Vórtice do Amanhã
4 Aetherfall, Ano 2053
Lysel despertou com o cheiro da grama úmida e o som de sinos distantes tocando notas que ela não reconhecia. A princípio, achou que estivesse sonhando. Era a única explicação razoável para um céu lilás com uma lua nova brilhando como um medalhão gigante de prata. Mas o frio da manhã, a dor no ombro esquerdo e o gosto metálico na boca eram reais demais para serem sonho.
Ela sentou-se devagar, as mãos cravadas na terra fofa, tentando organizar os pedaços da própria consciência. Ainda ouvia ecos de vozes do outro lado da fenda: Elias, Rivka, os soldados, a sombra. Tudo parecia tão perto... e tão fora de alcance.
O campo onde estava era extenso e coberto de uma vegetação baixa que mudava de cor conforme o vento soprava – passava de um verde-azulado para um dourado pálido, como se a própria grama respirasse. Árvores de galhos retorcidos brotavam aqui e ali, e mais à frente, recortando o horizonte, erguiam-se um prédio escolar. Não de pedra medieval, mas de aço negro e vidro encantado, refletindo a lua e o céu ondulante como uma miragem viva.
E no centro de tudo aquilo, estava ela: a Academia Aetherfall.
Era como se Hogwarts tivesse se misturado com um observatório futurista, cercado por um coliseu celeste e jardins que desafinavam a lógica botânica. Havia pessoas voando entre torres, fontes flutuando no ar e corujas feitas de origami metálico planando em círculos perfeitos.
Ela tentou se levantar, mas as pernas ainda estavam bambas. Sentiu uma tontura leve e se apoiou num tronco torto, respirando fundo. Uma sombra passou por cima de sua cabeça, e ela ergueu o olhar a tempo de ver um grupo de jovens cruzando os céus — não em vassouras, mas montados em pranchas prateadas que zumbiam como colmeias mágicas. Estavam rindo, conversando, alguns com capas esvoaçantes, outros usando roupas comuns de rua, como se aquela fosse a coisa mais normal do mundo.
Lysel, por outro lado, sentia-se um desastre ambulante.
– Certo – murmurou para si mesma. – Ou estou morta, ou estou no futuro. Ou os dois.
Ela deu alguns passos, tentando se aproximar da construção. O campo era aberto, e nenhum muro cercava a Academia. À medida que caminhava, começou a notar detalhes que a deixaram com a estranha sensação de estar sendo observada – labaredas de fogo que surgiam do nada, arbustos que se recolhiam quando ela passava, e placas com símbolos que se rearranjavam sozinhos.
A última placa que viu virou para ela, exibindo a palavra “Desperta.”
Lysel franziu a testa. Aquela palavra... parecia importante. Instintiva. Como se carregasse um significado maior do que ela podia compreender.
– Olha só – disse uma voz atrás dela – uma novata recém-chegada, com cara de quem foi acordada aos tapas.
Ela se virou rápido, em alerta, mas não precisou de mais de dois segundos para perceber que não era uma ameaça.
A garota era talvez um ou dois anos mais nova, pele morena clara, cabelos ruivos presos num coque improvisado e um olhar que alternava entre sarcasmo e gentileza. Vestia uma jaqueta preta com o símbolo da academia bordado na manga e usava um par de tênis sujos que denunciavam que ela preferia correr do que voar.
– Não se assusta – disse a garota, levantando as mãos num gesto de paz. – A primeira vez em Aetherfall costuma ser assim mesmo. Você vê coisas demais mas com o tempo dá para se acostumar. Chama-se choque de realidades.
– Quem... quem é você? – perguntou Lysel, tentando manter a compostura.
– Jéssica Vieira. Rank de Bronze, afinidade com fogo, uma medalha de honra por desarmar um campo mágico com uma caneta Bic e... agora aparentemente guia de acolhimento de rupturas temporais perdidas no mato.
Ela estendeu a mão com naturalidade.
Lysel olhou para ela, depois para a mão. E finalmente apertou.
– Lysel... Vernay, acho.
Jéssica sorriu, como se já esperasse por aquele nome.
– Ah, então você é a garota dos espelhos que embaçam. A do broche rachado. A que fez o Oráculo gritar sem parar por três dias e três noites.
– O quê?
– Longa história. Você tá com cara de quem precisa de comida quente, respostas diretas e uma cama quente. Vem comigo.
Sem esperar resposta, Jéssica virou e começou a andar rumo à academia. Lysel, ainda zonza, seguiu-a sem saber muito bem por quê. Talvez fosse o tom da voz. Ou o jeito como ela falava como se nada a abalasse. Ou talvez fosse o fato de, pela primeira vez em muito tempo, alguém parecer... genuinamente à vontade com a presença dela.
– O que é esse lugar? – perguntou Lysel, enquanto subiam uma pequena escadaria de pedras que levava à entrada principal.
– Aetherfall? – Jéssica deu de ombros. – Academia internacional de estudos avançados do fogo, do ar, da água, da terra e das Ciências Arcanas. Tem mais nomes, mas ninguém lembra de todos. Resumindo: se o mundo mágico fosse um colégio, aqui seria o tipo de internato secreto onde tudo de estranho acontece e ninguém nunca morre de verdade...só temporariamente, mas também depende da sua sorte, às vezes você só morre também.
– Isso é um colégio?
– É, mas não espere matemática e prova de múltipla escolha. Aqui a matéria mais fácil envolve manipular energia invisível com a força da vontade. E a mais difícil é sobreviver à aula da professora Jesse Yith'lun sem que uma planta viva te devore.
Lysel parou.
– Isso é sério?
Jéssica virou-se, sorrindo com os olhos.
– Totalmente.
Elas passaram por um portão alto feito de ferro entalhado com símbolos brilhantes. Assim que Lysel o cruzou, sentiu uma espécie de onda atravessá-la – não dolorosa, mas... reveladora. Como se tivesse deixado algo para trás e ganhado outra coisa em troca.
Jéssica olhou para ela com atenção renovada.
– Hm. O portal te reconheceu.
– Como assim?
– Algumas pessoas passam por ele e nada acontece. Outras... brilham.
– Eu brilhei?
– Brilhou. E não no sentido “pessoa bonita” – embora, sejamos honestas, você também pode levar esse mérito.
Lysel corou sem querer.
– E o que significa?
Jéssica ficou séria por um momento. Olhou para os corredores internos da academia, como se estivesse pensando se devia contar.
– Significa que você foi tocada pelo Caos. E que ele... te reconhece.
O interior da Academia era ainda mais estranho do que o exterior prometia. Assim que cruzou o segundo arco de entrada, Lysel sentiu uma mudança sutil no ar, como se tivesse atravessado uma cortina invisível que deixava tudo um pouco... mais vivo. O chão era feito de pedra escura com filetes de prata líquida que se moviam sob os pés, como veias brilhando em ritmo com o coração da construção.
As paredes se estendiam por dezenas de metros, e no alto, em vez de um teto tradicional, havia um céu encantado que mostrava as três luas, mesmo à luz do dia. Flutuando acima das cabeças, criaturas translúcidas – lembrando águas-vivas gigantes – deslizavam suavemente, piscando com luzes coloridas como se estivessem monitorando os corredores.
Lysel seguia ao lado de Jéssica como quem entra num sonho que não tem certeza se quer acordar. Cada canto parecia guardado por pequenos segredos: quadros que sussurravam entre si quando alguém passava, escadas que giravam em silêncio para mudar de lugar, portas que se abriam com um olhar ou com o toque certo de intenção.
– Não tente decorar o caminho – avisou Jéssica, enquanto cruzavam um hall circular com uma fonte central. – A Aetherfall muda. Literalmente. Toda semana o mapa é atualizado. Alguns corredores somem. Outros surgem. E há pelo menos três salas que ninguém encontrou desde 2029.
– Isso... parece pouco prático – comentou Lysel.
– É. Mas também mantém os alunos atentos – disse ela, virando por um corredor de teto baixo onde várias portas flutuavam sem tocar o chão.
Lysel parou diante de uma delas. A madeira era vermelha, e havia um espelho cravado no centro.
– Essa porta... ela me viu.
– Sim – respondeu Jéssica com naturalidade. – Algumas veem. Outras escutam. E tem uma que morde. Essa, felizmente, só te examina.
– Examina?
– Vai se acostumando. Aetherfall tem suas vontades. E se você for uma Desperta, ela vai querer te conhecer.
Lysel franziu o cenho.
– O que é uma Desperta, exatamente?
– Alguém que não nasceu com magia... mas que acordou para ela – explicou Jéssica, com um tom quase reverente. – Isso normalmente acontece em momentos-limite. Trauma, perda, ruptura de tempo, contato com uma relíquia antiga, ou... – ela a olhou de cima a baixo – ...tudo isso ao mesmo tempo.
Lysel sentiu o broche no bolso aquecer. Mais uma vez, como se estivesse respondendo ao ambiente – ou à conversa.
– O que acontece com os Despertos?
– Depende – respondeu Jéssica, séria. – Alguns aprendem a controlar. Outros... se quebram. O Éter é instável pra quem nunca o treinou. Mas o Caos... o Caos é outra história.
– Qual é a diferença?
Jéssica hesitou antes de responder.
– O Éter é a energia da ordem. Ele flui através de intenções, palavras, rituais, concentração. É como um rio: se você souber onde pisar, ele te leva. Mas o Caos... o Caos é mar aberto, tempestade sem mapa. É vontade pura, bruta, viva. Ele escolhe. E rejeita. E às vezes, corrói.
As palavras ficaram no ar por um momento, pesadas demais para desaparecerem logo.
– E você? – perguntou Lysel. – Usa Éter?
Jéssica sorriu de lado.
– Éter é meu parceiro de crime. E às vezes, eu acho que ele gosta mais de mim do que deveria.
As duas riram pela primeira vez desde que chegaram à Academia. Por um instante, Lysel sentiu algo se abrir dentro dela. Um alívio. Uma fresta de leveza.
Mas durou pouco.
Enquanto cruzavam uma sala de passagem – uma espécie de estufa encantada cheia de plantas flutuantes – algo dentro do bolso de Lysel brilhou com força. Ela estacou.
– O broche... está reagindo.
Jéssica se virou na mesma hora.
– Tira ele do bolso. Devagar.
Lysel obedeceu. O broche, rachado ao meio, parecia pulsar uma luz âmbar, como se um coração dormindo estivesse despertando.
No instante em que a luz tocou o solo da estufa, as plantas ao redor – antes flutuando pacificamente – encolheram como se temessem algo. E então, do centro do salão, uma fenda apareceu.
Exatamente como no celeiro. E no porão de Rivka. E no beco do relógio.
Jéssica deu um passo à frente, mas Lysel a segurou.
– Não. Fica atrás de mim.
– Lysel... o que é isso?
– É o que me segue.
Da fenda, uma sombra começou a emergir. Não era tão grande quanto a do porão – ainda – mas se mexia do mesmo jeito, como fumaça viva tentando aprender a respirar. A luz da sala oscilou. Um alarme mágico, silencioso, piscou no teto.
– A segurança vai chegar em dois minutos – disse Jéssica, com os olhos fixos na criatura. – Tem certeza que não quer sair correndo?
– Tenho.
Lysel deu um passo. A criatura avançou um pouco, mas parecia hesitar. O broche brilhava mais forte, e sua pele exibia de novo aquelas finas rachaduras douradas que Elias havia visto. A mesma marca.
Ela ergueu a mão.
– Eu não sei o que você é.
– Mas sei que você me reconhece.
– E eu não tenho medo de você.
A sombra parou.
Por um instante, o mundo ficou em suspensão.
E então, a criatura recuou. Voltou para dentro da fenda, que se fechou com um som seco, como uma tampa de baú mágico sendo selada à força.
Jéssica levou alguns segundos para conseguir respirar.
– Ok. Isso foi... diferente.
Lysel tremia. Mas estava de pé.
– Eu acho...
que ele não quer me machucar. – Disse Lysel – Eu acho que ele… está seguindo por causa de quem eu sou.
– E quem você é, exatamente?
Lysel olhou para o broche em sua mão.
– Uma Ruptura.
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