Vórtice do Amanhã
6 Entre Beijos e Tempestades
Lysel não dormia direito desde o espelho. Na primeira noite, sonhou que estava presa dentro dele – não em frente ao espelho quebrado, mas dentro, com milhares de versões de si mesma passando por ela como reflexos afogados. Algumas choravam. Outras gritavam. Uma delas... sorria. E esse foi o pior de todos.
Na manhã seguinte, fingiu estar bem. Jéssica percebeu, claro. Percebia tudo.
– Teve um pesadelo de novo? – perguntou ela, enquanto dividiam um pão amanteigado numa varanda interna da torre sul.
– Tive. – Lysel não tentou esconder. – Estou começando a achar que quando durmo, o tempo invade minha mente e me tortura para que eu queira tá morta.
– Você é a única pessoa que transforma dormir em uma ameaça mágica – disse Jéssica, com um meio sorriso. – Parabéns, isso é original até pra Aetherfall.
O sorriso de Lysel foi fraco, mas real.
A academia funcionava como um quebra-cabeça constante: aulas, treinamentos em grupos, sessões de meditação no Salão de Espiral, teorias impossíveis em runas esquecidas. Mas em meio a tudo isso, era com Jéssica que Lysel conseguia respirar. Elas dividiam intervalos, silêncios, até palavras não ditas. Como se algo antigo e silencioso as reconhecesse antes mesmo delas entenderem o que estavam construindo.
Mas nem a presença de Jéssica afastava a sensação crescente de que algo estava se partindo dentro dela.
Algo pequeno, invisível – mas constante.
●❯ 「☾」 ❮●
Na terceira noite, Lysel acordou suando frio. Estava com o broche apertado na mão fechada, o peito ofegante, e um som ecoando na cabeça como um relógio sem ponteiros
Toc. Toc. Toc.
Quando abriu os olhos, não estava mais em seu quarto.
Ela estava de pé no corredor do dormitório, sozinha, os pés descalços no chão frio de madeira. A janela mostrava três luas num alinhamento que ela ainda não havia visto. E no fim do corredor... havia uma porta aberta.
Não uma porta da Aetherfall.
Uma porta de madeira antiga, com dobradiças enferrujadas e uma maçaneta de bronze em formato de serpente.
Ela andou, hipnotizada. Cada passo ecoava como se o som atravessasse séculos.
Na porta, uma inscrição que não reconhecia, mas entendia.
“Aqui dormem os nomes esquecidos.”
Ao cruzar a porta, a realidade mudou. De novo.
●❯ 「☾」 ❮●
Ela estava num quarto. Não o dela. Um lugar antigo, forrado de livros, estantes tortas, janelas vedadas por madeira. Uma sala de estudos. Ou talvez um arquivo perdido. E no centro... uma mesa com um livro aberto.
Ao se aproximar, viu o título nas páginas amareladas:
"Crônicas das Rupturas: Vol. I"
As letras tremiam. O papel parecia respirar. Ela leu a primeira linha.
“Nem todo nascimento é uma bênção. Alguns são rachaduras que o tempo comete por acidente.”
As páginas começaram a virar sozinhas, uma após a outra, como se procurassem por algo. Então pararam.
No topo da nova página, em letras menores:
“Entre Beijos e Tempestades”
Era o nome do capítulo. O nome do momento.
Mas antes que pudesse ler o restante, um grito atravessou o espaço.
Não alto.
Não humano.
Temporal.
Tudo desmoronou.
Ela acordou no chão do próprio quarto, sozinha, com o broche quente como brasa. E do lado da cama, o que não deveria estar ali:
O livro.
Real.
Material.
Com a capa gasta e o mesmo título marcado à mão:
“Crônicas das Rupturas: Vol. I”
Ela segurou o livro com as mãos trêmulas. Não sabia se ele havia vindo com ela...Ou se ela o havia roubado da biblioteca enquanto dormia.
– Lysel?
Era Jéssica, entrando apressada, ofegante. O rosto ainda meio sonolento, mas alerta.
– Você tá bem? As runas do seu quarto acenderam todas. Eu ouvi... um eco.
Lysel levantou o livro com cuidado.
– Eu acho que eu... encontrei algo. – Ela se virou para encarar a capa do livro – Ou algo me encontrou.
Jéssica viu o título. Arregalou os olhos.
– Lysel... esse livro estava trancado no Arquivo dos Silêncios. Ninguém entra lá. Ninguém sai com nada de lá.
– Eu não entrei. Eu sonhei. E quando acordei, ele estava aqui.
As duas se olharam. E a pergunta não dita se formou entre elas.
“Se isso é o Volume Um... quantos mais existem?”
●❯ 「☾」 ❮●
O livro continuava ali. Real. Tangível. Pesado demais para ser um sonho, antigo demais para pertencer àquele quarto.
Lysel folheava as páginas com cuidado, como se pudesse acordar alguma maldição adormecida a qualquer momento. O texto oscilava entre trechos escritos em diferentes línguas — latim, arcaico, runas e até mesmo símbolos que se rearranjavam sozinhos quando ela tentava fixar o olhar.
Mas uma parte, perto do fim do capítulo "Entre Beijos e Tempestades", estava em português. Escrita à mão, com caligrafia inclinada e firme:
"O coração da Ruptura é também o seu elo mais frágil.
Onde há afeto, o tempo hesita.
Onde há amor, o tempo sangra."
– Quem escreveu isso sabia – sussurrou Lysel. – Sabia o que eu sou.
Jéssica se aproximou, ajoelhando-se ao lado da cama, como se não quisesse tocar no livro com as mãos.
– Isso não devia estar aqui. Esse tipo de registro não sai dos Arquivos. É como se algo estivesse... colaborando com você.
– Ou tentando me avisar.
Lysel fechou o livro devagar. O broche em seu peito reagiu na mesma hora — um leve brilho âmbar vazando pelas rachaduras finas, pulsando como um coração ferido. Era quase silencioso, mas Jéssica notou.
– Está acontecendo de novo, né?
Lysel assentiu. O ar dentro do quarto havia mudado. Estava mais denso, como se uma corrente elétrica invisível zumbisse nas paredes.
E então, uma das luminárias flutuantes explodiu com um estalo seco.
– Lysel – Jéssica se levantou num salto – sai do centro do quarto. Agora.
Mas era tarde.
O chão sob os pés de Lysel estremeceu. As runas no assoalho começaram a se apagar, uma a uma, como se estivessem sendo apagadas do tempo em vez do espaço. Um vento invisível girou no quarto, arrastando papéis, cortinas, tudo para o centro da pequena fenda que começava a se abrir...
...bem ali, onde ela estava em pé.
— Não! — gritou Jéssica. — Me dá tua mão!
Lysel tentou. Mas quando seus dedos se tocaram, um clarão de luz dourada as separou. O Caos respondeu ao toque — e empurrou Jéssica para trás.
A fenda cresceu. Não era tão grande quanto as anteriores, mas era mais... focada. Como se estivesse olhando para ela. Como se fosse uma janela, e alguém estivesse espiando por dentro.
E foi quando Lysel viu.
Do outro lado da fenda... havia uma figura.
Alta.
Encapuzada.
Imóvel.
Com um rosto coberto por uma máscara prateada, cheia de rachaduras. No lugar dos olhos: buracos negros, sem fundo.
Ele não se movia. Mas sabia.
Sabia quem ela era.
E estava esperando.
Lysel tentou recuar, mas o broche brilhou de novo — com mais força, mais calor. A fenda tremeu.
E então, o tempo parou.
Literalmente. O relógio da parede congelou. As folhas suspensas no ar ficaram imóveis. Até o som ficou preso, como se o universo tivesse prendido a respiração.
Só ela e o mascarado estavam ali.
Só eles dois... e o tempo entre eles.
– Ruptura encontrada.
A voz não veio do homem.
Veio de dentro da cabeça dela.
– Alvo localizado. Rastreamento iniciado.
E então o mundo voltou a se mover. A fenda fechou-se com um estalo. O ar explodiu para fora, lançando Lysel contra a parede. O broche apagou. As luzes se acenderam novamente.
Jéssica correu até ela, ajoelhando-se ao seu lado, com o rosto pálido.
– Lysel! Lysel, tá me ouvindo?
Ela abriu os olhos, ainda atordoada.
– Ele me viu – sussurrou. – Ele... estava ali.
– Quem?
– O homem da máscara. Aquele que me segue através das Rupturas. – Ela tremia – Ele encontrou um jeito de me encontrar sem abrir a fenda do tempo por completo.
Jéssica olhou ao redor. Tudo ainda vibrava com resquícios de energia temporal.
– Ele abriu uma fenda dentro da escola. Lysel... isso nunca aconteceu antes.
– Não foi só uma fenda. – Ela chorava – Foi um aviso de que não tô segura em nenhum lugar.
Ela pegou o livro com as mãos tremendo. O broche em seu peito ainda pulsava como um aviso.
Onde há amor, o t
empo sangra.
Ela olhou para Jéssica. A lembrança do beijo ainda viva na pele. E a pergunta que não queria pensar ecoando na mente:
“Será que amar alguém... é o que o tempo mais teme?”
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