Vórtice do Amanhã

9 A Batalha no Palácio Celeste


A floresta ao redor de Aetherfall estava inquieta. Os galhos das árvores mais antigas pareciam se mover sozinhos, como se tentassem esconder algo que espreitava entre os troncos. O ar carregava o peso de um prenúncio – e umidade demais para uma manhã de outono.


Lysel sentia o broche adormecido sobre o peito. Ele já não aquecia, nem vibrava, mas sua presença era constante, como se o objeto estivesse apenas esperando a hora certa para despertar outra vez. Ela sabia que algo se aproximava – algo inevitável.


Jéssica caminhava ao seu lado, os olhos atentos a cada som, cada movimento fora do comum. Trazia nas mãos uma esfera de vidro envolta por um anel de fogo. O artefato girava lentamente, lançando faíscas de diferentes cores – um sensor encantado, alimentado por todos os elementos.


– Está oscilando entre Tempo e Espaço – murmurou ela, franzindo a testa. – Tem uma distorção a menos de cem metros. E é grande.


Lysel tentou conter o arrepio na nuca.


– Acha que o padre ainda está aqui?


– Se não for ele, é coisa pior. Mas de uma forma ou outra...é agora.


As duas continuaram em silêncio, atravessando a trilha aberta entre árvores ancestrais, até que o terreno começou a se inclinar. As ruínas do Palácio Celeste surgiram diante delas como uma lembrança viva – torres desfeitas, colunas inclinadas e pedaços de pedra encantada que ainda pulsavam com energia residual. A magia dali era antiga, tão velha que parecia sussurrar em línguas extintas.


– Acha que dá pra usar isso contra ele? – perguntou Lysel, olhando para os resquícios do que um dia fora um castelo lendário.


– Vamos descobrir – respondeu Jéssica, com um meio sorriso. – Se ele estiver aqui, não vai nos dar tempo para pensar duas vezes.


Ela não estava errada.


O chão tremeu. Um rugido partiu do centro das ruínas.


O padre emergiu do coração do castelo partido como uma sombra em movimento. Estava diferente. Os pelos da licantropia agora se mesclavam com marcas arcanas esculpidas na carne. Os olhos ardiam como relâmpagos dentro de uma tempestade de eras.


– Lysel Vernay – rosnou ele. – Ponto de ruptura. Escolhida do Caos. Heresia viva. A última fenda.


Ele avançou.


Jéssica gritou um feitiço e lançou um ciclone de vento que se transformou em agulhas de gelo. Lysel, mesmo sem pleno controle, estendeu as mãos – e o chão ao redor se contorceu em ondas de uma sombra negra distorcida, como se o próprio vazio estivesse tentando fugir.


A batalha havia começado.


O impacto da primeira investida ecoou por toda a floresta. Árvores antigas estremeceram, aves mágicas levantaram voo em debandada, e a própria terra pareceu gemer. Aetherfall não via um confronto como aquele em décadas.


Jéssica se movia com precisão impressionante. Invocava colunas de terra para deter o avanço da criatura e usava rajadas de fogo para desestabilizá-lo. Seus olhos brilhavam com o Éter correndo sob a pele, e seus feitiços misturavam os quatro elementos básicos com destreza. Um escudo de água girava ao seu redor, absorvendo parte dos ataques lançados contra ela.


Lysel tentava manter distância. O Caos em seu interior reagia instintivamente, retorcendo o ambiente à sua volta – rachaduras surgiam onde ela pisava, as ruínas rangiam como se o tempo nelas estivesse acelerando e retrocedendo ao mesmo tempo. Ela não lançava feitiços como Jéssica. Ela reagía, como se fosse uma antena para tudo que estivesse fora de ordem.


O padre avançou novamente, as garras reluzentes de magia negra, a boca escancarada num rugido gutural que fazia as pedras vibrarem.


– Você trouxe o fim até aqui! – rugiu. – Eu existo para consertar!


Lysel ergueu o braço por reflexo, e o tempo entre ela e o padre quebrou – como vidro. Ele atravessou a barreira e saiu do outro lado... atrasado. Como se tivesse tropeçado em segundos perdidos. Ela havia, sem saber como, deslocado um fragmento da linha temporal.


Jéssica aproveitou.


Com um grito, canalizou Éter puro e disparou um raio rosa contra o padre. O impacto o lançou contra o que restava de uma muralha. Pedra e poeira voaram, mas a figura bestial se levantou num segundo, rosnando.


– Ele não cansa – disse Jéssica, ofegante. – E está absorvendo parte do espaço ao redor e de tudo que jogo nele. Essa fenda...acho que ela tá alimentando ele.


Lysel olhou para o coração das ruínas. Uma espiral de energia oscilava ali, flutuando sobre um pedestal antigo. A fenda temporal pulsava lentamente, como se estivesse esperando algo.


– Então se destruirmos a fenda, ele enfraquece – disse Lysel.


– E talvez você também – respondeu Jéssica, num tom sério. – Você está ligada a ela, Lys.


Lysel hesitou. Ela sabia. O broche ainda estava frio, mas agora pulsava levemente a cada vez que o padre se aproximava.


– Não importa, temos que pará-lo ou ele vai destruir tudo mesmo depois de me pegar.


O padre rugiu de novo. Dessa vez, conjurou um círculo de símbolos arcaicos e os lançou ao redor de Lysel. Runas brilhantes, feitas de tempo estilhaçado, se fechavam como uma gaiola invisível.


– VOCÊ NÃO É REAL! – gritou ele, as veias em chamas. – VOCÊ É UM ERRO!


– EU NÃO SOU UM ERRO. – Lysel mirou um soco na prisão e então seus olhos brilharam em dourado e todo o local vibrou.


O broche brilhou. Dourado com rachaduras negras. Caos e Tempo.


As runas começaram a falhar. A prisão se abriu em rachaduras. Jéssica correu até ela, mãos estendidas, canalizando Éter como uma ponte entre seus corpos.


– Juntas – disse, segurando a mão de Lysel.


Lysel sorriu.


— Sempre.


E as duas avançaram juntas, contra o padre.


O mundo ao redor pareceu segurar o fôlego quando Lysel e Jéssica avançaram juntas. A própria floresta se calou – nem o vento ousava soprar enquanto o tempo, o espaço, o Éter e o Caos colidiam dentro das ruínas ancestrais.


O padre rugiu. Suas garras rasgaram o ar, deixando trilhas de energia distorcida. Cada golpe que desferia quebrava a realidade ao redor – rachaduras no ar que mostravam fragmentos de outros lugares, outras épocas: uma igreja em chamas, um campo de batalha antigo, um céu que chovia sangue. Ele estava se desfazendo... ou fundindo-se a tudo.


Jéssica se adiantou, canalizando os quatro elementos ferozmente. Um vendaval de lâminas de ar girava ao seu redor, envolvendo-se com chamas e água congelada. Suas mãos vibravam com Éter puro, os olhos acesos como faróis.


– AGORA! – gritou, e lançou uma sequência de feitiços em direções opostas, obrigando o padre a recuar, desequilibrado.


Lysel, ainda segurando sua mão, sentiu o Caos responder. Ela fechou os olhos, mergulhou fundo, e puxou o tempo ao seu redor. O ar ondulou como água fervente, e então... parou. Tudo congelou.


O mundo ficou suspenso.


O padre pairava no meio de um salto, os olhos arregalados. Pedaços de pedra estavam presos no ar. Faíscas de fogo flutuavam como vaga-lumes imóveis.


Lysel e Jéssica se moveram através do tempo parado.


– Você está... controlando? – sussurrou Jéssica, sem acreditar.


– Não sei. Por um instante. – Lysel se virou para a fenda e caminhou em sua direção.


Ela parou diante dela no pedestal.


Era bela, em seu horror. Um redemoinho de possibilidades. Milhares de linhas temporais dançavam ali dentro, entrelaçadas, algumas já condenadas, outras por nascer. No centro, uma versão pequena de Lysel chorava. Outra gritava. Uma terceira sorria.


Lysel levantou o olhar para enxergar Jéssica que a encarava sem entender logo após tocou o broche. Ele voltou a brilhar. Não em prateado. Não em dourado. Mas em um tom novo — como um nascer do sol atravessando o vidro.


Ela colocou a mão sobre a fenda.


– Pelo agora – sussurrou enquanto sorria para Jéssica.


O tempo retomou o fôlego.


O mundo explodiu em luz.


O padre gritou enquanto era desintegrado pela luz. A fenda se rompeu em milhares de partículas, que se dissiparam no ar como poeira de estrela. O chão tremeu. As ruínas colapsaram sobre si mesmas — não em destruição, mas em reconstrução. A floresta sussurrou novamente. O mundo pareceu respirar.


E então... silêncio.


Jéssica caiu de joelhos, exausta. Lysel também. As duas estavam cobertas de poeira e suor. Mas estavam vivas. Juntas.


– Nós vencemos? – sussurrou Jéssica, olha para Lysel.


– Vencemos.


Lysel se ergueu devagar e deu seu primeiro passo na direção de Jéssica.


O broche... não parava de brilhar.


O chão sob os pés de Lysel se partia como vidro fino. Não havia som. Não havia vento. Apenas uma gravidade invisível puxando, lenta e implacável. O broche em seu peito tremeluzia em luz branca.


– Não – murmurou ela. – Não agora. Não depois de tudo.


Jéssica percebeu o que estava acontecendo. Ela se ergue num salto e se lançou contra Lysel, segurou suas mãos com força desesperada.


– Fica comigo. Você prometeu! – gritou ela, os olhos arregalados, o rosto sujo de poeira e lágrimas. – A gente venceu! Você me disse que queria ficar!


Lysel apertou a mão de Jéssica com força.


– Eu quero. Eu quero mais que tudo.


As bordas do mundo já sumiam. A floresta se dissolvia em partículas. O céu virava um túnel de luzes distorcidas. O Tempo estava levando ela.


– Luta contra isso! – insistiu Jéssica, puxando com as duas mãos. – Usa o Caos, o Tempo, o que for! Fica!


Lysel chorava com raiva. tristeza. Dor.


– TÔ TENTANDO – Ela encarou Jéssica nos olhos completamente devastada – Eu... não consigo. Jéssica... me desculpa.


Jéssica abraçou-a. Com força. As duas caíram de joelhos, enlaçadas.


– Então leva isso com você. – Ela enfiou algo no bolso da camisa de Lysel. – Uma parte minha. Mesmo se não voltar. Mesmo se esquecer como. Você vai lembrar de mim.


O broche brilhou. O chão se desfez.


E Lysel caiu.


Aetherfall desapareceu. Jéssica desapareceu. O mundo... se partiu.


●❯ 「☾」 ❮●


Quando Lysel abriu os olhos, havia fumaça. Nevoeiro espesso. O cheiro de carvão queimado. Sons metálicos. Sinos. Carruagens passando por ruas de pedra. Ela tossiu, se ergueu devagar.


O céu era cinza. O sol mal se via. As pessoas à sua volta a olhavam com estranheza: seus trajes modernos contrastavam com cartolas, vestidos longos, bengalas, luvas de renda.


Inglaterra. Século XIX. Londres.


Ela estava completamente sozinha.


Lysel cambaleou até uma vitrine e viu seu reflexo. Os olhos marejados. As roupas rasgadas da batalha. A mão ainda segurando o broche – que agora estava negro.


No bolso, ela encontrou o que Jéssica colocara. Uma foto, tremeluzente. As duas sentadas sob a árvore perto de Aetherfall. Rindo. As

mãos dadas. O tempo, ali, parecia quieto.


Ela levou a foto aos lábios.


– Eu vou voltar. Mesmo que leve cem anos... eu vou voltar pra você.


E ao longe, sinos dobraram.