Poncho

Saímos do carro e nos olhamos antes de caminhar, aquele era nosso momento, e dei a mão para ela e assim de mãos dadas fomos até a porta para tocar a campainha e prontamente sermos recepcionados por Olívia. Que estava apreensiva para que vinha a seguir.

:- Todos estão reunidos no fundo da casa e lá está acontecendo à festa. – ela se afastou para nós entrarmos, eu tirei uma nota do meu bolso, já reservada para ela. Que pegou e ficou de cabeça baixa.

:- Vamos Dulce! – eu falei seguro de tudo e andamos alguns passos dentro da casa de Eugênio, até sentir Dulce parar de caminhar. – O que foi? — disse quase desesperado pela adrenalina que corria em minhas veias, ou deveria ser ansiedade, não sei exatamente definir.

Ela ficou parada olhando para a direita onde tinham várias fotos espalhadas, e ela sem dizer nada queria ver melhor as fotos, como ainda estávamos de mãos dadas eu fui guiado por ela. Seu olhar estava fixo em uma foto, e eu a encarei também. Eugênio e Angelique abraçados, ele por trás dela, estavam sorridentes e se a foto por si só, já nos incomodava essa invisível fumaça de felicidade piorava.

A foto foi tirada no tempo da faculdade os dois loiros, olhos claros e novos, no início do namoro deles, quando nem amigos nós quatro éramos.

Deixei de olhar a foto e olhei para Dulce, ela tinha um olhar odioso que se tivesse poderes, a foto já tinha pegado fogo no mesmo instante.

:- Vamos. – eu falei para ela que ainda olhava a foto e sequer se mexeu. – Pense em tudo que passamos por causa deles, em tudo que sofremos, esse é o nosso momento de fazer com que eles sofram e paguem por tudo. – falava no sua orelha. E ela engoliu saliva para depois me encara como eu queria, segura de si e com gana de darmos nosso primeiro passo juntos.

:- Vamos encontrar nossos queridos amigos. – ela sorriu, me fazendo sorrir também.

Desde que tinha aberto a porta Olívia tinha desaparecido, típico de pessoas como ela que talvez já estivesse se preparando para quando fosse questionada sobre nossa presença ali, Dulce e eu voltamos para o nosso caminho até o fundo da casa.

Aquele momento nós deixaríamos realmente de sermos números e voltaríamos a usar nossa identidade, usaríamos nossos nomes.

:- Esse anel de noivado, eu lhe dou com todo o meu amor à mulher mais linda dessa cidade. Ou melhor, do mundo. Eu te amo. – A voz de Eugênio enjoativa e carregada de felicidade ecoou pelo lugar assim que paramos na porta que dava acesso aos fundos de sua casa.

Antes que qualquer um dos convidados pudesse se manifestar, senti mão da Dulce ou foi a minha não sei, se apertarem, se fosse o meu caso foi o meu ódio por Eugênio se evidenciar e o sentia tão vivo que pulsava nas minhas veias, ou talvez o sorriso contente que Angelique tinha ao receber aquele anel que representava tanto para ambos. Se eu pudesse eu vomitava ali mesmo.

Dulce soltou minha mão e juntou a sua outra, num encontro barulhento que chamou todas as atenções, ela continuou batendo palmas cada vez mais fortes e altas, e eu a segui comecei aplaudir aquela cena patética.

:- Que lindo! Que cena romântica. – Dulce falou agora sorrindo, e eu segurei meu riso, eu tinha vontade de gargalhar vendo a cara de susto e até pânico de algumas pessoas, velhas conhecidas nossas, outras não fazia ideia de quem seriam.

Apesar de todas as reações apenas duas naquele momento, me interessava, Angelique e Eugênio, o susto inesperado estava estampado e completamente evidente nas suas faces.

:- Por que as comemorações pararam? – eu perguntei falsamente triste. – Vamos fazer um brinde aos noivos por que eles merecem, comemorar esse noivado. – eu fui me aproximando das pessoas e peguei uma cerveja que estava mais perto. Por enquanto. Esse final eu ocultei deles, sorrindo verdadeiramente feliz, por sentir prazer ao ver o incomodo deles com nossa presença, será que eles se lembraram das minhas ameaças naquele instante.

:- O que vocês fazem aqui? – Angelique perguntou confusa, assim como seu olhar que não se decidia se olhava para Dulce ou eu.

:- Viemos para o noivado. – Dulce seguiu meus passos e pegou alguma coisa para comer e deu os ombros falando o óbvio, usando da sua veia irônica que foi adquirida ou talvez reforçada na prisão.

:- Não foram convidados. – Eugênio disse curto e grosso olhando para nós desacreditado.

:- Pois é, mas eu pensei que gostariam de nossa presença aqui, afinal fomos grandes amigos. – ela complementou um sorriso sarcástico. – E aproveitamos nossa recente e — Dulce encheu a boca para dizer. – definitiva liberdade.

:- Isso não é possível. Não pode estar acontecendo! – Angelique olhou para Eugênio se abraçando ao corpo dele, não pude deixar de reparar nos tremores. – Vocês não são bem vindos, aqui. – Eugênio falou seriamente. – Como entraram?

:- Aproveitamos um momento de distração da empregada, não brigue com ela, não tem culpa, na verdade não pudemos conter nossa ansiedade de revê-los. – Dulce falou.

:- Não somos bem vindos, mas estamos apenas de passagem, não é Dulce? Viemos apenas prestigiar esse dia tão feliz para vocês dois. – sorri, complementando a fala dela.

:- Vocês estão livres? – Alma, mãe de Eugênio nos perguntou receosa ainda sem acreditar na nossa presença ali, depois de tantos anos.

:- Sim. – Dulce sorriu se aproximando mais e mais. – Pena que não ficaremos mais um tempo e desfrutar da felicidade do casal, mas temos um jantar importante esta noite. Sim, Poncho? – ela me olhou divertida desfrutando tanto como eu do momento embaraçoso de todos.

Eu confirmei com a cabeça o nosso jantar. E junto com ela voltei a olhar o casal que estava acuado.

:- E antes de irmos eu quero dedicar esse brinde ao casal, — ela levantou a taça com uma bebida qualquer que ainda tinha nas mãos. – a esse noivado, e especialmente a esse reencontro. – e bem próxima do casal os encarando olho no olho. – a felicidade do casal. — para finalizar ela tomou um gole para depois encará-los!

Anos e anos que passamos na prisão, desejando esse momento e estava saindo melhor do que minhas milhares de expectativas, eles acuados, surpresos e o melhor com medo.

:- Vamos Dulce. – coloquei uma mão em seu ombro, tentando fazer ela desviar o olhar do casal.

:- Claro, tenham uma maravilhosa noite. – Mais uma vez ela abusou da classe dela, saiu dali majestosa e eu a acompanhei, deixando todos ainda boquiabertos pela nossa presença. Aquele era apenas o começo.

O começo da vingança.

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