Vozes de vidro
2 Uma manhã qualquer
Elizabeth vai saltitando até a porta do quarto e faz um gesto para que eu a acompanhe para o café da manhã. Faço que sim com a cabeça e ela abre um sorriso meio desajeitado que alegra as minhas manhãs. Mesmo com a visão ainda meio embaçada percebo aquele sorriso tão lindo e viciante, é quase impossível deixar de notar.
Perco-me nos pensamentos, e quando volto à realidade, percebo que ela não está mais na porta do quarto sorrindo. Sento na beirada da cama, ainda sem conseguir abrir totalmente meus olhos, levo minha mão à pequena mesa ao lado da cama, tateio a pequena mesa de madeira amarela até encontrar os remédios que Elizabeth separa todas as manhãs com um copo d’água para que eu não esquecer de tomar.
Com o copo na mão, coloco os remédios na boca, e bebo a água. Faço uma cara de desgosto. Nunca gostei de tomar esses remédios, eles têm um gosto amargo. Sinto descer lentamente pela minha garganta, deixando uma sensação de amargura que me deixa com mais cede.
Coloco o copo vazio em cima no móvel e lentamente abro os olhos. Observo o quarto lentamente até perceber a luz forte do sol que passa pelas janelas e pelas finas cortinas de cetim brancas.
Levanto e dou uma leve espreguiçada enquanto caminho para o banheiro. Paro na frente do espelho, dou uma rápida olhada na minha cara de sono e meu cabelo bagunçado. Puxo todo meu cabelo e o prendo em um coque. Abro a torneira e encaro a água descer pelo aço frio. Passo um pouco no meu rosto e esfrego meus olhos.
Fecho a torneira, pego a toalha seco meu rosto e minhas mãos enquanto eu me encaro no espelho. Dou um pequeno sorriso.
— Esses pesadelos tem que parar — digo ao meu reflexo.
Dou um longo suspiro e coloco a toalha na pia e vou em direção à escada.
Enquanto desço consigo ouvir Liza cantando junto com a música no rádio enquanto serve os sucos na mesa que estava toda ajeitada.
— Vai querer suco do que? — ela pergunta quando percebe minha presença.
— Tem o de...
— Frutas vermelhas? Sim — diz ao abrir a geladeira e tirar uma jarra de vidro com um líquido vermelho dentro.
— Nem sei porque você ainda me pergunta.
— Ah! Vai que você muda de ideia algum dia.
Ela fala de uma maneira tão alegre e feliz. Nunca para de sorrir. Principalmente no café da manhã.
— Vai me perguntar qual pizza eu quero também? — pergunto em tom de deboche e dou uma risada enquanto arrasto uma cadeira para me sentar.
— Você não tem escolha, são os restos de ontem. Só tem de pepperoni.
Eu a encaro e ela me olha de volta enquanto se senta na cadeira do meu lado como de costume. Ficamos assim por um tempo até que eu começo a rir. Sempre perco nesse jogo.
— Perdeu — Liza diz enquanto levanta-se para pegar a comida que estava esquentando no forno.
Elizabeth tira bandeja com as fatias de pizza do forno e coloca em cima da mesa. Ela se senta novamente.
— Bon appetit — ela diz com um péssimo sotaque e eu rio — Come e para de rir do meu sotaque.
Nós duas rimos enquanto nos servimos.
— Ótimo jeito de começar uma segunda-feira não acha? — pergunto enquanto mordo um pedaço da pizza.
— Nossa! Sim! — ela responde com a boca cheia de pizza.
— Mas quem vai dirigir hoje?
— Você vai. Já fiz o café da manhã e arrumei a mesa.
— Você fez o café da manhã?
— Fiz.
Solto uma risada enquanto bebo o suco.
— Você só esquentou a pizza e colocou os pratos na mesa.
— Eu esquentei a pizza não foi? Então você dirige.
— Tudo bem. Sem problemas. E você lava a louça.
Liza revira os olhos, ri e dá de ombros.
— Eu sempre lavo a louça.
— Eu sei. Mas não vamos nos atrasar.
— Nunca.
Pego as chaves do carro que ficam penduradas em um pequeno porta-chaves improvisado com uns ganchos de metal e um porta-retratos. Abro a porta da frente da casa e vou andando lentamente até o carro. Entro no carro e jogo minha bolsa no banco de trás; coloco a chave no contato e espero Liza.
Ela aparece toda apressada calçando o Vans preto que sempre usa, fecha a porta de casa às pressas e corre até o carro.
— Desculpa a demora — ela diz quase com falta de ar.
— Nossa, calma, respira. A gente não vai se atrasar.
Ela ri.
— Me distraí.
— Com o quê?
— ...
— Não foi com o esquilo que fica na nossa árvore né?
— Foi — ela diz com a cabeça baixa.
— Não tem como não se distrair ele é muito fofo.
Ela me olha e começa a rir.
— Sim. Ele é.
— Agora vamos.
Ligo o carro e abro a garagem. Ligo o rádio e sigo em direção à faculdade.
Fale com o autor