Notas iniciais

Não era como se ele gostasse daquelas festas, ou daquelas roupas, ou das bebidas que serviam nas taças de cristal, ou das pessoas que estavam ao redor, porque ele não gostava. Não era amigo dos outros dois rapazes e três garotas que o acompanharam até ali, não conhecia ninguém naquele lugar, mas ele foi chamado, assim como os demais; e ninguém se importava com o que ele gostava, queria ou pensava, isso não importava, não ali, não para aquelas pessoas. Por isso apenas vestiu seu melhor sorriso enquanto circulava pelo local, procurando quem quer que se mostrasse minimamente interessado em si. Pegou uma taça do que julgou ser champanhe e continuou a andar de forma tranquila entre os convidados, logo parando junto à porta da varanda.

Viu uma das garotas que o acompanhou sentada no sofá com um homem ao seu lado, que passava a mão em sua perna enquanto conversava de forma animada com outro homem. Um dos rapazes conversava com outro homem mais ao canto, tocavam-se vez ou outra, era um flerte inexistente, desnecessário, ambos sabiam onde tudo aquilo levaria, independente das palavras escolhidas, mas pareciam gostar do joguinho deles, e apenas sorriu para si mesmo enquanto os observava.

— Sozinho e interessado em alguém ou esse lindo sorriso não tem destinatário certo? — Aumentou o sorriso e virou-se para fitar o homem que havia se aproximado e parado ao seu lado sem que percebesse.

— Sim e não. — Bebeu um pouco do champanhe enquanto o homem de vividos olhos verdes erguia uma sobrancelha, em dúvida. — Sozinho, e até agora sem interesse, mas talvez meu sorriso tenha ganhado um destinatário…

— Meu nome é Harry. — O homem sorriu de forma mais aberta e duas covinhas ficaram evidentes em suas bochechas. — E você? Quem é?

— Tommo.

— Não é um nome. — Harry inclinou a cabeça, com um sorriso ladino.

— É o que posso te oferecer. — Mordiscou o lábio inferior enquanto fitava de forma descarada o homem à sua frente. — Ao menos quanto ao meu nome… — Desceu o olhar pelo corpo do homem, ouvindo sua risada soar baixa.

— Você é um dos convidados do Josh? — Voltou a encontrar os olhos verdes, que mantinha um sorriso sedutor nos lábios.

Josh Devine era o anfitrião da festa, o homem que ligara na agência que solicitou que ele e os outros comparecessem, então alargou seu sorriso e confirmou com a cabeça, sabendo perfeitamente o que o homem queria dizer com ‘convidados’. Ele não era um convidado, não de verdade. Ele estava ali a trabalho, como entretenimento para homens solitários que não estavam interessados em um relacionamento.

— E você não vai me dizer seu nome? — Harry insistiu e o rapaz riu, terminando sua taça e a deixando sobre o aparador ao lado.

— Talvez eu diga, se você merecer saber…

O homem manteve seu sorriso por mais alguns instantes, descendo de forma nem um pouco discreta o olhar por seu corpo. Sorriu de forma divertida e virou de lado de forma discreta, dando mais acesso ao olhar de Harry, que descansou a mão em sua cintura enquanto aproximava seus rostos.

— E o que você acha de me fazer companhia em outro lugar?

— Acho que vou adorar acompanhá-lo, Harry.

O homem sorriu e, ainda mantendo a mão em sua cintura, o guiou para fora do apartamento, parando apenas para despedir-se do anfitrião, que sorriu de forma sugestiva e um tanto quanto alegre demais para o rapaz. Seguiram pelo corredor claro e adornado com pequenos vasos floridos; não se impressionava com a riqueza dos adornos dourados ou do preço e delicadeza dos vasos e rosas, já estivera em lugares similares antes. O que o impressionava era o comportamento do homem ao seu lado, sua mão quente desviou de sua cintura para a base de sua coluna, e ali permanecia mesmo quando estavam parados, aguardando que as portas metálicas se abrissem.

— Você já jantou? — A voz rouca de Harry o levou de volta à realidade e o fez virar o rosto para fitá-lo. — Podemos passar em algum restaurante.

— Eu estou bem, mas o acompanho se assim desejar. — Sorriu-lhe de forma educada.

— Desejo, porém não quero que faça algo que seja contra sua vontade. — Respondeu enquanto davam os três passos que o levariam para dentro do elevador e apertava o botão para o estacionamento.

— Trata-se apenas de um jantar, Harry. — Comentou de forma gentil, e o maior lhe sorriu.

— Sim, apenas um jantar… — Harry descansou a cabeça no ombro do rapaz, aspirando seu cheiro e deixando um delicado beijo na base de seu pescoço. Virou o rosto para poder capturar seus lábios, porém Harry desviou o rosto com uma risada divertida. — Teremos muito tempo para isso. — Suas palavras resultaram em um risada de descrença; Tommo não estava acostumado com aquele flerte invertido.

Ele era quem deveria jogar, era seu território brincar com as palavras e seduzir com olhares e gestos, mas estava perdendo. Harry tinha um sorriso fácil, um olhar penetrante e intenso, movimentos calculados e palavras certeiras; Harry o estava mostrando que o jogo não era unilateral, e é claro que estava gostando muito disso.

Quando as portas voltaram a ser abrir, deixou-se guiar pelas mãos firmes de Harry e seguiu até o Land Rover preto parado a alguns metros. Harry destravou o veículo e lhe abriu a porta, sorrindo de forma sedutora enquanto o observava aconchegar-se no banco de couro sintético. Tommo o fitou com curiosidade enquanto contornava o carro e escorregava para o banco de motorista e ligava o carro.

Pouco tempo depois ganharam as ruas e Harry ligou o rádio, permitindo que uma música de rock clássico ocupasse cada canto do veículo. As ruas pelas quais passavam não eram familiares à si, mas isso não o preocupou, sentia-se de forma confortável com o mais velho, mesmo que não soubesse como a noite se encerraria. Em poucos minutos abandonaram a parte residencial da cidade e chegaram ao centro, onde circularam por alguns instantes até Harry parar em um restaurante refinado pelo qual já passara em frente, mas não tinha entrado até então. Desceram do veículo e em segundos a mão de Harry estava em suas costas outra vez, guiando-o até a entrada do restaurante onde solicitou uma mesa.

— Já esteve nesse restaurante antes? — Harry o perguntou enquanto se sentavam à mesa e recebiam os cardápios.

— Já passei em frente diversas vezes, mas nunca tive a oportunidade. — Sorriu de forma

contida e levemente sedutora, esperando pela reação que ele sabia que existiria; o olhar se prenderia em seus lábios por alguns instantes, depois subiria para seus olhos e então um sorriso.

— Espero que goste. — O homem lhe sorriu de lado. — É um dos meus restaurantes preferidos, excelente cozinheiro, você pode escolher absolutamente qualquer prato, sem arrependimentos, e a carta de vinhos é bem completa.

— Vinhos. — Descansou o cardápio na mesa, sem sequer checar as opções disponíveis. — É um mundo que muito admiro, porém pouco entendo.

— Escolha o prato e lhe indicarei o vinho. — Sugeriu de forma calma, mantendo seu menu aberto, embora não o fitasse.

— Surpreenda-me com tudo, Harry. — Usou de seu melhor sorriso sugestivo, conseguindo aumentar o sorriso do homem à sua frente.

— Como quiser, Tommo. — Pode sentir o sarcasmo na voz de Harry ao dizer seu nome, mas não se importou.

Ele jamais misturaria sua vida pessoal com a vida profissional; houve uma época de sua vida em que não via motivos para ser duas personas, mas isso foi há tempo e lhe trouxe tantos problemas que apenas não poderia cometer o mesmo erro duas vezes. Simplesmente não havia possibilidades de ser mais do que Tommo.

Harry escolheu os pratos e o vinho, sorriu e iniciou uma conversa banal sobre gostos por filme e música, perguntas neutras, nada que afetasse de forma direta suas vidas pessoais, ainda assim Tommo não pode deixar de se perguntar se o homem tinha realmente ciência de quem ele era. Não precisava de um jantar, conversa banal ou sorrisos sedutores para aumentar a expectativa. Não estavam em um encontro real, mas a forma como Harry se comportava lhe indicava que ele queria acreditar que aquilo tudo era de verdade, como se ele tivessem se conhecido dias antes, conversado de forma casual, trocado telefones e então o convite… Isso não acontecia na vida de Tommo há anos, mas não era como se ele realmente se importasse.

— E então eu estava tão imerso nas cenas do filme que não percebi que minha pipoca estava sendo sorrateiramente surrupiada por uma linda menina de uns quatro anos. — Harry terminou de contar a história, rindo com a lembrança de sua última visita ao cinema.

— Não sei se é mais engraçado a criança pegando sua pipoca ou você estar assistindo um filme para crianças. — Ergueu uma sobrancelha em desafio, assistindo Harry o fitar de forma incrédula.

— Não era um filme infantil! — O homem sorriu e bebericou um gole de seu vinho. — Era um filme de guerra, não sei porque levaram uma criança para um filme de guerra.

— Não era um filme de guerra, era Os Vingadores!

— Não deixa de ter uma guerra.

Por alguns segundos, breves e superficiais segundos, Tommo quase esqueceu-se o real motivo de estar em um restaurante elegante, sentado de frente para um homem rico e bonito; por aqueles curtos instantes quase se convenceu de que estavam ali por existir interesse mútuo, em um encontro romântico e com promessas de futuro. Mas assim que o vinho em sua taça acabou, pouco depois da comida em seu prato, ele se recordou do que deveria fazer, lembrou do que aconteceria depois de pagarem a conta.

— Você quer sobremesa? — Harry lhe ofereceu com um olhar que era quase travesso. — O bolo de chocolate deles é incrível.

— Aparentemente é tudo incrível por aqui. — Brincou suavemente, sorrindo mais uma vez. — Mas estou satisfeito, obrigado.

— Certeza? Vai perder o melhor bolo de chocolate do mundo. — Tommo assistiu os músculos de seu pescoço contraírem e relaxarem enquanto Harry sorvia o último gole de seu vinho.

— Talvez eu tenha uma outra oportunidade. — Comentou casualmente, observando os olhos verdes com atenção e repentino interesse.

Harry parecia ser o tipo de homem que todos gostam de ter por perto; o bom amigo, o bom conselheiro, o bom irmão, o bom chefe, simplesmente o bom, talvez o melhor. Até o momento Harry agira como alguém simpático, atencioso e bem humorado, não era impossível acreditar que ele era o amigo preferido de diversas pessoas. Mas não poderia ser o preferido de Tommo, por diversos e importantes motivos.

Demoraram-se mais alguns minutos enquanto Harry distribuía sorrisos ao pagar a conta e então caminharam de forma calma até a saída, aguardando enquanto o manobrista buscava pela Land Rover. Sentiu-se confortável ao voltar a ocupar o banco do passageiro, sentindo o ar quente abraçá-lo quando Harry o ligou e sorriu quando as vozes que saíam do rádio voltaram a dominar cada espaço do veículo. Tommo se deu à liberdade de cantarolar junto à voz de Steven Tyler a letra de “I don’t want to miss a thing”, inevitavelmente lembrando-se das cenas do filme Armageddon, que assistira há tantos anos sentado na sala da casa de seus pais, tendo as irmãs como companhia.

— Acho que esta é a música mais famosa deles. — Harry comentou com sua voz grossa e ao mesmo tempo suave, fazendo com que Tommo desviasse seu olhar da janela para seu rosto banhado pela luz dourada das ruas.

— Eu gosto da letra. — Encolheu os ombros e se deitou observar o perfil de Harry.

Seu nariz era reto e de tamanho perfeito para seu rosto, seus lábios tinham uma projeção natural para frente, como se o homem estivesse sempre formando um pequeno bico manhoso, sua barba já despontava no maxilar bem desenhado e marcante, os olhos verdes estavam focados na rua à frente, os fios castanhos já não estavam mais tão arrumados e Tommo sentiu vontade de levantar a mão e deixar seus dedos correrem por eles, mas impediu-se no último instante. Por puras características físicas ele diria que Harry não era o homem mais bonito com quem saíra, mas até o momento fora o mais gentil e atencioso.

Seu olhar voltou para o rua quando pararam em um semáforo e notou que novamente seguiam por ruas que desconhecia, não conseguindo ter ao menos uma vaga noção de qual região da cidade estavam ou para qual hotel seguiam, mas sorriu quando Harry descansou a mão em sua coxa, acariciando de forma sutil.

— Já aprontou algo no trânsito, Harry? — Carregou sua voz de sedução, movendo a perna sutilmente para dar acesso a parte interna de sua coxa.

— Não, mas não estou tão interessado, considerando que estou dirigindo. — Deu um apertão em sua coxa e retirou a mão, mas Tommo não se deu por satisfeito.

Pouco se importando com a própria segurança, soltou o cinto de segurança e dobrou sua perna esquerda sobre o banco, de forma a ficar virado de frente para a lateral de Harry. Com um sorriso presunçoso apoiou as mãos no painel e no banco de Harry, aproximando-se do homem que lhe lançou um rápido olhar avaliador, mas não proferiu palavra alguma para impedi-lo. Roçou os lábios na pele sensível abaixo da orelha de Harry e deixou uma risadinha escapar.

— Tem certeza que não quer aprontar um pouquinho? — Mordiscou o lóbulo de sua orelha e ouviu o ofego que o homem soltou, assim como viu os nós de seus dedos ficarem brancos com o aperto que ele deu no volante. — Só um pouquinho, hm? — Tirou a mão do painel e a desceu até a coxa de Harry, primeiro apenas brincando com as pontas dos dedos contra o tecido fino da calça, indo do joelho até seu quadril, fazendo o inverso pela parte interna da coxa, sentindo os músculos se moverem conforme Harry acelerava e freava o carro. — Vai ser divertido… — Tommo deslizou a ponta da língua pela pele exposta do pescoço, beijando e sugando um pouco a região, tendo o cuidado para não deixar marcas, já que não sabia se seria algo bom. Sua mão subiu de forma displicente pela coxa, tocando toda e qualquer parte possível, até chegando ao membro semi-ereto de Harry.

— Tommo… — Deveria ser um aviso, ou represália, mas para si foi apenas um incentivo, por isso ele fechou sua mão sobre seu membro. — Porra! — Harry bateu a cabeça no encosto do carro, freando o carro de forma um pouco bruta, o que fez com que o motorista do veículo de trás buzinasse diversas vezes ao ultrapassá-lo. — Merda! Você não… Não deveria continuar com isso.

— Eu acho que você deveria continuar a dirigir, ou vamos demorar muito para chegarmos… — Arrastou a voz em seu ouvido, com a mão massageando de um jeito firme sua ereção. — Você vai dirigir, Harry?

— Merda, eu… Inferno. Vou, eu vou.

Tommo riu quando Harry voltou a seguir pelas ruas, mais rápido do que antes, e brincou o botão de sua calça, logo conseguindo soltá-lo e abaixar o zíper, invadindo o novo espaço sem muita cerimônia. Harry xingava e arfava enquanto Tommo brincava com seu membro e distribuía beijos por seu pescoço, seu olhar desviando da pele alva de Harry quando o carro parou novamente e viu o portão se abrindo para permitir a passagem da Land Rover. Por alguns segundos Tommo se sentiu surpreso, não era um hotel, era um prédio de apartamentos e provavelmente era a casa de Harry, mas ele não poderia mudar isso agora.

Quando Harry estacionou o carro em seu vaga, Tommo se afastou com um largo sorriso e um olhar cheio de terceiras intenções, logo abrindo a porta do carro e saindo. Ouviu uma reclamação de Harry e depois de alguns instantes, onde ele provavelmente estava ajeitando suas calças, saiu do carro, travando-o logo em seguida.

— Foi divertido. — Comentou ao se aproximar de Harry, vendo seu olhar incrédulo, com as faces levemente avermelhadas. — Incompleto, talvez se o caminho fosse maior… — Riu quando Harry apenas negou com a cabeça, logo colocando a mão na base de sua coluna e o guiando até o elevador.

Fitou o espelho do elevador de forma calma, logo observando Harry acionar o andar de seu apartamento com o cartão-chave e então Tommo começou a pensar na real dimensão da fortuna do homem; digamos que ele apenas nunca tinha entrado em um prédio que precisava de um cartão-chave para usar o elevador. Harry se virou para ele, um sorriso ladino desenhado em seus lábios e sua ereção bem perceptível, com apenas dois pequenos passos já estavam praticamente colados e Tommo só podia sorrir e subir seus braços até os ombros largos de Harry, que mordiscou o lábio inferior de forma provocativa, mas se afastou assim que as portas voltaram a se abrir.

Puxando-o pela mão, Harry o fez passar pelo hall de entrada e alcançarem a sala. E mesmo que Tommo já tivesse entrado em apartamentos elegantes e ricamente decorados antes, e ensaiado diversas vezes as mais variadas situações para saber como lidar com cada uma delas, ele não pode evitar soltar um pequeno ofego com o luxo que cada mínimo item de decoração exalava. O cômodo tinha paredes de vidro, dando uma visão completa da cidade adormecida metros abaixo, e foi a primeira coisa que Tommo reparou e se encantou, mesmo que as cortinas brancas estivessem fechadas; o sofá creme com almofadas fofas e coloridas em tons pastéis ocupava boa parte do espaço, era um conjunto de três estofados que com certeza foram feitos sob medida para o ambiente e permitia que cerca de vinte pessoas se sentassem de forma confortável; Tommo reparou que o piso era de madeira e havia um tapete felpudo que ele queria muito afundar os dedos dos pés para confirmar sua teoria de ser o mais macio no qual já pisara em toda a vida. Parecia que tudo havia sido milimetricamente planejado, desde a licuala¹ no canto ao dragão de bronze sobre o aparador atrás do sofá mais próximo de si, onde Harry deixou seu celular, carteira e cartão-chave do apartamento.

— Gostou? — O homem perguntou indicando a sala e Tommo lhe deu seu melhor sorriso.

— É encantador, especialmente as paredes de vidro… — Com passos felinos aproximou-se de Harry, fazendo-o encostar no aparador enquanto se encaixava entre suas pernas. — O que me faz pensar que, talvez, você seja um pouco exibicionista. — Tocou seu pescoço com as pontas dos dedos, mas logo encaixou suas mãos sob o terno e tirou-o enquanto sentia os músculos de seus braços.

— Eu apenas gosto de um pouco de luz natural… — Harry prendeu suas mãos nos quadris de Tommo e o puxou para si, chocando seus baixos ventres sem cerimônia alguma. — Você não? — Questionou ao passar a ponta do nariz por seu pescoço, aspirando seu perfume enquanto procurava por seu cheiro; aquele que fica sob as colônias e as camadas de roupa, aquele que é sempre único e está sempre presente.

— A noite não há luz natural, — atrelou seus dedos entre os fios castanhos, puxando-os o suficiente para ouvir um pequeno murmúrio de aprovação — e eu gosto mais da noite. — Harry afastou-se de seu pescoço e o fitou com atenção. — É onde a diversão está. — Mal teve tempo de concluir a frase e sua boca foi capturada pela de Harry.

Foi urgente, afoito e intenso; era como se tivessem passado a noite inteira esperando por esse momento, desejando estarem por fim em algum lugar privado onde pudessem apenas fazer o que quisessem, e o que mais queriam era esse beijo. Língua, saliva, ofegos e mordidas sem força alguma. Harry se afastou com o lábio inferior de Tommo preso entre seus dentes, sorrindo de forma maliciosa enquanto observava a boca vermelha e levemente inchada do homem entre suas pernas; as pupilas estavam dilatadas, as respirações arfantes, as palavras esquecidas no fundo de suas gargantas...

Com dedos agéis Tommo se livrou da gravata que Harry usava, deixando-a de forma desleixada sobre o sofá, e começou a desabotoar a camisa escura botão por botão, deixando seus lábios acompanharem o processo, distribuindo beijos, mordidas e lambidas. Surpreendeu-se ao encontrar diversas tatuagens espalhadas pelo torso; não imaginava que um homem de classe social tão elevada, que muito provavelmente trabalhava em um escritório com reuniões intermitentes e negociações milionárias, gostasse tanto de tatuagens e as fizesse a despeito de toda a sua carreira.

— Gosta do que vê? — Harry tinha a voz cada vez mais rouca, a cada beijo, a cada toque, ela parecia que vinha de cada vez mais fundo de sua garganta.

— Gosto. Muito. — Tommo tinha um sorriso lascivo ao responder, desenhando o contorno das figuras com as pontas dos dedos. — Não esperava isso de você, Harry. — Brincou com o fecho de sua calça, insinuando os dedos pela barra.

— Bem… Todos têm segredos, Tommo. — Sua mão voltou a nuca de Tommo, puxando-o para um novo beijo cheio de desejo e urgência.

Não houve gentileza alguma quando Harry arrancou suas roupas, deixando uma trilha até o quarto, onde jogou Tommo sobre os lençóis macios enquanto puxava suas calças para fora do corpo, mordendo o lábio inferior com desejo. Fez muito bem para sua auto-estima quando os olhos verdes de Harry, no momento negro graças às pupilas dilatadas pela luxúria, varreram seu corpo desde as pontas dos seus dedos dos pés até alcançar seus olhos. Para ajudá-lo, Tommo rastejou, usando seus cotovelos e calcanhares até o meio da enorme cama, mantendo as pernas bem abertas e nunca desgrudando seu olhar de suas faces.

— Sou obrigado a confessar que eu também gosto do que vejo. — Com um sorriso ladino Harry se desfez do resto de suas roupas, que resumiam-se à sua calça e boxer, e Tommo prendeu a respiração com a visão do homem nu.

Por muitas vezes foi obrigado a fingir desejo, recorrendo à imagens e lembranças que o deixassem minimamente excitado para conseguir continuar com seu trabalho, mas ali, naquela noite, ele não precisou de nada daquilo; não quando Harry o levou para jantar, não quando Harry o olhava com desejo, não quando Harry o tratava como uma pessoa normal ao invés de um pedaço de carne moldado para ser um boneco. E é claro que o corpo malhado, coberto de tatuagens e com o pênis absolutamente ereto eram apenas um complemento. Harry subiu na cama, ajoelhando entre suas pernas e mantendo cada braço de um lado de seu corpo, pairando sobre ele com tesão, mas sem pressa alguma.

Antes que pensar no que fazer, Harry o beijou outra vez, deixando sua língua explorar cada canto da boca de Tommo, e então desceu para seu pescoço, tórax, barriga, e o fez ofegar quando sua língua se insinuou pela barra da boxer branca. Rindo em divertimento, Harry mordeu a barra do tecido e passou a puxá-lo para baixo, lenta e dolorosamente libertando o membro de Tommo, que apenas se remexia e tentava controlar seus gemidos abaixo de si. Quando estava por fim nu, Tommo os girou da cama, sentando sobre os quadris de Harry, causando gemidos gêmeos.

— Tecnicamente eu sou o profissional aqui. — Sorriu lascivamente ao rebolar sobre seu membro. — Então relaxe e geme.

Tommo dedicou alguns minutos a apenas lamber e mordiscar o mamilo esquerdo, sentindo-se satisfeito com as lamúrias de Harry e seus dedos embrenhados em seu cabelo, puxando e massageando de acordo com as sensações que a língua e os dentes de Tommo lhe causavam. Quando o esquerdo já estava vermelho o bastante, abocanhou o direito, enviando novas correntes elétricas pelo corpo de Harry, logo dando-se por satisfeito e descendo a boca por seu abdômen, mordiscando os gominhos que sabia existir e espalmando suas mãos na parte interna de suas coxas, forçando-o a abrir um pouco as pernas conforme se aproximava de seu baixo ventre.

Harry gemeu audivelmente quando a respiração quente de Tommo alcançou seu pênis e tremeu quando os lábios finos deslizaram da base até a ponta, mas a parte favorita de Tommo foi quando o abocanhou de uma única vez, levando-o até a sua garganta e sentindo as unhas curtas de Harry cravaram em sua pele, com diversos palavrões de baixo calão saindo de sua boca enquanto Tommo se dedicava a sugá-lo com força e destreza. Ele nem sempre estava tão disposto, nem sempre queria tanto enlouquecer alguém, mas algo apenas lhe dizia que Harry merecia isso; que Harry deveria ser levado ao limite do prazer e mergulhado em um oceano de sensações inebriantes. E ele faria isso.

— Eu não… — A voz de Harry estava errática e as palavras saiam intercaladas com gemidos guturais. — Não quero acabar… Não quero… PORRA! — Não conteve o grito quando Tommo apertou seus testículos com firmeza, sugando sua glande com força e fazendo lágrimas gordas saírem pelos olhos verdes e escorrem por sua face. — Merda, eu vou… Eu vou…! — E então Harry estava gemendo coisas desconexas e tremendo sobre si enquanto sua boca era preenchida por toda a prova do prazer alheio. Tommo engoliu tudo, como sempre, e sorriu assim que o pênis lhe escapou da boca com um barulho úmido e a respiração de Harry lutava para voltar ao normal. — Isso foi bem intenso… — Sua voz ainda estava rouca e isso só aumentou o sorriso de Tommo.

Harry lhe sorriu de um jeito torto ao puxá-lo para cima e beijá-lo como se ele fosse o único pote d’água no deserto, sugando seus lábios com tanta força que não conseguiu conter o gemido dolorido, que logo foi substituído por um de puro deleite quando os lábios desceram para seu pescoço, com mordidas e chupões que ambos sabiam que deixariam marcadas, mas estavam muito além da consciência para importarem-se. Harry tinha os braços firmemente postos ao redor de Tommo, prendendo-o a si enquanto castigava seu pescoço, vez ou outra puxando seu cabelo com uma das mãos enquanto a outra descia por suas costas e apertava sua bunda com vontade. Tommo deixou cada um dos joelhos ao lado do quadril de Harry, perfeitamente encaixado, e mesmo sabendo que não o permitiria penetrar sem preservativo, deu pequenos pulinhos em seu colo, quicando sobre o membro que voltava a ficar ereto sob seu corpo; suas mãos estavam perdidas nos fios escuros de Harry, com os braços sobre seu ombros e a cabeça jogada para trás, sustentada pela mão firme de Harry e o pescoço marcado por mordidas.

— Eu quero te foder até você me pedir para parar. — Tommo gemeu languidamente ao ouvir essas palavras porque, bem, era o que ele queria também. — Vou te foder até você esquecer seu nome, até você esquecer como falar… Você quer isso? — Harry puxou seu cabelo com força, afastando o rosto de seu pescoço e fitando seus olhos. — Quer que te foda com força? Quer ser fodido até esquecer quem é e onde está? Você quer isso?

— Sim… — A resposta foi apenas mais um gemido acompanhado do movimento de seu quadril buscando por mais contado com o membro já desperto de Harry e friccionando o seu próprio contra o abdômen bem desenhado.

— Sim? — Tommo não conseguiu encontrar sua voz, então apenas concordou com a cabeça, movendo-se mais uma vez sobre o corpo de Harry, que em um movimento rápido e bruto o jogou sobre a cama; desvencilhou-se do abraço apertado apenas o bastante para alcançar a gaveta da mesa de cabeceira e resgatar um preservativo junto com o tubo que Tommo julgou ser lubrificante. — Abre. — Harry lhe entregou o tubo e enquanto ele vestia a camisinha, Tommo despejou uma quantidade significativa de lubrificante em sua mão, logo largando o tubo em um canto qualquer da cama; quando os olhos verdes o encontraram de novo, apenas desceu sua mão até o pênis duro de Harry e o massageou, desejando que aquela parte terminasse de uma vez e ele o preenchesse como prometeu; duro e forte. Não precisou esperar por muito mais tempo, logo Harry puxou sua mão, prendendo com a sua sobre o colchão e segurou sua coxa com a outra mão, fazendo-o prender seu cintura ao se posicionar. — Até você esquecer tudo. — Foram as palavras que lhe escaparam da boca antes de penetrar Tommo de uma única vez, fazendo-o se retorcer pela dor e prazer misturados, mas Harry não se importou; não quando seus corpos pareciam tão perfeitamente perfeitos um para o outro.

Cobriu a boca de Tommo com a sua própria enquanto saia de seu corpo para logo invadi-lo outra vez, forçando-o a gemer contra sua língua invasiva e arranhar suas costas como válvula de escape de tudo o que estava sentindo; Harry não poderia se importar menos com as marcas que tudo aquilo causaria em ambos, ele só queria fodê-lo como prometera. E assim o fez.

Tommo atingiu seu limite com seus membros todos em volta do corpo de Harry, a cabeça jogada para trás, afundada entre dois dos diversos travesseiros presentes na cama, os quadris erguidos para ter mais contato com o de Harry, que ainda o fodia de forma selvagem. Ele sequer conseguia lembrar-se quando foi a última vez que se sentira tão bem, quando fora a última vez que tivera um orgasmo tão intenso, não tinha a capacidade de ao menos dizer se isso realmente já acontecera antes, mas ele não se importava, não de verdade. Ele sentiu quando Harry alcançou o próprio ápice, com o rosto afundado em seu pescoço e a respiração totalmente fora de ritmo, as mãos ainda segurando sua cintura com força, seu quadril ainda se forçando contra si mais algumas vezes até que cessasse; até que seu corpo simplesmente parou, deitado sobre Tommo em busca de descanso e controle de si mesmo.

Era apenas o começo para eles.

Notas finais
¹ Licuala é uma planta ornamental para ambientes internos.

Não sou muito de escrever notas, não mais pelo menos, mas espero que tenham gostado.
Por favor, se gostaram, votem e divulguem. ;)
Até o próximo!

PS: O título está em francês e significa "Quer dormir comigo essa noite?"