Notas iniciais
Okay, aqui vai mais um capítulo. Espero, sinceramente, que ele compense minha ausência neste longo tempo. Boa leitura!

Acamparam no único local onda as copas das árvores abriam-se para o céu estrelado, revelando a lua minguante e várias constelações não vistas em nosso mundo. Vagalumes zanzavam em meio aos arbustos, espalhando focos de luz esverdeada. Apenas um dia os separava da fazenda de Margareth.

Éothain ocultava-se a um canto, onde os arbustos tornavam-se densos. Sua silhueta não seria notada por olhos desatentos. Ele se oferecera ao primeiro turno de vigília, dando aos outros um pouco de descanso. Àquela hora da noite os únicos a permanecer acordados eram Marianne e Legolas.

— Estava pensando sobre a história das Silmarills, enquanto andávamos – comentou o Sindar acariciando os cabelos da esposa, que se deitara em seu peito.

— Eu conhecia apenas o Akallabêth, a queda de Númenor. – admitiu a jovem fechando os olhos. – Gostaria de saber mais da história de seu povo.

— Sou da linhagem dos elfos que moravam em Ossiriand, por parte de mãe. Meu pai é descendente de Thingol, rei de Menegroth.

— Quer dizer que os Salões de Thranduil são as “Mil Cavernas” que Eru Thingol construiu em Doriath? – Mary apoiou-se nos cotovelos para mirar o rosto tranquilo do marido.

— São e me atreveria a dizer que Thranduil herdou a personalidade forte e impetuosa de seu parente distante. – o elfo revirou os olhos, pousando-os em sua esposa. – Conte-me o que sabe sobre a derrocada dos Dunedáin.

— Sei que o último rei, antes da reformulação de Arda, foi Ar-Phrâzon. Ele navegou na direção das Terras Imortais para desafiar os Valar, que em resposta tornaram Aman oculta dos mortais. – a bisneta de Tolkien mexia nas mangas de sua camisa, arrancando alguns fios soltos. – O que mais encanta-me é a coragem de Eärendil.

— A jornada de Elwing e Eärendil era minha história preferida, quando não passava de uma criança. – Legolas tornou a entrelaçar as mãos de Marianne nas suas. – Podemos conta-la à nossa filha, se ela assim desejar e puder compreender.

A guardiã sorriu, beijando os lábios do Sindar.

– Temos de pensar em um nome para nossa pequena.

— Tenho uma sugestão. – murmurou o elfo percorrendo as estrelas com os olhos. – Vai relaciona-la ao que me contou do Akallabêth.

— Diga – pediu Mary repousando as mãos, ainda entrelaçadas, sobre o ventre.

— Elenna. “Aquela vem vai em direção as estrelas”.

Marianne franziu a testa e fechou os olhos, como se ponderasse a sonoridade e força do nome. Legolas titubeou arrependido de sua sugestão e preparava-se para pedir desculpas quando Mary o abraçou.

— É perfeito! O nome dado aos que seguiram Eärendil na direção de Númenor. – ela sorriu. – Há quanto tempo tinha este nome em mente?

— A dois minutos atrás, no momento em que falou das Silmarills – o elfo riu.

— Ela se chamará Elenna e terá a beleza e o brilho da estrela de Eärendil – declarou a moça beijando, mais uma vez, os lábios do marido.

***

— Tem certeza de que não vai se machucar? – ironizava Thranduil, apoiado num grande tronco de faia.

— Radagast usava isso para meu treinamento, assim como Halbarad, durante o tempo que passei com os guardiões no norte – Kendhra terminou de atar a venda sobre os olhos e desembainhou sua espada.

— Não quero subestima-la, senhorita, mas acho melhor não fazermos isso – o Sindar caminhou na direção da Dunedáin, que trazia a espada ao lado do corpo.

A dama moveu-se com rapidez e graciosidade, retirando a lâmina da mão de Thranduil. Agarrou-o pelo pescoço, pressionando sua espada contra a pele exposta do elfo. O rei da Floresta das Trevas grunhiu. Nem sequer vira a filha de Radagast sair do lugar.

— Melhor para quem, majestade? – sussurrou Kendhra ao ouvido do pai de Legolas, afastando-se a uma distância segura.

— Não lembro de escutar a ordem de partida – resmungou ele, retomando a arma.

— Um guerreiro deve estar sempre alerta – a Dunedáin esboçou um sorriso irônico.

Thranduil investiu contra Kendhra, dominado pela raiva provocada pelo comentário. As espadas chocaram-se duas vezes antes de a dama, novamente, desarmar o elfo e passar-lhe uma rasteira. O filho de Oropher desabou de costas nas folhas secas, não sem antes enganchar suas pernas nas da Dunedáin e derruba-la sobre si.

A filha de Radagast tirou a venda e apoiou as mãos dos lados da cabeça do rei élfico, com os cabelos crespos caindo sobre o rosto do elfo. O sorriso de Thranduil transparecia juventude e malícia. Seus olhos azuis estreitaram-se antes que ele colasse os lábios de Kendhra nos seus.

— Temos um vencedor? – perguntou a dama acariciando a pele delicada do pai de Legolas.

— Vamos considerar um empate – respondeu escorando-se ao tronco de uma árvore.

A Dunedáin deitou a cabeça sobre o colo do elfo e este passou a acariciar os cabelos castanhos da jovem. Thranduil sentiu pensamentos distantes lhe cruzarem a mente. Pigarreou, tomando coragem para o que viria a seguir.

— Kendhra – a menção do nome fê-la virar-se para encara-lo. – ficaria incomodada, se eu... – ele engoliu em seco. – Trançasse seu cabelo?

Ela olhou-o curiosa. Era um hábito comum entre os elfos, aprender desde a infância, os mais variados penteados para conter as madeixas longas que possuíam. Contudo, nenhum homem havia lhe feito um pedido tão inusitado e com tamanho medo em receber a resposta.

— É claro – ela sorriu beijando suavemente os lábios de Thranduil e sentando-se de costas, para que ele pudesse fazer seu trabalho.

Os dedos longos pentearam com calma os cabelos castanhos desfazendo os nós. Logo após, ele separou uma mecha de cada lado – acima das têmporas – fazendo duas tranças pequenas que uniam-se para forma a trança principal. Thranduil usou uma mecha sobressalente para prender o penteado, amarrando-o delicadamente.

— Costumava prender os cabelos de Legolas, depois da morte de minha esposa – comentou o Sindar com a voz carregada de tristeza, era a primeira vez que falava para Kendhra sobre sua ex-mulher.

— Sinto pelo que ocorreu. – ela usou a lâmina de sua espada para ver o que o elfo havia feito, maravilhando-se com o resultado. – Devo dizer que tem mais jeito para isso do que eu.

Os dois riram e a Dunedáin tornou a apoiar as costas no peito do rei. Os braços de Thranduil envolveram a cintura da jovem, entrelaçando suas mãos às dela.

— Sei que é doloroso, mas gostaria de saber o que aconteceu com sua esposa – murmurou a filha de Radagast quebrando o silêncio.

— Wilwarin era uma guerreira excelente, a melhor arqueira que já pisou na Floresta das Trevas. Legolas não passava de uma criança quando patrulheiros Orcs surgiram nas fronteiras do reino. – a expressão no rosto do rei era sombria. – Eu a proibi, diversas vezes, de empreender excursões atrás dos servos de Sauron e a teimosia sempre a impedia de cumprir minhas ordens. Discutimos na noite em que ela faleceu. A preocupação transformou-se em raiva dentro de meu peito e... – ele hesitou, visivelmente incomodado. – Acabei agredindo-a.

Kendhra girou o tronco, encarando Thranduil de maneira compreensiva.

— Legolas viu tudo. – pôde notar o momento em que as lágrimas formaram-se nos olhos azuis do elfo. – Sei que, indiretamente, ele me culpa e entendo perfeitamente o sentimento. Depois de minha reação Wilwarin saiu desabalada pelos portões, levando um grupo pequeno de guerreiras consigo. A mãe de Tauriel; Menrair, estava entre elas. Às vezes, quando fecho os olhos, ainda consigo ver o corpo de minha esposa ser carregado até a sala do trono, crivado de flechas.

Ele cobriu o rosto com as mãos, sendo sacudido por soluços. A Dunedáin abraçou-o protetoramente. A frieza e arrogância haviam desaparecido do corpo de Thranduil, deixando aflorar o lado mais emotivo e sensível de alguém que já passara por eras de sofrimento em sua longa jornada.

— Por favor, não se culpe. – a jovem beijava-lhe os olhos, umedecendo seus lábios com a torrente de lágrimas do elfo. – Você foi um ótimo pai para Legolas e, tenho de confessar, que é uma das pessoas mais especiais de minha vida. Eu o amo mais do que tudo e não suporto vê-lo sofrer.

Os olhos azuis abriram-se num rompante, arregalados e surpreendentemente felizes.

— O que disse? – perguntou contendo um sorriso.

— Disse que amo você. Estou completamente apaixonada, majestade. – Kendhra baixou os olhos para as folhas secas que formavam um tapete no chão da clareira.

— Apaixonei-me desde o momento em que nos conhecemos. – respondeu o pai de Legolas, forçando a moça a olha-lo. – E fico mais encantado a cada dia.

Os lábios chocaram-se com ternura, agindo como instrumentos de calma e felicidade. A Dunedáin conteve a pontada de agitação em seu peito. Thranduil lhe contara o que deseja saber e ela lutava com si mesma, à procura do modo correto de contar ao elfo seu segredo mais íntimo. Tinha medo que ele a largasse, humilhasse, ou que a trocasse por outra – mas afastou estas hipóteses para cantos longínquos de sua mente. Ele não seria capaz de tamanha atrocidade, não após a declaração que lhe fizera. A filha de Radagast entregou-se as carícias do Sindar, sentindo-o beijar-lhe o pescoço e baixar a gola de sua camisa para beijar-lhe os ombros.

Não, ela não contaria. Manteria sua falha escondida à sete chaves, pelo menos por enquanto.

***

Asfaloth resfolegou, os cascos produzindo um baque surdo ao cruzarem a ponte de madeira de Green Valley. Arwen acariciava o pescoço do animal, distraída em seus pensamentos, lembrando-se da primeira vez que levara Eldarion para uma cavalgada. O modo como ele sorrira, abrindo os bracinhos e sentindo o vento lhe tocar o rosto. O buraco em seu peito alargou, ameaçando engoli-la em pesar.

Margareth e Lindir conversavam na varanda de mãos entrelaçadas, ainda bastante emocionados devido a aparição de Katherina. Trocavam olhares tímidos, qual adolescentes enamorados no primeiro encontro. Tão enervados em seu momento íntimo, nem ao menos divisaram a figura esbelta marchando na neve, em sua direção.

— Senhora Tolkien – disse a filha de Elrond com uma reverência, notando o braço direito de seu pai parado ao lado da avó de Marianne. – Lindir?

— Minha senhora – ele devolveu a vênia, sentindo as bochechas esquentarem. – o que fazes aqui? Não deveria estar em Gondor?

— A cidadela branca foi deixada aos cuidados de meus irmãos e creio que estes farão um ótimo trabalho como regentes temporários.

— E o que a traz aqui, minha jovem? – perguntou Meg ajeitando os óculos de grau.

— Não conseguiria permanecer atrás das muralhas de Gondor esperando o retorno de meu filho e de meu marido. – esclareceu a elfa batendo os flocos alvos de suas vestes. – Fui treinada para lutar até meu último suspiro. Estou aqui para ajuda-los e reaver o que me foi tirado de maneira tão bárbara e cruel.

— Seja, então, bem-vinda a esta casa! – a filha de Tolkien desceu os degraus da varanda, segurando Arwen pelos ombros. – Torço, com todas as forças que ainda me restam, para que o pequeno Eldarion esteja bem.

— Faço minhas as suas palavras, senhora – Undómiel abraçou-se para abraçar a mulher grisalha, que lhe afagou as costas, carinhosamente.

— Acho melhor entrarmos, o frio se torna mais intenso a cada segundo – Lindir estendeu a mão para Margareth, que aceitou-a, abrindo a porta da frente da fazenda que fora de seus pais.

— Alícia! Venha até aqui, querida! – gritou Meg. – Vou preparar chá, acredito que os outros não tardem a chegar.

— Fiquei surpresa ao encontrar-lhe aqui, Lindir – murmurou a esposa de Aragorn, depois de ver a bondosa senhora desaparecer dentro da cozinha.

— Fiquei surpreso ao perceber que vim até aqui – admitiu o elfo.

— As peças pregadas pelo destino nunca cessarão, meu amigo.

Arwen olhou para as janelas, vendo pequenas figuras aproximarem-se da fazenda. Estava certa sobre as teias do destino. Ele ainda seria o grande responsável pelos desafios do futuro, os quais ela e seus companheiros teriam de enfrentar. A morte os espreitava, mas a elfa sabia – e esta certeza gritava dentro de seu peito – que a vida tinha a capacidade de superar qualquer adversidade.

***

— N-n-n-nem acre-cre-dito q-q-que estamos che-che...

— Chegando, Merry. Estamos chegando – completou Aragorn despenteando os cabelos claros do hobbit, com um sorriso largo no rosto.

— Ora, mestre Brandebuque! Mal posso acreditar que esteja sentindo frio! – Gimli soltou baforadas de seu cachimbo – Na realidade, o clima está bastante agradável, não acham?

— Deve estar dizendo isso porque tem uma camada extra de gordura, para lhe proteger – Pippin estava às gargalhadas, antes que o anão pudesse reagir.

— Isso foi mesmo um insulto?! – gritou o filho de Glóin, erguendo o machado acima da cabeça e girando-o descontroladamente.

— Abaixe este machado, Gimli! – Legolas pousou a mão no ombro do amigo, acalmando-o. – Ou vai acabar por acertar alguém.

— Longe de mim querer pôr mais lenha na fogueira, mas acho que tenho de concordar com Pippin. – mal se podia enxergar o rosto de Sam debaixo do enorme manto que lhe cobria. – Embora não sinta frio.

— Isso porque está perto de Marianne. – Gandalf lutava para manter a estabilidade com a neve subindo-lhe acima dos joelhos. – Experimente afastar-se um metro e entenderá ao que Meriadoc se refere.

— Queria conseguir irradiar um diâmetro maior de calor – Mary enganchou o braço ao de seu marido. – Mas acho que vamos ficar encharcados, se o fizer.

— Já estamos chegando – Frodo apontou para a gigantesca casa, mais próxima a cada passo.

— Meus olhos enganam-me, ou estou vendo a rainha de Gondor parada à soleira da porta? – Éothain protegera o rosto da luz pálida do sol, estreitando os olhos.

— Arwen? – Aragorn correu, aos tropeços, indo encontrar-se com a esposa. – O que está fazendo aqui?

— Ara nin (Meu rei). – ela lhe beijou os lábios, saudosa. – Tive de vir, do contrário, minguaria até a morte dentro da Cidade Branca. Quero nosso filho de volta em meus braços, Eleassar.

— Eu sei, é o mesmo desejo que move meu coração. – o Dunedáin dedilhou o rosto da filha de Elrond, embebendo-se em sua beleza. – Vamos encontra-lo, nem que precise procurar debaixo de cada pedra, neste e no nosso mundo.

O casal selou a promessa com um beijo fervoroso. A companhia havia regressado de sua jornada e descobrira o que deveria ser feito para manter a segurança daqueles que amavam. Marianne trocou um olhar cúmplice com Legolas, que lhe passou a mão pelo ventre, com a pontada de esperança brotando dentro de si, como a muda de uma árvore frutífera.

***

— Quer dizer que vamos realizar o ritual pela manhã? – Margareth cortou um pedaço de bolo para cada um dos presentes.

— Exatamente – aquiesceu Gandalf girando a xícara de chá nas mãos.

— Há um modo de sabermos quantos voltarão? – perguntou Robert, esperando notícias de sua esposa.

— Tomamos as aparições como parâmetro. – Mary deixou a cabeça pender na direção do ombro de Legolas. – Mas não temos certeza de nada.

— O jeito vai ser esperara até amanhã – Pippin bateu os farelos das roupas, recebendo um olhar de repreensão de Alícia.

— Precisaremos de você, Margareth, de Alícia e Marianne – começou Radagast contando nos dedos – Alatar e Pallando estão a caminho. Gimli e Aragorn fornecerão o sangue de duas linhagens e Glóin está de posse dos fragmentos da Pedra Arken.

— Esqueceste da linhagem dos altos-elfos. – Arwen deu um passo a frente, determinada. – A minha linhagem.

— Raios de cogumelos, sempre me fazem perder os detalhes importantes! – grunhiu o mago castanho batendo na testa. Os pássaros se agitaram no interior de seu chapéu. – Então, como dizia, todos os elementos estão aqui.

— Sem querer interromper, mas – Samwise esfregava as pequeninas mãos nervosamente. – o que vamos fazer depois da volta dos mortos?

— Escutar o que eles têm a nos dizer – respondeu Legolas. – e seguir as instruções dadas a estes por Erú.

— Sinto o odor familiar de guerra pairando sobre nossos ombros – Gimli crispou os ombros.

— Ninguém obteve pistas dos próximos movimentos do inimigo. Nada poderemos afirmar até que os outros venham. – Aragorn abraçou a esposa pela cintura, apoiando a cabeça em seu ombro. – Não esqueçamos que ele tem Eldarion, Turelië e Almarvarnë em suas garras.

— Serão todos resgatados. – Kendhra esgueirou-se pela porta, seguida por Thranduil. – Mandei mensagens a Lórien e aos elfos das colinas. Quanto maior o número de aliados, melhores chances teremos.

— Meus guerreiros estarão a postos. Nada se moverá nas sombras da Floresta das Trevas sem que saibamos – garantiu o pai de Legolas.

— Não perderemos a esperança – concordou Margareth sorrindo para Lindir.

Nenhum deles podia imaginar o tamanho impacto do ritual a ser feito. Nenhum deles podia prever que o retorno daqueles que não cumpriram suas missões abalaria, não apenas, as defesas de Alagos, mas as vidas dos que lutavam pela Terra Média. Thranduil não cogitara ver Wilwarin mais um vez, tampouco queria que ela atrapalhasse sua relação com Kendhra. Mas isso... Bem... Isso ainda está por vir.

***

A noite fora conturbada. Os presentes acomodaram-se na sala e nos quartos restantes de Green Valley. Gimli e Glóin juntaram-se aos cavalos, nos estábulos, assim como Éothain. Alícia espremia-se entre Legolas e Marianne. Era surpreendente que os três coubessem na cama diminuta, mas a pequena Ali recusava-se a sair do lado da irmã. O filho de Thranduil as observava ressonarem tranquilamente, embaladas por sonhos calmos e belos. As duas tinham as mãos entrelaçadas, unidas por um vínculo mais forte do que o sangue, o vínculo que lhes concedia poder, o vínculo da maldição.

O Sindar não pôde deixar de pensar em sua filha. Elenna não viera ao mundo, mas participava ativamente da disputa de forças que poderia levar o mundo à trevas permanentes. Tocando a fronte da esposa e depositando um beijo carinhoso na bochecha da cunhada, o elfo desceu as escadas, ansiando por ar fresco. Encontro Kendha deitada sobre o peito de Thranduil; ambos adormecidos com sorrisos tocando-lhe os lábios. Sua vida fora marcada por discussões, brigas e ameaças, mas sentia-se feliz pela mudança no temperamento do pai. Ele parecia pleno em seu contentamento, como não estivera em todos os anos de casamento com Wilwarin.

— Perdeu o sono? – Meg ergueu os olhos para Legolas, com um meio sorriso a lhe puxar os cantos da boca.

— A ansiedade me corrói as veias, senhora Tolkien. Não consigo pensar em mais nada que não seja a segurança de minha família.

— Sei como é. – ela escondeu o rosto sob um cobertor grosso, balançando para trás na cadeira de balanço. – Espero que as coisas fiquem claras, depois de amanhã.

— Queria poder dizer o mesmo, mas em todos os anos de minha existência, não houve um único momento em que tudo tornou-se límpido, como as águas de um rio. – o elfo sentou nos degraus da escada, apoiando o rosto nos joelhos. – Ondulações, sempre presentes, tornam a visibilidade difícil; até para os olhos de um elfo. E quando os resíduos do leito do rio tornam a água turva não há o que possamos fazer, a não ser esperar. Aguardar que tudo torne ao normal.

— Tem receio da volta de nossos companheiros. – concluiu Margareth. – Teme a interferência destes em nosso futuro.

— Creio existirem pequenos detalhes, momentos, que não precisam ser revividos.

— Tenha fé – a avó de Mary ergueu-se, alongando as costas. – Marianne lhe daria uns bons puxões de orelha, se o ouvisse sendo tão pessimista.

— Não duvido que ela o fizesse – concordou Legolas com os olhos azuis lacrimejando, devido ao vento cortante.

— Vá descansar, meu jovem. O dia de amanhã será cheio – a filha de Tolkien soltou um bocejo, rumando para dentro de Valley.

— Espero que não seja cheio de surpresas desagradáveis – ele seguiu até o quarto onde deixara Mary e Alícia.

Mal notou que pequeninos flocos de neve começavam a cair.

Notas finais
E aí, o que acharam? Beijocas!