O sol apareceu por baixo da cortina, finalmente tivera amanhecido. Sem duvida essa foi a noite mais longa de todas, meu relógio mental pode contar as eternidades que fora esta madrugada. Me levantei e abri a janela, a luz entra com força e chega a doer os meus olhos, parei por um momento para reparar o nascer do sol no fundo dos morros que limitam a cidade. Sentei-me na cama novamente e coloquei as mãos no rosto, por um momento consegui livrar a cabeça de qualquer pensamento que eu sabia que iria fazer meu coração vazio pesar como rocha. Peguei uma mecha de cabelo rebelde e coloquei atrás da orelha, e então apoiei apenas as pontas dos dedos na minha supercílio e finalmente pensei que precisava tomar um rumo em minha vida. Tenho muito a fazer.
Desci as escadas e encontrei os irmãos tomando café da manhã

– Bom dia. — Sorrio com o canto da boca, ainda sinto meus olhos inchados

– Bom dia, Charlotte, não sabia que acordava cedo. — Tyna puxa uma cadeira do seu lado enquanto engole um pedaço do pão caseiro que mastigava

– Eu e meu pai faziamos o café da manhã lá em casa para minha mãe poder dormir mais um pouco. — Vi a cara de Patrick franzir as sobrancelhas de dó. — Desculpa voltar nesse assunto, só estou abalada.

– Que isso, Charlotte. Já perdemos algumas pessoas próximas também, sabemos como é a dor. Respeitamos isso.

– Eu só não quero me fazer de vítim... — Interrompi a frase na metade, eles estão sendo tão legais comigo, não há problema em receber um apoio moral deles. — Não importa, obrigada por tudo isso.

– Tudo bem, mocinha. — Patrick diz enquanto se levanta e veste o paletó pendurado na cadeira. — Você não tem escola agora? É segunda-feira.

– Ah não se preocupe. Me formei ano passado... Bem, Tyna, vou ajudar-te na louça.

– Não, não. Eu preciso da sua ajuda em outra coisa na verdade, eu tenho curso daqui uma hora e não vai dar tempo de eu ir no supermercado, você pode ir pra mim?

– Agora? Claro... Só preciso me vestir e vou, já está aberto?

– Sim, tem um supermercado a umas seis quadras daqui, eles abrem mais cedo e fecham mais tarde. — Tyna me entrega a lista de compras escrita em um papel amarelado junto com um clips com dinheiro, cerca de $30. Me visto e vou.

Não conhecia muito para estes lados, bem na real, não tinha a minima ideia de como me localizar por aqui. Não era muito de sair, e este bairro fica do outro lado da cidade da onde fica minha casa... bem, onde costumava ficar.
Andei reto, em algum lugar eu devia chegar. Pelo visto era um bairro bem de família (que pelo visto ainda não acordaram) e eu estava aqui, no meio da rua. Continuei andando e vi algum movimento, conhecia aquele lugar, era praticamente o centro da cidade, mas não conhecia esse lado. Avistei uma tendinha recém abrindo a duas quadras, fui em direção a ela até que um homem me entregou um panfleto, peguei só por que sou generosa, olhei para ele e dizia

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E tinha a foto de uma garota com uma langerie de couro e um homem só de cueca também de couro. Olhei para trás e vi o homem que entregava, ignorei e ri baixinho. Quem distribui folhetos pornográficos as 7h30 da manhã? Dobrei em quatro partes e coloquei no bolso. Finalmente cheguei até a tendinha, um homem velho com barba branca rala, que me lembrava os lenhadores da parte mais rural da cidade, era quem atendia o mercado. Comprei tudo o necessário que estava na lista e fui embora.
Caminhando de volta para casa, sinto um sentimento estranho, uma sensação ruim. Pensei que fosse só uma queda indesejada de pressão ou a tristeza frequente, mas não era, eu estava sendo vigiada, tinha plena certeza que sim. Olhei para trás por cima do ombro e não via nada, nem carros estacionados. Devia ser algo da minha cabeça, apenas apurei o passo, não estava tão longe de casa.
A sensação não passava, apurei meu passo mais ainda, estava quase correndo. Mordi meus lábios e continuei a andar na brisa fria da manhã. Parei na esquina para atravessar e um carro quase me atropela, um carro preto. Enquanto ele passava por mim e eu me assustava, o vidro baixou, eu conhecia aquele cara. Era um homem de cabelo raspado, porte alto, bem apessoado. Era o homem que matou meu pai. Meu estomago embrulhou, senti vontade de vomitar e consegui sentir minha pele gelar.
Corri para casa como nunca tivera corrido antes, estava com vontade de gritar por ajuda mas precisava chegar em casa, era minha prioridade. Nem olhei para trás para ver se estava sendo perseguida. Estava desesperada, ofegante. Minhas pernas não tinham mais controle, estava tendo um surto de adrenalina, poderia pular um muro de dois metros facilmente se fosse preciso. Estava trêmula e com certeza pálida, as sacolas na minha mão chegavam a sacudir de tão nervosa e assustada que eu estava. Cheguei no jardim da casa que eu estava hospedada e bati na porta com força.

– Tyna! Tyna! Abre a porta!! Abre a porta!! — Grito do lado de fora, batendo desesperadamente na porta.

– Hey, hey, Charlotte, o que houve? — Ela abre a porta, assustada. Eu entro correndo e paro no meio da sala.

– O homem que matou meu pai, eu encontrei ele, ele estava no mesmo carro, com aquele mesmo sorriso irônico. Eu sai correndo, eu vi o homem que matou meu pai! — Comecei a tremer e a gaguejar.

– Calma. Tem certeza que era ele? Vários homens tem carros pretos aqui nessa região, você pode ter confundido ele.

– Não, Tyna, você não entende! Era ele sim! Eu nunca vou esquecer aquele rosto.

– Okay, vou pegar uma água com açúcar pra voc... — Tyna é interrompida com uma pedrada na janela, ela quebra e a pedra rola até para perto de mim. Tinha um papel enrolado nela.

Peguei a pedra e desenrolei o papel, estava escrito em caixa alta: "AINDA NÃO ACABOU."