Chegando na faculdade, estacionei o carro, desliguei, peguei a mochila no banco de trás e saí. Fechei a porta, me encostei na porta gelada, abri minha bolsa, peguei um cigarro e o isqueiro.

— Vai querer também, Liza?

— Claro — diz ao sair do carro e se aproximar de mim com o braço esticado para pegar o cigarro.

Abro novamente minha mochila e tiro mais um cigarro do maço e entrego pra ela. Coloco o cigarro na boca, acendo com o isqueiro e o entrego para Liza. Trago a fumaça e sinto descer pela minha garganta e preencher meus pulmões com um sabor levemente amargo e destruidor.

Sempre ouço as pessoas dizerem que não faz bem fumar. Mas nunca tive pais que se importassem ao ponto de me fazerem parar. Também nunca precisei deles. Sempre soube me cuidar. Sempre soube meus limites.

O vento frio passava arranhando minha pele, o que me fez encolher por um momento até que, depois de uns segundos, o calor da fumaça do cigarro já era suficiente para não me deixar mais com frio.

Quando me dei conta, Liza já estava encostada no carro bem perto de mim. Sentia o calor de sua pele através dos tecidos que nos protegiam do frio. Isso me aqueceu ainda mais, e me deixou confortável.

— Você anda muito distraída. Está tudo bem? — Liza pergunta enquanto solta a fumaça.

— Sim, só estou preocupada com tudo o que está acontecendo. Todo o estresse da faculdade. Você me conhece. Sabe como eu fico nessa época.

Ela não diz nada. Apenas assente com a cabeça e volta aos seus pensamentos. Ela está preocupada. Eu também ficaria se tivesse acontecido com ela. Também cuidaria dela como ela cuida de mim. Só não queria que ela ficasse assim. Não foi culpa de ninguém.

Dou o último trago, apago e jogo no lixo. Sou educada pelo menos. Não fico jogando em qualquer lugar no chão. Elizabeth faz o mesmo.

— Agora... Aula? — pergunto animada.

— Aula — responde com um aceno e sorri.

Subimos a escadaria que dá para as salas de aula. Temos que subir até o último andar. Poderíamos pegar o elevador. Mas sempre preferimos as escadas. Os alunos eram permitidos desenhar nas paredes se forem desenhos conscientes e que tenham algum significado. Por isso prefiro ir de escada a usar o elevador, pois posso ficar apreciando as artes, como se eu conseguisse sentir a dor ou a alegria dos que desenharam.

No final do penúltimo andar, à direita, o que antes era uma simples parede cinza, chata e sem vida, se transformara em um grande lobo branco de aparência dócil e carinhosa que surgia das aquarelas em tons roxos que alegravam o ambiente. Havia feito aquele desenho no meu primeiro ano da faculdade. No começo, todos paravam para apreciar, ficavam admirados, mas aos poucos as pessoas mudam, e começam a se preocupar com coisas fúteis, sem perceber a beleza das coisas. Fiz esse desenho esperando que as pessoas entendessem.

Vivemos em um mundo tão cheio de cores, mas parece que elas não significam nada, só estão lá para satisfazer, como uma forma de diferenciar um objeto do outro. As pessoas olham, mas não enxergam a beleza. Não percebem que o mundo está se desfazendo, as cores estão se desvaindo. Tudo está mais preto e branco, mas ninguém liga. Essa era a ideia do desenho.

— Sempre amei esse desenho — Elizabeth diz quando passamos pelo lobo.

— Eu também — digo com a cabeça baixa e com as mãos no bolso do casaco, sem nem mesmo olhar de canto para Liza. Consigo sentir sua cara de preocupação. Mas continuo seguindo meu caminho.

Depois de alguns segundos, sinto o braço de Liza entrelaçar minha cintura e me virar para ela, enquanto, gentilmente, leva sua outra mão ao meu pescoço e aproxima meu rosto ao dela, e sinto seus doces lábios se juntarem aos meus. Levemente, sinto Liza passar sua mão pelos meus cabelos, e me puxar cada vez mais perto pela minha cintura. Sinto uma leve mordida no meu lábio inferior depois do longo e carinhoso beijo. Ela afasta o rosto e da um lindo sorriso. Eu sorrio de volta e reviro os olhos. Ela da de ombros.

— Eu sei como te deixar melhor — ela diz ao se virar e seguir até última escada.

Entramos na sala e tudo estava normal, no sentamos nos nossos lugares de costume: no fundo da esquerda. A sala não era muito grande, muitas pessoas saíram conforme foram passando os anos. Assim que nos sentamos, o professor entrou na sala seguido de um homem de terno cinza, era alto e robusto, dei uma leve risada quando a luz refletiu na sua careca brilhante, mas gelei quando percebi que ele estava olhando diretamente para mim, e eu, envergonhada, desviei o olhar, mas ele não parava de me encarar.

— Bom dia galera! — disse o professor em um tom alegre, porém meio assustado ao colocar seu material na mesa. Ele também estava me encarando — O diretor geral da faculdade veio hoje para dar os recados importantes sobre como vão funcionar essas últimas semanas aqui.

— Bom dia, meu nome é Gabriel e como já foi dito, sou o diretor geral dessa faculdade, e estarei aqui com vocês até se formarem — começou seu discurso, e eu sabia que ia ser entediante, então pensei em pegar o caderno na minha bolsa e fazer alguns desenhos enquanto ele falava, mas percebi que ele não tirava os olhos de mim, então ficava o encarando de volta. O que ele quer comigo? Estava tão focada no medo que sentia por ele ficar me encarando, que não consegui prestar atenção no que ele falava. Minhas mãos estavam suando, e eu estava com medo — Sábado... 23... outubro... esconder um segredo... importante... formatura...

Depois de todo seu discurso, ele agradeceu, e antes de se retirar da sala, olhou deu uma leve risada ao olhar para mim, ele sabia de alguma coisa. Enquanto o professor dava a introdução àquela aula, me virei para Liza.

— Você percebeu que... — falei tão baixo que me assustei, minha voz parecia ter sumido.

— Ele ficou te encarando? Mas é óbvio. Você ouviu o que ele disse?

— Não, era importante?

Liza colocou sua mão no meu pescoço e fez carinho na minha bochecha.

— Era muito importante. Mas eu também não entendi muito bem. Era alguma coisa que somos importantes, que vai ser a nossa vez de guardar “o grande segredo”. Essas coisas que devem falar para todos os formandos. E que dia 23 de outubro é a formatura.

— Entendi.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.