Voulez-vous coucher avec moi ce soir?
2 Capítulo 02: Família
Remexeu-se na cama de forma preguiçosa enquanto abria os olhos calmamente e encontrava a luminosidade excessiva da manhã, o que fez sentar-se de imediato, ignorando por completo a dor que dominou seu corpo, e olhou ao redor. Era óbvio que ainda estava no quarto de Harry, mas isto não deveria ter acontecido; ele deveria ter ido embora antes do nascer do sol, como sempre fazia, sem pegar no sono e, principalmente, sem acordar sozinho como se isso fosse algo normal e dentro de uma rotina.
Enquanto respirava e tentava se acalmar, olhou ao redor e se admirou com a beleza do cômodo. A cama fica exatamente no meio da parede forrada por um papel de parede preto com desenhos geométricos, do lado esquerdo tinha duas portas que imaginou levar de volta para a sala e para o banheiro, a parede ao pés da cama era de vidro e havia uma porta que dava acesso à grande varanda do lado de fora, e a parede à direita era toda espelhada, embora Tommo tenha observado que era possível abri-la e provavelmente havia um closet do outro lado. Sua atenção, porém, fora tomada pela imagem que refletia; seu pescoço estava praticamente roxo por todos os chupões e mordidas, seu tronco tinha marcas vermelhas de arranhões e outras mais escuras provocadas, provavelmente, por mais chupões embora não se lembrasse deles. Isso já havia acontecido antes, é claro, mas ele sempre tentava evitar porque, bem, isso o obrigava a ficar alguns dias sem trabalhar, até que elas todas desaparecessem.
Sobressaltou-se quando a porta à esquerda abriu e Harry adentrou o cômodo vestindo uma calça jeans casual e uma camiseta branca com a estampa de uma banda qualquer que Tommo não reconheceu. O homem sorriu ao vê-lo desperto e apenas não pode não retribuir o gesto.
— Bom dia, Tommo. Dormiu bem? — Cruzou os braços enquanto o fitava com atenção e Tommo teve que lutar contra seu desconforto diante daquela situação.
— Sim, bom dia. — Desviou o olhar e passou a procurar por suas roupas pelo local. — Eu… Bem… Me desculpe por dormir aqui, não era minha intenção e para ser sincero sequer deveria ter acontecido…
— Hey, relaxa. — Harry riu de forma divertida. — Não foi nenhum problema, ou incômodo, não se preocupe. — O homem se aproximou de si e colocou suas roupas, perfeitamente dobradas e tiradas de qualquer lugar que Tommo não sabia onde, aos pés da cama. — Você pode tomar um banho, e não precisa ter pressa. — Avisou ao voltar a ficar de pé ao seu lado. — Pode usar a toalha que está no banheiro e tem escovas de dente reservas na última gaveta do armário. Fica a vontade. — E com isso, antes que qualquer palavra pudesse ser dita por Tommo, Harry voltou a sumir pela porta do quarto.
Vasculhou suas coisas e encontrou seu celular, verificando as mensagens recebidas e acalmando-se ao confirmar que nada demais ocorrera. Tudo o que precisava era ir embora, portanto levantou-se e seguiu até o banheiro, e soltou um pequeno suspiro ao novamente se impressionar com o luxo do local, mesmo sabendo que não deveria mais se surpreender com nada no apartamento de Harry. O piso era de porcelanato com esmalte que lembrava madeira e era aquecido, o armário era de madeira escura com bancada preta e uma cuba branca arredonda; o espelho ia de uma ponta a outra do balcão, terminando onde um enorme box de vidro fora instalado com um chuveiro maior do que Tommo julgava necessário; havia uma banheira branca de hidromassagem de frente para o balcão e ele sentiu-se tentado a usar, embora soubesse que jamais o faria.
Com passos calmos e não tão certos, caminhou até o box e se posicionou debaixo da ducha, tendo um certo trabalho para descobrir como acioná-la e ajustar a temperatura em seu agrado, mas quando conseguiu desejou ter um chuveiro daqueles em seu apartamento. A água caía firme sobre sua pele, como se o estivesse massageando e Tommo sentiu-se grato quando alcançou o sabonete líquido e o espalhou pela pele, sentindo-a ficar aveludada logo em seguida; tomou a liberdade de usar um pouco do shampoo e do condicionador de Harry, mas não demorou mais do que o necessário no banho, embora sentisse vontade de ficar mais alguns minutos sob a água. Envolveu-se com a toalha felpuda e macia e encontrou a escova de dentes que Harry lhe falara. Poucos minutos depois, estava devidamente vestido e pronto para ir embora, portanto saiu do quarto e seguiu até onde imaginava ser a sala, encontrando Harry sentado em um dos sofás com a televisão ligada em algum filme.
— Está com fome? — O homem perguntou assim que pôs os olhos nele. — Eu fiz café da manhã para nós. — Sorriu calmamente e se levantou, estendendo a mão para Tommo em um convite para que caminhasse até ele, e foi o que Tommo fez. — Tem panquecas, ovos e frutas. O bolo foi preparado por minha empregada ontem, mas ainda está maravilhoso. — Tagarelou enquanto o puxava até a cozinha, tão ricamente decorada quanto todos os outros ambientes do apartamento, e o fez sentar à bancada escura, sentando-se de frente para si.
— Obrigado. — Tommo lhe sorriu, tentando esconder seu desconforto uma vez mais. — Por tudo isso, não era necessário, mas eu agradeço.
— Bem… Você realmente precisava descansar e com certeza está com fome, então não me agradeça por nada disso. — Harry serviu-se de uma xícara de café e Tommo o observou por alguns instantes antes de voltar a falar.
— Você não precisava fazer nada disso, e ainda assim o fez, e é por isso que estou agradecendo. — Harry descansou a xícara no pires e direcionou seus intensos olhos verdes para Tommo.
— Eu sei exatamente o que você está agradecendo, e eu repito que não tem que fazê-lo. — Tommo desviou o olhar, servindo-se de um pouco de suco e bebericando ainda sem voltar sua atenção à Harry, embora esperasse por suas novas palavras. — Você é tão humano quanto eu e merece o mesmo respeito, independente de qualquer coisa. — Tommo o fitou com atenção, e sorriu por não saber qualquer outra reação deveria ter. — Mas já que tocamos em parte do assunto, — Harry sorriu ladino — como devo pagar por seus serviços e quanto devo pagar?
Foi praticamente impossível não se encantar um pouco com a forma que Harry o tratava e falava sobre seus serviços, como se Tommo tivesse ido até seu apartamento para consertar algum problema com sua televisão e não para transar com ele. E talvez seja por isso que Harry seja um profissional de sucesso, talvez seja esse o diferencial dele para tantos outros que devem ser seus concorrentes; ou talvez ele apenas estivesse vendo qualidades onde talvez elas não estivessem de fato, mas quem poderia julgá-lo?
— Aqui está. — Entregou a ele um cartão com as informações bancárias da agência, junto com o número de telefone. — E o valor é mil libras por hora¹, obviamente desconta-se o período em que eu dormi. — Sorriu de forma sedutora, gostando do olhar que recebeu de Harry.
— Pelas minhas contas isso daria umas dez mil libras até agora, — Harry lhe fez um gesto de silêncio quando Tommo se preparou para cortá-lo — eu vou pagar pelas horas que você dormiu porque eu estava muito confortável dormindo ao seu lado. — Arrumou-se na cadeira e fitou o cartão em sua mão. — Se eu transferir o dinheiro para essa conta, qual o percentual que será seu?
— Noventa por cento. — Respondeu com um olhar curioso sobre Harry.
— Tenho uma oferta. — Sorriu largamente e deixou o cartão sobre a mesa. — Você me diz seu nome e me dá o número do seu celular e eu te pago em dinheiro, então você repassa dez por cento do valor que você quiser. — Tommo olhou para ele de forma séria por alguns instantes, mas logo sorriu largamente.
— Sua oferta é tentadora, mas não lhe darei meu nome, nem meu celular. — Terminou de beber seu suco mantendo o olhar sobre Harry.
— E como vou conseguir te contatar para um próximo encontro? — Questionou com o olhar felino.
— Basta ligar nesse número, — indicou o cartão — e me pedir. — Sorriu ladino para Harry e balançou a cabeça em concordância, ostentando um sorriso divertido.
— Sabe que eu não vou desistir, não é?
— Por favor, não desista.
Harry alargou o sorriso e pegou seu celular, mexendo um pouco antes de virar a tela para Tommo, exibindo o comprovante de transferência de um pouco mais de dez mil libras para a conta indicada por ele. Não foi exatamente o encontro que lhe rendeu mais lucro, mas Tommo viu-se incapaz de cobrar mais por algo que ele mesmo havia gostado muito de fazer, e além disso, algo no olhar de Harry lhe dizia que não seria a última vez que o veria.
— Eu preciso ir. — Anunciou depois de alguns instantes e Harry se levantou junto com ele.
— Eu vou sair, posso te levar até algum lugar?
— Até um ponto de táxi seria ótimo.
Desceram pelo elevador em silêncio, mas nada opressor ou constrangedor, apenas quieto e de certa forma cúmplice. Tommo o seguiu até seu carro e mais uma vez ocupou o passageiro enquanto Harry encaixava-se de trás do volante, saíram do prédio e Tommo observou que era um bairro luxuoso de Londres, com jardins de contos de fada e muros que o lembrava fortalezas. Harry parou depois de algumas ruas, próximo a um ponto de táxi como Tommo lhe pedira, e virou-se para o passageiro.
— Eu o procurarei outra vez. — Seus olhos estavam presos nos de Tommo, como se quisessem lê-los.
— Eu esperarei. — Soltou-se do cinto de segurança e abriu a porta. — Quem sabe da próxima vez eu não aceite sua oferta?
— Quem sabe eu não tenha uma oferta melhor? — Com sorrisos largos eles se despediram como amigos fariam e Tommo seguiu até o motorista do táxi, Harry arrancou antes mesmo que o homem tivesse adentrado o veículo.
Tommo seguiu para sua casa evitando pensar na noite que tivera, exercitando para que sua vida profissional não se envolvesse com sua vida pessoal. Enquanto isso Harry seguia pelas ruas de Londres, tendo como destino a casa de seus pais e repassando cada pequeno segundo ao lado do homem que, aparentemente, era mais novo que si. Não era a primeira vez que Harry recorria a companhia profissional, por assim dizer, mas era a primeira vez que ficava tão interessado em mantê-la por perto.
Harry Styles era o homem que estampou capas de revistas de negócios ao assumir as empresas da família com apenas vinte anos de idade, cheio de ideias inovadoras e palavras certeiras para convencer os leões que o fitavam como se ele fosse mais uma caça, e não o caçador. Bem, eventualmente Harry os abateu e mostrou-se muito mais capaz do que todos eles juntos, muito embora ele os mantivesse por perto; estes homens trabalhando para a concorrência poderia não ser sua ruína, mas seria uma vitória que ele não estava disposto a dar-lhe. Sete anos depois Harry era um dos homens mais influentes do país, lidando com os ônus e bônus que tudo isso lhe acarretava. Desde que sua foto estampou às revistas, não foi capaz de cultivar uma nova amizade, embora diversas pessoas o enxergasse dessa forma, e viu-se obrigado a trazer para próximo ainda àqueles em quem sabia que poderia contar sempre, Liam Payne e Zayn Malik.
Foi um ótimo golpe da vida que Liam casou-se com sua irmã Gemma dois anos antes, o que os deixaram ainda mais próximos e cúmplices. Conheceram-se ainda no colégio e secretamente Harry acompanhou a paixonite de Gemma por seu amigo, mas viu-se obrigado a agir quando percebeu os olhares de Liam para sua irmã e então logo estavam namorando. Zayn, por outro lado, fora uma conquista de seu pai. Desmond, apesar de algumas ideias antigas e visão ultrapassada do mundo, acreditava nos jovens e contratou Zayn para ser seu assessor pessoal, cargo que o rapaz ocupou por apenas um ano, e logo Desmond o encaixou no departamento financeiro e não foi de fato uma surpresa quando o rapaz mostrou seu valor, chegando ao cargo de diretor financeiro com apenas vinte e oito anos de idade e alguns inimigos internos para colocar no bolso, alguns dos quais ele fora obrigado a demitir para que todos entendessem que ele era o diretor, e isso não mudaria.
O ponto foi que Zayn mostrou-se um aliado poderoso e eficiente para Harry e pouco tempo se tornou um amigo por quem Harry nutria um grande apreço. Quando se conheceram Zayn namorava uma garota que era uma modelo pouco conhecida, mas terminaram no último ano e Harry não conseguiu descobrir o motivo. Às vezes, Zayn era discreto demais, mas Harry não se incomodava de fato com isso. Na verdade foi a grande discrição de Zayn que o levou a encontrar uma companhia daquelas pela primeira vez; foi como Harry soube como o início de seu relacionamento aconteceu, mesmo que Zayn afirmasse que o término não estava relacionado a nada daquele mundo.
Liam não saia com ninguém, ao menos não que Harry soubesse, mas sempre convidava alguns para as reuniões que organizava para seus sócios e contatos profissionais; raramente ele os convidava para algo mais íntimo como uma festa apenas entre amigos. Harry seria um hipócrita se dissesse que não havia visto Tommo outras vezes, porque ele vira, apenas não tivera interesse o bastante para se aproximar; a noite anterior mostrou que ele apenas havia perdido tempo. O rapaz era engraçado, educado, discreto e, aparentemente, muito profissional; Harry estava satisfeito, e curioso. De todas as pessoas que conhecera dessa forma, Tommo fora o único a negar dar-lhe um nome ou número de celular, e, talvez fosse apenas uma tática do rapaz, Harry queria descobrir ambos.
Harry adentrou os portões de ferro da mansão de seus pais e estacionou sua Land Rover ao lado do Jeep de Liam e sorriu ao concluir que sua sobrinha, de apenas um ano de idade, estaria ali também. Com passos apressados subiu os degraus que levavam a porta principal e adentrou a casa sem se dar ao trabalho de tocar a campainha, encontrando sua irmã e cunhado sentados nos estofados brancos que sua mãe tanto gostava de manter na sala.
— Hazz! — Gemma fora a primeira a vê-lo, logo se levantando com a filha nos braços para abraçá-lo da forma que conseguia. — Olha Zoe, seu titio está aqui! — A garota não tardou em esticar os bracinhos pedindo colo e Harry não lhe negou o pedido. — Ela troca qualquer um por você. — Gemma girou os olhos, mas logo sorriu com carinho para a filha confortavelmente instalada nos braços do tio.
— É por que eu sou a melhor pessoa dessa família. — Harry brincou, pulando com a sobrinha, que soltou gritinhos animados e bateu palmas.
— Você é o único que pensa isso, só para te informar mesmo. — Liam sequer levantou do sofá, concentrado em seu café.
— Eu tenho a melhor confirmação de todas, ok? Crianças não mentem. — De forma madura, Harry mostrou a língua para o amigo e logo encontrou a pequena em seus braços tentando imitá-lo, o que acarretou em um tapa sem força em seu braço e um olhar reprovador de sua irmã.
— Não ensine minha filha a mostrar a língua!
— Zoe só prefere você porque você fica dando porcarias para ela comer, mesmo sabendo que não deveria. — Liam lhe deu seu melhor olhar acusador, e Harry respondeu com o mais inocente que conseguiu fazer.
— Por que estão brigando crianças? — Anne surgiu pelo corredor que dava acesso à cozinha, sorrindo largamente ao encontrar Harry.
— Liam não se conforma que sou o preferido de Zoe. — Ao ouvir o próprio nome, a garotinha deu um gritinho e colocou as mãos nas bochechas do tio, como se chamasse sua atenção para si. — Não é minha princesa? — Esfregou seu nariz no da criança, dando-lhe um beijo de esquimó e ouvindo a risada de sua mãe ao seu lado.
— É bom te ver querido.
— É bom te ver também mãe.
Harry sentou no tapete da sala, próximo dos brinquedos de Zoe e a deixou em pé, apoiada na mesa de centro, a garotinha riu e logo caiu sobre o próprio bumbum, rastejando para mais perto do tio e capturando um dos bichinhos de borracha que estava por perto, mostrando para o homem e logo balbuciando coisas ininteligíveis. E era exatamente dessa forma que Harry gostava de passar parte de seus finais de semana, jogado no chão com Zoe por perto e diversos brinquedos da menina espalhado ao seu redor; era o seu momento de paz.
O almoço foi servido instantes depois e Harry não ficou surpreso com a ausência de seu pai, e sequer deu-se ao trabalho de questionar seu paradeiro. Concentrou-se em conversar com sua mãe, vez ou outra fazer uma careta para provocar risos em sua sobrinha e alfinetar sua irmã e cunhado com algum comentário sarcástico que era prontamente resolvido. Apesar de todos os pesares, de todos os almoços nos quais seu pai não comparecia ou nas díspares personalidades de todos eles, eram uma família tão unida quanto possível, com cumplicidade e, acima de tudo, amor.
— Soube que você foi embora acompanhado ontem. — Sua irmã começou quando seguiram para o jardim e Anne brincava com Zoe enquanto Liam atormentava Amy, a cozinheira da família há quase vinte anos, por mais sobremesa.
— E o que tem isso? — Questionou com os olhos presos em Zoe, a garotinha tinha as famosas covinhas de seu tio, os cabelos lisos e castanhos de sua mãe e sabia como ninguém fazer o olhar de cachorrinho abandonado que era marca registrada do pai; naquele momento estava se questionando como seria ter uma criança sua por perto.
— Tem que ele era um dos convidados do Josh, — Harry virou o rosto para a irmã, esquecendo por completo de seus pensamentos de segundos antes — um dos garotos de programa que ele chama para seus sócios. — O rapaz não respondeu, esperando que sua irmã falasse de uma vez o que queria. — Olha, eu sei que você é adulto, sei que tem o direito de se divertir da forma que quiser, com quem quiser, mas eu me preocupo com você.
— Gem…
— Eu me preocupo por conta de doenças, por conta de serem desconhecidos e por sua relutância em conhecer alguém que possa te proporcionar um futuro. — Gemma se virou na cadeira para poder ficar de frente para o irmão, que tinha uma expressão de tédio. — Não faça essa cara quando você não consegue negar que estaria tão preocupado quanto eu, ou até mesmo mais, se os papéis estivessem invertidos.
— Você nunca teve motivos para recorrer à garotos de programa.
— E muito menos você. — A mulher o fitou em silêncio por alguns instantes. — Eu não concordo com nada disso. — Harry ergueu uma sobrancelha, fitando-a de forma curiosa. — Eu não gosto que Josh ou Liam chamem garotos de programas para suas confraternizações de negócios, não gosto que você ache perda de tempo ter um relacionamento verdadeiro e não gosto que você se envolva com garotos de programa, Harry. — O rapaz apenas passou a mão pelos cabelos, sentindo falta de quando eles eram compridos e formavam pequenos cachos nas pontas. — Todos na nossa família aceitam sua sexualidade, isso nunca foi tabu ou um problema, eu não entendo porque você insiste em se envolver com esses garotos.
— Eu me cuido, está bem? Não tem com o que se preocupar. — É claro que o olhar que recebeu da irmã deixou claro que suas palavras não surtiram efeito algum nela. — Eu não acho perda de tempo ter um relacionamento, ok? Eu apenas não quero ter um agora. — Arrumou sua postura na cadeira, lançando um rápido olhar para onde sua mãe brincava com Zoe, percebendo que Liam havia se juntado a elas. — Se não concorda, ou não gosta, que Liam chame garotos de programa, fale com ele, eu tenho certeza de que ele vai te ouvir, afinal ele te ama. — Gemma lhe fitou de forma debochada, o que fez rir já que ficou claro que nada daquilo realmente era o que a preocupava. — Eu gosto da discrição que é sair com garotos de programa, gosto de como eles são animados e divertidos, gosto de não precisar estar emocionalmente envolvido e, principalmente, gosto de quando eles apenas vão embora no dia seguinte, sem perguntarem se vou ligar ou quando vamos nos ver de novo.
— Em outras palavras, você gosta de ser um cafajeste. — Harry riu nasalado, fitando um ponto qualquer no gramado.
— É… Mas ao invés de brincar com seus sentimentos, eu brinco com suas contas bancárias. — Encolheu os ombros diante do olhar incrédulo da irmã. — Todos saem felizes no fim do dia.
— Eu continuo não gostando disso…
— Não gosta do que, amor? — Liam se aproximou com um sorriso nos lábios, logo dando um rápido beijo na esposa ao sentar-se na cadeira ao seu lado, ficando de frente para Harry. — Zoe dormiu e sua mãe foi deixá-la no quarto.
— Eu estava falando sobre o acompanhante do meu irmão de ontem. — Gemma respondeu com ironia, que foi totalmente ignorada por Liam quando ele sorriu para o amigo.
— Tommo. — A mulher o fitou confusa. — É o nome do acompanhante do Harry ontem. — Liam esclareceu de forma divertida. — Ele é um dos mais caros, um conhecido meu saiu com ele há uns dois anos, ficou com ele por cerca de três horas e pagou bem uns sete mil dólares.
— Nossa… Ele deve ser bom no que faz. — Gemma comentou de forma um tanto surpresa.
Liam fitou Harry de forma curiosa e incisiva, como se quisesse obter respostas sem que nenhuma palavra fosse proferida; o problema era que Harry não estava muito disposto a falar sobre sua noite com Tommo. Não foi nada diferente do que esperava, mas ao mesmo tempo sentia e sabia que não fora nada igual às noites que já passara ao lado de outras pessoas. Tommo lhe deixou curioso, excitado e extasiado. Harry tinha a impressão de que, se tivessem se conhecido em outras circunstâncias, poderiam muito bem serem ao menos amigos.
— Então… — Liam continuou, diante do silêncio de Harry, com um sorriso ladino. — Quanto você desembolsou?
— Por que quer saber? Você não é meu contador. — Seu amigo ergueu as mãos em forma de rendição, mas sem abandonar o sorriso divertido.
— Calma, cara. Não foi uma pergunta mais invasiva do que quantas vezes você gozou. — Liam retrucou, relembrando o episódio de quando Harry saiu com um garoto de programa pela primeira vez, assim como Liam, e eles passaram cerca de uma hora falando sobre suas noites.
Eles tinham cerca de vinte e dois anos e apenas queriam curtir um pouco a noite, foram para um balada recém-inaugurada, beberam, dançaram e saíram acompanhados. Harry tinha um rapaz de músculos definidos e olhos mais escuros do que a noite enquanto Liam seguia com uma pretendente de miss universo de longos e volumosos cachos pretos. Harry acordou no dia seguinte com dor de cabeça e um rapaz que o fitava de forma curiosa, que logo lhe informou o valor e pediu o pagamento em dinheiro vivo. Foi a primeira vez que Harry pagou por companhia, mas com certeza passou longe de ser a última.
— Você sabe o nome dele? — Harry ignorou a pergunta que seu amigo fizera momentos antes e se concentrou no que queria saber. — Ele disse apenas Tommo, mas com certeza isso não é um nome.
— Ele sempre se apresenta como Tommo. — Liam encolheu os ombros. — Ele já foi em outras festas que eu estava, as pessoas que falaram ou saíram com ele só o chamavam de Tommo.
— Isso é um pouco estranho, não acha?
— Talvez ele só queira um pouco de privacidade. — Gemma respondeu. — Quero dizer, com essa profissão e tudo o mais, talvez ele não queira se expor demais. — Alcançou o copo com água e bebeu parte do conteúdo antes de continuar a falar. — Isso não é normal? Essas pessoas esconderem a verdadeira identidade por conta da escolha de vida que fizeram.
— Não… Quero dizer, não de verdade. A maioria não se importa. — Liam encolheu os ombros e bebeu o restante da água do copo de sua esposa. — Mas o Tommo… Bem… O Tommo não gosta de falar o próprio nome, simples assim.
O assunto sobre o Tommo e sua relutância em informar o nome verdadeiro não se estendeu, logo passaram a falar sobre a velocidade do crescimento do Zoe e suas novas travessuras, desviando de alguma forma para os negócios — momento no qual Gemma pediu licença e foi se juntar a sua mãe em algum lugar da mansão -.
— Os Horan estão crescendo cada vez mais no mercado, o que me é preocupante. — Liam iniciou seu assunto preferido nas últimas semanas.
— Liam… Você fala sobre isso há dias, e até hoje não apresentou um plano para sanar sua preocupação. — Harry coçou a testa com aflição. — Niall vai assumir os negócios em breve, Bobby não tem mais a aprovação de todos os sócios, mesmo com os resultados tão promissores.
— Acha que isso vai mudar alguma coisa?
— Acho que Niall, como um velho amigo e que aprendeu tudo o que sabe sobre negócios comigo, vai apreciar uma proposta de junção das empresas. — Sorriu para o amigo de forma calma, mesmo que entendesse todas suas preocupações e o que de fato significava o crescimento dos Horan.
Keith Styles criou a Styles Tecnology quando tecnologia ainda era uma máquina de escrever cara numa loja que se orgulhava de ser a única da rua que tinha uma para vender. Desde então apostou nos mais diversos segmentos, perdendo em alguns mas ganhando nos outros; ganhou muito quando apostou nas máquinas fotográficas digitais — entretanto sem nunca abandonar o segmento de máquinas profissionais — e continua ganhando com smartphones e computadores portáteis cada vez mais potentes. Quando seu pai, Desmond, assumiu os negócios a empresa passou por longos períodos de estagnação, não crescia e também não perdia espaço no mercado; foi ótimo para tornar-se uma marca forte, mas ruim para os desejos cada vez mais crescente dos sócios e acionistas por lucros gordos. Não foi uma grande surpresa quando resolveram apostar no recém-formado administrador Harry Styles. E a partir daquela data Harry tem dado seu melhor para sanar todas as expectativas sobre seus ombros.
Não era fácil estar cercado de tecnologia, escolher em qual novo produto deveriam apostar e qual merecia ser retirado do mercado; ler relatórios e relatórios sobre as novas ideias de engenheiros, designers e programadores, mas acreditava que estava tudo sob controle. Harry gostava de tudo aquilo, e, apesar de nunca ter contado a alguém, ele gostava por que aquilo tudo havia sido o sonho de seu avô, que mesmo morto há mais de quinze anos, merecia ser respeitado e ter seu esforço para tornar tudo aquilo em realidade valorizado. Era a forma de Harry honrar sua memória.
— Meninos, vocês querem que o chá seja servido aqui fora? — Anne andava pelo gramado com um sorriso jovial direcionado à seu filho e seu genro.
— Eu já vou embora, mãe. — Harry fez uma pequena careta diante da expressão falsamente tristonha de Anne. — Ainda estou cansado da festa de ontem.
— Sei bem do que está cansado, Harry. — A mulher falou e o rapaz a fitou de forma surpresa. — Vocês acham que nasci em qual século? — Questionou para o homens que não souberam o que responder, isso no caso de Harry, visto que Liam não se achava no direito de proferir palavra alguma. — Sei muito bem que você tem seus encontros ocasionais, e eu só espero que um dia algum deles deixe de ser apenas mais um para se tornar no o caso. — Anne deu ênfase no artigo ‘o’ ao falar, resultando em um sorriso ladino por parte de Harry. — Gostaria que ficasse para o chá, mas se está mesmo tão cansado, é melhor que descanse.
Harry se despediu da mãe com um beijo em sua testa junto com um abraço apertado, o que fez pensar em quanto sua mãe conseguia sentir falta dele, considerando que passava praticamente todos os seus domingos, e alguns sábados, na casa de seus pais. Liam apenas lhe deu um rápido aperto de mãos e ganhou um beijo babado de Zoe, que já havia acordado e estava pronta para uma nova rodada de correria e brincadeiras.
— Descanse, e tente criar juízo. — Gemma lhe aconselhou ao despedir-se.
— Não posso criá-lo, eu não sei o que ele come.
A mulher girou os olhos enquanto ele ria e seguia para seu carro, saindo da mansão poucos instantes depois e pensando no que gostaria de fazer com o restando do seu dia e sua noite. Gemma interpretaria errado se soubesse que ele não queria ficar sozinho, imaginando que ele estava sentindo falta de um relacionamento — o que seria patético visto que Harry não acredita que possa sentir falta daquilo que nunca teve -, quando ele quer apenas alguém para beber com ele enquanto joga conversa fora e come algo não tão saudável. Ele sentia falta dos tempos de faculdade, quando dividia — mesmo sem necessidade — o apartamento com mais dois colegas e virava as noites entre garrafas e restos de pizzas com o videogame ligado com o volume máximo.
Pensou em ligar para Zayn quando chegou ao seu apartamento impecavelmente arrumado e vazio, mas lembrou-se que ele havia viajado para a cidade natal a fim de passar o fim de semana com a família e Liam estava casado com sua irmã, o que não era o problema e sim o fato dele precisar e querer passar mais tempo com a esposa e com a filha. Rendendo-se a sua única esperança, ligou para Niall, e seu convite foi prontamente aceito. Enquanto esperava pelo ex-loiro, Harry aproveitou para lavar a pouca louça que sujou no café da manhã, uma vez que aos fins se semana não contava com sua empregada em casa e verificar seu estoque de porcarias. Queria fingir que tinha dezenove anos outra vez.
Fale com o autor