Vórtice do Amanhã
3 Ferro, Fogo e Farda
Lysel não sabia por quanto tempo ficou caída naquelas pedras molhadas, apenas que quando abriu os olhos, o mundo ao redor parecia ter sido arrancado de um filme antigo em preto e branco – só que muito mais úmido, muito mais frio e, acima de tudo, absurdamente real. A chuva caía como agulhas finas e persistentes, encharcando sua roupa num instante. O céu estava coberto por nuvens densas e baixas, e os prédios ao redor tinham uma arquitetura severa, com colunas cinzentas e janelas pequenas, como se cada edifício estivesse de luto.
Ela se levantou devagar, com os músculos ainda fracos da queda, tentando entender onde – ou quando – estava. O chão sob seus pés era de pedra irregular, e as ruas, silenciosas demais para uma cidade moderna. O ar era diferente. Menos poluído, mas mais pesado. O cheiro metálico da chuva misturava-se ao aroma de carvão queimado e fumaça de algo que definitivamente não era só lenha. O frio que sentia não vinha apenas do clima. Era um frio mais fundo, mais antigo. Como se o próprio tempo tivesse se retraído, observando-a com olhos invisíveis.
A ficha caiu de maneira silenciosa e cruel. Ela não estava mais em 2025. E pelo que conseguia ver – as bandeiras vermelhas com suásticas que tremulavam em um dos prédios, o uniforme de um homem que passava apressado carregando um pacote, o modelo dos carros antigos parados no meio-fio – estava em algum momento sombrio da história mundial. E, considerando o símbolo, ela sabia exatamente qual.
Alemanha nazista. Segunda Guerra Mundial.
O pânico começou a subir em ondas. Lysel tentou controlar a respiração. Ela precisava pensar, não surtar. Fugir não ajudaria, não sem saber para onde correr. Mas, claro, foi justamente nessa hora que a sorte virou contra ela.
– Halt! Stehenbleiben!
A voz cortou o ar como uma faca. Rápida, dura, acostumada a dar ordens e ser obedecida. Três soldados surgiram na entrada da rua, vindos de um beco lateral. Estavam armados, de uniforme, e claramente surpresos ao encontrar uma adolescente de aparência completamente fora do contexto: roupas estranhas, sem documentos, sem identificação e sozinha.
Lysel congelou. Eles começaram a se aproximar, e um deles ergueu o braço, apontando diretamente para ela.
– Was machen Sie hier, Fräulein? Wo sind Ihre Papiere?
Ela não fazia ideia do que estavam dizendo, mas o tom de ameaça era universal. E ela entendeu a parte da palavra papiere – documentos. Eles queriam ver identificação. E ela... bom, ela tinha um celular morto no bolso, um broche mágico e um medo cada vez mais crescente de virar estatística histórica.
Ela correu.
Foi como se o próprio chão se movesse para impedir sua fuga. As ruas pareciam todas iguais: cinzentas, úmidas, hostis. Os gritos dos soldados ecoavam pelas paredes estreitas, misturando-se com o som de sirenes ao fundo e os latidos distantes de cães que não deveriam estar soltos naquela área. Ela virou uma esquina, escorregou numa poça e quase caiu, mas continuou correndo, sem olhar para trás.
Cada passo parecia mais pesado que o anterior, como se o tempo estivesse tentando puxá-la de volta, como se dissesse: “Você não devia estar aqui.”
Ela passou por uma padaria fechada, por uma praça deserta com um chafariz seco e por uma mulher que, ao vê-la, fechou as cortinas da janela com pressa. Lysel estava sozinha. Mais sozinha do que jamais estivera.
Foi então que, no fim de um beco, quando já sentia o fôlego falhar e os pulmões queimarem, uma mão saiu da sombra e agarrou seu braço.
– Rápido. Aqui.
Ela não teve tempo de pensar. Foi puxada por uma porta estreita, quase invisível entre dois tijolos. O corpo foi empurrado por um corredor escuro e estreito, onde o cheiro de mofo e madeira velha dominava tudo. Só quando a porta se fechou atrás dela, com um rangido seco, Lysel desabou de joelhos no chão, ainda ofegando.
O silêncio lá dentro era tão abrupto que doía. Um silêncio espesso, denso, como se o som tivesse sido sugado do mundo exterior.
– Ela estava sendo seguida – disse uma voz masculina, jovem. – Tinha três soldados. Um deles já sacou a arma.
– Você está louco, Elias! – retrucou uma mulher, com a voz afiada e cheia de medo. – E se ela for uma isca? Uma espiã?
– Não é. Olha pra ela. Ela tá mais assustada que a gente.
Lysel se forçou a levantar. A luz fraca da vela que pendia no canto do teto permitia ver seus salvadores: um garoto de uns quatorze anos, magro, moreno, de olhos curiosos e intensos, e uma mulher que devia ser sua mãe – olhos severos, cabelos presos num lenço escuro, mãos que tremiam mesmo quando tentavam parecer firmes.
– Quem é você? – perguntou o garoto, mais curioso do que agressivo.
– Eu... – Lysel olhou em volta, sem saber o que dizer. A verdade soaria como loucura. Mas mentir era inútil. Eles não eram tolos. E talvez ela não tivesse muito tempo.
– Meu nome é Lysel. Eu vim... de outro tempo. Do ano de 2025.
Silêncio.
A mulher pareceu endurecer ainda mais, mas Elias apenas arqueou as sobrancelhas.
– Eu sabia – disse ele, quase sorrindo. – Eu sabia que o diário tava certo.
– Elias, cale a boca. – sussurrou a mãe. – Não brinque com isso.
Lysel franziu a testa.
– Diário?
O garoto correu até um armário de madeira velha, remexeu algumas latas e objetos cobertos de poeira, e voltou com um caderno grosso, de capa de couro, amarrado com um cordão.
– Era do meu pai – explicou. – Ele desapareceu dois anos atrás, e ninguém nunca entendeu o que aconteceu. Mas antes de sumir, ele dizia que o tempo estava quebrando. Que havia... pessoas fora de lugar. Ele chamava de “pontos de ruptura”.
Lysel sentiu um arrepio percorrer a espinha.
– Ele usava essa palavra?
– Ruptura?
Ela assentiu. Elias abriu o diário. Nas primeiras páginas, havia textos escritos à mão em hebraico, latim e algo que parecia alemão antigo. Ele virou várias folhas até parar em uma.
– Aqui – disse. – Era o símbolo favorito dele.
Lysel se aproximou. No centro da página, desenhado com tinta preta desbotada, havia um olho cercado por linhas em espiral – exatamente o mesmo símbolo que estava gravado no broche que ela trouxera do celeiro.
O símbolo... reagiu.
De repente, as linhas vibraram, e a tinta pareceu fresca. As palavras ao redor do símbolo se rearranjaram sozinhas, dançando nas bordas da página até se tornarem claras.
Ela podia ler.
“A ruptura não pertence ao tempo.
Ela não se ancora.
Ela não morre.
Ela abre fendas.”
Lysel tocou a página com os dedos. O calor voltou, o mesmo calor do broche. Algo dentro dela... clicou. Como se o mundo estivesse se abrindo um centímetro por vez.
– Acho que encontrei vocês por uma razão – sussurrou ela.
E nesse instante, longe dali, uma nova sirene começou a soar.
Mais próxima.
Mais ameaçadora.
●❯ 「☾」 ❮●
O porão onde Elias e sua mãe mantinham o esconderijo era escuro, úmido e apertado, mas ainda assim, carregava um calor humano que o mundo lá fora não oferecia. A luz fraca de duas velas tremia entre as sombras, fazendo com que os objetos velhos ao redor – sacos de farinha, caixas empilhadas, um rádio de válvula com as entranhas expostas – parecessem respirar.
Lysel estava sentada sobre um banco rústico, o diário do pai de Elias em mãos, com as páginas pesadas e ásperas como couro antigo. Cada vez que tocava nelas, sentia o mesmo calor do broche em seu bolso – e um zumbido leve, bem no fundo da nuca, como se uma ideia tentasse se formar, mas ainda não tivesse permissão para nascer.
– Você está bem? – perguntou Elias, de onde observava com os braços cruzados e a curiosidade saltando dos olhos.
Ela hesitou.
– Eu...não sei. Tem algo nessas páginas. Como se estivessem olhando de volta.
– Meu pai dizia que o diário foi entregue a ele por um estranho – explicou Elias. – Um homem com a voz rouca e os olhos...bizarros. Ele apareceu uma noite, deixou o diário na porta da sinagoga e sumiu.
Lysel levantou o olhar.
– “Bizarros”?
Elias deu de ombros.
– Ele não sabia explicar. Dizia que aquele homem parecia deslocado. Como se existisse em outro tempo. Igual a você.
As palavras pesaram no ar.
– E o que seu pai encontrou aqui? – perguntou ela.
Elias sentou ao lado dela e virou algumas páginas do diário com os dedos nervosos. Ele parou numa que parecia diferente: as palavras ali não estavam organizadas como texto normal. Eram círculos concêntricos, símbolos curvos desenhados com precisão quase matemática, com uma única palavra escrita no centro: Caos.
Lysel engoliu em seco.
– Já vi isso antes. Quando o espelho da minha casa embaçou sozinho. Esse mesmo símbolo apareceu.
Elias a olhou com mais atenção.
– Você tem alguma ideia do que o “Caos” significa?
Ela balançou a cabeça.
– Só sei que... parece vivo. E parece saber quem eu sou, mesmo que eu não saiba.
Rivka subiu as escadas do porão nesse momento, com os olhos fundos e uma panela nas mãos. Tentava disfarçar o cansaço com alguma normalidade, como se preparar uma sopa fosse suficiente para conter o medo de uma batida nazista.
– A rua está silenciosa demais – avisou, colocando a panela sobre um pequeno fogareiro. – Eles estão por perto.
– Talvez devêssemos sair logo – disse Elias. – Levar Lysel até o beco do relógio. Foi por onde papai desapareceu.
Rivka parou, de costas para eles.
– Se vocês forem... não podem voltar.
O silêncio que seguiu foi mais frio do que o porão.
Lysel fechou o diário com delicadeza e o devolveu a Elias, que o guardou no casaco, junto ao peito. A vela mais próxima tremeluzia cada vez mais, como se algo estivesse se aproximando – algo que ainda não tinha forma, só uma sensação.
Foi então que ouviram.
Um ruído fino, quase um sussurro, vindo da rachadura na parede de tijolos. O mesmo som que ela ouvira no celeiro. Como vento puxando tudo ao redor. Como o ranger de uma porta.
– Tem alguma coisa aqui – disse Elias, se levantando devagar.
Rivka se virou rapidamente.
– Não se aproxime.
Mas já era tarde. A rachadura começou a brilhar. Fraca no começo, como um reflexo enganado. Depois mais forte, como se algo tentasse atravessar de um lado para o outro. As velas apagaram ao mesmo tempo, sugadas por um vento invisível. E o porão mergulhou numa penumbra com cheiro de estática.
Lysel deu um passo à frente, puxada por algo que ela não entendia, mas que parecia familiar. Como se estivesse sendo chamada.
A rachadura tremeu.
E então, uma sombra deslizou para dentro da sala.
Não tinha forma definida – parecia fumaça líquida, retorcendo-se como se estivesse sendo espremida para caber ali. Não emitia som algum. Mas a presença dela fazia o estômago revirar, o ar ficar pesado e os pensamentos se partirem em pedaços desconexos.
– Lysel – murmurou Elias, com a voz presa na garganta. – Isso é o que você chamou?
– Eu não chamei nada.
– Mas ela veio até você.
Ela queria dizer que não era verdade, que não tinha culpa, que também estava apavorada. Mas... algo dentro dela sabia que Elias estava certo.
A sombra parou no meio do porão, como se esperasse. Os olhos – se é que tinha – estavam fixos nela.
Lysel sentiu o broche queimar no bolso. Não calor de ferro. Calor de magia.
– Vocês precisam correr – disse Rivka. – Agora.
– Mas você... – começou Elias.
– Agora!
Rivka pegou um pedaço de sal grosso do armário e atirou ao redor da rachadura. Por um instante, a sombra pareceu recuar, estremecer. Mas apenas por um instante. Lysel segurou a mão de Elias, e os dois subiram as escadas correndo, o som dos próprios passos engolindo os últimos segundos de hesitação.
Antes de sair, ela olhou para trás – e viu Rivka de pé, imóvel, com os braços erguidos em prece. A sombra se aproximava dela como um animal silencioso.
A porta bateu com força.
E o mundo voltou a girar.
●❯ 「☾」 ❮●
Do lado de fora, a cidade estava mergulhada num silêncio estranho. Os soldados deviam estar em outro quarteirão. Elias puxou Lysel por entre os becos, dobrando esquinas escuras, passando por portões abandonados, ignorando os barulhos distantes de vozes e cachorros.
– O beco do relógio – disse ele, ofegante. – Fica atrás da oficina velha. Papai sempre dizia que lá... o tempo não se comporta direito.
Lysel corria sem saber exatamente para onde, apenas que não podia parar. Nem pensar em Rivka. Nem na sombra. Nem no que aquilo significava.
Não ainda.
Ela corria porque era isso ou ser engolida.
●❯ 「☾」 ❮●
O caminho até o beco foi como atravessar um pesadelo calado. Elias corria na frente, conhecendo cada esquina escura, cada trilha entre as sombras dos prédios silenciosos. As sirenes pareciam ter sumido, mas o silêncio era ainda mais perigoso. Um silêncio em que o tempo prendia o fôlego.
Lysel sentia o chão vibrar sob seus pés. Como se o tempo estivesse se reorganizando – ou resistindo.
O beco do relógio era estreito e fundo, escondido entre as traseiras de dois prédios abandonados. Havia um arco de pedra no alto, quase coberto de heras secas, e uma parede no fundo com um relógio antigo pregado diretamente sobre os tijolos.
O mostrador estava rachado no centro. Os ponteiros giravam em sentido anti-horário.
Lysel parou diante daquilo, com o peito apertado. Não era só o relógio quebrado. Era o ar, o tempo, a luz ao redor. Tudo ali parecia... torto. E pior: familiar.
– É aqui – disse Elias, ofegante. – Ele dizia que esse lugar era um ponto de falha. Um... portal, talvez.
Ela não respondeu. A rachadura no relógio parecia vibrar, como a rachadura no celeiro. E como no porão. E como dentro dela.
– Você vai mesmo? – perguntou Elias, sem esconder o medo. – Vai desaparecer como meu pai?
Lysel se virou para ele.
– Eu não sei pra onde isso leva. Mas se eu ficar aqui... eu trago as coisas erradas com a minha presença. A sombra. A rachadura. Aquele som. Eu sou a ruptura, Elias. Eu não posso ficar muito tempo em lugar nenhum.
Ele mordeu o lábio, indeciso.
– Meu pai deixou isso pra mim... mas acho que ele não queria que eu ficasse com isso. – Ele tirou uma pequena peça de metal do bolso. Era um pingente em forma de ampulheta, com areia fina dentro. Mas a areia não se movia. Estava presa.
– Ele chamava isso de Âncora Parcial. Disse que podia ajudar alguém perdido no tempo. “Mas só uma vez.”
Lysel segurou o pingente. Ele era leve como uma pena, mas queimava nos dedos. Era como o broche. Como o diário. Como tudo que vinha das fendas.
– Por que está me dando isso?
Elias deu de ombros, olhando para os pés.
– Talvez porque você vai precisar mais do que eu. Talvez porque, se um dia eu também cair... você possa me puxar de volta.
Lysel engoliu em seco. Quis agradecer. Quis abraçá-lo. Mas não tinha palavras certas. Nem tempo.
Atrás deles, uma nova rachadura se abriu na parede, bem no centro do relógio.
A realidade se rasgava devagar, como papel úmido. Luz e sombra se misturavam. O ar cheirava a poeira antiga e corrente elétrica. E algo... sussurrava o nome dela do outro lado.
– Lysel.
Ela segurou firme o broche numa mão, a âncora na outra. Olhou uma última vez para Elias.
– Se eu puder... eu volto.
Ele assentiu. Não como quem acredita. Mas como quem quer acreditar.
Lysel deu um passo. O chão pareceu flutuar sob os pés. Um segundo passo. O tempo desacelerou. Terceiro passo. A luz sumiu.
E então ela atravessou.
●❯ 「☾」 ❮●
Tudo foi engolido por silêncio e luz.
A queda não era queda. Era mais como ser puxada por dentro da pele. A mente girava, o corpo flutuava, e as memórias se embaralhavam. O celeiro. A guerra. A sombra. Elias.
Quando finalmente tocou o chão de novo, caiu de joelhos sobre grama úmida. O céu acima era lilás, e havia uma lua nova no céu. E uma sensação de medo.
Ao longe, uma construção imensa erguia-se sobre um campo florido. Um prédio gigant
e. Cúpulas de vidro. Portões de ferro com símbolos brilhando como constelações.
Academia Aetherfall. Ano 2053.
Lysel desmaiou com o som de sinos estridentes tocando ao longe – e com a estranha certeza de que o tempo ainda não havia terminado com ela.
Nem de longe.
Fale com o autor