, mais preciosas.
— Tipo você?
— Não. – Mikhail jogou um braço ao redor dos ombros de Ty e o conduziu até a cama. – Tipo você. E sua família.
— E você. – Ele insistiu. – Importante e precioso para mim. Tipo uma Alexandrita.
— Tipo uma o que? – Mikhail franziu a testa para ele e Ty riu.
— Alexandrita. Uma pedra preciosa da família das esmeraldas. Ela é encontrada em algumas montanhas da Rússia, seu país – Ty o cutucou no peito como se ele tivesse que saber disso – e é uma das pedras mais caras do mundo.
— Como você sabe tantas curiosidades sobre a Rússia?
— Eu leio. – Ty respondeu orgulhoso. – Você não começou a gostar de mim só por causa do meu rostinho bonito, não é?
Mikhail não pode conter a risada que escapou de seus lábios. Apesar de não negar que a boa aparência de Ty era um atributo e tanto, todos os dias ele descobria um motivo novo pelo qual havia se apaixonado tão perdidamente.
— Isso é para você. – Ele estendeu o embrulho que segurava a Ty e esperou que ele o pegasse.
— Não devia deixar isso embaixo da árvore para abrirmos amanhã junto com os outros?
— Ah, eu deixei algo sob a árvore. – Mikhail deu de ombros. – Mas este eu quero que abra agora. Só você e eu.
Ty o olhou com ares de suspeita, mas Mikhail revirou os olhos e pediu que ele o abrisse logo.
Seja lá o que Ty esperava encontrar dentro daquele embrulho, certamente não era uma caixinha de veludo vermelha em forma de coração e, talvez por isso, o rapaz tenha passado tanto tempo encarando o objeto com olhos arregalados e sentindo o próprio coração saltar pela boca.
— O que é isso? – Ele perguntou, embora já soubesse. Em algum lugar no recanto mais escuro de sua mente ele ainda achava que seus olhos estavam lhe pregando uma peça.
— Porque você não abre e vê por si mesmo? – Mikhail sugeriu e Ty concordou, abrindo a caixinha lentamente, com mãos trêmulas e meio úmidas por causa do nervosismo.
Ver duas alianças prateadas ali dentro não foi o bastante para tirá-lo de seu estupor e ele se pegou respirando superficialmente enquanto encarava o presente.
— Nós prometemos um ao outro que, algum dia, quando a nossa relação não fosse mais um segredo, iríamos viver cada momento que os casais viviam e aos quais não tínhamos direito antes, você se lembra? – Ty apenas balançou a cabeça. – Quero começar com isso, Ty. E não vejo um momento melhor para colocar uma aliança no seu dedo que aqui e agora.
Ty permaneceu olhando a aliança por algum tempo. Milhares de coisas passavam por sua cabeça, como: o dia em que conheceu Mikhail na biblioteca enquanto procurava por um livro de física e o dia em que trocaram seu primeiro beijo no dormitório dele ou o dia em que Mikhail o viu chorando pela primeira vez por causa do medo que sentia da rejeição dos pais ou, até mesmo, todas as vezes em que se encontraram no ginásio para jogarem partidas de basquete, de um contra um, que Ty sempre perdia. Cada um daqueles momentos era precioso e cada vez que ele olhava para Mikhail tinha certeza de que outro momento precioso estava prestes a ser criado.
Ele sequer pensou, antes de jogar os braços ao redor do pescoço de Mikhail e trazer a boca dele para junto da sua. Agora, já não importava se alguém os flagraria porque, pela primeira vez em muito tempo, eles não tinham que esconder o que sentiam de ninguém. Pela primeira vez em muito tempo, eles poderiam viver cada momento apropriadamente.
— Eu amo você. – Ele disse, sem medo.
— Também amo você.
E eles ficaram ali, abraçados. Intercalando declarações e beijos, sem nem retirar as alianças de sua caixa. Elas representavam um bom símbolo, tinham sua importância para eles e era uma grande significado, ninguém podia negar, mas nada importava mais que os momentos que dividiam e que o amor que apoiava sua relação antes mesmo deles poderem cogitar a possibilidade de usarem uma aliança.
— Feliz natal. – Mikhail sussurrou junto aos lábios de Ty e ele sussurrou um “feliz natal” em resposta, mas sentiu que aquilo era desnecessário.
Quando estava com Mikhail, todo dia era natal para ele.
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