Vórtice do Amanhã

8 Entre as Portas de Si Mesma


O som veio antes da luz. Uma espécie de respiro abafado, como se o universo estivesse inspirando depois de uma longa ausência. Lysel abriu os olhos devagar, sentindo como se a própria existência estivesse tentando se recompor em pedaços. Tudo parecia mais pesado, mais lento – não por estar imóvel, mas porque o mundo ao redor ainda decidia como deveria existir.


Ela não estava mais entre eras. Estava... em algum lugar.


Acima de sua cabeça, uma cúpula infinita feita de vidro rachado revelava um céu que não era céu. Nele, constelações se rearranjavam sozinhas, formando palavras que desapareciam antes de serem lidas. Abaixo de si, o chão era feito de livros – centenas, milhares – empilhados como azulejos de uma biblioteca esquecida. Alguns títulos estavam em línguas que ela nunca vira. Outros traziam seu nome na lombada.


“Lysel Vernay – Ano 3001.”

“Lysel Vernay – Crônicas de Quando o Tempo Caiu.”

“Vernay, L. – Arquivos Proibidos, Tomo 13.”


Ela ficou de joelhos, estonteada. Cada livro parecia pulsar levemente, como se tivesse batimentos próprios. Ao tocá-los, sentia pequenos choques — memórias que não viveu.


Num deles, ela viu-se mais velha, vestida com armadura azul, liderando magos contra sombras num desfiladeiro. Em outro, era apenas uma criança com um olhar vazio, sendo levada por homens mascarados através de um túnel de espelhos.


Nenhuma dessas memórias era dela. E, ao mesmo tempo, todas pareciam ser.


– Onde... eu estou? – sussurrou.


A resposta não veio com palavras. Veio com reflexos.


À frente dela, numa parede de vidro líquido, um espelho se formou. Mas não refletia seu corpo atual. Refletia versões. Uma após a outra. Cada Lysel de uma linha distinta. Algumas pareciam sombrias. Outras iluminadas. Uma, em especial, chamou sua atenção.


Ela estava ferida, com o broche partido em três pedaços. Os olhos brilhavam em dourado pleno, e havia algo em sua postura – uma firmeza, um silêncio carregado de conhecimento – que fazia a própria sala estremecer. Foi essa versão dela que a respondeu.


– Você não é a primeira. Mas pode ser a última.


Lysel recuou.


– Você... é... eu?


– Uma de nós. Ou uma sombra. Aqui, tudo que foi e tudo que será se encontra. Você atravessou demais. Deixou pegadas demais. Agora, o tempo está na sua cola...decidindo o que fazer com você.


Mais espelhos surgiram, criando um corredor de versões. Algumas Lysels choravam. Outras gritavam. Uma cantava. Uma segurava uma criança. Outra estava completamente em chamas. O chão começava a estremecer sob seus pés.


– Eu não escolhi isso! – gritou Lysel, os olhos marejados. – Eu só queria entender. Eu só queria ficar com ela. Eu só queria um tempo onde pudesse existir sem ser caçada!


O reflexo ferido sorriu com tristeza.


– O tempo não é sua casa. É a sua prisão com portas disfarçadas. Mas... às vezes, quem escapa encontra outro tipo de lar.


Lysel fechou os olhos. Queria fugir. Queria correr. Mas as portas ao redor dela estavam todas fechadas – barradas não por rachaduras, mas por versões dela mesma que ainda não haviam vivido o suficiente para abrir aquelas portas.


Um som ecoou.


Passos.


Alguém mais estava ali.


Eles se aproximavam firmes, ecoando como batidas no centro do universo. Cada pisada parecia rearranjar a própria arquitetura do lugar. As estantes se moviam, os espelhos tremulavam como água agitada e os livros ao redor sussurravam em línguas sobrepostas. Lysel girou sobre os calcanhares, tentando identificar de onde vinham, mas o som reverberava de todos os lados.


Até que uma sombra surgiu entre as colunas de espelhos.


Era alta, envolta num manto preto costurado com fios de prata. Não havia rosto, apenas uma máscara. Uma máscara curva, de aparência antiga, dividida ao meio – um lado dourado, o outro, vermelho-escuro. As bordas pareciam rachadas, como se o tempo tivesse tentado quebrá-la e falhado.


Lysel recuou, o coração batendo mais rápido. Havia algo profundamente errado naquela figura. Um frio percorreu sua espinha, como se seu corpo reconhecesse o perigo antes da mente entender.


– Quem... é você? – sua voz falhou.


A figura continuou caminhando devagar pelo ambiente, circulando a garota em silêncio em silêncio. Se mantendo no escuro.


– QUEM É VOCÊ? – Lysel gritou dessa vez


Ele então parou e era quase como se ela conseguisse sentir, mesmo sem ver, que o homem sorria para ela por debaixo da máscara.


– Alguns me chamam de sombra. Outros, de vestígio. Mas você me conhece por outro nome, não é? ... de Cavaleiro da Lua de Sangue.


Ela começou a pensar, procurava na sua mente o que ele era, de onde o conhecia. Foi então que ela notou. O homem dos seus pesadelos. A figura que a observava.


– Cava…


– CAVALEIRO DA LUA DE SANGUE – Ele gritou em um tom sarcástico e cínico. Como se estivesse se divertindo ali.


Lysel estremeceu. Ela achou que ele não existia. Mas seu corpo inteiro sabia que aquela presença não era algo irreal. Não era um professor, nem uma criatura das aulas de Aetherfall. Ele era algo diferente. Algo... antigo e totalmente perigoso.


– Você não devia estar aqui – disse ele. A voz não vinha da máscara, mas da própria estrutura ao redor. Como se os espelhos falassem por ele.


– Eu não vim por vontade própria.


– Nenhuma ruptura vem.


– Uma criatura me caçou. Ele disse que eu era um erro.


O Cavaleiro inclinou levemente a cabeça, como se observasse além das palavras.


– Ele acredita estar corrigindo o que nunca deveria ter nascido. Você... é uma história sem autor. Um enredo que escapou do controle. Um ponto onde linhas se cruzam e confundem a tapeçaria do tempo.


– Isso é culpa minha? Eu não pedi nada disso!


– O tempo não responde a vontades. Responde a consequências.


Um dos espelhos ao lado de Lysel brilhou em dourado. Ela viu Jéssica, sentada em um canto escuro de Aetherfall, os olhos inchados de choro, o broche de Lysel em suas mãos, trincado e opaco.


– Ela ainda me espera? – a voz saiu como um sussurro.


– Esperar é o que os vivos fazem quando perdem os que amam – respondeu o Cavaleiro. – É, ela espera sim mas sabe que você nunca irá voltar.


– Por que você está aqui? O que quer de mim?


Ele estendeu a mão. Um livro flutuou de uma das estantes e pousou diante de Lysel. Era encadernado em couro negro e tinha em sua capa o símbolo do broche rachado.


– Este é o livro da sua linha. Incompleto. As páginas estão em branco a partir daqui. Você está no ponto onde você tem duas opções ou escrever... ou desiste.


Lysel tocou o livro. Sentiu o peso de todas as decisões que ainda não havia tomado. O medo, a dúvida, o amor que deixara para trás — tudo parecia pairar sobre aquela capa escura.


– Eu não quero desistir.


– Então escreva. Mesmo com o tempo contra você. Mesmo com versões suas que falharam. Mesmo com o Caos assistindo.


– Como eu escrevo?


O Cavaleiro da Lua de Sangue desapareceu. Assim, como se nunca tivesse estado ali.


E o livro se abriu sozinho.


A primeira frase apareceu em letras douradas, desenhadas no ar:


“Ela escolheu amar, mesmo quando o tempo disse não.”


Lysel respirou fundo. Então deu o primeiro passo adentro da biblioteca viva.


E começou a escrever a cada passo o caminho que mudaria tudo.


●❯ 「☾」 ❮●


Lysel caminhava pela biblioteca como quem atravessa os próprios pensamentos. Cada passo fazia os corredores se esticarem ou se dobrarem. Às vezes, as estantes pareciam espelhos de madeira; outras, pulsavam como corações silenciosos. Era impossível saber se andava em círculos ou se mergulhava mais fundo naquilo que chamavam de "não-tempo".


O livro que flutuava diante dela, com sua capa negra e o símbolo do broche rachado, parecia guiá-la – pairava alguns centímetros à frente, virando páginas lentamente, mesmo sem vento. Frases surgiam e desapareciam nas folhas. Algumas, ela reconhecia como pensamentos íntimos que nunca dissera em voz alta.


“Eu só queria um tempo ficar ao lado dela não fosse um erro.”


“E se eu me esquecer de quem sou?”


“Por que todas as versões de mim parecem tristes?”


Ela parou diante de um vitral imenso no final de um corredor em espiral. Ao invés de cenas religiosas ou heróicas, o vitral mostrava uma mulher caindo por entre linhas temporais. Ao redor, sombras – rostos em forma de relógios derretidos, criaturas feitas de engrenagens quebradas, ecos de vozes antigas. No centro da figura que caía, o broche rachado brilhava.


Era ela.


A porta de vidro ao lado do vitral se abriu com um estalo baixo.


No interior, uma sala circular, forrada de espelhos. Mas dessa vez, os reflexos estavam parados. Nenhum se movia sozinho. Não havia ecos nem distorções. Era como se aquele cômodo estivesse fora até do não-tempo.


Lysel entrou, hesitante. No centro da sala havia uma mesa baixa. Sobre ela, um segundo broche – igual ao seu, mas intacto. E ao lado dele, um bilhete.


Ela se aproximou devagar, os dedos trêmulos. Quando leu, o coração pareceu parar por um instante.


“Você não foi a primeira. Mas pode ser a última. Se quiser voltar, haverá um preço. Algo seu ficará para sempre neste lugar.”


Ela encarou o espelho à sua frente. O reflexo ainda era dela. Cabelos bagunçados, olhos cansados, respiração irregular. Mas havia algo a mais. Uma leve fenda no chão atrás da imagem. Como se aquele reflexo guardasse um portal.


– Se eu atravessar... posso voltar pra ela? – murmurou.


O espelho tremeu. Por um instante, refletiu Jéssica, sentada no campo vazio de Aetherfall, sozinha, os olhos voltados para o céu. O broche trincado em suas mãos. E uma lágrima solitária escorrendo pelo rosto.


Lysel levou a mão ao peito. O próprio broche que usava voltou a brilhar – fraco, mas pulsando. Quase como um chamado. Como se estivesse dizendo: Ainda dá tempo.


Mas o bilhete ainda estava ali. E a pergunta ainda ecoava:


“O que você está disposta a deixar para trás?”


Ela fechou os olhos. Inspirou fundo. E respondeu em voz baixa:


– Qualquer coisa... menos ela.


O espelho se partiu no meio. E por entre os cacos suspensos, um novo caminho surgiu. Ela agora confiante ergueu o rosto e a cada passo que dava pensava nas figuras que a acompanharam até ali e então atravessou o espelho. Foi frio, distorcido e sem controle. A sensação de cair voltou – não como antes, quando era puxada à força pelas mãos do tempo, mas como um mergulho consciente. Lysel havia escolhido.


E isso fazia toda a diferença.


O mundo ao redor reconstruiu-se aos poucos. A cada batida do coração. Cada pulsar trazia de volta uma cor, um som, um cheiro.


Grama molhada. Céu crepuscular. O som distante de folhas sendo pisadas.


Lysel estava de pé sobre uma colina baixa atrás de Aetherfall. Era o mesmo campo onde ela e Jéssica haviam treinado conjurações uma semana antes. A mesma árvore com raízes expostas. O mesmo cheiro de chuva no ar.


Ela estava de pé, mas quase não tinha forças para continuar, estava exausta.


O broche em seu peito brilhou uma última vez e se apagou. Não rachou. Não desapareceu. Apenas... descansou.


E então, uma voz familiar.


– Eu sabia. Eu sabia que você ia voltar.


Lysel levantou os olhos. E lá estava ela.


Jéssica, com os olhos vermelhos de tanto chorar, a jaqueta preta suja de terra, o broche quebrado ainda nas mãos. Mas o sorriso no rosto dela – pequeno, tremido, real – era tudo o que Lysel precisava para não desmoronar de vez.


– Eu atravessei o tempo por você – disse Lysel, com a voz embargada. Ela então caiu de joelhos no chão – Eu tive que abrir mão de algo pra ter você de volta.


Jéssica correu. Em segundos, estava ajoelhada com ela, os braços ao redor, as testas coladas.


– E eu esperei. Porque amar você é a única coisa que parece certa.


Elas ficaram ali por longos minutos. Sem magia. Sem respostas. Apenas duas pessoas tentando existir uma na outra.


– O que você deixou lá? – perguntou Jéssica, tocando o broche apagado.


Lysel pensou por um instante. Os reflexos, as versões, o Cavaleiro da Lua de Sangue. O bilhete.


– Eu deixei uma parte de mim. Aquela que duvidava se era digna de ser amada.


As duas sorriram uma para outra, choraram e se deitaram na grama, encarando um céu que,

por um breve momento, parecia em paz.


Mas no fundo da terra, onde as raízes da magia dormem... o tempo ainda se mexia. Um grande raio caiu próximo as garotas e o céu ficou envolto de nuvens negras.