Ela não soube precisar quando a caixa chegou ou quem a deixara ali. Um dia, ouviu seu nome sendo insistentemente chamado por uma voz ululante vinda de fora.

Abre a porta para mim, Padia. Me deixa entrar.

A moça não desejava abrir. O inverno londrino estava mais rigoroso naquele ano, e sequer tinha dinheiro ou roupas adequadas para sair na rua. O melhor seria ficar ali, perto de sua lareira. Mas a voz era insistente.

Por favor, Padia. Está frio aqui.

Ela sabia que estava, mas manteve-se resoluta. Não conhecia ninguém, nem desejava conhecer. Desde que podia se recordar, estivera sozinha ali, num bairro periférico, isolada de tudo e de todos. No verão, ousava se aventurar pelo restante do terreno, onde mantinha uma pequena horta. Mas no inverno não. Sua casa era um abrigo que a protegia dos males mundanos.

Acho que não deseja me receber. Eu apenas queria ser sua amiga. Sinto muito por incomodar.

A mulher não soube explicar porque aquelas palavras mexeram tanto consigo. Nunca tivera amigos antes. “Me pergunto qual será a sensação de tê-los”.

Tomada pela curiosidade, correu até a porta, abrindo-a com exasperação. E lá estava ela, intacta e paciente.

Era a caixa misteriosa.