Voto de Sigilo

2 Procura-se vítima fácil


Notas iniciais
Olá novamente pessoal, nos vimos bem rápido não é? kkkkkkkk Mas é que tô meio ansiosa em começar a desvendar todo esse mistério junto com vocês já. Enquanto torço para que vocês tenham gostado do prólogo que continuem gostando agora que realmente vamos começar a entender tudo, onde vamos apresentar esses bebês que são os personagens. Bem, por enquanto, eu desejo para vocês uma boa, belíssima e MARAVILHOSA leitura e que gostem tanto de ler quanto eu gostei de escrever, obrigada e aproveitem ♥

A pacata cidade de Paratory amanhecia tranquila e ensolarada naquela manhã singela de sexta-feira. O cenário era desenhado pelo contraste harmônico entre árvores sadias e robustas, de lustroso verde nas folhas, e as casinhas formosas em estilo colonial, dispostas por todas as extremidades das pequenas e estreitas ruas. E também havia um enorme e límpido lago, de grande profundidade, que se estendia da cidade até sua fronteira. Paratory era paradisíaca.

Paratory era palco de um assassinato.

Lucille Green, uma jovem de vinte e seis anos, frustrada, assinava e verificava diversos boletins de ocorrência em sua desconfortável poltrona de couro. Observava os companheiros despreocupados jogando conversa fora com certo desgosto. Seu chefe, o delegado Garcia, dava passos largos e pesados com uma expressão fechada na face. Circulava a sala inteira com os braços cruzados, bufante. A secretária, logo atrás, seguia seus movimentos com tamanha exaustação. Equilibrava-se nos saltos grossos de um amarelo vibrante enquanto apanhava cópias e mais cópias de inquéritos disferidos pelo homem. Quando ele parou, boquiaberto, a bela loira bateu com o nariz em suas largas costas.

Garcia arregalou os olhos castanhos diante de uma página de jornal. Apanhou-a bruscamente e seguiu para sua enorme e bagunçada sala de vidro. Lucille adorava o design eclético da salinha do gerente. Nas poucas vezes que tivera a oportunidade de entrar no cômodo, apaixonara-se de imediato pela desleixada, porém presente, decoração toscana viva por debaixo das papeladas e dos copos cartonados de café esparramados por todos os lados.

Os colegas de trabalho rodopiavam em suas cadeiras e esticavam os pescoços na tentativa de bisbilhotar o chefe, curiosos com sua estranha animação. E, neste ato, delegavam ainda mais tarefas para a estagiária que revirava os olhos — Lucille. Como noviça, vivia descontente. Utilizava seu suado diploma em investigação criminal para meramente cobrir buracos na empresa como uma "faz-tudo", sempre encarregada de tarefas tediosas as quais seus colegas não queriam concluir.

A jovem, de objetivos concretos, se via cada vez mais distante de suas metas. Ela, que havia abandonado sua infância e adolescência em prol dos estudos, se encontrava desmotivada e estacionada em suas realizações. Sentia, consternada, a impotência lhe corroendo até os ossos.

Essa sensação, de se encontrar com mãos atadas, não lhe era primária. Aos oito anos de idade adentrou em um mesmo abismo, porém de proporções maiores e coberto por espinhos. As cicatrizes daquela época ainda lhe eram vivas e recentes. Naquele tempo, quando corria por colinas montanhosas com sua irmã, decidiu não mais se ver diante de situações as quais não pudesse agir. E para tal, se tornaria forte o suficiente para nunca paralisar na presença de problemas. Tal desejo não passava de utopia.

No ano de 2000, Lucille caminhava com sua irmã gêmea, Lucia, rumo a fronteira afim de visitar o pai adoecido. Lucia, como sempre, ia na frente, segurando a mão da irmã em proteção. Mas, naquele dia, vinte e um de março, terça-feira, as duas tiveram uma ácida discussão a qual resultou em lágrimas. Lucille, contrariada, voltou para casa e deixou a irmã no caminho. Depois desse dia, Lucia nunca mais voltou.

E os anos se passaram impiedosos, assim como a culpa. A polícia, nesse espaço de tempo, arquivou o caso como insolúvel. Diante de tal precipício, Lucille era incapaz de agir. Desde então, abdicou as amizades e mergulhou em livros e mais livros, focada em passar nos difíceis vestibulares policiais da região. Deste modo, sua vida passou rapidamente e poucas experiências teve além da amargura da perda.

Quando finalmente se viu em um cargo no qual poderia reaver e solucionar o caso do desaparecimento de sua irmã, logo contemplou sua realidade perante as limitações de um ambiente machista e hierarquizado ao extremo.

E lá estava, novamente, de mãos atadas. Aliais, atadas para seu propósito, mas ativas na presença de papéis a serem assinados e respondidos, sob ordem de seus inúmeros superiores.

Antes que pudesse estatelar o rosto em sua mesa, Lucille teve seu nome berrado pelo enorme gerente. Ajeitou o casaco de linho e esticou os lábios em uma falsa expressão simpática. Forçou as pernas em direção ao superior carrancudo e estendeu a mão em cumprimento, logo que o alcançou.

Garcia era um homem velho e de musculatura larga. De olho, davam-lhe dois metros de altura, mas ele tinha um e noventa, na verdade. De pele morena, longa barba e cabelo cinzento, vestia uma farda preta quase toda coberta por distintivos e medalhas. Com uma voz grave, exercia liderança incontestável.

— Sente-se. — ordenou.

— Sim, senhor. — Lucille acatou, movendo-se com delicadeza perante a bagunça daquele lugar.

— Sabe, novata, lhe contratei por causas bem específicas — aconchegou-se em sua poltrona — Você, de certo modo, me cativou.

— Por minhas qualificações, talvez? — sorriu.

— Também...Mas o que mais me chamou a atenção foi sua perseverança e honestidade. Lembro-me da história de sua irmã, de seu objetivo. Fiquei muito comovido e um tanto curioso com sua capacidade de concretizar seus anseios. Apesar disso, um ano e meio se passou e pouco progresso vi de sua parte.

O comentário soava insipiente e depreciativo. Mas Garcia, como um bom, tradicional e estereotipado gerente, não poderia proferir palavras aprazíveis com sua boca ofensiva e pretenciosa. Como a maioria dos superiores, se preocupava apenas com o resultado, desprezando as causas por trás de tais circunstâncias. Mesmo que as causas estivessem bem abaixo de seu nariz adiposo e disforme.

Contudo, não podia desatar sua incisiva língua. Precisava do emprego, afinal. Por mais medíocre que se sentisse todos os dias em sua mesa, amaldiçoando a todos dentro daquele escritório, era dali que retirava sua renda, seu sustento. E não podia deixar-se levar pelo ódio nem pelo sentimento de humilhação. Conservou, então, com dificuldade, uma posição de quietude.

Queria, com certeza, jogar as verdades ao vento. Explanar sobre sua posição se resumir em atividades de servente, principalmente, por ser mulher. No trabalho, muitas vezes, seus "companheiros" viam-na como alegoria, enfeite. E até mesmo objeto sexual. Diziam, em tom de deboche, que a farda lhe caia como fantasia e muitas vezes insinuavam que seu propósito ali era apenas visual, um meio de satisfazer aos anseios inventivos dos homens visto que, como mulher, não possuía força física nem psicológica para executar as tarefas de uma verdadeira oficial.

Inúmeras foram as vezes que mesmo atormentada por fortes cólicas e enjoos, foi-se ao trabalho sem hesitar, pestanejar. Ainda assim, era obrigada a aturar comentários desdenhosos sobre seu "baixo" rendimento durante "os tais períodos menstruais". Acusavam-na de morosidade, frouxidão. Tinham-na como fraca. E tratavam-na não como investigadora criminal concursada, qualificada, e sim como empregada, uma pessoa incumbida de seguir ordens fielmente, mesmo que estas fossem abusivas. E o chefe brutamontes não era exceção.

Garcia, com uma expressão indecifrável, arqueou as sobrancelhas, surpreso com o silêncio. Pegou, então, uma página de jornal manchada com café e a posicionou diante da visão de Lucille. Seus dedos grandes apontaram para um classificado de empregos. Em letras garrafais, encontrava-se uma curiosa frase em negrito.

"Procura-se governanta"

A jovem torceu o nariz e passou a indagar a ação do gerente.

— Continue lendo, garanto que algo vai te interessar.

E assim fez, mesmo confusa.

"Procura-se governanta

Para trabalhar de segunda a sexta.

Expediente a combinar.

Ofereço refeição e moradia.

Salário de R$ 4.200,00 mensais.

Local: Mansão Collins."

Em letras miúdas, se encontravam informações de contato e algumas ressalvas, mas o que mais chamou a atenção de Lucille foi o nome do empregador. Leonard Collins— O filho mais velho do casal de embaixadores da cidade. E também, o principal suspeito pelo desaparecimento de Cecília Collins, a mãe.

Cecília havia desaparecido por volta de um ano e a cidade ainda arrastava o caso incessantemente. Todos cobravam respostas por parte da delegacia local, entretanto, apesar de fortes suspeitas em cima do filho mais velho da família, só haviam provas circunstanciais sobre o caso. Garcia era o mais afetado com a situação, sofrendo frequentemente com a pressão pública e com os comentários maldosos de outros delegados da região. Por conta disto, o homem carrancudo passou a se concentrar no caso com obsessão, apesar dos escassos resultados.

— Você entende a oportunidade que está diante de nós? — o homem sorriu.

Lucille passou um bom tempo com a mente vazia, tentando associar os fatos. Garcia, impaciente, disparou palavras rapidamente.

— Você, melhor do que ninguém, sabe como casos, quando arquivados, ficam em nossa mente por tempo indeterminado. Eu quero solucionar esse desaparecimento e, para isso, preciso de sua ajuda. Te faço esta proposta pois sei que diferente da maioria dos meus funcionários, você trabalha pela profissão, pelas pessoas, não por dinheiro. Quando penso em perseverança e em alguém capaz de se doar por um caso, seu nome é o primeiro que me surge. — fez uma pausa — A essa altura, você já deve imaginar o que lhe proponho.

— Uma infiltração, certo? — Lucille respondeu, assustada — Você entende que isso é uma loucura, meu senhor? Caso este homem seja de fato um homicida ou sequestrador, está ciente de que este anúncio pode ter outro significado? Talvez, Leonard não procure uma governanta, e sim uma nova vítima.

Leonard era uma incógnita. Um borrão. Muito pouco se sabia sobre o primogênito da família Collins, exceto que ele havia se mudado para outro país em algum momento de sua vida, voltando para o lar, coincidentemente, logo quando Cecília havia sido dada por desaparecida. Aliais, ele fora o primeiro a dar queixa de seu sumiço, três dias depois de pisar na terra natal. E o que muitos se perguntavam era o que havia se passado nesses três dias, ao ponto dele não dar sua falta. Poderia, de fato, ser o cansaço da viagem e o bom homem ter passado esse tempo em repouso num singelo e escondido hotel suburbano. Ou, talvez, nesse suposto período de inércia, estivesse, na verdade, ocupado demais ocultando um corpo. O corpo. A ultima hipótese era a mais aceita, embora não pudesse ser provada.

— E se este for o caso, realmente pretende deixar que uma nova vítima seja atraída para este abatedouro? — Garcia apontou para o jornal.

Lucille soltou um riso debochado e passou os dedos por entre seus fios longos e negros com certa irritação. Tremia levemente diante da proposta e se sentia revoltada com a ideia de ser uma isca.

— Então, para evitar isso, eu devo ser a nova vítima deliberadamente? — respondeu por entre os dentes.

Neste momento, como se a discussão tivesse sido vencida, Garcia acariciou a medalha disposta bem no meio de seu peito com um olhar desafiador. Levantou-se e colocou as mãos atrás das costas. Com passos lentos, aproximou-se de Lucille e direcionou seu olhar para a farda da jovem.

— Ao invés de ser a nova vítima, você poderá ser a heroína e evitar que novas vidas sejam desgraçadas. Você é uma policial. Uma investigadora criminal. E é isto que a difere de uma presa e a coloca como predadora. Não é isto que você se propôs a fazer? Resolver casos? Não estou lhe obrigando a nada. Se irá permanecer nesta vida de preencher e corrigir fichas ou se irá, finalmente, exercer de fato sua função, cabe a você decidir.

As palavras de Garcia dispararam feito flechas no orgulho de Lucille, que se viu desnorteada e sem reação. Sua mente ficou nublada e um misto de memórias e arrependimentos surgiram feito assombros. Já não conseguia separar racionalidade de sentimentalismo e por pouco não se deixou levar pelo desespero do momento. Certo e errado se misturaram ao ponto de se anularem.

Naquele instante, teve uma breve visão. Era Cecília, com seus fios brancos flutuando ao vento. Tinha um olhar penoso e escuro. Vestia trajes brancos e esvoaçantes enquanto passeava por entre a enorme mesa do gerente. Sorriu discretamente enquanto esticava as mãos em direção á larga porta de metal recém aberta. Lucille virou a cabeça lentamente, temendo o óbvio. Uma mão pequenina se agarrara a de Cecília. De dedos curtos e unhas pintadas de rosa, foi-se mostrando cada vez mais na medida em que se aproximava. Tinha fios acobreados bem claros, ondulados e luminosos. Sua feição era sobrenaturalmente pálida. Lábios carnudos e roxos abriam-se com dificuldade, mostrando dentes tortos e amarelados. Mostrou a língua azul em um sinal de molecagem e agarrou-se no braço da mais velha. Assim como naquela terça-feira, vestia o espalhafatoso vestido azul, todo coberto de terra e de algo mais. Algo pastoso, algo de um vermelho vivo, que destoava totalmente de todo o resto, de todas as suas cores pálidas, mortas. Era Lúcia.

Um delírio. Um delírio extremamente realista e atormentador. Acima de tudo, uma peripécia de sua mente perspicaz pregando-lhe uma peça, atribuindo um aviso... Ditando um desafio.

Talvez, Lucille tivesse se acostumado com a posição de passividade. Estava em uma zona fora de perigo. O desconhecido a privava de pisar em campos movediços, asquerosos. Enquanto estivesse em ócio, poderia agarrar-se em esperanças fajutas e esquivar-se de descobertas horrendas e putrefatas, tais como a morte. Nessa perspectiva, perguntava-se qual seria o melhor caminho a trilhar. Talvez, para manter sua sanidade, devesse desistir de Lucia, de seu paradeiro. E, para tal, teria de abandonar Cecília, mantendo-se integralmente em uma vida frívola de preencher fichas, assim como já fazia.

Mas tanto Lucia quanto Cecilia mereciam ser descobertas, encontradas, quais fossem seus estados. Precisavam de descanso, de paz. E Lucille sabia que poderia conceder isso a elas.

— Eu preciso pensar. — respondeu, por fim. — Uma decisão importante dessas não pode ser tomada em minutos.

Garcia suspirou.

Notas finais
IAE? Gostaram? Espero mesmo que sim. E agora realmente tivemos um gostinho de alguns dos mistérios que veremos mais para frente, e espero que até agora estejam curtindo. Estou totalmente aberta a críticas construtivas e a melhorar cada vez mais. Muito obrigada a todos que leram até aqui e que estão gostando, espero que vocês estejam curtindo de verdade, obrigada mais uma vez ♥