Vórtice do Amanhã

5 Vieira, Caos e Café Amargo


No dia seguinte ao incidente da estufa, Lysel acordou com a estranha sensação de que algo a observava.


Não era a primeira vez que tinha esse tipo de pressentimento – o tempo a ensinara a não ignorar sua intuição – mas dessa vez, o sentimento era diferente. Não vinha com medo ou alerta, e sim com... uma leve expectativa. Como se o mundo estivesse esperando que ela acordasse. E, talvez, que tomasse café.


O quarto em que acordou era pequeno, mas encantador. Um dormitório circular com paredes de pedra-viva que mudavam de cor suavemente com a luz, estantes embutidas, janelas hexagonais e uma cama grande demais para uma pessoa só. Uma esfera dourada pairava no teto, lançando uma luz quente e confortável, ajustando-se automaticamente conforme Lysel abria os olhos.


Seu uniforme – um conjunto escuro com detalhes prateados e um broche da Aetherfall no peito – estava cuidadosamente dobrado sobre uma cadeira ao lado da cama. Não lembrava de ter dormido vestindo nada disso. Nem de alguém tê-la trazido até ali. Tudo em Aetherfall parecia acontecer como um sonho meio lógico: você não sabia como chegou, mas tudo se encaixava depois.


Enquanto se trocava, notou que o broche verdadeiro – o dela, o rachado – ainda estava no bolso da calça da noite anterior. Quando o tocou, ele ainda estava morno, pulsando como se algo lá dentro ainda vivesse.


Esperando para acordar.


●❯ 「☾」 ❮●


Ela encontrou Jéssica sentada numa varanda suspensa que dava vista para o campo lilás. Havia duas xícaras de café fumegante sobre a mesa, uma delas claramente deixada ali para ela.


– Dormiu?


– Eventualmente – respondeu Lysel, sentando-se.


– Sonhou com anjinhos ou comigo?


– Infelizmente não…diria mais que tive alguns…– Lysel parou rápido – calma, o que?


Jéssica riu mas logo assentiu com a cabeça sobre os pesadelos, como se entendesse melhor do que gostaria.


– Eu também. Desde que o Éter me viu pela primeira vez, os sonhos deixaram de ser só meus. Agora parece que alguém lá dentro quer contar uma história... só que a forma de contar é esquisita, distorcida, como se fosse de trás pra frente, com imagens que não fazem sentido.


– Alguém? – Lysel perguntou, intrigada.


– Ou alguma coisa – corrigiu Jéssica, com um sorriso cansado. – Vai saber.


Lysel bebeu o café. Estava forte. Quente. Amargo como a verdade que ela ainda se recusava a encarar. Ainda sentia o peso de tudo o que tinha vivido: o celeiro, Elias, Rivka, a criatura de sombra... Mas ali, naquela varanda flutuante ao lado de uma garota de jaqueta preta que falava como quem carregava mil segredos no bolso, algo nela começava a descansar.


– Sobre ontem... – começou Jéssica, olhando para as mãos – ...aquilo que saiu da fenda. Nunca vi nada parecido. O que você fez para aquilo ir embora?


– Não sei ao certo – respondeu Lysel. – Mas não foi magia. Pelo menos, não como vocês ensinam aqui, né?


– Não foi Éter, com certeza – disse Jéssica. – E não foi uma ilusão. Aquilo reagiu a você como se te conhecesse.


– Porque conhece.


O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Era o tipo de silêncio que carrega perguntas que ainda não estão prontas para ser feitas.


Depois de alguns segundos, Jéssica se levantou e estendeu a mão.


– Vem. Vamos fazer um teste.


– Que tipo de teste?


— Um experimento mágico controlado, como a professora Jesse diria. Só que com menos risco de combustão espontânea — ela piscou. — Provavelmente.


●❯ 「☾」 ❮●


A sala onde Jéssica a levou ficava no subnível inferior da Academia, um espaço dedicado a práticas privadas de conjuração e meditação. Era ampla, circular, com runas nas paredes e espelhos encantados que refletiam o estado emocional de quem entrava.


Lysel olhou para o próprio reflexo. A imagem dela tremia levemente, como se estivesse sob a água. Os olhos dourados pareciam mais intensos ali. Mais profundos.


– A sala te vê – disse Jéssica, como se fosse óbvio. – Ela mostra quem você está sendo... não quem você quer parecer.


– Isso é útil ou aterrorizante?


– Depende do dia – respondeu a ruiva. – Fica no centro. Fecha os olhos.


Lysel obedeceu. Sentou-se no centro do círculo marcado no chão com linhas de prata, sentindo uma leve vibração sob os pés.


– Agora respira. Pensa em algo que te marcou. Algo que te puxou. Uma memória em que sentiu que o mundo... cedeu pra você.


Ela não precisou pensar muito. A imagem veio de imediato: o momento no porão, Elias lendo o diário, a sombra se formando no teto, e ela, estendendo a mão com os dedos iluminados por rachaduras douradas.


Lysel inspirou.


E então... algo aconteceu.


O chão do círculo brilhou. Não com a luz rosa do Éter que Jéssica usava – mas com dourado instável. Linhas trincadas começaram a surgir no piso, como se a própria sala estivesse sendo invadida por um eco de outra dimensão.


– Lysel, você tá fazendo isso?


– Não estou tentando.


– Ok. Isso é novo.


Uma das paredes tremeu. Um dos espelhos começou a trincar, como se a imagem dela não coubesse mais nele. Dourado passou para um preto, como o vazio absoluto.


– Lysel, respira. Volta. Fecha essa lembrança.


– Eu não sei como!


Jéssica correu até ela, ajoelhou-se ao lado e segurou suas mãos.


– Então olha pra mim. Agora.


Lysel abriu os olhos.


Jéssica estava ali, inteira, firme. Os olhos de tempestade – azuis e vivos – a encaravam com uma intensidade que cortava qualquer descontrole.


– Você não tá sozinha – disse ela. – Eu tô aqui. Fecha comigo.


O caos recuou.


Lentamente, as rachaduras no chão desapareceram. Os espelhos voltaram ao normal. O brilho estabilizou no dourado outra vez e foi se apagando aos poucos. A sala respirou.


E Lysel caiu nos braços dela.


Não por fraqueza. Mas porque, naquele momento, pela primeira vez, alguém tinha conseguido puxá-la de volta.


Lysel sentia o corpo leve, mas a mente pesada. Depois do surto de energia mágica, o silêncio da sala parecia mais estranho do que qualquer sombra ou criatura que tivesse encontrado até ali. Ela ainda estava de joelhos, respirando com dificuldade, as mãos entrelaçadas às de Jéssica.


Mas, mais do que a exaustão ou o medo, o que dominava agora era a certeza de que havia atravessado uma fronteira.


Não uma fenda no tempo. Uma fenda dela mesma.


– Isso... não devia ter acontecido – murmurou Lysel, ainda com a voz rouca.


Jéssica não soltou suas mãos.


– Talvez não. Mas aconteceu. E você segurou.


– Só porque você estava aqui.


A outra garota riu, mas com um olhar fixo em Lysel.


– Lysel, você trouxe o chão da sala abaixo sem nem tentar. O espelho mágico literalmente trincou porque não conseguiu refletir você direito. Não me venha com esse papo de “só porque”. Você é um terremoto ambulante, você segurou porque é extremamente forte e especial.


Lysel suspirou, deixando a testa encostar no ombro de Jéssica.


– Isso não me consola.


– Eu sei. Mas talvez devesse.


Por um tempo, elas ficaram ali, apenas respirando juntas. O chão voltara ao normal, mas o ar ainda parecia carregado – não de medo, mas de algo mais raro: vulnerabilidade compartilhada.


– Posso te perguntar uma coisa? – disse Lysel, com hesitação.


– Pode. Mas se for sobre o corte de cabelo de alguém da escola, a resposta é sim, alguns de nós tentamos cortar nossos cabelos com magia do ar e obviamente deu errado.


Lysel riu.


– Não era isso. – Lysel abaixou o olhar – É... sobre você.


Jéssica arqueou uma sobrancelha.


– Curiosa sobre mim? Achei que tivesse curiosidade só sobre seu broche trincado.


– Eu sou curiosa sobre muita coisa, principalmente sobre o broche. Mas também sobre você – disse Lysel. – Como você... aguenta? Viver aqui, conviver com a magia, as ameaças, as criaturas, esse mundo instável. E ainda parecer tão... no controle.


A resposta demorou. Quando veio, não foi o que Lysel esperava.


– Porque se eu desmoronar...muita gente pode perder a confiança em mim.


Houve uma pausa.

Um silêncio sincero.


– Eu me acostumei a manter as coisas leves – continuou Jéssica. – Faço piada, sou sarcástica, tento manter todo mundo à vontade. Porque se eu parar, se eu respirar fundo e olhar de verdade pra tudo o que passei... tudo o que ainda vou passar...


Ela não terminou a frase. Mas não precisou.


Lysel apenas olhou para ela, por um segundo longo e profundo.

E entendeu.


Elas vinham de lugares diferentes – uma criada no interior sem saber quem era e de onde veio, a outra imersa desde cedo no mundo mágico. Mas havia algo em comum: ambas eram sobreviventes de algo que ainda não tinham nomeado. Ambas estavam quebradas em lugares que ninguém via.


E ainda assim, ali estavam.


Jéssica baixou o olhar por um instante, como se tivesse dito mais do que devia.


– Desculpa. Isso ficou dramático demais, né? Tô quebrando meu próprio protocolo de garota descolada e emocionalmente estável.


– Não ficou – respondeu Lysel, com a voz baixa. – Na verdade, foi a coisa mais real que ouvi aqui.


Elas estavam próximas. Mais próximas do que antes. Ainda ajoelhadas no centro do círculo mágico, com a luz dourada do broche entre elas, os olhos fixos um no outro.


E então, sem enrolação, sem dúvida, sem medo... Lysel se inclinou. E Jéssica foi ao encontro.


O beijo foi suave, mas intenso. Um encontro de silêncio e respiração, de calor e surpresa, de algo que não vinha da cabeça – vinha do fundo do peito.


●❯ 「☾」 ❮●


Terminou devagar, como se lutassem para parar um pouco e respirar.

Quando elas se afastaram, ainda perto demais, os olhos disseram o que as palavras demorariam a alcançar.


– Isso foi… inesperado – disse Jéssica, num sussurro que parecia conter mais do que apenas surpresa.


– É…eu não esperava que conseguiria – completou Lysel, sem tirar os olhos dela.


Antes que pudessem se perder naquele momento, o som sutil de algo vibrando tomou o ar. Baixo no começo. Como um zumbido distante. Mas insistente.


Elas se viraram ao mesmo tempo para o espelho da sala. O mesmo que, horas antes, havia trincado com a presença de Lysel.


Agora ele tremia.


Não de forma física, mas... existencial. A moldura vibrava como se tentasse conter alguma coisa dentro. A superfície do vidro oscilava entre reflexo e névoa. E então, lentamente, o espelho se escureceu. Um véu de sombras cobriu o que antes mostrava o reflexo da sala. E do outro lado… alguém olhava de volta.


Não era um rosto. Nem uma forma definida. Era como olhar para uma multidão de versões sobrepostas. Um turbilhão de imagens quebradas – todas elas mostrando Lysel, mas em formas diferentes.


Uma Lysel de cabelos curtos, coberta de fuligem.

Outra com olhos brancos, flutuando no ar.

Uma caída num campo de batalha.

Uma com uma armadura de luz.

E outra… sendo arrastada por mãos invisíveis para dentro da escuridão.


Jéssica usando as mãos arrastou seu corpo para trás.


– O que… o que é isso?


A voz veio de dentro do espelho.

Rasgada. Lenta. Como um rádio antigo tentando captar uma estação com interferência.


– Ela não devia estar aqui…Não neste tempo. Não em tempo algum. Ela rompe. Ela parte. Ela rasga as margens...


A sala inteira se iluminou com o espelho. As runas nas paredes mudaram para um dourado forte e brilhante. A luz da esfera mágica no teto se ampliou. Até o ar parecia mais espesso.


As imagens no espelho começaram a girar, mais rápidas.

Agora havia cenas que nem pareciam deste mundo.

Navios voadores. Tempestades invertidas. Um lobo com olhos brancos. Uma torre partida no centro do mar. E sempre… Lysel.

Em todos eles.


– O Tempo busca equilíbrio. E onde há Ruptura, há desvio. Ela não pertence à linha.


Lysel tentava se erguer. Mas sentia as pernas tremerem. Não de medo. De reconhecimento.


— Ele está falando de mim — disse, quase sem voz.


O espelho tremeu uma última vez. E então, quebrou em silêncio. Não em pedaços. Mas em tempo.


Fendas cortaram o espelho em linhas perfeitas, como rachaduras no gelo. Mas em vez de vidro, o que caía era memória. Pequenos fragmentos de realidade flutuando no chão, girando como páginas soltas de um livro nunca lido.


E no centro da última rachadura, a frase apareceu — escrita em reverso no lado de dentro do vidro:


“Você não devia existir.”


A frase brilhou por um segundo. E então, o espelho apagou por completo. Como se nunca tivesse estado ali.


O silêncio era quase sólido agora. Lysel levou a mão ao peito. O broche pulsava, mais quente do que nunca. Mas dessa vez... não era energia. Era medo.


Ela sentiu.


O Tempo a havia encontrado.


– Isso não era o

Caos – murmurou Jéssica, com a voz baixa, rouca.


Lysel assentiu devagar, os olhos fixos onde antes estivera o espelho. Um arrepio percorreu a espinha como se algo dentro dela estivesse prestes a acordar – ou quebrar.


– Isso era o Tempo.