Olhou-se no espelho mais um vez, ajustando a camiseta sobre o corpo e vestindo o casaco preto por cima, estava totalmente de preto, querendo disfarçar todas as possíveis curvas e formas do seu corpo. Ele iriam se encontrar com Harry, iriam almoçar, Louis colocaria um ponto final responsável e definitivo em tudo o que envolvesse o empresário e então viveriam suas vidas em paz e longe um do outro… Louis começava a pensar que deveria ter aceitado se mudar para Atlanta com Zayn logo no primeiro dia que falaram sobre o assunto, talvez ele até já estivesse lá.

Soltou um suspiro exagerado e tentou controlar seu nervosismo; sendo realista, mesmo que ele efetivamente tivesse aceitado se mudar com Zayn, eles ainda estariam em Londres — as aulas de Caleb ainda não haviam acabado — e, portanto, Louis ainda teria que ir em um almoço com Harry. Seu celular apitou com um mensagem, que Louis constatou ser de Harry, questionando se ele já estava chegando, pois ele já estava livre para almoçar. Mordendo o lábio com mais força do que precisava, Louis respondeu que chegaria em quinze minutos e então saiu de casa. Fitou seu reflexo no espelho do elevador mais um vez, talvez ele realmente conseguisse passar a imagem de que havia apenas engordado, e não que estava grávido.

Chamou por um táxi e assim que este chegou ele informou para onde ia enquanto se ajeitava no banco de trás; havia parado de dirigir por decisão própria, já que Lindsay o informou que poderia dirigir até o oitavo mês de gestação, sentia-se mais seguro estando no banco de trás tendo como única preocupação a hora em que chegaria em seu destino. Usava o carro apenas quando saia com Caleb para algum lugar mais distante, pois assim era mais fácil de carregar tudo o que uma criança de seis anos poderia precisar., como água, lanches e roupas limpas.

Louis fitou a fachada do restaurante e teve certeza que apenas saiu do carro porque a porta fora aberta por um dos vallets do local — como o pagamento do táxi fora feito pelo aplicativo que usara para chamar, apenas se despediu de forma educada e desceu -. Respirava fundo a cada passo que dava em direção à hosts de sorriso agradável e perguntou-se porque afinal ele estava tão nervoso. Harry não sabia sobre a cerejinha, e não ficaria sabendo, era apenas um almoço para por um fim de uma vez por todas em qualquer assunto ou situação entre eles, mas ainda assim sentia quase como se houvesse uma mão em sua garganta, fechando-a lentamente.

— Bom dia senhor, mesa para quantos? — A hosts o questionou assim que se aproximou o suficiente e Louis fora obrigado a esboçar um sorriso.

— Ah, eu… Tem uma reserva em nome de Harry Styles. — Informou enquanto dava uma rápida olhada pelo local, tentando, mas não tão convencido assim de que queria, encontrar Harry pelo local.

— Ah sim, vou acompanhá-lo, o senhor Styles já chegou. — A mulher continuava a sorrir e indicou que Louis deveria segui-la, e apesar disso ele cogitou se não deveria simplesmente dar meia volta e mandar uma mensagem para Harry avisando que não poderia ir, nem naquele dia nem em nenhum outro.

Mas na verdade, a despeito de todo seu nervosismo e surto com Zayn ao telefone na noite anterior, ele queria ver o Harry. E com esse pensamento um sorriso irônico lhe escapou dos lábios, fugira do empresário, tivera discussões sem fim com Zayn sobre não falar com ou sobre ele, e no final estava em um restaurante para encontrá-lo, para conversarem, para Louis fingir que não tinha o filho dele em seu ventre.

— O garçom já virá atendê-los. — Apenas quando a mulher voltou a falar foi que Louis percebeu estar de frente para Harry e Zayn, que almoçaria com Niall no mesmo local, mas em mesa diferente, apenas para estar por perto caso Louis precisasse.

— Obrigado. — Sorriu com educação e assistiu a mulher se afastar.

— Louis. — Harry se levantou para cumprimentá-lo e Louis teve o cuidado de encolher a barriga, não que adiantaria de muita coisa no fim. — Que bom que veio, sente-se, por favor. — Afastou a cadeira para o rapaz se sentasse, de frente para o empresário. — Como você está?

— Eu estou bem Harry, e você? — Sua voz saiu limpa, firme, ao contrário de como se sentia naquele momento.

— Estou bem, obrigado por perguntar. — Harry desviou sua atenção de Louis para Zayn, que os observa em silêncio. — Tão cansado quanto Zayn com a história da filial, mas tendo esperanças de que será temporário.

— É… Zayn tem me mantido atualizado sobre essa loucura toda para a abertura da filial, confesso que eu imaginava que dava trabalho, mas não tanto quanto quanto estão tendo. — Se a conversa se mantivesse sobre trabalho, Louis conseguiria se sentir confortável, mas ele sabia que era a última coisa sobre a qual Harry queria falar com ele; estavam nesse tópico para quebrarem um pouco do gelo.

— Quando estava pensando em ir para Atlanta, o que eu ainda não decidi totalmente, vamos deixar isso claro, — Zayn pontuou para Harry, que lhe sorriu calmamente — eu tinha chamado o Louis para ir comigo.

— Oh… — Harry pareceu genuinamente surpreso com a informação, fitando de Zayn para Louis e de volta para Zayn. — Eu posso saber por que? — Louis sabia o que ele queria saber de verdade, e tinha certeza que Zayn também, mas é claro que o moreno apenas abriria um largo sorriso antes de falar.

— Recomeço. — Foi toda sua resposta, que talvez fosse melhor elaborada se eles não tivessem sido interrompidos pela aparição de outra pessoa ao lado deles.

— Hey, hey. Tudo bem? — Louis se virou para encontrar Niall Horan ao seu lado, sorrindo radiante para Zayn e logo deixando seus olhos curiosos sobre Louis. — Você é o Louis, não é? — O rapaz ficou surpreso que Niall soubesse seu nome e fitou Zayn com curiosidade antes de confirmar. — Pai do Caleb! Zayn é doido pelo seu filho! Ele me mostrou a foto dele com o rosto todo sujo de chocolate, a coisa mais fofa! — Louis sorriu largamente, porque, bem, Niall estava elogiando seu filho e não havia coisa melhor do mundo do que a sensação de orgulho por sua prole. — Eu sou Niall, a propósito. — Esticou a mão em sua direção, sendo prontamente aceita.

— Eu sei, já ouvi muito sobre você. — Ah, o doce sabor da vingança. O olhar confuso de Niall foi a deixa para Zayn se levantar e se aproximar do loiro.

— Vamos para nossa mesa, álainn¹? — Zayn deixou sua mão pousar possessivamente sobre a cintura do loiro, que sorriu antes de lhe roubar um rápido beijo.

— É tão estranho ver um dos meus melhores amigos beijando meu ex-noivo… — Harry cutucou-os, rindo diante dos olhares deles.

— Não soube cuidar, perdeu. — Niall lhe mostrou a língua. — É brincadeira, blasta². — Acrescentou assim que se virou para Zayn, que o fitava de forma quase cômica. — Meu casamento com Harry seria só de fachada, você sabe disso, não sabe? — Enquanto concordava com o loiro, Zayn o guiava para uma mesa afastada o bastante para que não pudessem ouvir a conversa um do outro, mas Louis ainda foi capaz de ouvir Niall insistindo em explicar que sua fala não passava de uma brincadeira com Harry.

— Eles formam um casal bonito. — Louis comentou assim que viu os dois assumirem seus lugares à sua mesa, depois de trocarem outro beijo.

— Concordo. — Harry não estava olhando para os amigos na outra mesa, seus olhos estavam presos em Louis. — Mas confesso que ainda me parece um tanto cômica a situação.

— Não deveria, Zayn é apaixonado por Niall há anos. — Comentou de forma distraída enquanto finalmente abria o cardápio, e apenas quando notou o silêncio de Harry foi que realmente prestara atenção no que havia dito.

— Eu não sabia disso. — Harry tinha a voz calma, desviando o olhar para o moreno conversando animadamente com Niall. — Por que ele nunca me disse?

— Acho que a pergunta certa é por que ele nunca disse para o Niall… — Louis retrucou com cuidado. — E ele ainda não chegou a contar, então seria bom manter a discrição sobre isso.

— Sim, claro. — Concordou prontamente com a sugestão de Louis, voltando a prestar atenção no rapaz. — Apenas estranhei que ele não tenha me falado nada, mesmo com a história do nosso casamento. — Louis não comentou, não sabia se tinha o que falar sobre o assunto. — Eu poderia ter parado isso tudo antes…

— Zayn tem um jeito muito peculiar de levar a própria vida. — Louis se permitiu um sorriso ao fazer o comentário.

Aquele encontro estava sendo melhor do que Louis acreditou que seria, a conversa ainda não havia entrado em nenhum tópico que ele tinha medo de entrar até o momento em que fizeram seus pedidos, e os receberam instantes depois. Mas Louis soube que começaria a se sentir desconfortável quando Harry deixou de prestar atenção em sua refeição e não respondeu ao seu comentário sobre não gostar muito de pimentões na comida.

— Louis, você pensou mesmo em se mudar para Atlanta com o Zayn? — Questionou com cuidado, observando cada mínimo gesto do rapaz. — Digo, vocês…

— Não Harry. — Achou que seria mais prudente acabar com aquela especulação de uma vez por todas, mais pelo fato de Zayn estar finalmente se relacionando com Niall do que por sua própria vida; Harry poderia pensar o quisesse sobre si. — Eu e Zayn somos muito amigos, quase como irmãos, e é apenas isso. — Fez um gesto mínimo com a cabeça, considerando por um segundo as palavras que falaria a seguir. — Ele é padrinho do Caleb, e é também por isso nós somos bem próximos. — Não havia motivos para não falar mais sobre seu primogênito, ele sabia que eventualmente Harry perguntaria sobre o garoto. Louis não daria detalhes da vida do filho, mas não tinha porque comportar-se como se ele não existesse, Harry já sabia sobre ele. — E sim, Zayn havia me chamado para o acompanhar se ele fosse para Atlanta, e sim, a oferta foi bem tentadora.

— Por quê? O que Atlanta tem a te oferecer que Londres não tem? — Louis o observou por alguns instantes antes de responder, querendo entender o que ela pergunta realmente significava para Harry.

— Atlanta tem tudo a oferecer, principalmente o anonimato. — Harry o fitou de forma cômica e Louis sorriu brevemente. — Eu não sou famoso, eu sei disso, mas meu passado pode ser encontrado, digo… Eu posso estar em um evento da escola do meu filho e ter um ex-cliente ali. — Explicou sem de fato fitar Harry; ele não tinha vergonha do que fez, afinal ele usou as armas que tinha e as oportunidades que lhe apareceram para cuidar de si e de seu filho, não havia motivos para sentir vergonha, ainda assim era desconfortável falar sobre o assunto com Harry, que até há alguns meses era apenas mais um de seus clientes. — Em Atlanta esse risco seria menor… — Deu de ombros, como se o assunto não tivesse importância mais. — De todo modo eu não estava totalmente convencido a ir, e ao que me consta Zayn não vai se candidatar ao cargo de presidente. — Sorriu ao indicar a mesa em que o casal estava sentado.

— Não, acho que não… — Harry tinha uma expressão calma, gostando da conversa que estava tendo, e projetando todas as outras eles teriam. — E Caleb? Como ele está? — Queria saber sobre a criança, queria, talvez no futuro, conhecê-la; a necessidade de participar da vida de Louis estava mais forte ao vê-lo ali na sua frente, com roupas simples e largas e expressão serena. Mas também tinha consciência de que talvez Louis não o quisesse na vida do filho, ou demorasse semanas, talvez meses, para lhe permitir um contato maior.

— Ele está bem, está no colégio. — Louis voltou sua atenção sua refeição, ainda se sentindo desconfortável para falar tão abertamente sobre o pequeno.

— Desculpe, perguntar, mas… Onde você o deixava…? — Não completou a pergunta, ciente de que Louis entenderia sua curiosidade.

— Ele estuda em um colégio interno, Harry. — Louis cravou seus olhos no de Harry. — Não é a melhor coisa e pode parecer que sou um péssimo pai, mas era a melhor solução e isso não faz de mim um pai ruim.

— Eu não disse isso Louis, sequer insinuei. — O empresário notou o tom defensivo de Louis e logo tratou de se explicar. — Eu apenas quero saber mais sobre você, e talvez minhas perguntas sejam invasivas e errôneas, me desculpe.

Louis não respondeu. Sua decisão de apenas encontrar uma forma de tornar o afastamento deles definitivo parecia cada vez menos ter sentido, mas também sabia que precisava fazer isso, pela segurança de seus filhos ele precisava afastar Harry de sua vida, sem chances de retorno. E enquanto Louis pensava no que falar para que isso acontecesse, um barulho alto e forte na mesa ao lado o assustou o suficiente para que largasse os talheres sobre a mesa e levasse as mãos de forma protetora para a barriga, procurando com olhos assustados pela origem do problema; o que encontrou foi uma mulher com os olhos marejados e o rosto vermelho de vergonha enquanto um homem visivelmente raivoso se afastava da mesa em que estivera sentado nos últimos minutos.

— Louis. — Assistiu um garçom e o gerente do local de aproximarem da mulher e conversarem com ela, que apenas pediu a conta para poder sair daquele mar de olhos voltados para si. — Louis! — Com o chamado mais alto e firme, o rapaz voltou sua atenção para Harry, que o fitava de forma preocupada. — Você está bem? Assustou-se muito? — Perguntou com palpável interesse, mas seus olhos desceram do rosto de Louis para suas mãos, que ainda seguravam de forma protetora a barriga saliente. — Você está grávido?

Era uma pergunta simples, e Louis tinha a resposta dela, é óbvio, mas não sabia se deveria dá-la. O simplesmente pensamento de negar era patético, sua barriga estava proeminente, se as roupas a disfarçaram, depois de a abraçar de forma tão protetora não havia a menor chance de sair dali sem dar uma resposta adequada. Fugir do assunto apenas levantaria o interesse de Harry, e então teve a ideia que poderia ajudá-lo com tudo aquilo de uma vez.

— Sim, estou. — Sorriu o mais amável que conseguiu, mesmo que sentisse um gosto amargo lhe subindo a garganta pela mentira que pretendia contar. — Estou de quatro meses. — Completou a informação e ajustou a camiseta, voltando a disfarçar o tamanho da barriga; com sorte Harry não o questionaria mais, sua barriga era pequena, menor do que quando estivera grávido de Caleb, então não via problemas em reduzir em dois meses o tempo de gestação.

— Quatro? Sério? — Harry forçou um sorriso, Louis sabia que era um sorriso falso, seus olhos não tinha brilho algum. — E quem é o pai? — Era perceptível que Harry travou uma pequena luta interna antes de perguntar, e se Harry conhecesse Louis o suficiente, também seria capaz de saber que o rapaz lutava sua própria guerra em sua mente.

— Não está na jogada. — Respondeu com seriedade, tomando um pouco de sua água. — Eu saí uma vez, queria me divertir um pouco, bebi um pouco além, conheci um cara divertido, dormimos juntos e nós não nos cuidamos apropriadamente… Era só um lance de uma noite, então… É isso. — Umedeceu os lábios com a língua, mas sentia sua boca seca e sua garganta arranhando. — Vou ser pai solteiro, de novo. — Harry contorceu o rosto em dúvida.

— Ahn… O pai do Caleb…?

— Foi embora antes dele nascer. — Respondeu com certa frieza. — Acho que eu não teria me prostituído se ele não tivesse feito isso… — Tinha um olhar um tanto irônico no rosto, mas logo o desfez ao perceber o desconforto de Harry com a situação toda.

Louis não queria realmente mentir, mas não conseguia enxergar uma melhor maneira de lidar com toda a situação. Contar a verdade apenas colocaria seu filho em risco, Harry poderia querer tirá-lo de si, já que um aborto não era mais possível, e apenas pensar nessa possibilidade já fazia Louis ter vontade de fugir. Coçou o pescoço e deixou seu olhar seguir até a mesa em que Zayn e Niall almoçavam, eles haviam pedido sobremesas e degustavam os doces enquanto conversavam e riam entre si. Louis gostaria de ter uma vida normal novamente, de apenas sentar e conversar com Harry, de ser sincero e deixar as pedras rolarem, mas ele não podia. Ele tinha dois filhos, e seus filhos sempre seriam sua prioridade, Louis faria qualquer para mantê-los seguros e felizes, e ele não se importava se isso significasse abrir mão de algumas oportunidades na vida.

— Você me contaria sua história? — A voz de Harry o trouxe de volta à realidade, e Louis o observou por alguns instantes, um tanto confuso com a pergunta. — Me contaria como foi sua vida até aqui? O que te aconteceu, como se viu garoto de programa…?

— Para que você quer saber? — Louis não o queria em sua vida, não podia tê-lo próximo a si, contar sua história apenas pioraria as coisas. — Harry, eu tenho um filho de seis anos e estou esperando o segundo, eu não tenho tempo e nem disponibilidade para… Para isso… — Indicou o restaurante e eles próprios. — Você foi meu cliente, tivemos um contrato de exclusividade, e só. — Aquelas palavras doíam em si, mas ele precisava falá-las, precisava, acima de tudo, convencer a si mesmo delas, já que apenas olhar para Harry lhe dava vontade de chorar e contar tudo o que estava sentindo. — Eu não sei o que você queria, ou o que pretendia com esse almoço, mas eu não vou continuar com isso, não vou… Eu não posso. — Harry ainda mantinha silêncio, observando-o de forma quase estática. — Meus filhos são minha prioridade.

— Eu… — Harry começou ao notar que Louis não falaria mais. — Eu só quero ser seu amigo.

— Mas eu não quero.

Não trocaram mais palavra alguma depois dessa declaração de Louis; Harry estava aturdido demais para conseguir falar qualquer coisa e Louis sentia um bolo em sua garganta, que estava ficando maior a cada segundo. Mexeu-se na cadeira e pegou a carteira, pretendia deixar sua parte sobre a mesa e sair, mas Harry o impediu, alegando que o convite fora seu e que ele pagaria a conta. Louis agradeceu e antes que o olhar triste de Harry o fizesse falar ou fazer o que não deveria, despediu-se de forma rápida e saiu do restaurante sem olhar para trás, sequer pensando em se despedir de Zayn e Niall; não queria prolongar o tempo na presença de Harry. Louis foi direto para seu apartamento, onde se escondeu em seu quarto enquanto se deixava chorar em sua cama, pensando e se torturando com tudo o que poderia ter sido, mas que nunca se realizaria.

Notas finais
¹ Álainn significa “lindo” em irlandês. ² Blasta significa “gostoso” em irlandês.