Já tinha escurecido, Patrick recém chegou do trabalho, mas Tyna e eu ainda estávamos apreensivas. O lugar mais seguro do mundo não era mais seguro, sentadas na mesa, esperamos Patrick se sentar.

– Que clima ruim, gente, aconteceu algo?- Patrick coloca seu paletó na ponta da cadeira.

– Patrick, há algo de muito errado aqui. — Tyna responde, consigo sentir o nervosismo trêmulo em sua voz. — Os homens que mataram o pai dela, estão atrás dela agora.

– O que? — Ele se espanta. — O que aconteceu?

– Fui ao mercado, logo depois que você saiu, e eu encontrei o homem que matou meu pai. — Fiz uma pausa para respirar, engoli a seco as palavras. — E ele jogou isso na nossa janela. — Entrego-lhe o papel.

– O que é isso? Eles acharam nossa casa? Devemos ir a polícia agora mesmo dar queixa.

– E falar o que? Eles estão atrás do dinheiro que meu pai deve à eles. — Paro e penso um pouco. Meu pai, meu querido pai, aquele que eu sempre achei que fosse politicamente correto estava metido com pessoas desse tipo. — Sim, devo ir a polícia por causa da minha mãe, e de tudo que aconteceu ontem. Mas irei sozinha, não colocarei vocês em perigo.

– Você recém tem 18 anos, Charlotte. — Ele altera o tom de voz. — Não sabe o que pode acontecer lá fora, o mundo é muito cruel com pessoas que não fizeram nada. Agora nós temos responsabilidades em você, e não deixarei passar perigo sabendo que eu posso fazer algo.

– Okay, mas eu tenho que falar. Eu sei como eles são. Eu passei por tudo isso. Eu. — Meus olhos enxeram de água. — É a minha mãe que está desaparecida e foi o meu pai que morreu na minha frente, então apenas eu sei o quão perigoso eles são e vocês não vão correr perigo, entendido?

– Não seja tão infantil! — Ele bate na mesa forte, me assusto, nunca esperaria essa reação dele. — Você perdeu sua família, okay. Eu também perdi meu pai em uma porra de briga de bar. — Os olhos deles estavam molhados, prontos para chorar, sua voz começou a falhar. — Então não pense que você é a única aqui que sabe o que é sentir dor. Entre na porcaria daquele carro e vamos agora a polícia.

– Isso é desnecessário. — Tyna se levanta e olha para nós dois. — Vão brigar apenas para ir na polícia? Todos aqui perdemos alguém importante na nossa vida, mas ninguém deve usar isso contra o outro. Estão loucos? — Ela pega a chave do carro e lança um olhar desafiador para Patrick. — Eu levo a Charlotte, e você, se recomponha.

Me senti a pior pessoa do mundo, briguei com o cara mais solidário que já conheci. Eu só não queria que eles passassem pelas coisas que eu passei, não quero que eles sintam medo de sair de casa. E se estamos sendo perseguidos ou algo do tipo, eles não merecem serem desafiados por desconhecidos e por um assunto que nem é deles.
Entrei no caroneiro do carro e Tyna colocou a chave na ignição, tinha esquecido do quão caro aquele carro era, mas eles eram tão simples. Não era uma boa hora para perguntar seu estado financeiro. Apenas queria chegar na polícia, falar o que for preciso e voltar para pedir desculpas para Patrick, o peso na minha consciência estava me destruindo.

– Olha, me desculpe pelo Patrick, ele é todo fissurado com esse negócio de estar seguro e tudo mais.

– Não tem problema, eu errei em discutir com ele. — Aquilo doeu, já que sou orgulhosa, mas sempre temos tempo para mudar.

– É que... bem, nosso pai morreu quando ele tinha uns 10 anos, eu tinha uns 4 anos então nem lembro direito de como foi. Mas desde então, ele que cuidou de tudo. Sempre presando a minha segurança e a segurança da minha mãe.

– Onde ela está?

– Nossa mãe? Na casa dela, ela fica com o filho do Patrick nos dias de semanas por que ele não tem tempo para ficar com ele. — Aquela notícia desceu rasgando, Patrick tem um filho?

– Espera, espera, espera. Patrick tem um filho? — Olhei indignada para Tyra.

– Todos tem a mesma reação. — Ela ri enquanto joga seu cabelo negro como a noite para trás. — Sim, e ele não é tão novo assim, deve estar com uns 10 anos.

– Meu Deus. Mas quantos anos o Patrick tinha quando teve ele? Melhor, quantos anos Patrick tem?

– Patrick está entrando na casa dos 30. — Ela estaciona o carro no estacionamento da delegacia. — Depois desse "acidente", ele nunca mais se relacionou fixamente com uma mulher.

Tirei o cinto, ainda digerindo a notícia estrondosa e sai do carro. Ainda tenho tanto para saber sobre Patrick, Tyna... e até mesmo sobre meu pai. Subimos a escada juntas, conseguia sentir o apoio moral que ela estava me dando, queria segurar a mão dela, um abraço. Qualquer coisa. Estava tão nervosa que estava quase desistindo de toda essa história de polícia.

– Sabe o que falar já?.

– Provavelmente. Será que eles vão achar minha mãe, Tyna? — Encolho os lábios e olho para ela, estávamos parada na porta de vidro, a um ponto de entrar e jogar tudo para a polícia.

– Eles vão fazer o melhor deles, nem que eu tenha que socar a cara de cada um. — Ela ri. — Vem cá, me dá um abraço.

Abracei ela forte. Realmente não sei se faria isso sozinha, precisava de alguém sempre. Sou menos forte do que esperava, isso que eu nunca tive muita expectativa em mim.
Entramos na sala do delegado Johnson. Era um homem de aparência forte, aparentemente bonito, bem bonito. Ele tinha cabelos grandes jogados para o lado, porte físico malhado e estava usando uma camiseta que me fizera pensar como ele conseguiu entrado ali. Seus olhos castanhos nos olharam de cima a baixo, me senti um pouco encabulada, e pelo visto, só eu que me sentia assim, já que Tyna estava toda alegre olhando para ele. Nos sentamos na frente dele, ele colocou suas mãos sobre a mesa e entrelaçou seus dedos, ficou encarando-nos.
Expliquei toda a minha história, até os mínimos detalhes. Tyna ajudava a me reerguer quando eu apenas queria chorar. Fiz o retrato falado da minha mãe e disse quais eram as roupas que ela estava usando da ultima vez que a vira. Ela estava tão linda, sempre magra e alegre, sendo obcecada com o meu peso e seus cabelos ruivos. Eu amava tanto ela.

– Charlotte, eu sei que isso pode ser um tanto difícil pra você, mas você saberia me descrever este cara que te persegue? — O delegado me olha com uma cara de piedade.

– Sim, sim. Ele era alto, talvez 1,90m de altura, tinha cabelo raspado, quase da mesma espessura que sua barba pelo rosto inteiro. Era uma barba bem rala, tinha lábios grossos e uma cara de quem não estava tendo um bom dia. Seu nariz era grande, mas não era deformado, era um nariz de homem. — Tive a imagem dele na minha cabeça, quanto ódio. Meu olho roxo recém estava curando do soco enorme que ele tinha me dado. — Era um rapaz bonito, tinha um sorriso irônico e olhos desafiadores.

– Charlotte, esse homem se parece com este aqui? — Ele pega o desenho da mão do rapaz que estava fazendo o retrato-falado. Meu estômago embrulhou.

– É ele!