Voto de Sigilo

3 Devaneios e um pneu furado


Notas iniciais
OPA, IAE Gostaram do primeiro capítulo? Espero que sim e que tenha dado para ter um gostinho do que teremos ♥ E bem, aqui está o nosso segundo capítulo, mais um capítulo sobre as aventuras da nossa detetive em busca de respostas. Não vou me estender muito nas notas, só vou desejar o que já desejei anteriormente. Uma bela, linda, maravilhosa e prazerosa leitura e que aproveitem demais tudo isso ♥

Era uma manhã fraca de domingo. O céu assumia um nublado encardido, sendo suavemente iluminado por lânguidos raios de sol que cismavam em disseminar-se por entre nuvens cinzentas e de aspecto fragmentado.

Faltavam dez minutos para as oito da manhã quando Lucille levantou-se de sua cama em completo estado de letargia. Com os olhos marejados, custou a acreditar que era seu dia de folga. Esticou-se vagarosamente antes de passear pelo minúsculo quarto na procura de um par de meias. Chocou-se com a estante em estilo vitoriano que, meses depois de sua aquisição, parecia grande demais para os seis metros quadrados disponíveis no cômodo. Acabou comprando-a pela bagatela de cem reais, comovida por sua aparência dissimilar. Tardio arrependimento.

Em seu pequeno rádio, um modelo vermelho dos anos 90, tocava uma música animada distorcida por chiados e zumbidos inconvenientes. Contudo, a jovem pouco se importava com a fluidez do som, contanto que este preenchesse o vazio e o silêncio de sua moradia miseravelmente solitária.

Domou os fios negros e ondulados em uma trança grossa que lhe caiu até a metade da cintura e passou a dar continuidade em sua rotina matinal. Acomodou-se no reduzido banheiro e atirou pequenas quantidades de água fria no rosto para em seguida espremer o restante de uma loção hidratante diretamente na pele bronzeada. Atentou-se, sobretudo, em celebrar suas formosas sardinhas de tons castanhos dispostas, principalmente, sobre seu nariz de formato afilado.

Lucille era naturalmente vaidosa e, no decorrer de sua vida, acumulara amontoados e amontoados de cosméticos e produtos de beleza em caixotes organizadores de forma compulsiva. Deste modo, o ato de encontrar um mero tubo de base custava demasiado tempo e paciência. Mas ela não reclamava, muito pelo contrário. Animava-se ao descobrir produtos nunca usados e tratava de testa-los com tamanho deleite. Era para isso que acordava cedo todos os dias.

Vestiu um moletom grosso e o sobrepôs com uma jardineira longa de aparência antiga e desbotada. Com esforço, aconchegou um par de botas felpudas nos pés e seguiu até a apertada cozinha.

Morando em um macróbio e degradado apartamento, era totalmente compreensível que se sentisse claustrofóbica em qualquer parte do alojamento de dimensões equivalentes a de um loft ou kitnet, coberto por manchas de umidade e odores de mofo permeando por todos os cantos. Mas valia o preço. E Lucille também gostava do fato de cada rachadura presente no imóvel contar uma história sobre aqueles que, desde séculos atrás, viveram ali. O que para muitos poderia soar sórdido, para ela, era de extremo requinte. Gostava de móveis e artefatos antigos pela mesma circunstância. Adorava imaginar que cada pedacinho de seu lar guardava recordações centenárias em suas marcas de uso e avarias.

Ao chegar na cozinha, tratou de recolher amontoados de fotos de sua irmã, Lucia, espalhadas pelo chão. Evitava olhá-las, não queria lembrar de sua fisionomia. Não queria se ver nela.

Por anos, Lucille lutou contra a própria aparência, tonalizando os fios naturalmente acobreados de preto e aderindo a diversos procedimentos estéticos. Mas, ainda assim, achava traços de Lucia em si. Eram gêmeas, afinal. E o fato de serem gêmeas se consumava como um fardo indivisível.

Bebeu um copo gigante de leite e sentou-se numa cadeira alta com o assento todo em vime trançado. Passou a pescar biscoitos amanteigados dentro de um pote de vidro enorme, daqueles onde originalmente armazenam cebolas, palmitos e todos os tipos de conservas. Dalí, fitava com desdém a pilha de louça equilibrando-se milagrosamente em volta da pia de granito negro. Não era uma pessoa desleixada e tampouco se sentia bem ao habitar um chiqueiro, mas dado seus transtornos emocionais, limpeza era o que menos a assombrava, embora a ausência de ânimo para os afazeres domésticos fosse, diretamente, uma consequência de todas as suas outras preocupações e dificuldades.

Mas era folga, e folga significava “tempo livre”. Era dia de enfrentar todas as atividades acumuladas no decorrer da semana. Mas depois. No momento, estava maquiada. E pessoas maquiadas não lavam louça, muito menos esfregam panelas encrostadas por alimentos queimados e mal preparados.

As vezes, Lucille deixava-se levar pelo que restava de futilidade feminina dentro de si. Era sua válvula de escape, sua forma de dizer para o subconsciente que “estava tudo bem”.

Enquanto mergulhava em ninharias, por frações de minutos, esquecia-se da irmã desaparecida, da culpa, da mãe internada em estado severo de insanidade, da solidão, de seu cargo medíocre, de Garcia. E do caso de Cecília Collins, a mulher desaparecida e dada, por muitos, como morta. Dos pesadelos.

Minimamente alimentada, pegou as chaves de seu Opala preto e seguiu até o automóvel sem ter uma noção exata de onde iria. Precisava pensar, espairecer e, sobretudo, tomar decisões conclusivas e difíceis. A proposta do delegado Garcia ainda estava quente em sua cabeça.

Rodopiou pelas ruas de seu bairro várias vezes até decidir se deslocar para um mercado no centro da cidade.

As ruas de Paratory tinham um aspecto luzidio muito característico de asfalto recentemente pavimentado. Ao redor, as calçadas que ligavam casinhas simplórias e de muros baixos eram revestidas predominantemente por pedras portuguesas, muitas vezes ornamentadas em recortes formando padrões geométricos. Em outras partes, menos cuidadas, o percurso era tomado por mato alaranjado e alto. O cenário ideal para esconder assassinos...e vítimas.

Paratory era pacífica, diziam. Mas para Lucille, a região era simplesmente o palco ideal para crimes perfeitos. Sempre sentia que, por debaixo do semblante pacífico da cidade, encontravam-se monstros e corpos desconhecidos, enterrados, soterrados pelo obscurantismo. E nada podia fazer, sob sua perspectiva de mera humana incapaz e pequena diante da vastidão do mundo. Não poderia procurar por vítimas as quais nunca foram ao menos dadas por desaparecidas ou atentadas. Não poderia lutar contra transgressores que jamais foram denunciados, percebidos.

O fato era que Paratory era pequena e a mente de seus habitantes, também. Só davam por relevantes casos de personalidades ricas e influentes. Aos anônimos, reservavam o esquecimento e atribuíam-lhes fins infundados e preconceituosos. Apenas consideravam que tinham-se ido para algum lugar, fugido ou se agrupado a pessoas marginalizadas.

Enquanto se deixava devanear sobre várias questões, viu-se obrigada a parar bruscamente o carro quando avistou um Honda Accord sedan vermelho parado em um acostamento. O que lhe chamou a atenção não foi o luxuoso veículo, mas sim o jovem ao lado dele, abaixado sobre o chão em completo desespero. Passava as enormes mãos por entre os fios negros e encaracolados com tamanho nervosismo. Sua pele morena encontrava-se pálida, expondo seu estado de estresse.

Lucille estacionou seu Opala logo atrás e soltou um riso fora de hora ao comparar os dois carros, vendo visivelmente uma dobra de tempo entre um e o outro.

Ofereceu ajuda ao jovem, tocando-lhe de leve no ombro. De aparência bonita, tinha olhos negros e sobrancelhas grossas. Em seu septo, um pequeno piercing cintilava discretamente.

Lucille logo associou-o a um adolescente rico, rebelde e baderneiro. Mas teve sua teoria cair em oscilação quando este lançou-lhe um largo sorriso coberto de inocência e simplicidade.

— Algo de errado, garoto? – falou, curiosa.

— Bem, sim. Um problemão, na verdade. Essa lata extravagante simplesmente não anda! Na verdade, até anda, mas fica se arrastando vagarosamente enquanto canta o pneu. Está furado. E eu simplesmente não sei o que fazer.

— Já pensou em fazer o óbvio? Trocar o pneu? – respondeu em tom sarcástico.

— Bem, já. Mas não sei nem por onde começar.

Lucille bufou longamente. Se tratava de fato de um grã-fino que recebia tudo nas mãos, totalmente despreparado para viver no mundo por conta própria.

— Eu faço. – decidiu – Se atente a observar bem e aprender, certo, garoto?

O outro acenou com a cabeça e em seguida lhe lançou um olhar de desconforto.

— Eu me chamo Gabriel. – ergueu uma das sobrancelhas – E acho que já não sou garoto faz um bom tempo.

— Ah, por favor! Ter dezoito anos não te faz homem. Ao menos paga as suas contas sozinho? – soltou, em deboche.

Gabriel encostou um dos cotovelos no retrovisor do carro e ficou em silêncio por um tempo, em evidente desalento. Lucille reparou, então, no tamanho de sua arrogância e preparou-se para disferir desculpas quando foi interrompida abruptamente.

— Sim, pago minhas contas sozinho. E é justamente por isso que estou tão desesperado para arrumar essa lataria. Preciso levar ela até meu chefe. – Observou os olhos saltados da moça e continuou – Aliais, daqui uma semana faço aniversário. Vinte e seis anos. Você é assim, tão mais velha do que eu? – desafiou.

Lucille encolheu-se e sentiu a face queimar em extrema vergonha. Não sabia como se desculpar e sentiu o peso de seus preconceitos em suas costas. Preferiu esconder sua aparência deplorável enquanto fitava o chão como se este fosse um artefato de extremo interesse, não atrevendo-se a erguer a visão de forma alguma.

— Bom, alguns meses mais velha. – falou baixinho – Me desculpe.

— Está tudo bem. Acho que todo mundo tem um pouco de preconceito velado. Eu mesmo continuo a duvidar de sua capacidade em trocar esse pneu.

— Ah, por eu ser mulher? Aquele papo de sexo frágil e tudo mais? – riu.

— Não somente mulher. Uma mulher muito bonita. Achei que fosse um anjo quando brotou na minha frente. E que quisesse trocar números, não rodas de carro cobertas por fuligem.

— Prefiro a fuligem, mesmo. – mentiu – De qualquer forma, sobre o carro, preciso de objetos pesados para colocar em frente ás rodas traseiras e dianteiras, para evitar que ele se mova.

Gabriel ergueu o polegar em frente aos lábios carnudos e pulou, sobressaltado, assim que teve uma ideia. Abriu com agilidade o porta-malas e retirou de lá uma pilha de tijolos decorativos. Lucille instintivamente lançou um olhar coberto de questionamentos.

— Estou fazendo canteiros de flores e hortaliças para meu chefe. – respondeu com um riso abafado.

A jovem posicionou os tijolos e decidiu tomar uma posição menos defensiva diante de Gabriel. Em seguida, pediu pelo estepe e o macaco, encaixando a ferramenta na canaleta do veiculo. Com algum esforço, levantou o instrumento até que este apoiasse o carro. Gabriel observava fascinado.

Retirou, então, a calota e correu até seu Opala na busca por uma chave de roda. Jogou todo o peso de seu corpo no aparato afim de afrouxar os parafusos, arfando loucamente no processo, exausta. Gabriel agiu em resposta. Cada um folgou dois parafusos. Depois de alguns minutos de descanso, Lucille ergueu um pouco mais o carro com o macaco, possibilitando a retirada do pneu furado.

Com minúcia, ajustou o estepe no eixo, alinhando-o às cavidades dos parafusos. Delegou à Gabriel a tarefa de parafusar o novo pneu, descendo o carro e retirando o macaco no fim do processo.

O casal repousou nas guias do acostamento e passou um longo tempo em silêncio, recobrando as energias.

— Devo jogar este pneu fora, certo? — Despontou Gabriel.

Lucille revirou os olhos.

— Não seja precipitado. Guarde-o no porta-malas e leve-o a um borracheiro. As vezes, dependendo das fissuras na borracha, ele pode ser restaurado. Sai bem mais em conta do que comprar outro.

Gabriel seguiu o conselho e preparou-se para entrar no carro. Observou Lucille e sentiu-se tentado a permanecer junto da mulher ao invés de cumprir com seus deveres.

— Seu nome? – disse, por fim – Percebi que só eu me apresentei.

— Ah, de fato. Me desculpe, não sou boa no quesito socialização. Me chamo Lucille. — Levantou-se para estender a mão ao outro e só então se deu conta de que ele era muito mais alto que ela. Não apenas isso, tinha algo a mais.

Talvez sua instabilidade emocional estivesse projetando-se em um tipo de dependência ou, ainda, tivesse um fraco pelo odor adocicado e convidativo que exalava da pele de Gabriel. O fato era que reconhecia uma forte tentação em tocá-lo de maneira mais íntima.

Todo o tempo reclusa entre estudo e emprego acabaram privando-a de experiências carnais. Na realidade, ressalvando o beijo roubado que tivera recebido aos dez anos, não mais desfrutara de outra experiência de contato com o sexo oposto. – Além das tocadelas de mão no escritório enquanto trocava fichas e boletins de ocorrência a serem preenchidos. Abstinência, talvez? Não sabia. Mas além do olfato, sua visão também se tornava mais aguçada. E, como resultado, via perfeitamente bem os músculos de Gabriel sendo desenhados através da camiseta branca ligeiramente justa.

— Me perdoe pelo comentário, mas seu olhar parece bastante malicioso. – Gabriel disparou, sorrindo de canto e tocando-lhe a nuca com ternura.

Lucille estremeceu. E não negou o toque, não conseguiu. Seu olhar suplicante pedia por mais. E ele leu perfeitamente bem as entrelinhas, passando as mãos quentes por suas orelhas e indo, em seguida, respectivamente, para sua bochecha e boca. Aproximou-a pela cintura e então trocaram olhares carregados de luxuria.

— Posso? – procurou consentimento.

Lucille, sedenta e incapaz de responder, puxou-o em um beijo demorado e inicialmente desajeitado, dada sua inexperiência, mas que, aos poucos, foi ajustando-se em um toque de completa sintonia. Sentia o corpo queimar e percebia que ele também. O contato durou minutos, onde disputavam quem possuía mais fôlego e selvageria.

Mas era manhã, em pleno acostamento, numa rua pública. E quando os sons das buzinas passaram a soar freneticamente junto de alguns comentários engraçados e outros completamente desrespeitosos, Lucille se deu conta do que de fato se passava, afastando-se em completo constrangimento.

— Bom, tenho um compromisso. – recolheu-se com pressa e direcionou-se até o Opala sem corresponder ao olhar confuso de Gabriel. Deu partida no veículo e saiu numa arrancada digna de formula 1, totalmente desestabilizada. E o pior, com um viciante gosto de caramelo que custava desvencilhar-se de seus lábios.

Ficou perdida, atordoada. Para onde iria, mesmo?

Notas finais
E então?????? Novos personagens uhuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu Agora começaremos a conhecer personagens que poderão (ou não) nos ajudar a desvendar certas coisa. Mas não contarei mais, só continuo torcendo para que tenham gostado, aproveitado e desfrutado da leitura e torço para que continuem gostando e acompanhando, até a próxima pessoal. Beijos :3